sexta-feira, 27 de outubro de 2006

A Volta do Malandro ou: Paratodos?



O maior evento cultural em Beagá ontem foi a fila do ingresso pro show do Chico Buarque. 12 horas de diversão debaixo de sol quente, praticamente uma rave. A fila começava na porta do Palácio das Artes, subia a Carandaí e abraçava o Parque Municipal. Tudo pra ver o velho gago. E, enquanto as vendas lá dentro caminhavam a passos de formiga, do lado de fora estavam centenas de desocupados de todas as idades esperando, esperando, esperando, esperando a sorte. Vendedores de cerveja aproveitaram pra fazer uma graninha e ativistas do Green Peace convocavam a galera a lutar por um mundo melhor. Não tardaram a aparecer a TV e os jornais, e eu e meus amigos até concedemos uma entrevista ao SBT, mas não era ao vivo e parece que ficou abandonada na sala de edição. Pelo menos apareci fazendo cara de paisagem ao fundo, enquanto a repórter comentava sobre o quilométrico amontado de pessoas que fazia da calçada da Afonso Pena sua segunda casa. Resumo da ópera do malandro: os ingressos camaradas se esgotaram às 8 da noite, graças à estúpida cota de 30% de meias-entradas estipulada por não-sei-quem. Mas pra quem já fizera todas as refeições do dia ali mesmo, o papelzinho com data, hora e lugar marcado tinha virado questão de honra. E a recompensa vem em dezembro: ver o malandro na praça, pela primeira vez.

domingo, 15 de outubro de 2006

terça-feira, 10 de outubro de 2006

quarta-feira, 4 de outubro de 2006

Carcaça imunda e vil



O crítico Pablo Villaça, do Cinema em Cena, publicou hoje em seu blog:

Más notícias para todos nós: "Muito Gelo e Dois Dedos D'água" não é só o pior filme do ano; é o pior filme do século 21 até agora.

Declaração perigosa. Nunca confiei muito em filmes do Daniel Filho e não duvido que o roteiro de Fernanda Young possa ter patinado, mas daí a colocá-lo no posto de pior longa-metragem dos últimos 6 anos me parece exagero de calor do momento. Aliás, hoje mesmo ouvi comentários de que o filme é até bacana. A discrepância ímpar de opiniões, claro, só aguça a curiosidade. E, como Pablo apenas deu uma palhinha de seu desgosto mas ainda não publicou a crítica completa, só resta imaginar qual o motivo tão grave é capaz de tamanha repulsa - e se realmente é pra tanto.

Um disco ruim é relativamente fácil de se fazer: é só juntar um punhado de canções terríveis, estão aí sendo produzidas e lançadas às dúzias todos os dias. Pra que saia um livro ruim, basta um escritor sofrível e um editor sem senso crítico (não confundir com tino comercial). Mas um filme demanda tanto planejamento, tanta gente e tanto dinheiro que mesmo as bombas completas têm lá seu ponto positivo: um efeito especial convincente, uma sacada interessante perdida no meio do diálogo, uma boa idéia desperdiçada cuja essência ainda permanece. Sem falar no célebre limiar da ruindade, cujo mote "É tão ruim que é bom" garantiu o título de "cult" a centenas de pérolas trash.

Na verdade, os filmes realmente ruins são os que não conseguem atravessar esse limiar e ficam ali no meio termo. É a comédia sem sal, o terror que não gera medo nem humor involuntário, o "difícil entendimento" usado como desculpa para a inabilidade do diretor em transformar suas pretensões em algo palatável. A pior laia talvez seja a dos aproveitadores do sucesso de outrém, sendo "Esqueceram de Mim 4" o exemplo mais emblemático. Não satisfeitos com a parte 3, que usava o peso do nome "Home Alone" pra contar a história de um menino com catapora (!!), resolveram vilipendiar o legado da família McCallister e puseram os personagens dos dois primeiros filmes nas mãos de um elenco insosso - e ainda tiveram a insolência de reunir tudo depois num box único de DVDs, como se Joe "Harry" Pesci e John "Polka Polka" Candy tivessem algo a ver com aquela palhaçada. Pra suportar, talvez só mesmo um cachorro engarrafado, com muito gelo e uns dois dedos d'água.

