segunda-feira, 28 de fevereiro de 2005

E não é que assisti ao Oscar?



É. Clintão, o imperdoável, não deixou o bom companheiro Scorcese pôr as mãos, finalmente, na sua almejada estatuetazinha. Sua Menina de Ouro brilhou em praticamente todas as categorias principais (filme, direção, atriz, ator coadjuvante), enquanto O Aviador até levantou vôo no começo, papando uma porção de categorias técnicas (merecidas), mas perdeu o rumo no melhor da festa. Deu até dó.

No final das contas, participei do Bolão do Saladestar de última hora e consegui acertar metade das categorias, assim meio chutando. 38 pontos no total, o que me valeu um avulso vigésimo segundo lugar (duvida? tá aqui). Ainda não vi o filme do Clint nem o do ceguinho cantor. Agora que ganharam oscares (ou seria óscares?), quem sabe voltam a um número maior de salas. Vi os outros três candidatos a melhor filme - O Aviador, Sideways e Em Busca da Terra do Nunca. Bons, mas nenhuma brastempe. Sideways acabou levando só o de roteiro adaptado. Kate Winslet não ganhou prêmio por Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, mas o filme ganhou o de roteiro original para o Charlie Kauffman, que mostrou que Nicholas Cage o interpretou muito bem em Adaptação, com aquela timidez toda. A Kate parecia muito feliz com o prêmio do Kauffman, quase chorou.

Chris Rock foi o comentarista sem graça desse ano. Cara mala. Os Incríveis tinha que levar melhor animação, e levou. A mãe do Clint Eastwood parece ser uma velhinha bacana, noventa e seis anos nas costas e lá, marcando presença. O cabelo do cara do Counting Crowes estava genial. A "tradução simultânea" da Globo foi uma porcaria, lógico. Diários de Motocicleta, um dos melhores filmes do ano passado, só ganhou melhor música. Closer - Perto Demais, um dos melhores que vi nesse começo de ano, não levou nada.

Enquanto isso, Bushinho, ele mesmo, o presidente, ganhou o prêmio de pior ator no Framboesa de Ouro, pelo Fahrenheit 11 de Setembro. Lugar estranho, essa Roliúde...

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2005

Hipóteses



Os competentes advogados de defesa conseguiram. Arrumaram testemunhas tão famosas, pessoas tão conhecidas e amadas pelo grande público, que ficou difícil para o júri achar que estivessem mentindo sobre a reputação do tio Michael. Gente do porte de Quincy Jones, Elizabeth Taylor e Stevie Wonder, que jurou não ter visto nada. Dava até pena da promotoria, literalmente massacrada no aguardado desfecho do julgamento do século, embora, a bem da verdade, o século esteja ainda engatinhando.

Mas ninguém poderia prever... aquilo. Os jurados já estavam indo para a salinha onde decidiriam o veredito, convictos da inocência do músico, quando o promotor tirou não um ás, mas um baralho inteiro da manga. Disse ao juiz:

- Se me permite, Meritíssimo, gostaríamos de chamar mais uma testemunha.

Sim, pode chamar quem você quiser, diz o juiz, com sua peruca de cabelos brancos cacheados, visivelmente cansado depois daqueles meses todos de chateação. O promotor se levanta, decidido.

- Pois bem. A promotoria chama... Michael Jackson!

Abrem a porta e entra um negão boa-pinta, recebido por uma saraivada de flashes de câmeras, rodeado por exclamações dos jornalistas e espectadores ali presentes. Não guarda semelhança alguma com aquele senhor albino acuado no banco do réu, mas... pensando bem... se aquele menino peralta dos Jacksons Five não tivesse retalhado a cara em trocentas cirurgias plásticas... se não tivesse desbotado tanto...

