segunda-feira, 30 de março de 2009

Junk Food Journal



Menu do dia: Pringles sabor Spicy Guacamole

O abacate é uma fruta subestimada. Não existe sorvete de abacate da Kibon, abacate não dá um bom waffer recheado, Bubbaloo de abacate está fora de cogitação. Nem a Fanta, que lança refrigerante de tudo que tem semente - tem até Fanta Chinotto, pelo qual deviam ser presos- ousou criar uma versão com a Persea americana. Abacate é uma das palavras mais chatas de se escrever no celular (as cinco primeiras letras ficam todas na tecla 2) e sua relevância na cultura pop se restringe à vitamina verde que Linda Blair vomita em O Exorcista. E fala a verdade: você confia numa fruta que também é conhecida como "pêra-de-advogado"?

Foi com desconfiança, pois, que topei com um novo produto na prateleira do supermercado: batata frita sabor guacamole. Se em restaurantes mexicanos, regados a tequila, o purê abacate com pimenta cai até bem, prensado em fatias de chips a história muda. E a Pringles já cometeu há pouco tempo a famigerado batata de
Carvão Grelhado, um ícone do mau-gosto com toque de classe. Eu tava com um amigo meu quando vimos a Pringles Spicy Guacamole e a reação foi unânime:

- Deve ser ruim pra caralho. Vamos comprar.

Mas no final das contas, nem era tão assim tão hedionda. Ligeiramente picante (daí o "Spicy", dispensável adorno no nome do produto), não tem o poder viciante de uma Sour Cream & Onion, e nem é tão desgostosa como andaram pintando por aí. O mais curioso, na verdade, foi encontrar na lista dos ingredientes a estranha indicação: "Contém um ou mais dos seguintes: óleo de milho, óleo de semente de algodão e/ou óleo de algodão". Como é que é: vocês tem uma receita ou é na sorte mesmo?

sábado, 28 de março de 2009

Se é assim mesmo, que assim seja


Os Paralamas do Sucesso - Brasil Afora
Primeira audição comentada

Fiz essa experiência há quase dois anos com o sétimo disco de Rogério Skylab, e agora retomo com o novo dos Paralamas, banda por quem sempre tive apreço. A primeira audição de um álbum não significa muito e vários dos meus preferidos só comecei a gostar de verdade depois do terceiro ou quarto contato. De qualquer forma, é interessante voltar depois e ler quais foram essas primeiras impressões. Vamos, portanto, ao "Brasil Afora":

14h04 - Metais e um toque latino abrem "Meu Sonho", como grande parte da obra paralamesca. Não parece uma canção muito memorável, mas o clima dela é bem legal. O tema da introdução se repete por toda a música, variando só na hora do interessante solo do meio.

14h10 - A introdução com violões e uma guitarra abafada promete, mas em seguida ela vira um reggae, e devo dizer que tenho certa preguiça de reggae. Mas uma coisa é o reggae vagabundo de mineiros cantando sobre mar e surfe sem conhecimento de causa, outra são os Paralamas. O "All right" do primeiro verso leva a crer que a letra é em inglês, mas o verso seguinte ("O céu tá bonito lilás") desfaz a impressão. O reggae vira rock depois do primeiro minuto e a participação de Carlinhos Brown (também autor da música) nem incomoda. Tem uns versos que são muito o estilo dele, como "Não vou me enganar, hein". Apesar de não ser fã de Brown, ele tem parcerias excelentes com os Paralamas, como "Uma Brasileira". Bom, gostei dessa música. O nome dela é "Sem Mais Adeus".

14h13 - Chega a vez do primeiro single, "A Lhe Esperar". É um skazinho reggado que lembra Cidade Negra. A estrutura de 2 acordes é bem simples, mas tem barulhinhos incrementando. O trecho mais legal é a terceira estrofe ("Água venha, água vá / Arda lenha, cave pá / Chove chuva, vire curva / Gire roda, quebre mar...") Curiosamente, a música escolhida para ser a primeira de trabalho é a que menos gostei até agora. Observação: "Lhe" é uma palavra muito esquisita quando escrita com letra maiúscula.

14h18 - "El Amor (El Amor Despues Del Amor)" é bonita, mas não me pega muito. A voz do Herbert está mais grave que o habitual, lembrando vagamente (mas vagamente mesmo) um Frejat da vida.

