quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Filma eu Galvão

Então o Brasil vai mesmo sediar a Copa de 2014. Preparem-se para uma horda de hooligans enraivecidos depredando a Savassi. O que é o menor dos nossos problemas: primeiro tem que ver se a gente consegue acertar a segurança, os estádios, os hospitais, as estradas, os aeroportos, o atendimento nos botecos.

A lista de exigências da Fifa é imensa. Vai desde o número de hotéis que abrigarão as dinamarquesas loiras com tara especial pelos belo-horizontinos até o preparo para emergências do porte do grande cataclisma da Praça da Liberdade. O Canadá já tá como suplente para o caso de dar merda. Mas boto fé que a coisa anda. Se existe uma motivação para fazer as coisas direito por essas bandas, é o futebol. E, embora seja improvável que implantem o teletransporte a preços populares em seis ou sete anos, só de ter estradas menos vergonhosas já faz alguma diferença.

Interessante é notar que a sede da Mundial, de uns tempos pra cá, tem se alternado entre países com certa tradição em Copas do Mundo (Itália, França, Alemanha, Brasil) com outros que geralmente são meio pífios (Estados Unidos, Coréia do Sul, Japão, África do Sul). Se for esse o critério, torço ferrenhamente por um Trinidad e Tobago 2018.


Só essa logo que não precisava ser tão feia.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

ultimamente tem me agradado a escrita sem maiúsculas. põe-se o ponto e a frase à frente, que de praxe começaria com letra grande e ostentatória, traz no lugar a caixa-baixa característica do miolo de um texto. tudo tem o mesmo peso, ninguém se sobressai. a vantagem principal é atrapalhar a vida do leitor. mas não se trata de escrita escrota por sadismo puro e simples. a intenção é nobre: fazer com que o leitor preste atenção ao texto e suas minúcias, evitando o hábito pós-moderno de escanear visualmente as informações e montar um panorama desmembrado e esquecível do que leu. ele pode ficar seriamente tentado a abandonar o barco antes do final, mas paciência. nos blocos de letrinhas de igual tamanho as datas vêm por extenso, as siglas surgem pequenas, os gritos soam mais brandos. é o socialismo alfabético.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

A Saga de Tião



Eu tava esperando juntar um número bão de capítulos antes de divulgar, e agora, que já tem uns oito ou nove, me parece um bom momento.

Então divulgo. Meu comparsa Daniel de Pinho e eu estamos escrevendo uma história seriada chamada A Saga de Tião. As regras são:

1) Cada capítulo deve terminar com uma frase avulsa, desconexa, que deve ser encaixada de alguma forma no capítulo seguinte (sim, igual ao concurso literário da piauí).

2) Os capítulo deverão conter o nome de alguma celebridade, para alavancar a visita de internautas perdidos que encontrem o blog pelo Google.

Alguns estranharão que uma história chamada "A Saga de Tião" se passe na Ucrânia com um protagonista chamado Vladimir, mas a gente chega lá. Ainda tem muita vodka pra rolar.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Mirela



A revista piauí tem um concurso literário que consiste numa frase avulsa, sem sentido, que deve ser encaixada num texto com pé, cabeça, tronco e membros. A frase deste mês era: "Os arpejos de mamãe me levaram ao suicídio". Eis o meu texto, que também está aqui:

Mirela

Seu azar foi nascer em família de instrumentistas. Não é que ela odiasse música. Gostava, assim como se gosta de algodão doce no parque, de vez em quando. Mas não tinha jeito nenhum pra tocar. O violão que exalava melodia nos dedos da irmã virava giz em quadro negro se ela punha a mão. A gaita que o pai tocava com classe fazia o cachorro avançar nas visitas quando ela bafejava nas palhetas. “Você não precisa tocar um instrumento só porque a gente toca”, diziam os parentes, sinceros. Mirela encarava como provocação e seguia surrando canções.

Um dia ela se encheu.

Declarou-se vencida e não tardou a tomar birra de qualquer um que tivesse a petulância de produzir som na sua frente. Mais ou menos como aquela tia encalhada que passa a ter raiva dos casais apaixonados. Foi morar sozinha numa casa silenciosa, com caixas de ovo nas paredes servindo de isolamento acústico, de modo que nem a cantoria matinal do amolador de facas a incomodava mais.

Nas festas de família, ainda sofria. Tinha que aturar os sobrinhos batucando Villa-Lobos nas louças do jantar, o tio arrotando o bolero de Ravel, o papagaio imitando o vozeirão do Sílvio Caldas. Às vezes ela explodia numa raiva seca sem fundamento, como no dia em que interrompeu o parabéns de seu próprio aniversário berrando impropérios para os convidados.

O tempo transformou a ojeriza em fobia e Mirela virou uma moça amarga, que desprezava serenatas de amor e punha cera no ouvido durante o Carnaval. Chegou à maturidade solteira, sozinha e, para seu desespero, com o dever moral de abrigar a mãe recém-enviuvada. Foi a sua ruína. Dona Lalá passava o dia dedilhando cravos, soprando fagotes, martelando xilofones, praticando acordes e glissandos. Se a filha resmungava, devolvia: “Me recuso a renunciar da arte por causa de uma cisma estúpida”.

