quarta-feira, 27 de abril de 2005

Vernon! I`m falling!



Uma vez eu tava numa feira de quadrinhos e tava tendo uma palestra com a Chantal, a criadora da tira "Juventude", que sai no Estado de Minas. Daí chamaram o Lacarmélio de Araújo, que tava assistindo meio de gaiato, para uma participaçal especião. Quem mora em Belo Horizonte provavelmente já viu o Lacarmélio em alguma avenida, só não está ligando o (estranho) nome à pessoa. Ele é o cara que escreve e desenha as revistinhas do Celton, cujas histórias sempre têm Beagá como cenário, e depois sai perambulando pelas ruas sem camisa, munido apenas de uma sacola com as revistas e uma placa gigantesca onde ele explica que não está vendendo bala Chita ou caixinhas de Trident, mas histórias em quadrinhos. O fato é que o Celton, ou Lacarmélio, disse nesta pseudo-palestra que admirava a Chantal porque ela conseguia fazer tirinhas.

Bom. Particularmente, não admiro muito a Chantal. Já li trocentas tiras dela no Estado de Minas e em apenas uma lembro de ter esboçado algo que se assemelhasse a um sorriso.

Mas concordo com o Lacarmélio quando ele diz que é difícil fazer tirinhas. São apenas dois ou três quadrinhos pra contar uma história completa, e o risco do negócio ficar sem graça ou sem sentido é enorme. São poucos os bens sucedidos. As do Charlie Brown (o Sênior, não o Júnior) costumam ser boas. Calvin e Haroldo também, Mafalda idem. Nas revistinhas da turma da Mônica, muitas vezes aquela tirinha que fecha a edição é melhor que a revista inteira. E recentemente descobri um site repleto de tirinhas bem interessantes, atualizadas todo domingo, acho. Chama-se "The Perry Bible Fellowship", e são todas escritas e desenhadas por um sujeito chamado Nicholas Gurewitch. A maioria se passa num universo surrealíssimo, como esse do martelo e da chave de fenda aí em cima. Muitas tem pitadas de humor negro, nem sempre muito sutis. Não é pra todo mundo. Se você gargalhou até cair com a peça "Como Sobreviver em Bailes e Recepções com Bufê Escasso", por exemplo, este não deve ser seu estilo de humor. Quem se interessar, o site com todas as tiras é este aqui. De brinde, aí vai mais uma:

segunda-feira, 25 de abril de 2005

Prompt



1992 foi o ano das Olimpíadas de Barcelona, do impeachment do Collor e também o ano em que chegou lá em casa o nosso primeiro computador. Eu tinha 7 anos e fiquei maravilhado: era um 386, monitor preto & branco, e uma velocidade impressionante de 17 megahertz. Antes que você ria de um computador tão lerdo, informo: apertando o "turbo" ele aumentava para assombrosos 25 megahertz. Sim, eu sou da época em que o botão "turbo" ainda existia.

Saudosos tempos aqueles. Eu passava horas desenhando no Paintbrush, escrevendo no Write e usando o DOS, em que você tinha que digitar "win" no prompt (lembra do prompt?) para entrar no Windos, que na época era o 3.1. Os joguinhos eram outra coisa fantástica. Um dos meus preferidos era o Prince of Persia, que nunca consegui zerar do jeito honesto, só fazendo mutreta mesmo pra chegar à última fase. Lembro um dia que meu pai chegou do trabalho e trouxe um disquete com dois jogos: Gorilla e Nibbles. Gorilla era um que tinha dois macacões, cada um controlado por um jogador, um em cada canto da tela. O objetivo era tacar uma banana explosiva e acertar em cheio na cabeça do adversário. Para tanto, você tinha que informar a velocidade da bananada e o ângulo de inclinação do tiro. Imaginem uma criança de 7 anos digitando o ângulo de inclinação. Eu ficava encucado, sem saber o porquê do computador não aceitar um número maior que 360. Já o Nibbles era nada menos que o ancestral do Snake (ou Serpente, ou "Cobrinha") dos celulares, só que em vez de simples pontinhos você tinha que pegar números, um de cada vez, e sempre que chegava no 9 mudava de fase. Muito bom, muito bom.