14h20 - "El Amor" é colada na canção seguinte, "Quanto ao Tempo". Outro skazinho, mais lento que "A Lhe Esperar". Um verso cita Roberto: "Os detalhes tão pequenos de nós dois ficaram pra depois". Outro trecho já acho forçadão: "Lágrimas não são forever / Dores já não são together". Já foram 5 músicas e até agora o décimo segundo álbum de estúdio dos Paralamas não me agradou tanto. Mas esta é a primeira audição. Quando comecei a ouvir o "Nove Luas", hoje um dos meus discos nacionais preferidos, costumava pular as faixas pares.

14h24 - "Aposte Em Mim" é um pop rock bacana, que remete ao Skank pós-2000. O refrão tem uma harmonia previsível e não contagia muito. A estrutura dela é uma constante em todo o álbum: letras curtas, repetidas na íntegra por duas ou três vezes.

14h27 - Começa "Mormaço", que tem participação do Zé Ramalho. O estilão é bem nordestino. Zé começa a cantar mesmo na quarta estrofe, mas contribui com um grave grunhido na introdução.

14h30 - "Taubaté ou Santos". Baladinha meio... sei lá, "lounge"? O solo é muito bom, embora dure pouco - tinha potencial pra mais.

14h33 - A faixa-título, "Brasil Afora", abre pesadona, surpreendendo - ainda mais depois do fade out tranqüilo da canção anterior. O vocal quase falado lembra um repente e não me apetece, mas o instrumental pesadão é bom.

14h35 - "Tempero Zen". A melodia vocal lembra Zeca Baleiro. Gosto dos primeiros versos: "No íntimo sinto que todo mundo se sente um tanto único /Sinto que não há qualquer tempero zen que apague essa impressão". O solo final é uma mistura do órgãozinho do The Doors e uma guitarra a la Santana, só que mais lento.

14h38 - Outra que começa roqueira. Vamos ver que rumo toma. O nome é "Tão Bela". Como em "Brasil Afora", gosto muito do instrumental e nem tanto da melodia. Letras faladas são boas quando apropriadas, tipo "O Caminho Pisado", do Nove Luas ("Da cama pro banho, do banho pra sala, o sono persiste, o sol já não tarda / É tudo igual, igual, igual, igual...") Um solo bacana encerra a última música disco.

15h27 - A chuva cai lá fora enquanto termino de editar o post pensando se dou nota pro álbum ou não. Acho que 3 estrelas em 5 seria justo, mas vou evitar quantificar antes de uma boa digestão. Agora é esperar os Paralamas em Beagá para o show da turnê. A julgar pelo nome do disco, eles devem rodar o país de leste a oeste, de norte a sul. E embora seja uma das minhas bandas brasileiras preferidas ainda na ativa, só presenciei duas apresentações ao vivo, salvo engano: no Pop Rock Brasil de 1997 (Independência), ainda com o repertório do "Nove Luas" (uma pena que eu não conhecesse o disco tanto quanto hoje) e na turnê Paralamas + Titãs em 2007, no calor infernal do Chevrolet Hell. Aliás, devo dizer que faz tempo que não vou há um show bom de banda nacional. Em Cabo Frio teve Blitz (sim, ainda existe), mas ficamos no Bar do Don Nicola bebendo antes e chegamos no bis. Em compensação, assistimos ao show do Netinho na íntegra. Uma honra, não?

sexta-feira, 27 de março de 2009

Salada não leva a nada



Quando se é criança, legumes e verduras são ameaças diárias. Você está lá tranqüilo assistindo TV Colosso, e quando o cozinheiro encerra o programa bradando a plenos pulmões: "Tá na horra de matar a fomê! Tá na mess pessoaaal", sua mãe avisa que o almoço encontra-se pronto, quente e devidamente posto à mesa. Então você se regozija com a perspectiva de bater um pratão de lasanha com batata frita, regado a coca-cola e seguido por uma caixa de Bis, mas o que encontra é uma decepcionante combinação de arroz com lentilhas, carne moída com azeitonas, quiabo, abobrinha e rúcula.

E o pior é que mãe tem argumento pra tudo. Do tenebroso "é saudável" ao autoritário "se não comer, não tem sobremesa", estão todos na ponta da língua, prontos pra fazer você parar de chiar e mastigar logo a refeição. Algumas cogitam até a violência física, situação exemplificada no clássico poema "Menino Luxento":

Menino luxento,
Você quer empada?
-Não, mamãezinha,
Está muito salgada.