Em poucos minutos, todas as televisões do mundo já estão mostrando o depoimento do sujeito. Um pouco abatido, mas ainda mantendo o bom-humor, ele conta tudo, depois de décadas escondido da sociedade, num calabouço escuro em Neverland. Conta como, pouco depois de lançar o multiplatinado álbum Thriller, tornou-se um astro de primeira grandeza ao apresentar ao mundo o moonwalk. Como, na mesma noite em que andou "dix costax" pela primeira vez em público, recebeu visitas de lendas da dança como Fred Astaire e Gene Kelly. Como, pouco depois de irem embora as ilustres presenças, foi abordado por um ser alienígena sem nariz, que lhe disse "Sua fama será minha" e tomou sua forma física sem nem perguntar se podia. Como passou os vários anos seguintes trancafiado no subsolo de sua própria casa, tendo como companhia apenas uma televisão, de onde acompanhou toda a trajetória do alien em seu lugar: a compra dos direitos autorais dos Beatles, a reunião de figurões em "We Are The World", o casamento e o divórcio com a filha do Rei, as esquisitices gradativamente substituindo a boa música.

Assistiu, horrorizado, às acusações de pedofilia, e só aí percebeu que tivera sua fama roubada para que o ET pudesse satisfazer seus sórdidos desejos, inviáveis caso aparecesse em sua forma original. Igualmente horrorizado, assistiu à lenta transformação do suposto Michael no terrível ser que era quando apareceu em sua casa naquela distante noite de 1983. Primeiro a pele, que perdeu a cor; depois o nariz, que foi afinando até cair, e então substituído por uma prótese mal-feita. Já tinha perdido as esperanças de voltar à sociedade quando foi enfim encontrado pelos policiais que revistavam Neverland, e trazido a público agora, como o grande trunfo da promotoria.

Não acreditam na história maluca do sujeito, infelizmente. Tão logo ele deixa o tribunal, sob vaias e protestos, é preso por falsidade ideológica. Apenas mais um querendo a fama fácil, analisam os jornalistas que transmitem ao vivo o momento da prisão.

No banco do réu, ninguém repara que o acusado, suando em bicas, tenta desesperadamente colar de novo o nariz no rosto, antes que as câmeras voltem a focalizá-lo.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2005

Momento você-sabia? do dia



Pronto, o Carnaval terminou e o Brasil começa a funcionar oficialmente na próxima segunda-feira. Já era hora. Já era hora, também, de eu sanar uma dúvida que tinha há muito tempo mas nunca tive a decência de pesquisar: como descobrir quando cai o Carnaval? É, porque esse ano foi na segunda semana de fevereiro; ano passado, no fim de fevereiro; e em 2003, no começo de março. Afinal de contas, o que determina esse troço?

Após dias de exausta pesquisa (mentira, digitei "quando cai o carnaval" no Google e a resposta tava na primeira página que apareceu), cheguei a uma fórmula mágica. Com vocês, quando cai o Carnaval em apenas 3 lições:

1) A Páscoa acontece no domingo seguinte à primeira lua cheia da primavera européia, ou seja, nosso outono aqui nas terras do sul. Em outras palavras: as folhas caem; aparecem os lobisomens; no domingo seguinte, chega o coelhinho. Entendeu?

2> Com a data da Páscoa nas mãos, retroceda 46 dias: seis da Semana Santa e quarenta da Quaresma.

3) Pronto, você chegou à Quarta-Feira de Cinzas. O skindô skindô acontece nos dias aí pra trás.

Tá pensando o quê? bISELHO também é cultura!

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2005

Misterioso padrão carnavalesco



Fevereiro de 2004, terça-feira de carnaval
Saímos do condomínio Aldeias do Lago, onde passamos o feriado, quando o sol já se escondia. Fui no carro do Leonardo Lage, vulgo Léo, enquanto o resto da galera foi em outro automóvel. Assim que pegamos a estrada, o carro da frente, sem cerimônia, arrancou e desapareceu no horizonte. Se acontecesse qualquer coisa, estávamos só nós dois.