Esse computador pré-histórico teve seu fim em 1996, quando meu pai vendeu pra algum maluco que quis comprar um 386, já que na época o bambambam do mercado era o Pentium de 100 megahertz, com kit multimídia. Demorou mais de dois anos para que comprássemos outro, e dessa vez, claro, com um monitor colorido, meu sonho nos tempos de Paintbrush. Era um Pentium II com um disco rígido imenso, de 8 gigabytes. Tá certo, até os celulares de hoje em dia têm mais memória, mas não ria. Foi com esse computador que escrevi todos os posts do bISELHO até esse aqui, que digito num Pentium IV com pouco mais de uma hora de uso. Agora tenho 80 gigas livres para encher de porcaria, uma velocidade de 2.4 gigahertz (pra quem começou com 17, até que tá bom) e outras configurações que certamente serão motivo de desprezo e chacota daqui a dez anos. O treco só é meio barulhento, parece um aspirador de pó, de resto tá uma beleza.

Mas sei lá. Acho que vou instalar o Prince of Persia.

terça-feira, 19 de abril de 2005

Será o Benedito?



Primeiro, George W. Bush é eleito Presidente dos Estados Unidos da América pela segunda vez.

Depois, um cara do naipe do Severino Cavalcanti vira Presidente da Câmara.

Agora, a turma do Vaticano passa pouco mais de um dia trancado na Capela Sistina e escolhe quem como o novo Papa? Joseph Ratzinger, o alemão das olheiras profundas e cara de mau. É um absurdo. Com tanto italiano boa-praça por lá, que poderia fazer alguma coisa realmente positiva para o mundo, botam um sujeito conservador e moralista ao cubo, que vai continuar combatendo os métodos anticoncepcionais enquanto a África morre de AIDS, entre outras atitudes altruístas como essa.

Como se não bastasse, Chorão, depois de ser abandonado por simplesmente todos os integrantes do Charlie Brown Jr, juntou uma nova corja pra tocar com ele.

É, meus amigos. Estamos perdidos.

domingo, 17 de abril de 2005

Um texto bem diferente



Escrevi este post sem o emprego do conhecido símbolo que precede o "B". Você pode dizer: "por quê?", e eu lhe respondo que nem sei o motivo certo. Possivelmente quis pôr em teste meus próprios limites como escritor. Ou descobrir se este referido símbolo é mesmo imprescindível como dizem.

Bom, pode ser imprescindível, sim, dependendo do volume de texto que é preciso ser escrito. Porém, num pequeno texto de blog como esse, é somente difícil. Em muitos momentos tenho que me servir do livro conhecido como o genitor dos burros, por exemplo. Pelo menos, disponho deste livro em meio eletrônico, sendo seu uso muito menos lento do que em celulose.

Mesmo difícil, é um exercício bem curioso, esse. Requer tempo, pois é preciso escrever e reescrever muito, sem que reste nenhum vestígio do símbolo excluído. Meu próximo projeto é escrever o célebre conto dos Três Porquinhos e do cruel Lobo que os perseguiu, do mesmo jeito que este texto, omitindo o mesmo símbolo que omiti. Tenho uns trechos prontos, como o que diz que o terceiro porquinho, bem menos preguiçoso que os outros dois, vive num pequeno edifício que construiu com tijolos e pedregulhos, e vive feliz e orgulhoso de seu feito. Porém seu sorriso por vezes some, obscurecido pelo medo que sente desse lobo perverso, cujo único objetivo é engolir os leitõezinhos, degluti-los por inteiro, os pobrezinhos.

