terça-feira, 29 de julho de 2008

Esqueça a Mônica e seu estereótipo de baixinha, gorducha e dentuça. Baixinha ela nem é – pode medir, sua estatura é a mesma de Cascão, Cebolinha, Magali. A suposta obesidade infantil alardeada por seus detratores também não passa de exagero. E os dentões são mesmo salientes, mas nada que alguns anos de ortodontia não resolvam. Mônica é, portanto, uma criança normal e sadia; o mesmo já não pode ser dito de seus vários amiguinhos. Após uma exaustiva pesquisa nos anais da Medicina e das histórias em quadrinhos, o Biselho apresenta...

Os Personagens Mais Enfermos
da Turma da Mônica

#6 – Nimbus



O que ele tem:
tonitrofobia

É uma cena corriqueira. Raios e trovoadas anunciam uma precipitação, Nimbus e Cascão põem sebo nas canelas. Cascão se esconde sob uma marquise; Nimbus vai pra debaixo da cama. O motivo é simples. Enquanto Cascão, como é público e notório, tem pânico de água, o medo de Nimbus é do estrondo dos trovões.

A frescuragem tem nome: tonitrofobia. O dicionário define como um “medo mórbido, irracional, desproporcional, persistente e repugnante aos trovões”. Assim como existem pessoas que sofrem de cronomentrofobia (medo de relógios) ou triscaidecafobia (medo do número 13), os tonitrofóbicos, como o Nimbus, acham que os trovões, por serem fortes e altos, podem provocar algum distúrbio em seu corpo.

Distúrbio mesmo é uma criança com 6 anos nas costas e ainda borrando as calças por causa de trovoada. Será que ele também tem medo de eletrochoque?

#5 – Jeremias



O que ele tem:
calvície precoce

Carecas existem aos montes, e dizem que é deles que elas gostam mais. Mas quando você perde todos os pêlos da cabeça antes dos 10 anos de idade, é melhor se preocupar. Jeremias sabe disso - tanto que esconde sua calvície sob um boné que foi de seu avô. A turma finge que não sabe, ele finge que acredita, e a vida segue seu curso normal.

Será?

Já pararam pra pensar por que diabos o Jeremias é careca? Inércia - nasceu careca e esqueceu de crescer cabelo? Ou genes descabelados herdados de seu pai, quem sabe do avô, já que o boné pertenceu a ele? A coisa talvez seja mais grave do que isso. Jeremias pode ser um tricotilomaníaco - descrito no Aurélio como aquele que tem o "hábito mórbido de arrancar continuamente os cabelos", relativamente comum em crianças. Também é possível que ele sofra de uma alopécia areata - queda súbita de cabelo em uma determinada área -, decorrente de estresse, ansiedade ou um forte trauma emocional.



Há algo de podre no Bairro do Limoeiro quando um moleque que nem pré-adolescente é ainda padece de um problema tão sério que lhe faz cair os cabelos. Ou será que a situação é mais grave ainda e essa calvície precoce é só efeito colateral de uma pesada quimioterapia? Jeremias é coadjuvante o bastante para que o público em geral não se preocupe com essas questões, mas sempre é tempo de recomendar um tratamento pra esse menino. Quem sabe um transplante a partir dos pêlos do Floquinho?

Falando nele...

#4 – Floquinho



O que ele tem:
mutação genética

Caso número um. Em maio de 2001, um cãozinho vira-lata nasceu com o pêlo esverdeado em Nova Hamburgo, no Rio Grande do Sul. O caso não foi solucionado - a veterinária Maria de Lourdes Alexandre, da UFRGS, acredita em uma anomalia na pigmentação do animal -, mas o cachorro foi apropriadamente batizado de Hulk.

Caso número dois. Em maio de 2008, um cãozinho da raça Golden Retriever nasceu com o pêlo esverdeado em New Orleans, nos Estados Unidos. Segundo veterinários da cidade, a cor insólita tem a ver com a mistura do fluido amniótico com a placenta da mãe durante o parto, e tende a sumir com o tempo. Seus donos foram mais criativos e deram ao bicho o nome de Wasabi.


Hulk e Wasabi posando para a posteridade

O que nos leva ao caso do Floquinho. O cachorro do Cebolinha é um lhasa apso - tudo bem, um lhasa apso gigante, simétrico e peludo, mas ainda um lhasa apso. O que salta à vista, no entanto, é sua pouco ortodoxa cor verde-bandeira. Mistura do fluido amniótico com a placenta da mãe? Pouco provável, já que Floquinho é um cão adulto e já deveria ter desbotado, segundo os médicos de New Orleans. Nos resta, portanto, a mesma mutação genética que tingiu de esmeralda o simpático Hulk de Nova Hamburgo. Ou isso, ou o bicho é um alien. Sadio, sem chance.

#3 – Magali



O que ela tem: bulimia

Histórias da Magali não costumam tratar de muitos assuntos. Quando não é Mingau, seu mimado gato de estimação, quem protagoniza as confusões, a historinha invariavelmente versa sobre a gulodice da garota, capaz de rivalizar apenas com a fome colossal de Aureliano Segundo Buendía em Cem Anos de Solidão. Vez ou outra, aparecem as tramas que zombam da compleição mirrada da mocinha, como aquela em que ela é transformada em bicicleta por uma bruxa que confundiu os vários sentidos de "magrela".