Não deu outra. Não mais que de repente, um enorme buraco surgiu na pista e não houve tempo do Léo desviar da cratera. Depois da leve pancada, um som estranho de que algo havia acontecido na roda direita. Paramos no acostamento e... surpresa! Nada menos que nove outros carros, segundo pude contar ali no breu da estrada, haviam sido vítimas do buraco maldito e estavam ali, com o pneu furado ou a roda amassada. Ainda quando estávamos naquele acostamento, trocando o pneu com a ajuda de outros vitimados, dois outros carros tiveram o mesmo probleminha.

Ontem, 8 de fevereiro de 2005, terça-feira de carnaval

Voltando pra casa com meu pai, à noite, o carro estragou bem quando estávamos na porta do condomínio. Ainda bem que foi na porta, porque se fosse no meio da BR ou da estradinha de pedra não-iluminada que antecede a entrada do lugar, estaríamos em maus lençóis. Desta vez o problema foi ainda mais prosaico que um pneu furado: acabou o combustível. Empurramos o carro alguns metros pra dentro do condomínio e deixamos na rua mesmo. Hoje de manhã, fui com meu pai no posto mais perto e buscamos três litros de combustível, e ainda tive que transportar o diesel num saquinho com o braço pra fora do carro. Colocamos aquilo no tanque e nada do bicho pegar. Foi preciso que meu pai voltasse ao posto mais tarde, depois de quebrar a cabeça tentando descobrir o problema, e buscasse alguns litros a mais, porque meros três não foram suficientes.

Anotação mental para 2006:
Não andar de carro na terça-feira de carnaval à noite. Sei lá porquê, mas pode ser perigoso.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2005

Sorry, Wilson...



Enquanto a folia corre solta pelo interior de Minas e Beagá fica tão deserta quanto a ilha de Tom Hanks em Náufrago, descobri este videozinho pela internet afora. Trata-se de uma propaganda da FedEx, a empresa em que o naufragado em questão trabalhava antes de passar a conversar com bolas de vôlei, e revela o mistério que cerca o filme desde seu lançamento, em 2001: o que diabos havia naquela única caixa que o Tom Hanks deixa fechada e entrega à destinatária no final?? Um bom comercial. Só faltou contar o que aconteceu com o Wilson... será que ficou amigo da baleia?

***

Indagação pra quem viu Pulp Fiction: por que não fazem um videozinho revelando o que havia dentro daquela maleta?...

***

Ainda sobre ilhas desertas: não sou muito de postar textos alheios, mas é Carnaval e vou abrir uma exceção.

Chega uma garrafa na praia com um bilhete que diz:

"Estou numa ilha deserta com a Sharon Stone e um orangotango que não apenas não deixa eu me aproximar dela como dá sinais de que vai querê-la como sua fêmea, com exclusividade. Por favor, façam uma destas quatro coisas:

a) mandem uma arma
b) mandem uma orangotanga
c) mandem a Demi Moore
d) se nada mais der certo, mandem uma filmadora"

L.F. Verissimo, "Estou Numa Ilha Deserta". Bom resto de Carnaval a todos.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2005

Calouro burro!



Hoje, pelo quarto semestre consecutivo, participei, na faculdade onde estudo, desta sangrenta iniciação universitária vulgarmente conhecida como "trote". Sangrenta é exagero. O trote da Uni é até muito tranqüilo se compararmos com o que sai nos jornais a respeito deste rito de iniciação, e não inclui afogamentos, torturas do tempo da Inquisição ou membros decepados ao estilo de Kill Bill. É nojento, apenas. Comecei a participar desta balbúrdia festiva quando comecei o segundo período. Meros seis meses depois de levar a minha cota de farinha na cabeça e tinta na cara, já podia ser considerado um "veterano", vejam só. Foi nesse dia que criei minha marca registrada, a qual mantenho até hoje: sou o cara que passa tinta dentro do ouvido dos calouros. Dá um trabalhão pra lavar depois.

