quarta-feira, 12 de julho de 2006

Os Três Porquinhos de Liverpool



Depois do musical da Chapeuzinho Vermelho usando clássicos da música popular tupiniquim, resolvi partir para projetos broadwayanos mais temáticos. Acho que seria interessante, por exemplo, uma versão de João e Maria com canções dos Titãs. “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”, diria João à velha bruxa, como desculpa por se alimentar das belas e suculentas paredes de sua casa.

Ou um Romeu e Julieta apenas com composições de Chico Buarque. “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta”, declararia o jovem Montéquio ao pai de sua amada. “Acorda, amor”, suplicaria Julieta ao ver o corpo inerte de Romeu.

Ou então, se McCartney, Starr e Jackson permitissem, uma releitura da fábula dos Três Porquinhos só com músicas dos Beatles. Lobão reprisaria seu papel de antagonista, como no musical da Chapeuzinho. João Gordo seria um dos suínos, talvez. Para o título, pensei em algo como “Os Três Porquinhos de Liverpool”. Ou simplesmente “Piggies”.

O roteiro poderia ser assim:

Palhaço, o porquinho preguiçoso, descansa tranqüilo em sua casa de palha.

Palhaço: Everybody seems to think I’m lazy. I don’t mind… think they’re crazy! Nothing’s gonna change my world…

Surge o Lobo, caminhando por perto, feliz e bonachão. Quando passa ao lado da casa de palha, fareja no ar um delicioso cheiro de carne de porco.

Palhaço percebe a misteriosa sombra que ronda as redondezas.

Palhaço: Very strange.

O Lobo olha pela janela e abre um largo sorriso.

Lobo: Ah. Look at all the lonely people!

O primeiro impulso de Palhaço, assustado, é levantar correndo.

Palhaço: Help! I need somebody’s help!
Lobo: Cry, baby, cry. Make your mother sigh.

Mas ele nota que gritar não vai adiantar muito, e então tenta demonstrar segurança.

Palhaço (próximo à porta): Listen. Do you want to know a secret? When I’m home, everything seems to be right!
Lobo: Oh yeah? I’ll tell you something. I think you’ll understand.

E, com um mero sopro, o Lobo põe abaixo a casa de palha.

Palhaço: I should have realized a lot of things before. The way things are going, they’re gonna crucify me.

O porquinho só vê um meio de escapar da fúria glutona do Lobo: correr até a casa de seu irmão Palito, mais segura e confiável por ser feita de madeira.

Mas, para seu desespero, ninguém atende quando ele esmurra a porta.

Palhaço (triste): I call your name… but you’re not there…

Ele tenta de novo. Nada.

Palhaço (suplicante): Won’t you please, please help me?

Silêncio. Lucas Paio 2006

Palhaço: Tell me, tell me, tell me the answer!
Lobo (sorrindo enquanto se aproxima): There will be an answer: let it be!

O Lobo está prestes a alcançar Palhaço quando a porta se abre e de dentro da casa surge Palito, que logo coloca o irmão pra dentro. Palhaço ainda tem tempo de olhar pra trás e mostrar a língua pro Lobo.

Palhaço: I get by with a little help from my friends!

O Lobo nem se irrita. Afinal, agora são dois porquinhos em vez de apenas um.

Lobo: It’s getting better all the time...

O instante de sossego na casa de madeira só dura até que o Lobo bata à porta novamente.

Lobo (voz mansa): Believe me when I tell you: I’ll never do you no harm!
Palito: Get back! Get back! Get back to where you once belonged!
Lobo: I said something wrong?

O sopro do Lobo, desta vez, não surte efeito na primeira tentativa. Mas é só ele caprichar no fôlego que a casa de madeira construída por Palito vai ao chão.

Lobo: This happened once before, when I came to your door.
Palito: Such a dirty old man!
Palhaço: With every mistake we must surely be learning…

Sem a proteção das paredes de madeira, a única alternativa para Palito e Palhaço é fugir às pressas.

Palito: You’d better run for your life if you can!
Palhaço: Life is very short and there’s no time!
Lobo (correndo atrás): See how they run!

Movidos pelo desespero, os porquinhos conseguem alguns minutos de vantagem sobre o Lobo. Correr sem rumo, no entanto, não é suficiente.

Palito (irônico): Oh, that magic feeling. Nowhere to go!
Palhaço (tendo uma idéia): There are places I remember.

Momento flashback: Palhaço se divertindo à beça na lama e na sujeira, enquanto Pedrito, envolvido na construção de sua casa, carrega pedras e tijolos.

Palhaço: Won’t you come out to play?
Pedrito: It’s been a hard day’s night, and I’ve been working like a dog.
Palhaço (olhando para as pedras): Boy, you’re gonna carry that weight a long time…
Pedrito: Try to see it my way: only time will tell if I am right or I am wrong.

Termina o flashback. Os porquinhos chegam à casa de Pedrito, essa sim grande e segura, forte e resistente. Pedrito vem atender à porta, solícito.

Pedrito: If there’s anything that you want, if there’s anything I can do…
Palito: Take a good look around you.

E Pedrito vê, no fim do horizonte, o sorridente Lobo que se aproxima.

Pedrito: Yesterday all my troubles seemed so far away…
Palhaço (apreensivo): Would you lock the door?

O Lobo esbanja empolgação.

Lobo: Have you seen the little piggies crawling in the dirt? And for all the little piggies life is getting worse!

Trancados na casa de Pedrito, uns têm medo, outros demonstram confiança.

Palhaço: I’m so tired, I don’t know what to do.
Pedrito: All you can tell you is: brother, you have to wait.
Palhaço: But every now and then I feel so insecure! I’ve got a feeling…
Palito: Don’t you know it’s gonna be alright?
Palhaço: Oh yeah. Alright.

