segunda-feira, 12 de maio de 2008

Transitolândia



Saiu no Estado de Minas de hoje: ônibus é a solução para caos no trânsito. Segundo a reportagem, se 420 mil pessoas que trafegam hoje dentro de seus aconchegantes automóveis migrassem para o transporte coletivo, os engarrafamentos diminuiriam em 53%. Os especialistas calculam que, no ritmo que está, em cinco anos São Paulo vai travar. As estimativas para BH, Rio e Porto Alegre variam de 10 a 15 anos. Eu acho que é muito otimismo.

No início do ano resolvi experimentar um retorno aos balaios. Foi uma liberdade boa: não precisava me estressar no trânsito, não perdia tempo procurando vaga, não gastava uma nota em estacionamentos e gasolina, nem ficava preocupado se o carro estava em segurança. No caminho de volta, porém, o paraíso sumia. Pegar ônibus na Savassi às seis horas da tarde rumo a um bairro que abriga três faculdades é uma provação. Você muda seus parâmetros, de repente ter um lugar para repousar ambos os pés já é um alívio grande. Não teve jeito: acabei voltando ao mundo automotivo.

A matemática dos engenheiros de trânsito é simples. Um ônibus equivale a 36 carros de passeio, em número de pessoas. O problema é que a situação toda é um grande impasse: quem anda de carro não quer mudar para um ônibus lento e superlotado; e os ônibus só deixarão de ser lentos e superlotados se os carros saírem das ruas e cederem lugar a mais ônibus. A conclusão é evidente: não vai dar em nada. Hoje em dia dá pra financiar um carro em até sete ou oito anos. Ou proíbem o tráfego, ou proíbem logo a venda, ou então partamos para outras soluções:

Smart a preços populares. Guarde sua Hilux para as estradas. No centro da cidade o que vale é ter carro pequeno, tipo o Gurgel (lembra do Gurgel?), ou o Smart - que só comporta duas pessoas e é uma beleza pra fazer baliza. Passou da hora de popularizarem esse troço no Brasil.

Metrô decente em Belo Horizonte. O metrô daqui é muito engraçado, sai do nada e vai pra porra nenhuma. Já passou da hora de um metrô competente, com quarenta linhas interligadas, conectando a Savassi ao Centro, o Buritis ao BH Shopping, os bares da Pium-í aos botecos de Santa Tereza. Só não quero imaginar a zona que fariam as obras de um negócio desses.

Teletransporte. Já tão conseguindo teletransportar fótons; disso pra humanos é um pulo, não é? Ok, não é, mas pensa como vai ser bom o dia em que as estações de teletransporte estiverem em cada esquina, levando gente de um lugar pra outro como numa mensagem de MSN. De vez em quando alguém vai chegar faltando pedaço, ou com os membros trocados, ou com cabeça de mosca. Mas ei, acidentes também acontecem no trânsito convencional.

Uma praga para dizimar a maioria da população. Essa é infalível. É fato: exceto por uns dois ou três leopardos, o Will Smith não tinha dificuldades em se locomover pela Nova York de Eu Sou a Lenda. Quem sabe não implantam o modelo por aqui?

domingo, 11 de maio de 2008

Mistérios do mundo moderno



Por que o Faustão, que já está caminhando para o milésimo Domingão, até hoje não aprendeu a falar inglês?

Por que, mesmo com essa tecnologia avançada e efeitos especiais tão realistas, ainda não conseguiram criar um Hulk convincente?

Por que, em todas as inúmeras notícias sobre o caso Isabella, ninguém se lembrou de descrever o crime com a palavra "defenestração"?

Best in Texas



"Vai levar esse mesmo? É tipo Sin City..."

Funcionários de vídeo-locadora são criaturas estranhas. Geralmente têm péssimo gosto cinematográfico, insistem em sugerir justamente aquilo que você não quer assistir, e ainda vem a moça do balcão tentando me fazer desistir de levar o DVD que tinha em mãos. Sim, moça, eu sei exatamente o que estou levando. E não, não é tipo Sin City. Embora na superfície as bizarrices do quase-noir xerocado dos quadrinhos possam suscitar esse tipo de comparação (vide o Frodo canibal ou o Assassino Amarelo), Planeta Terror é simplesmente um filme trash. Mas um trash da melhor qualidade.