O fim todo mundo conhece: o Lobo foge, vencido, e os porquinhos vivem felizes por todo o sempre. O texto, mesmo, eu termino depois. Outro projeto incompleto, podem dizer certos conhecidos meus. Pros que crêem em mim, informo: esperem por outros posts no bISELHO, sem E, I, O e U. Um por vez, é óbvio. Prq fc prtcmnt mpssvl scrvr sm nnhm vgl, se é que vocês me entendem.

terça-feira, 12 de abril de 2005

"Tenho um bom petisco pra encher a minha pança..."



Pensei em fazer um musical sobre a Chapeuzinho Vermelho. No lugar das musiquinhas tradicionais ("pela estrada afora, eu vou bem sozinha...") entrariam composições genuinamente brasileiras, de Chico Buarque aos Mutantes, de Cazuza a Erasmo Carlos, passando por Maria Rita, Engenheiros do Hawaii, Tianastácia. No papel da Chapeuzinho, sei lá, talvez a Sandy. Rita Lee pode ser a vovozinha. E no papel do Lobo Mau, claro, ninguém melhor que o Lobão.

O musical começaria com Chapeuzinho Vermelho abrindo os olhos e cantando: "Hoje eu acordei com sono... sem vontade de acordar...".

Entra sua mãe com uma cesta de doces na mão e Chapeuzinho já entende a dura jornada que terá pela frente. Antes de sair, a mãe dá as últimas recomendações à filha: "Olhe para frente e não pra trás, seu caminho você é quem faz. Só não vá se perder por aí". E Chapeuzinho sai cantando alegremente pelo bosque, meditando: "Ninguém por perto... silêncio no deserto... deserta highway..."

O Lobo, que a observa por trás de uma árvore, parece se empolgar com a menininha: "Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça!". E aparece de repente na frente de Chapeuzinho. "Será só imaginação?", ela pensa. Decide tirar a prova e pergunta: "Quem é você? Diga logo, que eu quero saber o seu jogo!"

Close no sorriso do Lobo. "Me chamam Lobo Mau... me chamam Lobo Mau... e eu sou o tal, tal, tal..". Fim do primeiro ato.

Outros possíveis grandes momentos do musical:

Chapeuzinho chegando na casa da vovozinha e escutando a voz lá de dentro: "Chega aí, pode entrar, quem tá aqui tá em casa...". E imaginando que a avó deve estar doente mesmo, pra cantar uma música daquelas.

Chapeuzinho notando algo de errado na cara da avó, sem saber bem o quê, e clamando aos céus: "Eu só peço a Deus um pouco de malandragem, pois sou criança e não conheço a verdade!". Enquanto isso, o Lobo se diverte: "Ela achou meu cabelo engraçado..."

O caçador tirando Chapeuzinho e sua avó da barriga do Lobo, e a menina zombando do pobre bicho: "Ê, ê... ele não é de nada, oiá..."

E a cena final, o Lobo com a barriga cheia de pedras, uma cara sofrida, lamentando:

"Ai, como dói"...

segunda-feira, 11 de abril de 2005

Não se esqueça da minha Calota.



Domingo, meio-dia e pouquinho. Estou assistindo na TV um documentário interessantíssimo sobre as causas e conseqüências políticas do ato institucional número 5, quando ouço um barulho na rua.

(Pra quem estou mentindo? Eu tava vendo era Turma do Didi. Com minha mãe como cúmplice. Depois a Globo ainda passou Impacto Profundo, aquele filme horrível sobre o cometa que provoca um tsunami em Nova York. Mas esse eu só vi um pedaço.)

Bom, o barulho eu ouvi mesmo. Olhei pela janela da sala de TV e vi uma mulher, loira por sinal, raspando o pneu dianteiro direito no meio-fio, de um jeito muito feio. O pneu ficou branco e a calota simplesmente caiu na calçada. E a loira, mais ocupada xingando quem quer que estivesse ao seu lado (uma criança ou um cachorro, não deu pra ver direito), arrancou o carro e foi embora, deixando a calota solitária.

