domingo, 6 de abril de 2008

Vapt-Vupt



Ainda que o padrão radiofônico estrofe-estrofe-refrão tenha convencionado os 3 minutos como a duração ideal, a música pop também passeia por dois extremos opostos. De um lado, as imensas narrativas que se estendem por dez minutos, os intermináveis solos de guitarra e as experiências progressivas responsáveis por discos inteiros de uma faixa só. Do outro, está o inegável charme das pequenas canções.

Pensando nisso, elaborei um top 10. Estabeleci alguns critérios. Primeiro, menos de 1 minuto de duração. Quebrei a regra para acomodar uma música do Queen que tinha um minuto e sete, mas foi só essa. Deixei de lado os temas instrumentais, os jingles e as as cançonetas de Phoebe Buffay, que merecem outros top 10 em tempos futuros. Portanto, em áudio e texto, aí estão as dez melhores menores músicas segundo o Biselho. A classificação, como uma boa fila de recreio do pré-primário, é por ordem de tamanho.



10 – Queen – Lazy on a Sunday Afternoon (1:07)

A segunda faixa do formidável “A Night at the Opera” é uma opereta de época com arranjo bem trabalhado e cheia de efeitos sonoros. Ideal para as tardes preguiçosas de domingo, como esta em que me encontro agora.

09 – Secos & Molhados – El Rey (00:58)

Os dois álbuns do Secos & Molhados só têm músicas curtas. Clássicos como “Rosa de Hiroshima” e “Sangue Latino” mal ultrapassam os dois minutos, e algumas, como esta “El Rey”, nem chegam a um.

08 – George Harrison – It’s Johnny’s Birthday (00:49)

Integrante do álbum triplo “All Things Must Pass”, obra-prima solo do George, “It’s Johnny’s Birthday” é uma homenagem ao antigo parceiro de banda do rapaz, um tal de John.

07 - Mamonas Assassinas – Sabão Crá-Crá (00:42)

Célebre musiquinha de colégio, precursora do “Jererê” e outros clássicos, foi ressuscitada pelos Mamonas em seu primeiro e único disco. A biografia mamônica “Blá, Blá, Blá”, escrita por Eduardo Bueno, conta uma história interessante envolvendo a música e o produtor Rick Bonadio: “Nessa vinheta, a única coisa que eu cortei foi o ‘cu’ do Dinho”, conta Rick. “Tivemos uma discussão por causa disso. Dinho achava que a melhor idéia era cantar o último verso incompleto. Ele diria: ‘Sabão cru-cru, não deixa os cabelo do saco enrolar com os do...’ e, só depois da música seguinte, que é Uma Arlinda Mulher, surgiria o ‘cuuuuuu’”. Rick foi contra a idéia e não apenas por questões técnicas. “Eu achava que um cu assim solto ia ficar muito forte”. A partir daí, Dinho começou a apresentar Rick para os amigos como “o cara que tirou meu cu do disco”.

06 – Dave Matthews Band – Pantala Naga Pampa (00:40)

A canção que abre o fabuloso “Before These Crowded Streets” tem no exótico título uma frase num idioma indiano, que significa nada menos que “tem uma cobra nas minhas calças”.

05 – Baba Cósmica – Braboleta (00:35)

Sim, eu comprei o disco do Baba Cósmica. Tratados como sucessores dos Mamonas, embarcaram no vácuo da fama sem que merecessem, mas o álbum não é de todo terrível. A mais divertida é esta música secreta, que entra vários minutos depois da última faixa. Eu sempre estranhava que o disco terminava e continuava rolando, até que percebi a musiqueta escondida.

04 – The Rutles – Lullaby (00:27)

Competentíssima banda-paródia dos Beatles, os Rutles lançaram um disco nos anos 70 e outro nos anos 90, na esteira do “Anthology”. Esta é do segundo disco e, obviamente, satiriza “Her Majesty”.

03 - Beatles – Her Majesty (00:23)

A pequena faixa aparentemente incompleta é a última música do último disco dos Beatles, “Abbey Road”, entrando até mesmo depois da emblemática “The End”. A banda inglesa Chumbawamba fez um inusitado cover “completando” a canção e adicionando estrofes e refrões, mas nem ficou tão ruim assim.

02 – Titãs – Natureza Morta (00:17)

Os Titãs já tinham vomitado a agressiva “A Face do Destruidor” no clássico “Cabeça Dinossauro” em apenas 34 segundos, mas resolveram bater o recorde com “Natureza Morta”. O curioso é que, apesar de seus 3 versos espremidos em 17 segundos, é assinada por inacreditáveis 6 co-autores: Arnaldo Antunes, Branco Mello, Marcelo Fromer, Paulo Miklos, Sérgio Britto e Liminha.

