segunda-feira, 22 de maio de 2006

Salve Salvador! Parte II



Fitas & fittas

- Faz o primeiro pedido. Pronto? Agora faz o segundo. Pronto? Agora o terceiro.

Era vapt vupt, zás-trás, sem chance de recusar. Mal pusemos os pés nas pedregosas ruas do Pelourinho, debaixo do pé d´água já esperado, e imediatamente fomos abordados por quatro vendedores de penduricalhos. Todo lugar era a mesma marcação cerrada, amigo, amigo, um colar de presente pra você, agora leva esse aqui baratinho, mas no Pelourinho viramos alvo preferido da galera, com essa nossa cara de tudo menos de baiano.

E assim, sem que sequer pudéssemos matutar melhor acerca dos famosos três pedidos, vimos nossos pulsos receberem coloridas fitinhas do Senhor do Bonfim. Duas semanas depois, a minha permanece atada ao meu braço. Decidi deixar pra ver quando é que apodrece. As perspectivas não são animadoras: andei fuçando orkut afora em comunidades como “eu uso fitinha do Bonfim!”, e, pelo que pude averiguar, a vida média desses pedaços de pano costuma ultrapassar dois anos.

Bom, pelo menos foi de graça... (como se doesse o bolso levar 14 por um real)

¡Ola amigos!

Constatação da viagem: mineiros são gringos em terra de baianos.

Tudo bem, era óbvio que por baiano a gente não ia conseguir passar mesmo, branquelos daquele jeito, curtindo praia na chuva, entrando no mar aos pulos desengonçados. Agora... espanhóis?

Sim, eles achavam que éramos espanhóis. De início achamos que fosse apenas por causa do Leandro, de cabelo arrepiado e usando a camisa do Barcelona. “Ronaldinho, cuando vienes rogar aqui en el Brassil?”, zoavam os moleques. Mas quando, sozinho, recebi um “Buenas tardes” de um vendedor, é que percebi o quanto parecíamos deslocados.

Às vezes a gente entrava no clima:

- Amigo! Tienes un cigarete?
- No tengo, no tengo!

Noutras, principalmente na hora de pechinchar, fazíamos questão de afirmar nossa brasilidade. Dependendo do choro, o preço pra brasileiro podia chegar a um quarto do valor pros gringos.

Teve um vendedor engraçado que nos viu de longe e já veio portunholizando pra cima da gente.

- Pó falar português, aqui é tudo brasileiro – esclarecemos.
- Cariocas?
- Não, mineiros.
- Ah, então desculpa a ofensa.

Um velho calção de banho...

É bom
Passar uma tarde em Itapoã
Nadar no mar de Itapoã
Cheio de pedra em Itapoã
Pisar na lama em Itapoã

Passar uma tarde em Itapoã
Tomando chuva em Itapoã

Roupa enxarcada em Itapoã
Pneumonia em Itapoã ?


Estou como?

Conhecemos duas suecas na nossa última manhã em Salvador, durante o café da manhã no albergue. Mochilavam pelo nosso Brasil varonil: já tinham visitado o Rio de Janeiro, agora passavam pela Bahia e depois continuariam pelo nordeste, subindo para Recife, Natal, aqueles lados. Talvez devessem apenas ter pesquisado mais sobre as estações do ano: andavam injuriadas com aquela chuva toda, ainda mais depois de uma jornada de 29 horas num ônibus da capital carioca à baiana. (Isso de ônibus, pensa o Frejat que declarou que “iria a pé do Rio a Salvador”...)

Chamavam-se Sara e Pernilla. Pernilla era sueca típica, loira branquela, mas Sara tinha pele morena e poderia facilmente se fazer passar por baiana, como bem disse um ambulante que tentou nos vender suas quinquilharias. “Bota um colar e dois brincos de côco que ela vira uma baiana big beautiful!”, apontou.