Ficamos esperando a mulher aparecer de novo, mas é claro que ela não voltou. Nem ao menos desceu do carro na hora da batida, pra ver se tinha acontecido alguma coisa com o pneu. Provavelmente tenha percebido só hoje que tem alguma coisa faltando na sua roda. Talvez nem saiba que exista algo chamado "calota" num automóvel. No fim das contas, minha mãe pegou o troço e botou dentro do garagem do nosso prédio, com um bilhete explicando aos desavisados que aquilo não era lixo. Está lá até agora. Daí não sei se devo reportar o objeto perdido às autoridades, se devo deixá-lo lá até se decompor pela ação da natureza ou se transformo a reluzente calota da Volkswagen no mais novo item da minha coleção insólita, assim meio sem critério, que já inclui:

1) Uma baqueta quebrada e um pedaço de prato de bateria, ambos doados pelo baterista da minha banda, Adriano Domeniconi, conhecido pela mão pesada e a estranha habilidade de causar estragos quando está por perto.

2) Um X de um carro da Fiat. Uma vez estávamos saindo de um boteco chamado "Sapão Beer" (podem rir) e encontramos um monte de letrinhas de traseira de carro no chão. Meu amigo Leandro Fabel pegou o I da Fiat. Eu fiquei com um X.

3) Uma bolacha de chopp da Kaiser.

4) Um saco de vômito de avião (sem usar, né?), doado por meu pai.

5) Um punhado de serpentinas que caíram em mim durante um show do Los Hermanos, no meio da música "Todo Carnaval Tem Seu Fim". Mencionei essas serpentinas neste post aqui, nos primórdios do bISELHO.

E aí? Alguma sugestão?

sexta-feira, 8 de abril de 2005

Ensaio Sobre José Saramago



O leitor que desavisado abre a esmo um livro qualquer do lusitano José Saramago certamente há de se assustar com o amontoado de letrinhas, não uma em cima da outra, cabe a ressalva, e sim dispostas na ordem comum da escrita ocidental, mas ainda assim intimidantes de um modo ou de outro. É que Saramago parece ignorar, ao menos à primeira vista, sinais de pontuação tão usuais nos textos com que diariamente temos contato, tais como o chamativo ponto de exclamação, a indagativa interrogação, a eterna parceria dos dois pontos com o travessão, o pausático ponto e vírgula e por aí vai, a lista é longa e você que me lê através da tela de um computador poderá conferir os outros símbolos no próprio teclado à sua frente. Isso sem falar nos parágrafos que ocupam cinco ou seis páginas de cada vez, mal dando trégua para respirarmos no meio dos diálogos extasiantes ou das divagações acerca da psique de seus personagens. Da primeira vez que um livro dele caiu em minhas mãos, pensei com meus borbotões, Deus do céu, embora a bem da verdade devo ter exclamado coisa ligeiramente diferente, Puta merda, ou algo do tipo. Não me acovardei, no entanto. Pus-me a ler o volume que tinha em mãos e que ia se tornando cada vez mais instigante à medida que avançava, Ensaio Sobre a Cegueira era seu nome, e ainda hoje é um de meus livros prediletos. A trama parte de uma epidemia insólita, que surge do nada e contagia a todos pelo simples contato, e não se trata de ebola ou pneumonia asiática, mas de cegueira, vejam só. Os personagens não possuem nomes, sendo chamados apenas de o médico, o mulher do médico, a rapariga dos óculos escuros, o velho de tapa-olho. Fantástico. Já o segundo livro que li do mesmo autor, nos primeiros meses deste presente ano, esquece o aninomato e traz o nome do protagonista no próprio título, O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Como há de se imaginar, narra a já conhecida história de Jesus, Yeshua como se diz em hebraico, JC para os preguiçosos, desde o início do começo, no dia de sua concepção, até o conhecido fim mostrado em detalhes, fortes para algumas pessoas, por Mel Gibson, em sua aventura bíblica nos cinemas. Enquanto o Ensaio prende nossa atenção em tempo integral, o Evangelho revela-se cansativo em determinados pontos, talvez por focar durante mais de cem páginas não no Jesus em questão, mas em José seu pai, em quem Saramago, seu xará, deposita a culpa sobre a morte das criancinhas em Belém, a mando do rei Herodes. Os episódios mais conhecidos sobre o filho de Deus estão lá, em leves pinceladas nos capítulos finais, mas o melhor capítulo, sem dúvida, é aquele em que Jesus trava um caloroso debate com Deus e o Diabo. É possível até mesmo imaginar um elenco para essa cena na tela grande, Jim Caviziel, claro, como o Nazareno, Al Pacino fazendo as vezes do Diabo e Jim Carrey como Deus, não o Deus a quem rezamos todos os dias, o Papai do Céu das criancinhas, mas Seu substituto, pois nisso Carrey já tem experiência, haja visto em Todo-Poderoso, o filme. E se você chegou até o fim deste texto, marcado pelo característico excesso de vírgulas saramaguiano, sem seqüelas graves ou traumas mais profundos, vale a pena encarar um livro inteiro do escriba português. Não precisa comprar, peça emprestado, o importante é a leitura, não deixar mais milionário um ganhador do Nobel.