Esses quatro trotes (até agora) desferidos contra as pobres almas que acabam de entrar na faculdade, felizes da vida, fizeram com que eu percebesse um padrão para o primeiro dia de aula de cada semestre, que geralmente é assim:

1) Ao chegar à faculdade, dirijo-me à sala onde passarei as manhãs do semestre e encontro os colegas de sempre após um mês e meio sem ver a cara de muitos deles. Entra o professor na sala e dá uma aula curta, afinal de contas é o primeiro dia de aula. Às vezes assisto, às vezes não. No terceiro período, por exemplo, perdi a professora de Psicologia dizendo que ia trucidar-nos vivos durante o semestre.

2) Saio da sala e vou para o quarto andar junto com os colegas. É lá que concentram-se todas as salas de primeiro período, uma do lado da outra, como um presente. É bem verdade que os colegas de sala andam diminuindo. Quando começamos o segundo período, a lembrança do nosso trote ainda estava fresca e a sala inteira compareceu, todos loucos por vingança. Hoje em dia a turma se resume a uns três ou quatro. Será que estão virando todos adultos?

3) Tem início o terrorismo. Hordas de veteranos, muitos deles pessoas que eu mesmo já sujei de tinta em algum dos períodos passados, começam a esmurrar a porta onde podemos ver, pela janelinha, os calouros morrendo de medo, enquanto a professora de Filosofia dá aula calmamente, como se não pudesse ouvir os gritos de "Vai morrer, vai morrer!!", "Você aí de vermelho, dá um sorriso pra gente!!" e "Ô fessora, solta os calouros logo!!". Terror psicológico é um barato.

4) Termina o horário e nessa hora já estão todos de prontidão no corredor. Quando a professora sai da sala, deixando indefesos seus alunos, entra a turma de veteranos que manda os calouros tirarem os sapatos e colocarem tudo num saco, misturando os chulés. Os veteranos vão soltando os calouros devagarinho, às vezes até perguntando o nome pra galera gritar lá fora, e quando estes saem já tomam aquela ducha de farinha, tinta, detergente, perfume e o que mais tiver no dia. Teve uma vez que uma menina levou aquele líquido roxo que dentista usa pra passar no dente. Café e brocal costumam aparecer de vez em quando. O chão fica escorregadio e se o pessoal não tomar cuidado, leva tombo de costas iguais aos dos bandidos de Esqueceram de Mim.

5) Depois da sujeira inicial, os calouros são encaminhados para o pátio, e normalmente vão sem oferecer resistência, pois como diz a máxima estudantil, todo calouro é burro. Lá, quem ainda tinha alguma parte do corpo (ou da roupa) limpa perde as esperanças de voltar apresentável pra casa. Calouras de cabelos longos são alvos preferenciais. Todos rolam no chão repleto de tinta e dão adeus às calças e camisas com que vieram no primeiro dia.

6) Os sapatos, enfim, são devolvidos, mediante uma módica quantia, que gira em torno dos três reais. É esse dinheiro que vai pagar nossa cerveja no boteco da Das Dores, que fica na rua da faculdade. Vão todos pra lá, calouros e veteranos. É a hora da confraternização final. Rodadas de pinga são tradicionais, mas ultimamente a calourada anda meio fraca pra bebidas mais fortes. Quando o dinheiro dos sapatos acaba, os calouros vão pedir dinheiro pros carros que passam na rua. Tem muito motorista gente boa e outro tanto que passa direto sem dó. A essa altura, o álcool já está fazendo efeito. Semestre passado teve um calouro tão bêbado que foi atropelado pelo próprio carro, depois que deixou um amigo, também bêbado, dirigi-lo. Tomou um tombaço e bateu a cabeça no asfalto, para no segundo seguinte ficar de pé e voltar aos malabarismos que fazia, tentando conseguir mais um trocado pra cerveja.

Haverá repeteco no semestre que vem. Recém-veteranos terão sua vingança maltratando os inocentes que nada tiveram a ver com sua desgraça de seis meses atrás. Veteranos mais veteranos, embora em menor número, marcarão presença. Enfim. É a vida. Eu estarei lá, sujando os ouvidos alheios.

Quem

Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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