Vocês estão cansados de saber: Planeta Terror é a metade de Grindhouse, parceria de Robert Rodriguez e Quentin Tarantino homenageando os toscos filmes que eram exibidos em sessões duplas nos anos 70. Fora dos Estados Unidos, resolveram separar os siameses. Resultado: Planeta Terror já chegou nas locadoras e À Prova da Morte, do Tarantino (justo ele, que engana tanta gente nos pôsters com o crédito "Tarantino apresenta") nem estreou nos cinemas. Depois a culpa é da pirataria.

Planeta Terror se assume trash desde o primeiro minuto. Defeitos na imagem, cortes deselegantes e até um rolo de filme convenientemente perdido no meio da projeção são, obviamente, intencionais, assim como os diálogos de humor negro e a sanguinolência exacerbada. Não chega a ser um Fome Animal - com o qual guarda semelhanças, uma Paquita lá, uma Palomita cá -, mas tem nojeira suficiente para não ser recomendável almoçar durante a exibição. Tem zumbis, tem militares, tem doença altamente contagiosa: tudo aquilo que Extermínio tratava como sério é diversão pura nas mãos de Rodriguez. O elenco é afiado e traz Josh Brolin, Bruce Willis, Naveen Andrews (o Sayid de Lost), uma Rose McGowan perneta e Freddy Rodríguez no papel de El Wray, garoto malandro que acaba liderando a cambada contra a horda de zumbis. Assista longe da comida, das crianças e dos politicamente corretos.

Agora fica a questão: se no filme é claramente a perna direita que a gostosona da Cherry Darling perde e substitui por uma metralhadora, por que no material de divulgação ela manca da esquerda? Acho que é mais uma pra coleção do Photoshop Disasters.

>> Também publicado no Cinema de Buteco

Seu garçom, faça o favor



Nada contra Cidade de Deus ou Tropa de Elite. Nada mesmo: Cidade de Deus ainda é meu filme brasileiro preferido e Tropa de Elite conseguiu a proeza de tornar bordões e personagens mais conhecidos do povão que uma novela das oito. Mas é sempre bom quando o cinema tupiniquim consegue sair um pouco do eixo favela-sertão e explorar outros temas, como em O Homem Que Copiava, O Cheiro do Ralo ou esta bizarra experiência gastronômica chamada Estômago.

Estômago é uma espécie de Ratatouille brasileiro. No lugar do rato, entra Raimundo Nonato (atuação inspirada de João Miguel), imigrante nordestino que chega à cidade sem lenço nem documento e arranja um emprego num boteco de quinta. Suas coxinhas e carnes de panela chamam a atenção de um dono de restaurante e é na cozinha repleta de italianos que Nonato vai aprender as artimanhas da culinária, os truques obscuros da gastronomia e, claro, alguns impropérios em língua estrangeira.

Dirigido pelo estreante Marcos Jorge, o filme alterna as cenas do aprendizado de Nonato com sua vida na cadeia - não se explica muito bem porque ele está ali, nem quando está ali. Encarcerado numa cela com hierarquia bem definida, Nonato precisa provar o seu valor e para isso faz de tudo, até serve formiga frita como tira-gosto. Como o Remy da animação da Pixar, ele não tem preconceitos culinários - sabe que uma gororoba bem preparada muda de cara e melhora o gosto. Curiosamente ele também compartilha outras características com o rato, como a predileção pelo alecrim e a capacidade de comandar com êxito uma equipe de ignorantes culinários. A eloqüente fala de Anton Ego no final da animação ganha ainda mais força quando vemos reconhecidos os esforços de Nonato: "Nem todo mundo pode se tornar um grande artista, mas um grande artista pode vir de qualquer lugar". Mas fica o conselho: grotesco e sem muito pudor, Estômago não é pros pirralhos nem pros frescalhões - é só pra quem tem... ah, você entendeu.