01 - The Who – Miracle Cure (00:11)

A ópera-rock “Tommy” alterna músicas longas com pequenas canções de ligação. “Do You Think It’s Alright” tem 24 segundos, “There’s a Doctor” tem 23, mas a grande vencedora é esta “Miracle Cure”, que anuncia a cura milagrosa do garoto Tommy, que era cego, surdo, mudo e exímio jogador de pinball.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

quarta-feira, 2 de abril de 2008



O pundonoroso concurso a vinte mãos da piauí continua de vento em popa, revelando desta vez o terceiro capítulo vencedor. O gancho desta vez era mais ardiloso e resolvi escrever bobagem mesmo. O resultado está logo aí embaixo.

Recapitulando:

Capítulo I - O rato (Ciço Léo)
Capítulo II - Quase volta à ilha (Rodolfo Viana)
O Capítulo III vencedor - A proposta (Cláudio Parreira)

Um resumo da coisa pra quem tiver preguiça de ler tudo:

No eletrocinético capítulo I, Antônio, o ex-garoto de cabaré, acorda cansado da vida ao lado da viúva Maria de Maria Mergulhão. Ela o suga, exige dedicação constante e é dada a esquisitices como obrigar o mancebo a dormir a seu lado sob a cama, outrora ocupada pelo defunto marido, um coronel tão ciumento quanto violento. Decidido a fugir, Antônio sobe ao sótão para recuperar a sunga e a camisa furta-cor de seus tempos de go go boy. No langoroso capítulo II, Maria de Maria flagra Antônio no momento da fuga e lhe entrega um maço de cartas encontrado na soleira da porta. Após folhear o conjunto com desinteresse, ele se detém no quinto envelope. Lê o nome do remetente e, como nos bons folhetins d’antanho, empalidece... Tan-tan-ran-tan...

E finalmente, a minha versão:

A Velha Debaixo da Cama

Capítulo III - Sinuca de bico


Antonio poderia ter ignorado qualquer correspondência que chegasse às suas mãos e continuado firme o nobre intuito de pôr sebo nas canelas, fosse ela o que fosse, um aviso do Exército alertando para a guerra iminente e pedindo que todos construíssem um abrigo nuclear de pau-a-pique seguindo o passo-a-passo em anexo, um telegrama do Laboratório Família Feliz informando que parabéns, ele era semi-pai de uma criança gerada por fertilização in vitro a partir do óvulo obsoleto de Maria de Maria, o esperma coletado enquanto ele dormia e o sêmen congelado do Coronel Mergulhão, ou mesmo uma carta escrita por si mesmo no passado recordando sua contraparte futura de que a vida na boate não era assim um jardim de borboletas e que devia dar graças à velha pela oportunidade de sair da perdição. Tudo isso teria feito Antonio repensar sua decisão por um minuto ou dois, até que a bocarra asquerosa de Maria o trouxesse de volta à desgostosa vida de marido. Tudo, menos o que o envelope pardo realmente aconchegava no interior: a edição semanal de sua assinatura da revista Fuxicos & Fofocas.

Não houve o que ponderar. Como poderia Antonio dar no pé e privar-se do deleite que era ler as baixarias perpetradas por artistas, as travessuras dos cantores quando atrás dos holofotes, as safadezas que pareciam ensaiadas e lançavam a incerteza: meretriz ou mera atriz? Não podia, e Maria sabia, a danada. Ela encorajara a assinatura, ela espanava o pó da coleção que ele estocava sob a pia do banheiro, ela via o vício dele como bênção e disso não podia reclamar.

Enquanto andava pelos pomares, ombro a ombro com a esposa, ouvindo o orvalho das romãzeiras gargalhando da sua cara, Antonio avaliou alternativas. Podia escapulir como queria e voltar semanalmente pra resgatar seu exemplar. Claro, claro. No mínimo encontraria a revista ruminada pelos perdigueiros malcriados de Maria. Morar no cabaré e solicitar à editora uma mudança de endereço era viável, mas Antonio agüentaria a chacota dos colegas ao perceberem que só saía na rua após consultar o horóscopo e saber se era dia de transcender o individualismo e ou se o momento era para repensar a primazia da matéria sobre a espiritualidade?

Ao chegar da caminhada, Antonio era um homem em crise de abstinência. Fugir já não tinha tanta urgência: precisava inebriar-se com o aroma da tinta impressa, contemplar os palmeirais que adornam as casas das celebridades, alimentar-se de informação em sua forma mais vã. Foi o que fez com avidez durante as horas que se seguiram, esquecendo o café, o almoço, o chá das cinco regado a biscoitinhos de limão. Ao emergir da leitura, porém, sentia-se vazio novamente, e não era só o buraco negro estomacal. Percorreu o bangalô estranhando o silêncio, notou a mesa da sala parcialmente posta para o jantar e, ao entrar na cozinha, deparou-se com uma cena tão disparatada que nem os sórdidos roteiristas da fotonovela da Fuxicos & Fofocas seriam capazes de inventar.

*****

Em tempo: A Saga de Tião está chegando ao fim da temporada e o capítulo XXIV, o penúltimo, está aguardando a sua leitura.

Quem

Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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