Foi ouvindo a mãe tocar pela décima terceira vez uma mesma fuga de Paganini numa mesma terça-feira chuvosa que Mirela tomou a decisão. O bilhete de despedida foi rabiscado no canto de uma partitura: “Os arpejos de mamãe me levaram ao suicídio. Cheia de colcheias, ponho fim a essa existência diminuta”. Amarrou no ventilador de teto a corda do violoncelo de dona Lalá, laçou o pescoço e saltou do banquinho do piano. No instante seguinte ouviu a vibração primorosa que escapuliu da corda e para sua própria surpresa pensou, maravilhada: um mi bemol perfeito, e eu mesma produzi. Mas aí já nem adiantava.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

No traço de outrém

Aproveitando que tô com um scanner aqui em casa (e funcionando!), inicio uma sessão nostalgia com papéis, desenhos, fotos, quadrinhos e oitras cousas do meu passado.

O primeiro post é dedicado à coletânea de desenhos feitos por amigos e colegas com base em minha pessoa.



Wanted dead or alive: Thiago Tartaglia, que estudou comigo nos idos da sétima série, foi o autor deste desenho em algum momento de 1998.



Cabeludo na sala de aula, fevereiro ou março de 2005. Quem fez foi o Edson Jr, então colega de classe, que é desenhista do Hoje em Dia.



Mostramos com gosto. Esse é do Bernardo Silveira, que desenhou todos os nove integrantes da Língua, saudosa agência experimental que montamos no segundo semestre de 2006.



Pensando em nada no trabalho, no traço do Filipe Souza (a.k.a. Souza da Firma), que lavora comigo atualmente. Ele tá prometendo a versão colorida desde junho de 2007, quando me retratou nesse momento meditativo, mas cansei da enrolação e pus aqui em P&B.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Mãe, tô na internet!

>> A crítica do Pablo Villaça para Resident Evil 3 traz, em seu primeiro parágrafo, uma frase infame de minha autoria.

>> Uma outra frase que enviei pro Conversas Furtadas foi publicada hoje, embora neste caso o crédito seja todo da minha prima Natália, que proferiu a inocente pérola uns bons onze anos atrás.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Momento consumidor revoltado

Serviço de Utilidade Pública

Não comprem na Americanas.com. Encomendei um monitor novo pro computador e eles enrolaram tanto com a entrega que preferi cancelar e comprar ao vivo mesmo, em outra loja. Isso foi em maio. Até hoje continuam mandando, mês a mês, a cobrança do monitor cancelado.

Não assinem a Net. Meu pai cancelou TV e internet no começo de julho e o sinal foi interrompido imediatamente. Marcaram de buscar o modem e o decodificador no final de julho mas "o sistema" deles resolveu ficar adiando a data indefinidamente. Acabei enchendo o saco e fui pessoalmente no cudujudas que fica a Net em Beagá pra entregar os equipamentos. Isso foi no meio de agosto. Eis que agora estão cobrando pelo período de um mês e meio que o modem e o decodificador ficaram na casa do meu pai, esperando alguém buscar, com o sinal interrompido.

Adendo final: atendentes de call center são realmente a escória da humanidade.

Muchos años después



Há tempos eu vinha querendo comprar o Cem Anos de Solidão, mas ficava naquela: já li o livro duas vezes, se eu comprasse agora ia acabar deixando encostado, mas ao mesmo tempo como é que eu o elejo um dos meus prediletos e nem mesmo tenho em casa pra reler uns trechos quando dá na telha?, etc. O dilema se resolveu com a idéia de adquirir o texto no original. Assim, aproveito os 40 anos do Cem Anos para melhorar meus precários conhecimentos da língua de Gabo, que não vão muito além de putamadre e cueca-cuela. Embora eu ainda continue com a convicção de que castelhano é português com sotaque andino, e que qualquer brasileiro minimamente alfabetizado compreende fácil fácil uns 80% de um texto em espanhol. O que acaba gerando uma certa preguiça na hora de aprender de verdade, porque é tudo muito igual, mas ao mesmo tempo diferente, sacumé? Mas com essa nova leitura da extensa e tresloucada saga dos Buendía (junto com um mini-dicionário que comprei por R$ 3,90 hoje na hora do almoço), logo vou poder xingar um argentino com muito mais propriedade.

Outras descobertas idiomáticas recentes:

Ninjawords. Dicionário inglês-inglês que vai direto ao ponto. A proposta é ser rápido como um ninja. Cowabunga!

Foreign Language Lesson Podcast Collection
. Reunião de podcasts com lições de inglês, francês, árabe, espanhol e até português. Afinal, não basta saber tailandês: se não treinar um bom sotaque, vai passar por caipira.

Quem

Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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