terça-feira, 5 de abril de 2005

Nós já invadimos a praia deles



Estou chocado. O orkut de repente apareceu todo em português. Meu scrapbook virou um livro de recados. Meus testimonials viraram depoimentos. Só a irritante mensagem "Bad, bad server. No donut for you" continua a mesma coisa. Ainda não devem ter encontrado uma tradução eficiente. Que tal "Servidor mau, muito mau. Nada de rosquinhas pra você..."?

Bom, pelo menos agora todo mundo vai descobrir o que é "cuisines".

domingo, 3 de abril de 2005

Absurdos na terra do frango xadrez



Um dos motivos pelo qual eu gostei muito de Kill Bill, agora percebo, foi o fato de ser uma sátira às absurdas peripécias acrobáticas típicas dos filmes orientais. Não consigo engolir muito esse tipo de coisa. É legal, até. Aliás, quando vi O Tigre e o Dragão, quando uma cena de luta acabava eu torcia pra outra começar. Kill Bill faz piada de tudo isso, em cenas como a Uma Thurman decepando os 88 neguinhos (volume um) e no treinamento com o Pai Mei (volume dois). Hoje fui ver Herói, um dos filmes dessa nova safra de importados orientais que tá pintando por aí.

(Pausa para informação essencial: pessoal, Herói não é um filme do Tarantino. O Tarantino não tem nada a ver com a produção. Simplesmente assistiu o filme na Ásia e sugeriu aos produtores que usassem seu nome para promovê-lo no mercado ocidental, daí o "Quentin Tarantino apresenta..." no cartaz. Titio Quentin é mestre da picaretagem. Não bastasse ter dividido seu último filme em dois pra ganhar mais uns trocados, ainda anunciou que pretende fazer o mesmo com o próximo. Eita...)

Voltando ao Herói. Sabe, o filme é até bacana. Tem uma fotografia belíssima, direção de arte competente, e as cenas de luta são divertidas de se ver. E engraçadas, sem dúvida. Não tem como não rir quando os personagens quicam na água ou planam pelo cenário. Eles fazem mais do que desafiar as leis da física. É como se cuspissem na cara do Isaac Newton e dissessem: "Você está ultrapassado, meu caro, o lance hoje é rodopiar mil vezes pelo ar antes de furar alguém".