Menino luxento,
Você quer pudim?
-Não, mamãezinha,
Está muito ruim.

Menino luxento,
Você não quer nada?
Menino luxento,
Pois tome palmada.

Há ainda uma variação muito perigosa: "como você sabe que é ruim, se nunca experimentou?". Perigosa porque mãe é uma espécie com memória convenientemente curta para certas coisas. Não importa que anteontem você tenha feito o maior esforço do mundo pra engolir aquele guisado diabólico. Ela vai botar outra colherada no seu prato e pedir pra você tentar de novo. Sem falar que, nesses casos, dificilmente as aparências enganam. Você bate o olho e sabe que dessa consistência e desse cheiro não pode sair coisa boa. (Uma exceção digna de nota são as pipocas Aritana, que parecem isopor queimado mas viciam como a mais vil das pimentinhas.)

Talvez você se vingue daqui a vinte anos, quando levar sua mãe para uma viagem a Bali.

- Mas mãe, esse morcego tá com uma cara tão boa, você tem que experimentar.

Já caí muito nesse tipo de golpe. Comi sopa de funghi achando que era caldo de feijão estragado, passei horas em frente a uma salada amarga e encarei boas doses de abobrinhas, rúculas, beterrabas, berinjelas e jilós.

- Mãe, eu não gosto de jiló.
- Mas você nunca experimentou...

Um dia me cansei. Mastiguei o jiló na frente dela, peguei um papel e escrevi: "Já provei jiló e não gostei". Diante de um documento irrefutável, ela teria que mudar de argumentos.

Mas a vida passa e os gostos mudam. Foi assim com a comida japonesa, que provei aos 11 anos e considerei hediondo. Sete anos depois, decidi concedê-la uma segunda chance e foi uma agradável surpresa descobrir que meu paladar se adaptava muito bem ao peixe cru com raiz forte.

Na última segunda-feira, por ocasião do aniversário de um amigo, aceitamos sua sugestão de pedir um prato de jiló crocante. A impressão inicial não foi das melhores: algo não vai bem com um tira-gosto que fede. O aniversariante enfrentou primeiro o desafio e fingiu satisfação com sua escolha. Logo criou-se uma regra: só podia comer o pão que vinha junto quem provasse antes o jiló. De olho na recompensa, olhei para o fruto da Solanum gilo, coberto por uma crosta de fritura, e dei-lhe uma dentada sem pensar demais. A crocância era até razoável, lembrando vagamente uma piabinha frita. Mas quando cheguei ao cerne do alimento, o gosto desgostoso veio à tona e me lembrei do pseudo-documento escrito há quase quinze anos. Provei jiló de novo, continuo sem gostar e uma terceira chance, talvez daqui a uns vinte anos.

Os textos inacabados do Biselho # 20

Em fevereiro de 2009...



Leitura dos últimos dias: Walt Disney - O Príncipe Sombrio de Hollywood, de Marc Eliot. Você sabia que titio Walt foi agente do FBI por vinte e cinco anos, delatando ao governo todo mundo que ele achava que era comunista? Que enfrentou greves em seu estúdio durante anos porque se recusava a pagar salários decentes para seus animadores? Que ele nunca desenhou Mickey Mouse e que a famosa logo com a assinatura não era exatamente parecida com sua verdadeira assinatura? Que, no entanto, ele foi o dublador do Mickey por sete anos até que exibiu um dos curtas à sua mãe e ela disse que o camundongo "tinha voz de mulherzinha"?

O livro não apenas descasca e revela os podres de Walt Disney, mas traça um bem escrito panorama de sua vida como dono de estúdio, produtor de cinema e idealizador de parques temáticos; um cara com excelente visão de mercado (aproveitou na hora certa a chegada do som e das cores no cinema), que tinha o dom de escolher os seus projetos e comunicava as idéias - dizem que a cena representando

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Em março de 2009...

Você não conhecia esse lado B do tio Valdisney, conhecia? O livro vale muito a pena, e vale mais ainda conhecer todas essas animações que fizeram a fama dos Estúdios Disney, como o curta dos Três Porquinhos (era disso que eu ia falar no parágrafo que acabou no meio), a primeira aparição de Mickey Mouse em Steamboat Willie ou a orquestra pirada de The Band Concert.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Os textos inacabados do Biselho #19

Em julho de 2008...