Feliz, embora um pouco cansado da corrida, o Lobo finalmente chega à casa de pedra.

Lobo: The long and winding road that leads to your door...

Ofegante, tenta um sopro poderoso e não acontece nada. Puxa mais ar, infla as bochechas, sopra com toda a força que seus pulmões podem agüentar, e a casa nem treme. Desapontado, ele põe-se a pensar.

Lobo: How can I even try? I can never win…

É aí que ele observa a chaminé que enfeita o telhado da casa de Pedrito, e uma solução tão simples quanto genial desenha-se em sua mente.

Lobo: It took me so long to find out. And I found out.

Pedrito, o mais sagaz dos três, logo percebe o que o Lobo está tentando fazer, e tem uma idéia para surpreendê-lo. Sai da sala e volta pouco depois, arrastando um enorme caldeirão com água fervendo.

Pedrito (sorrindo): Let me tell you how it will be.

Enquanto isso, o Lobo se esgueira pela diminuta chaminé.

Lobo (resmungando sozinho): It’s wonderful to be here. It’s certainly a thrill.

Pedrito pede ajuda aos irmãos para que consigam colocar o caldeirão no lugar da lareira.

Pedrito: All together now! One and one and one is three!

Palito aproveita o momento pra provocar o Lobo.

Palito: Come together, right now, over me!

Não dá outra: o Lobo termina de descer, com raiva, e desaba sobre o caldeirão de água fervente. O fogo que sobe e o calor escaldante queimam-lhe todo, enquanto os porquinhos comemoram às gargalhadas.

Lobo: I can see them laugh at me...

Coberto de queimaduras, o Lobo foge pela porta da frente pra nunca mais voltar, fazendo a alegria dos porquinhos.

Palhaço: I feel fine!
Palito: I feel good, in a special way!
Pedrito: The smiles returning to their faces...

A última visão que eles têm do Lobo é de um animal correndo em disparada, urrando de dor e gritando:

Lobo: I’ve got blisters on my fingers!
Lucas Paio 2006

terça-feira, 4 de julho de 2006

domingo, 2 de julho de 2006

Constantes cosmológicas

Esqueçam o Parreira e sua trupe de celebridades apáticas. A grande e triste questão que importa agora é que, momentaneamente, perdemos nossa fé. Não a fé na ridícula seleção brasileira: essa já tinha ido pras cucuias nos instantes iniciais do jogo contra a Croácia. Falo da fé na profecia da pirâmide. Aquela que previu a vitória brasileira em 2002 e dava como certo o hexa em 2006, mas que, a partir de ontem, provou-se equivocada. Já abordei o assunto num post antigo, mas volto a reproduzir aqui uma imagem ilustrativa:



Tendo como topo o campeonato vencido pela Itália em 1982, a pirâmide funcionava bem para 4 copas, e os campeões de 1986, 1990, 1994 e 2002 correspondiam exatamente aos vencedores em 1978, 1974, 1970 e 1962, respectivamente. A única exceção era a Inglaterra, que ganhou em 1966 e supostamente deveria ter vencido em 1998, quando foi a vez da França. Mas esse "erro" era justificado por uma série de coincidências: Inglaterra e França levantaram o caneco apenas uma vez, jogando em casa, na Europa, numa copa em que uma seleção estreante terminou em terceiro lugar e com o artilheiro do torneio (Eusébio de Portugal em 66, Suker da Croácia em 98).

Agora, no entanto, não há coincidência ou desculpa esfarrapada que relacione o Brasil de 58 com uma seleção diferente. E isso invalida a teoria da pirâmide, certo? Mas é aí que surge a importante pergunta que abre novas e intrigantes possibilidades: e se não for uma pirâmide?

Vamos aos fatos: Deus não joga dados, como disse Einstein. E ciência é assim mesmo, alguém desenvolve um modelo, depois a realidade impõe pequenas modificações, e o modelo vai se alterando e tomando formas cada vez mais próximas de uma versão definitiva.

Pois bem. Sem mais preâmbulos, cá está o meu primeiro modelo pós-pirâmide.


Trata-se de um "M" composto de quatro retas e três vértices (ou pontas). O funcionamento é simples: os países campeões são sempre os mesmos numa mesma linha, exceto quando ocupam os vértices. Assim, eliminamos a uma suposta correspondência entre França e Inglaterra na pirâmide original, que estava mais pra uma falha disfarçada. A Itália de 1982 ocupa o primeiro vértice, a França de 1998 o segundo, e o terceiro (2014) permaneceria como um elemento surpresa, que pode tanto ser a própria Itália quanto uma seleção avulsa emergente.

Ainda de acordo com o "M", a Alemanha vence em casa no domingo que vem. E alguém ainda duvidava disso?

Claro que falo de um modelo em constante desenvolvimento. Inclusive sei de outros pesquisadores que, neste momento, estão trabalhando numa Teoria de Todas as Copas que explique discrepâncias e alinhe cada campeão numa fileira única. Só poderemos tirar a prova aos poucos, a cada quatro anos. Se alguém tiver um Sports Almanac em casa, por favor avise, ajudaria bastante. Enquanto isso, continuamos nos divertindo com nossas constantes cosmológicas.

Considerações finais sobre a derrota patética do Brasil:

1) Melhor que continue como está. "Rumo ao hexa" é feio pra diabo, mas convenhamos: "rumo ao hepta" é pior ainda.
2) O pior de tudo é que não tive tempo de zoar nenhum argentino.
3) Certa mesma estava minha avó, que me ligou ontem antes do jogo e disse ter apostado num bolão que a França venceria por 1 a 0. Uma ligeira intuição, segundo ela...

Quem

Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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