terça-feira, 3 de outubro de 2006

Tão sem passarinhos



Semi-leitura do momento: "Chega de Saudade - A História e as histórias da Bossa Nova", do Ruy Castro. Semi porque as histórias me apetecem mais que a História, e preferi por isso uma leitura descompromissada, um capítulo aqui antes de dormir, um trecho ali depois do almoço, sem a linearidade que me indicam os números no rodapé. Aproveitando meus derradeiros meses como estudante, colhi o livro na biblioteca da faculdade, talvez influenciado pelo documentário Vinícius, que aluguei há pouco tempo por 1 real. (Fabulosa promoção da locadora aqui perto de casa, que também oferece o combo 7 filmes por 15 reais e uma semana pra devolver, além de ganhar uma coca dois litros.)

Enfim, sobre o livro: embora eu tenha visto comentários por aí de que os verdadeiros entendidos de êmepêbê consideram a narrativa de Ruy Castro algo como uma ficção-científica, as histórias ali contadas são deliciosas, ainda mais levando-se em conta minha especial predileção por making-ofs. Como Tom Jobim e Newton Mendonça decidindo compôr um samba "que parecesse uma defesa dos desafinados, mas tão complicado e cheio de alçapões dissonantes que, ao ser cantado por um deles, iria deixá-lo em apuros". Ou a mulher (uma das) de Vinícius implicando com um verso de "Chega de Saudade": "Que coisa mais boba, rimar peixinhos com beijinhos", e a resposta de Vininha, "Ora, deixe de ser sofisticada". Ou a letra original de uma das mais famosas músicas de todos os tempos, que ostentava uma primeira parte um tanto pessimista: "Vinha cansado de tudo / De tantos caminhos / Tão sem poesia / Tão sem passarinhos / Com medo da vida / Com medo do amor..."

>> Na biografia dos Mamonas há um rascunho da primeira versão de "Vira-Vira", escrita por Júlio Rasec e Adilson de Matos em 1984, que trazia o refrão: "Vira vira santo, não vira ninguém / Pegaram o Padre Lino na sacristia com alguém / Vira abre a roda, o coroinha também / Ó amador favor me acuda / Pois a vela é muito dura / Comprida, grossa e acende bem"

>> Mas o prêmio de melhor letra inédita para um mega-hit, sem dúvida, vai para Paul McCartney e seu clássico: "Scrambled eggs / Oh my baby how I love your legs..."

Democracia chinesa



Outubro sempre me passa a idéia de que o ano está acabando, e os panetones que já estão à venda nas melhores casas do ramo não contribuem exatamente para dissipar essa sensação. Ano passado, memsa época, fiz uma lista enxuta de resoluções para os últimos meses de 2005 e não cumpri metade. Não caio mais nessa. De prazos no dia-a-dia, me bastam os inescapáveis. E já nem ligo mais de inacabar projetos. Há tempo pra tudo. Vejam o Tolkien. Deixou tanta coisa por terminar que até lançaram um "Contos Inacabados" pra supernutrir a conta bancária dos filhos. Um dos rebentos, Christopher Tolkien (na verdade o "pimpolho" já é octogenário) recentemente anunciou que vai lançar "The Children of Hurin", livro iniciado pelo pai em 1918 e terminado por Christopher em 2006. Seguindo essa lógica, posso deixar o Druida da Pocilga para que algum de meus futuros herdeiros finalize e publique até 2093, ainda a tempo de figurar nas listas de final de século. Quem sabe uma "Os 100 Maiores Quase-Escritores do Século XXI Misteriosamente Assassinados Por Leitores Enfurecidos"?

Quem

Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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