>> Também publicado no Cinema de Buteco

sexta-feira, 2 de maio de 2008



Vocês devem ter percebido que o rocambólico concurso a 100 dedos da piauí é o principal responsável pela presença de novos textos por aqui. De fato, ando relapso - como sempre fui - em relação à escrita de posts sem prazos ou incentivos financeiros. Se alguém se dispuser a depositar uma quantia periódica em minha conta bancária, prometo pensar em abandonar a preguiça. Enquanto isso, contentem-se com os deslocados capítulos de um folhetim imprevisível. Está aí a minha quarta tentativa:

A Velha Debaixo da Cama
Capítulo IV - Nove círculos

Pela primeira vez desde o primeiro dos passeios matinais, Maria viu Antonio sorrir. Achou que fosse pelos seus relatos nostálgicos, pelas peripécias do falecido coronel Mergulhão narradas com tanto brilho e dramaticidade, ó como ele era garboso, ó como era gentil. Tolice: o sorriso lento nada tinha a ver com suas palavras, que ele ignorava sem pudor, mas com o plano deliciosamente diabólico que acabara de elaborar. Pois se de morto Mergulhão passara a ex-finado, Antonio seria ex-fujão só pra papar os dez milhões que o coronel lhe tinha prometido, com a única e exclusiva condição de fazer a danada da velha sofrer. Ela não apenas sofreria: sofreria com estilo. Afinal, refletia Antonio, que mal havia em se divertir um pouco?

Arquitetou o inferno com uma cadência quase musical. Primeiro os movimentos lentos: adagio, andante, uma tampa do vaso levantada aqui, uma cueca abandonada ali. Se um dia acordava amável e carinhoso, no outro arrotava na cara das visitas. Aprendeu a roncar. Desenvolveu manias – expressões faciais, vícios verbais, obsessões pouco ortodoxas, hábitos sujos. Tudo bem dosado, tudo insuportavelmente calculado. Deu asas, rabo e chifres à imaginação e até ele se surpreendeu com a quantidade de aborrecimentos que era capaz de infligir, da culpa ao arrependimento, da vergonha à irritação.

Não era o bastante. Se seguisse bancando o chato de galochas, Antonio acabaria sendo posto pra correr, e não há nada mais patético que uma bunda jovem levar um pé da terceira idade. Maria de Maria não tinha que sofrer por ter escolhido o amante errado; precisava se sentir como o que era, uma senhora desgastada, uma velha obsoleta. Ele tratou de estimular a amarga sensação. Mexia os lábios sem falar, instigando uma surdez que ainda não existia. Sabotava seus guisados, errando a mão às escondidas e a matando de vergonha perante a vizinhança. Arregalava os olhos quando ela servia a janta (“Mas nós acabamos de jantar!”) e plantava a dúvida: distração ou Alzheimer? Maria cismava e Antonio adorava: para ele, dia após dia era primeiro de abril.

Não era o bastante. Maria ainda não se tornara a miséria humana que ele intencionava, o trapo triste e abatido a um passo do suicídio. Vez ou outra até sorria, o que, convenhamos, era um atrevimento. Ele, orgulhoso, só aumentava o repertório: ofensas, sarcasmos, carrapatos no travesseiro, assombrações simuladas, convulsões fingidas, piadas fracas, tudo era matéria-prima para abaixar o astral da velha. Só evitava ataques físicos porque, se por ventura ela quebrasse a bacia e precisasse ficar de molho por dois meses ou três, seria ele o incumbido de servir papinha naquela boca murcha.

Até que uma noite, irritado com a paz de espírito que Maria ainda aparentava, Antonio viu se farto e decidiu jogar a última cartada. Foi só no dia seguinte, um sábado calmo, clima ameno, poucas nuvens, que ele abriu os olhos e compreendeu, pelo cheiro, que talvez tivesse exagerado.

Quem

Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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