domingo, 18 de janeiro de 2009

Núbia



Núbia acordou debaixo de chuva. O que seria desagradável em condições normais era ainda mais estranho por uma série de motivos, dentre os quais destacavam-se o aconchegante ambiente interno em que ela se encontrava, dentro do próprio quarto e não esparramada sobre um banco de praça morta de ressaca; a inexistência de furos no teto que poderiam possibilitar uma entrada sorrateira da água vinda dos céus; a localização de seu apartamento no primeiro andar do edifício, dificultando a travessia da chuva por dez andares de quartos de dormir e suas respectivas camas de casal até chegar aos lençóis estampados que ganhara da mãe; entre outros. E mesmo que esse improvável conjunto de coincidências viesse a ser realidade, seriam todas imediatamente anuladas por uma verdade incontestável: o sol rachava lá fora num céu azul de ponta a ponta.

Ainda assim, a chuva na cama de Núbia encharcava o colchão, tornava transparente sua camisola e estragava a chapinha cuidadosamente feita na tarde anterior, por ocasião de um requintado baile de formatura. Mantivera-se a seco por toda a festa, desviando o olhar dos espumantes e agradecendo educadamente os coquetéis de abacaxi, e por isso perdia força a hipótese de alucinação causada por álcool no sangue. Também não era peça pregada por vizinhos malandros, daqueles que põem mangueiras na beira da janela, ligam o registro e fingem chuva com esguichos controlados. Na verdade, todas essas conjecturas eram mera perda de tempo, pois bastou uma olhadela para cima para que Núbia identificasse imediatamente a origem da insólita precipitação: havia uma nuvem sobre sua cabeça.

Uma nuvem, pequena, cinzenta e cumuliforme, chovendo sem trégua nem cerimônia, numa água contínua que desabava em Núbia e somente nela, livrando até mesmo o cabideiro do outro lado do quarto onde repousavam casacos e cachecóis. Seu primeiro impulso foi correr para o banheiro e deixar pra depois as especulações de como, quando, por quê. Foi uma tentativa infrutífera: a nuvenzinha acompanhou sua fuga ligeira durante todo o trajeto e ainda deixou um rastro molhado que Núbia, sem faxineira em casa, teria que secar por conta própria. Receosa de uma constipação, ela voltou ao quarto e tirou do guarda-roupa uma sombrinha de cinco reais, com cabo emperrado e aramado torto, que serviu bem à tarefa de protegê-la dos pingos marotos enquanto ela tirava a camisola alagada, passava a toalha e punha blusa, calça jeans e galochas de borracha.

Foi assim que chegou ao trabalho, depois de caminhar os vinte quarteirões que geralmente fazia de ônibus: não queria arriscar uma enchente no coletivo e um subseqüente processo judicial por uma aberração meteorológica cuja origem ou razão ela sequer conseguia imaginar. Entrou calada na repartição e fechou a porta do escritório. Lá de dentro, ouvia os tombos causados pelo piso molhado, mas tinha preocupações maiores do que escorregões alheios. Algumas eram de ordem prática. Por exemplo, até quando conseguiria segurar o guarda-chuva sem que o braço gangrenasse, ou como evitar os respingos na tela do computador, na mesa e na pilha de memorandos. Travava sua luta solitária quando bateram na porta e ela foi atender, porque podia ser o chefe. Era a moça da limpeza, fula com o aguaceiro nos chãos da firma. Núbia pediu desculpas, explicou que amanhecera daquele jeito e decidiu tirar o resto do dia de folga, evitando as constrangedoras piadinhas dos colegas – “A Núbia tá molhadinha”, “A Núbia já foi mais enxuta” – na hora do café.

Em casa, pôs-se a pensar. Já tinha lido muita coisa, doenças insólitas, casos infreqüentes, mas nuvem de chuva sobre a cuca era a primeira vez. Não tinha a quem recorrer e nem sabia o que tentar: dissipá-la com um cabo de vassoura, envolvê-la em lona preta, rezar pra Tupã. Quando desabou sob o chuveiro, farta, e deixou que a água morna se mesclasse à chuva fria, as vantagens de ter um Macondo particular começaram a brotar. Primeiro surgiria na imprensa: noticiários locais na hora do almoço, os nacionais no horário nobre, os programas de entretenimento com embaraçosas perguntas dos telespectadores; capas de revistas de moda e sugestões de coloridos guarda-chuvas para a próxima estação; participações em esquetes humorísticas de gosto duvidoso, mas que davam audiência. Com a fama estabelecida, convocaria uma coletiva para anunciar que estava deixando o dia-a-dia na cidade para levar água a quem precisa, do agreste ao Atacama, do Saara a Juazeiro. A iniciativa irrepreensível faria dela pessoa do ano na Time, personagem do Mauricio de Souza, cinebiografia do Bruno Barreto. Naquela noite rara, Núbia dormiu sonhando com a glória e com o primeiro Nobel da Paz concedido a uma mulher brasileira.

Mas no dia seguinte, infelizmente, estiou.

Quem

Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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