Magrela e comilona? Qualquer nutricionista tem o veredito na doce ponta da língua: bulimia nervosa. O processo segue uma seqüência simples: comida demais > sentimento de culpa > dedo na garganta > peso normal. Como nos quadrinhos Magali sempre come demais em uma revista e na outra já volta exibindo o mesmo peso, é de se supor que, em algum ponto entre o "Fim" de uma história e o "Magali em..." que abre outra, ela batize a porcelana com o almoço devolvido, certo? Naturalmente, somos poupados de assistir a cenas tão fortes numa revista destinada ao público infantil. Mas quem sabe na versão adolescente da Turma?

#2 – Cascão



O que ele tem: hidrofobia, ombrofobia, urticária aquagênica

Se você riu da patética tonitrofobia do garoto Nimbus, saiba que aqui a coisa é um pouco mais séria. A notória hidrofobia de Cascão - medo mórbido de água e de líquidos em geral - é a característica mais famosa do personagem e é responsável até por batizá-lo. Excetuando-se algumas histórias recentes em que é insinuado que ele lava as mãos antes das refeições (o mal do século XXI é a praga do politicamente correto), Cascão foi bem-sucedido em todas as zilhares de vezes em que precisou escapar do monóxido de dihidrogênio. Tanto os parcos pingos de goteiras de algum teto mal-cuidado quanto os homéricos temporais que desabam do céu. A causa desse medo pode ser psiquiátrica ou virótica - aí, o medo bobo seria apenas sintoma de uma raiva daquelas que fazem babar.



E não é só isso. Ele tem também tem ombrofobia, que não é o medo mórbido de levar uma ombrada durante uma partida de futebol, mas uma aversão tremenda às chuvas. Quer dizer, não basta que ele esteja seco e safo: o céu lá fora tem que estar azul, senão o garoto não sossega.

Não bastasse viver nesse constante estado de nervos, há uma crescente suspeita de que Cascão também sofra de urticária aquagênica. Trata-se de uma alergia extremamente rara em que o contato da água com a pele causa coceiras, feridas e mau-cheiro, e que não tem cura (veja, por exemplo, o caso desta pobre garota australiana). Seria o caso de imaginarmos que o menino Cascão também nasceu com essa doença e, ao ser submetido a terríveis banhos e limpezas, ficou traumatizado de forma irreversível? Isso explicaria a hidrofobia, a ombrofobia e a sujeira que ele foi obrigado a acolher, para disfarçar a enfermidade - sabemos como crianças são cruéis e que às vezes é melhor ser sujo por convicção do que cheio de perebas.
Lucas Paio http://biselho.blogspot.com
Mas se o caso de Cascão já inspira pena, o que dizer de seu melhor amigo?

#1 – Cebolinha



O que ele tem: dislalia, calvície precoce e distúrbios mentais acentuados

Chegamos, enfim, ao personagem mais dançado da Turma da Mônica. Ele mesmo, o principal detrator da suposta dona da rua, geniozinho dos planos infalíveis, todo confiante e cheio de si. Afinal, o que há de errado com esse garoto?

Em primeiro lugar, o óbvio: cinco fios na cabeça. Cinco fios solitários e espetados, e só. Ou seja: além de sofrer de estresse ou coisa que o valha, como seu colega Jeremias, ao invés de imitar o penteado de Geraldo Alckmin, que remanejava estrategicamente seus escassos fios sobre o cocuruto para preencher melhor o espaço, Cebola Filho prefere fazer de seus fios uma rosa-dos-ventos pela metade. Alguém diga pra esse cara maneirar no gel.

Em segundo lugar, temos a dislalia. Se você tem seis anos de idade e ainda fala "Lenato Lusso" e "toca Laul!", passou da hora de procurar um fonoaudiólogo. A dislalia é um distúrbio da fala caracterizado pela dificuldade em articular as palavras, e Cebolinha, ao que parece, sofre da dislalia funcional: aquela em que não há alteração física que justifique a troca de letras, e se começa a pensar em outros fatores, como alterações emocionais ou hereditariedade. De fato, uma revista antiga mostra um tataravô de Cebolinha que morreu de velho e tinha o mesmo problema. Pelo visto, seu tataraneto também vai ficar assim pla semple.

Para completar a trinca, é inevitável afirmar: o menino é pinel. É só lembrar das numerosas histórias em que Cebolinha contracena com o Louco. Você se lembra de alguma em que também aparece o Cascão, a Magali, o Jeremias? Aposto que não: o sujeito amalucado de calças rosas e cabelo loiro desgrenhado surge única e exclusivamente para o careca troca-letras. Não é preciso uma tomografia computadorizada para perceber que a figura é fruto da fértil imaginação do garoto. Distúrbios mentais acentuados? Excesso de coelhadas na cabeça? Ou será que nosso amigo anda tomando ácido e a gente não sabe?


Mas louco é quem me diz...

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Desenhos exclusivos do Mauricio de Sousa

terça-feira, 1 de julho de 2008

Soneto sem a nona letra

Depois de um texto bem diferente
e mais um conto atípico...


Soneto sem a nona letra


Um fato patente: promessa é dever
Portanto, encaro de novo o papel
Com nova tarefa, árdua e cruel:
Apagar totalmente uma letra ao escrever

Na Roma de outrora, era número um
No alfabeto de hoje, é tão magra e delgada
Que pede em seu topo um ponto, a danada
Adorno supérfluo e bem pouco comum

Mas mesmo que ela não esteja presente
Não quero ofendê-la prematuramente
Melhor um poema que não a desmereça

Porque, se entre tantas esconde-se bem
Basta outro ângulo pra que seja também
Uma exclamação de ponta-cabeça

Quem

Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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