Adaptation.

Enquanto Ensaio Sobre a Cegueira não chega, cinco livros que eu gostaria de ver nos cinemas:



5 - O Clube dos Anjos (Luis Fernando Verissimo)

Divertido livro do Verissimo em que dez amigos glutões se reúnem mensalmente para comer e beber bem, mas começam a morrer misteriosamente um a um, envenenados, após os banquetes. Humor, gastronomia e crimes já deram certo no recente Estômago, e Paulo Miklos, que vem se mostrando apropriado para papéis exóticos, bem que poderia encarnar o cozinheiro Lucídio. Porém...

Poderia dar errado: Verissimo já foi adaptado várias vezes para a TV, em programas geralmente bem-sucedidos (lembra do "Comédias da Vida Privada"?). Mas no cinema são poucas as experiências, sendo "Ed Mort" - que não vi, mas não costumo ouvir boas críticas - o exemplo mais famoso. Além disso, é batata: se é filme brasileiro e não tem favela ou ditadura, colocam o Jorge Fernando pra dirigir e aí danou-se. Um elenco de globais bem maquiados não faria jus aos personagens envelhecidos e decadentes que o livro apresenta.



4 - Blecaute (Marcelo Rubens Paiva)

Três amigos se perdem numa caverna e quando conseguem sair, alguns dias depois, São Paulo é uma cidade fantasma, habitada por pessoas estáticas, como se fossem de plástico. O tema de gente sozinha no mundo me agrada bastante e seria interessante ver a situação num cenário tupiniquim. A grana economizada no elenco poderia ser aplicada nos efeitos especiais, incluindo a antológica cena em que a Avenida Paulista, de cima a baixo, é pintada de vermelho. Porém...

Poderia dar errado: Convenhamos. Uma coisa é a Nova York deserta de "Eu Sou a Lenda", com uma Hollywood inteira por trás. Quando teríamos isso num filme nacional? Mesmo com um elenco enxuto, seria fácil a produção brasileira mais cara de todos os tempos. Imagine a cena em que uma Avenida Paulista deserta é pintada de vermelho de cima a baixo...



3 - O Homem Que Matou Getúlio Vargas (Jô Soares)

Um assassino sérvio com seis dedos em cada mão, especializado em matar tiranos - ou pelo menos em tentar -, resolve dar um fim ao presidente Vargas. O protagonista é divertido e o livro é cheio de cenas engraçadas. Sem falar que metade do elenco de Agosto poderia arranjar emprego novamente.

Poderia dar errado: Vamos por partes. "O Xangô de Baker Street", o livro, também tinha um protagonista divertido e várias cenas engraçadas - mas nem pro isso o filme conseguiu passar a mesma coisa na telona. "O Homem Que Matou Getúlio Vargas" é ainda mais ambicioso: compreende cerca de 40 anos de História mundial, indo de momentos tão díspares quanto a Primeira Guerra e a morte de Vargas, personagens tão diversos quanto Mata Hari e Franklin Roosevelt e cenários tão antagônicos quanto Sarajevo e a Ilha dos Leprosos. Vá tentar espremer isso num filme de duas ou, vá lá, três horas. Junte um protagonista com seis dedos (não vale chamar a Cicarelli), locações em três continentes e a óbvia dificuldade de fazer piadas literárias funcionarem na telona e temos a receita do caos.



2 - O Restaurante do Fim do Universo (Douglas Adams)

Seqüência de "O Guia do Mochileiro das Galáxias", continua a aventura de Arthur Dent, Ford Prefect, Trillian, Beeblebrox e o robô-emo Marvin pelos confins do Universo, após a destruição total da Terra. Mais divertido e ambicioso que o primeiro, o livro traz situações tão diversas quanto o fim do universo, o encontro com o homem que rege o universo e a Terra pré-histórica de dois milhões de anos atrás.

Poderia dar errado: O livro não tem propriamente um final, e qualquer tentativa de fechar a história soaria falsa.



1 - Cem Anos de Solidão (Gabriel García Márquez)

A saga da família Buendía ao longo de mais de cem anos. Quem não consegue imaginar a cena inicial, com o coronel Aureliano Buendía diante do pelotão de fuzilamento, lembrando daquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo?