Durante as poucas horas em que andamos com elas a pé pelos arredores, visitamos feirinha de artesanato, Museu Náutico da Bahia, praia, aprendemos palavrões, ensinamos outros tantos, e acabamos indo parar num site sueco de viajantes pelo mundo, onde, horas depois, as duas publicaram fotos e relatos da manhã passada com os quatro brasileiros insanos. Você aí que sabe ler sueco, por favor, traduza pra gente. Tá aqui.

Tá premiado

Algumas premiações que poderiam ter sido distribuídas durante nossa viagem:

>> Nome de Rua Mais Adequado: Em todos os nossos trajetos de ônibus pela cidade, mesmo sob os torós torrenciais que já previam os meteorologistas, pegamos engarrafamento uma vez apenas, a caminho do Pelourinho. O nome do lugar: Rua da Paciência.

>> Meio de Transporte Mais Barato: Sem dúvida o Elevador Lacerda, notória construção que liga o Pelô à Cidade Baixa, e que custa a módica bagatela de 5 centavos. Agora, vai arranjar 5 centavos trocadim assim...

>> Situação Mais Improvável: Uma sueca passando frio em Salvador. Tudo bem, estava chovendo e ela tinha acabado de sair do morno mar direto pro vento gelado, mas ainda assim, pensa só: é uma sueca passando frio em Salvador. Não é avulso?

>> Prêmio “Não Entendi”. Eu e Leandro no Aeroclube, numa barraquinha de comida baiana: “Moça, tem cuscus?” Seguem-se gargalhadas, dela e dos dois que a acompanhavam. “Por que a risada?”, queremos saber. “Aqui é só comida baiana, gente...”, respondem. Ficamos sem entender. Afinal, não era a música dos Novos Baianos que dizia: “Vai entrar no cuscus, acarajé e abará”?

>> Prêmio Poliglota Troglodita: Vai para um dos nossos amigos, confundindo os idiomas e comentando alto perto das suecas: “I want to fuck her”.

>> Preço de Cardápio Mais Sem Nexo: Uma barraquinha na Praia de Jaguaribe, na qual a vodka Natasha custava dois reais e a Smirnoff dois e cinqüenta. Uma Smirnoff de Assunção, provavelmente.

>> Top 3 Formatos de Orelhão

3 - Côco verde (com canudinho).



2 - Farol da Barra.



1 - Berimbau.

quinta-feira, 11 de maio de 2006

Salve Salvador! Parte I



Fim de semana em Salvadô, assim de bobeira, sem motivo aparente. Na verdade, a força que me impulsionou pra lá com mais três amigos foi aquela promoção da Gol: passagem aérea por 50 reais. Só pra constar, a passagem de ônibus pra Salvador custa o triplo (e indubitavelmente demanda mais tempo de transporte que uma hora e vinte). Resolvemos então passar uns 3 dias por lá, saindo sexta à noite e voltando na segunda à tarde, enforcando um dia de estudo e trabalho.

Muita coisa havia pra dar errado: reservamos um albergue às escuras, pela internet; não sabíamos qual seria nosso meio de transporte por lá; não conhecíamos lhufas da cidade; e a previsão climática, tanto nos weather channels quanto nos guias turísticos, era de chuva sem trégua.

No final das contas, o albergue era bacana e tinha até café da manhã, locomovemo-nos tranqüilos pela rede ônibus da cidade (mesmo que às vezes demorássemos uma hora e meia pra chegar à praia) e conseguimos nos guiar tão-somente pelas indicações dos nativos.

Já a chuva...

Causos do aeroporto

Aeroporto de Confins. Dezenas de adolescentes vestidos com uma camisa escrito "I Love Marina" urram e batem palmas pra qualquer passageiro que sai da área de desembarque, aguardando a hora de saudarem a amiga que vai chegar. Um desses festeiros aparece perto da gente com apitos na boca e poodle na mão, e nos explica que a tal Marina passou 8 meses no Canadá. Um comentário surge no ar: normalmente esse pessoal que faz intercâmbio volta meio acima do peso, né? Estamos nessa quando uma garota ultra-gorda desembarca e nosso amigo Fabel comenta com o cara: "Putz, essa aí deve ter ficado é oito anos no Canadá!"... Ele ri meio triste: "Essa é a Marina...", e vai embora cumprimentar a amiga.