Mas chega uma hora que cansa. As frases de efeito ditas a toda hora por todo mundo não ajudam muito a construir uma situação, digamos, próxima da realidade. Pode reparar, nesses filmes de olhos puxados todo mundo é filósofo. Até o ajudante do pedreiro que construiu a Grande Muralha tem alguma pérola da sabedoria para oferecer ao público. Há quem goste, claro, mas não é pra mim. Sou mais os diálogos e atuações realistas de um Antes do Pôr-do-Sol, a sacação divertida de um Kill Bill, as frases de efeito de um Exterminador do Futuro 2 ou mesmo as músicas de um Rei Leão. Isso é viver, é aprender.

sábado, 2 de abril de 2005

Mais pop do que nunca



Karol Wojtyla morreu. Talvez já tivesse batido as santas botas há alguns dias e a turma do Vaticano fingisse que não, como no clássico sessão-tardino Um Morto Muito Louco. Mas hoje, 2 de abril de 2005, às 16h37, horário de Brasília, anunciaram, oficialmente, que o sumo pontífice se foi. Esperem pelas próximas semanas um Globo Repórter especial do papa, trocentas piadinhas no Kibe Loco e um tempão de especulação sobre o próximo sucessor de São Pedro até a fumaça branca dar o ar de sua graça na praça que leva o nome do primeiro papa da História.

Li na Super Interessante de março uma reportagem sobre a vida de João Paulo II, e o fato que mais me impressionou não foram as conspirações políticas para a derrubada do comunismo, nem certas atitudes estranhas tomadas por ele, como visitar a África, um continente completamente devastado pela aids, e discursar contra a camisinha. O que mais me chamou a atenção foi o número de pessoas que ele canonizou. Em 26 anos de papado (palavra engraçada essa, papado), João Paulo botou no céu nada menos que 482 santos. Isso é mais do que todos os papas anteriores canonizaram em mais de trezentos anos. É santo à beça.

Certamente essa festa da uva divina deve arracetar alguns problemas. Por exemplo, qual será a ocupação desses novos santos? Temos São Pedro, que guarda a porta do céu, ao menos nas piadas. Temos São Jorge, que mora na Lua. Temos Santo Antônio, o casamenteiro, e São João, originador das festas juninas (sim, juninas não vem de junho, mas de joaninas, relativas a João). Temos o padroeiro dos agricultores, o padroeiro dos médicos, o padroeiro dos aviadores e até o padroeiro dos bêbados e boêmios, Santo Onofre. Mas e esses santos todos que João Paulo II criou?

- Ah, esse aí ajudava a pintar os vidros das igrejas, então bota aí: santo padroeiro dos pintores.
- Não dá, já tem o São Lucas nessa categoria.
- Então seja mais específico, coloca padroeiro dos pintores de vidros...
- Também não pode, o São James Grissinger já ocupou a função.
- Vixi, então coloca santo padroeiro dos pintores de vidros em igrejas e não se fala mais nisso.

Até achei um site interessantíssimo sobre santos padroeiros, e tentei achar um que fosse adequado pra mim. Ainda estou na dúvida. Tem a Santa Cecília, padroeira dos músicos, São Bernardino de Sena, padroeiro dos publicitários, São Pedro Nolasco, padroeiro dos universitários. Mas estou mais inclinado a virar devoto de São Mathurin, padroeiro dos palhaços. Ao menos o nariz vermelho já tenho, vive no porta-luvas do meu carro para qualquer emergência.

Esse número absurdo de santos (tem até o padroeiro do windsurf, me explica isso!) traz ao menos uma vantagem: ajudar as pessoas a ganhar um nome melhor. É que muita gente ainda escolhe o nome do pobre recém-nascido baseado no santo do dia. "Hoje é dia de Santa Escolástica, então você, minha filha querida, vai se chamar Escolástica". E a coitada vai odiar a hora da chamada pelo resto da vida. Mas com esse boom de santos proporcionados por João Paulo II, espera-se que isto diminua. "Hoje é dia de Santa Escolástica, Santa Águeda e Santa Jacinta Mariscotti", diz o pai, ainda indeciso. E a menina respira fundo, pensando com seus borbotões: "Por quê que eu não fui nascer numa família budista?..."

sexta-feira, 1 de abril de 2005

Quem

Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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