Poderia dar errado: O livro é grande demais e todas as páginas são indispensáveis. Talvez uma mini-série da HBO, com 20 episódios de uma hora, falados em espanhol, fosse mais fiel. Um filme só não daria conta do recado mesmo - uma trilogia já ajudaria.

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Em março de 2009...

Gostaria muito de assistir a qualquer um desses filmes, mas legal mesmo seria uma animação 2D dos Saltimbancos, com o áudio integral do disco original...

quarta-feira, 25 de março de 2009

Os textos inacabados do Biselho # 18

Em maio de 2008...



Shut up and drive

Meu sonho de consumo na categoria videogames de carros sempre foi um GTA situado em Belo Horizonte. Não que esteja na minha lista de prioridades, no mundo real, explodir um tanque na Praça Sete ou afundar um Cadillac na Lagoa da Pampulha. Mas dirigir numa cidade real que eu conheça bem, como se não houvesse amanhã ou normas de conduta em sociedade, seria uma experiência interessante.

E olha, acho que isso não tá longe não. Primeiro o Google Earth lançou uma versão em 3D de Berlim, com minúcias como a bandeira da Alemanha que flamula sobre o Parlamento. Agora inventaram o Google Drive, um aplicativo simples que permite que você dirija sobre os mapas do Google Maps - todos os mapas, do mundo inteiro. Não chega aos pés nem do primeiro GTA (tá mais pro Enduro do Atari, aliás), mas tem tudo lá: é só digitar o nome da cidade (London, New York, Belo Horizonte, Birigüi) e guiar o carrinho pelos becos. Bom para quem, como eu, só guarda caminho se dirigir por ele antes.

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Em março de 2009...

Ainda não lançaram o GTA Belo Horizonte, mas achei um plug-in pro Vice City do De Volta Para o Futuro que é fantástico. Dá pra dirigir o DeLorean, voar, pilotar a locomotiva... Missões? Não tem nenhuma, mas o que interessa é atropelar pessoas e viajar no tempo!

terça-feira, 24 de março de 2009

Os textos inacabados do Biselho # 17

Em novembro de 2007...



Top Secret Area

Cartucho de hoje: Street Fighter II

Ganhei o Street Fighter II junto com o Super Nintendo, numa época em que o II Turbo já possibilitava jogar com os chefões, repetir personagens e teleportar o Dhalsim. O Street Fighter II não trazia essas mamatas. Você tinha que jogar no braço e ganhar de todos os personagens pra ver a cara do M. Bison (e não Mr. Bison, como muita gente achava). Como as opções eram poucas, a gente explorava ao máximo

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Em março de 2009...

"Top Secret Area" era uma seção que eu tinha imaginado sobre jogos de videogame que marcaram minha infância. Street Fighter foi, sem dúvida, o principal. (Com Super Mario World vindo em segundo lugar.) Quando tinha 9 anos, minha rotina diária era escola, almoço e Street Fighter. Em 1995, fizemos um campeonato de Super Street Fighter II lá em casa. O filme é um dos piores de todos os tempos, mas na época assisti duas vezes no cinema. Lançaram o Street Fighter IV esses dias e vem filme novo por aí, mas a melhor adaptação vai continuar sendo o brilhante Street Fighter - Later Years, do College Humor.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Os textos inacabados do Biselho # 16

Em outubro de 2007...