Apertem os cintos...

Passagem de avião, 50 reais. Taxa de embarque, 20 reais. Sentar do lado do Adriano, que nunca tinha viajado de avião comercial na vida: não tem preço.

Começou com a negação: “Não, tô com medo não, quê isso”, muito embora tremesse um pouco e tivesse as mãos geladas. Depois veio a crise de risos nervosos, quando o avião começou a andar. O ápice foi na breve parada antes da decolagem: ele bateu no peito estufado repetidas vezes como um king kong e bradou aos céus e a todos que por ventura estivessem ouvindo (e todos no avião estavam realmente ouvindo): “Vem! Vem que eu não tenho medo! Pode vir! Vem!”. Logo que o bichão saiu do chão, ele calou-se e permaneceu imóvel e boquiaberto como uma criança assustada, até que sentisse estabilidade sob seus pés.

Depois pediu pra aeromoça pra visitar a cabine do piloto. E eu ainda fui com ele.

Top 5 alimentação na Bahia

>> Pititinga. Pequeno peixinho servido em porções, presença constante nos quiosques e bares. Era no preço dele que nos baseávamos na hora de escolher entre uma barraca e outra, quando a cerveja em ambas custava a mesma coisa.

>> Suco de umbu. Tinha sempre no café da manhã do albergue, cheguei a tomar três copos no último dia. Já dizia o ditado: como pode umbu ser tão gostoso?

>> Sorvete de jenipapo. Tenho a filosofia de sempre experimentar os mais exóticos sabores nas sorveterias. Incontáveis eram as opções no Aeroclube: mangaba, umbu, jenipapo. Resolvemos por um pedaço de jenipapo, mas não ficamos engasgados, nem com dor no papo.

>> Acarajé. Famoso bolinho frito de feijão fradinho, com vatapá (camarão em formato cremoso), salada (leia-se: tomate verde), camarão seco e pimenta (danger alert!!). Comemos um na porta do Mercado Modelo e outro no aeroporto, mas nesse último esqueci de especificar a quantidade de pimenta. Nem consegui terminar o diabo. Nosso amigo Léo, traumatizado com as alterações intestinais que lhe foram provocadas pelo primeiro, preferiu evitar essa segunda rodada.

>> Goiabinha do avião. Pelo preço da passagem, eu imaginava que fôssemos remando no porão da nave. E quando vi de longe, achei que a aeromoça nos trazia barrinhas de cereal sem-graça. Portanto, tive as expectativas duplamente superadas, o que torna a goiabinha digna de figurar nesse top 5.

Top 5 erros grotescos em cardápios ou placas

>> Baycon (ou sua variação: baicon).

>> Strogonoft.

>> Chatrobian.

>> Feijão furadinho.

>> Calças infantins.

Top 3 trocadilhos em peças publicitárias

>> Campanha na rua: “Acidente de moto? Não caia nessa.”

>> Cartaz de restaurante: “Quem tem boca vai ao Ramma”.

>> Outdoor de gráfica: “A melhor CÓPIA DO MUNDO É NOSSA” (cores verdes e amarelas pra ressaltar a sacada genial).

Confira em breve a parte II, com as chuvosas aventuras no Pelourinho, nossa não menos chuvosa tarde em Itapoã e a certeza de que mineiros são gringos numa terra de baianos.

Quem

Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

Busca no blog

Leia também


Cinema por quem entende mais de mesa de bar

Crônicas de um mineiro na China


Uma história parcialmente non-sense escrita por Lucas Paio e Daniel de Pinho

Arquivo