Lamento

- A tecnologia tá matando a arte, sabia?
- É mesmo?
- Bom era quando tinha LP. O disco grandão, com cara de disco, com capa de disco. Aquele encarte gigante, com as letras enormes, que dava pra ler. Não essas letrinhas miúdas de hoje. Eu não quero precisar de óculos pra apreciar um disco, sabe?
- Sei, sei.
- Mas o melhor era o conceito de dois lados. Lado A, lado B. Uma obra com duas metades. O cara tinha que preocupar com a música de abertura do disco, a música que fechava o lado, a música que abria o lado B... as canções que ficam nos extremos são muito importantes. Dão uma cara pro disco. Sabe como é?
- Sei.
- Aí surgiu o CD. Eliminaram o lado B. Estraguei meu primeiro som assim. Tentando ouvir o lado B do CD. Não fazia sentido pra mim eles terem eliminado a segunda metade.
- É. Complicado.
- Mas o álbum, como obra, um disco inteiro, várias músicas pensadas pra serem ouvidas naquela ordem, isso continuou existindo. Mas aí começou a onda de pegar música na Internet. Percebe o que aconteceu?
- O que aconteceu?
- Todo mundo só baixava música avulsa. Uma faixa de cada vez. Um artista de cada vez. É como se todo mundo assistisse só as cenas ao invés do filme inteiro. Lamentável. Lamentável, cê tá me entendendo? A arte acabou. O lado A e o lado B se condensaram, se desmembraram e agora são só isso, retalhos musicais, canções soltas sem identidade. Tá entendendo como isso é ruim? Tá me ouvindo?
- Tô te ouvindo, tô te ouvindo. Mas pelo amor de Deus, pô. Vira o disco!

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Em março de 2009...

O pior de tudo é que a indústria passou a década sem conseguir se adaptar, e ainda lança mão de recursos duvidosos como proibir a comunidade Discografias. Ainda ouço muito vinil e baixo muita mp3, mas só Deus sabe a última vez que comprei um CD...

domingo, 22 de março de 2009

Os textos inacabados do Biselho # 15

Em outubro de 2007...



Esta não é uma resenha do In Rainbows. É um texto com base em memórias pessoais. O fio central que une essas memórias, por acaso, é o Radiohead. Uma banda que divido em duas fases. A primeira vai até o OK Computer. Depois disso, não é que desandou. Mas eu prefiro música orgânica. Eletronizou demais, esqueço de ouvir. Mas desde o Pablo Honey eles já eram menos rádio e mais cabeça. Minha lembrança mais antiga do Radiohead vem da propaganda do Carlinhos. Carlinhos faz aula de piano, o amigo dele não. Ei, esse é o Carlinhos. Quando a década acabou, eu tinha quinze anos e estava mais interessado em ouvir Nirvana, que disputava com o OK Computer o posto de melhor disco dos noventa. Fui ouvir o Pablo Honey direito num sítio. Ripcord ficou na cabeça e ainda me lembra violão no quarto, centro de Belo Horizonte, amores mal resolvidos. Dele pulei pro tão falado Computer, toquei Karma Police no violão umas quinhentas vezes, usei Paranoid Android pra me deixar no clima de escrever diálogos depressivos para um livro que nunca terminei. Baixei o The Bends, que surpreendeu por ir muito além da famigerada Fake Plastic Trees. Se for pra escolher um só, fico com o The Bends. O Kid A não me apeteceu nem um pouco, admito. Talvez por isso, nunca cheguei a ouvir o Amnesiac. Bota na lista de discos que preciso baixar. No álbum seguinte tem 2 + 2 = 5, canção

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Eu ia elogiar 2 + 2 = 5, uma das poucas canções que gosto no Hail to the Thief. Mas escutei o Kid A recentemente e me apeteceu muito mais. Vai entender.

sábado, 21 de março de 2009

Os textos inacabados do Biselho # 14

Em dezembro de 2006...



Anne Frank
Diário de Uma Jovem


Às vezes os diários são mais interessantes que autobiografias por causa do fator "calor do momento". Na autobiografia o cara lembra de histórias passadas, brigas que já foram, e examina tudo à luz das conseqüências. Se com o passar do tempo aquilo perdeu importância pra ele, periga ele nem mencionar no livro, e com isso

No diário não: a menina tá puta com a mãe, vai lá e solta os cachorros com o amigo imaginário de celulose.

diários diferente de autobiografias, diários mostram o que a pessoa achava daquilo no dia, autobiografias são escritas depois, quando os animos ja esfriaram, a pessoa ja mudou, às vezes autobiografias não mencionam certas pessoas com quem o autor conviveu durante ano pq essa pessoa ja perdeu importancia pra ele, mas se fosse na epoca mencionaria

É por razões como essa que o diário de Anne Frank se torna uma leitura fascinante. Escrito numa fase especialmente conturbada para garotas, dos seus 13 aos 15 anos, durante um período mais conturbado ainda para a humanidade, de 1942 a 1944.

O diário começa com um relato bem-humorado do dia-a-dia de Anne na Holanda, a escola, os namoricos,

Poucas páginas depois, porém, sua família é obrigada a escapar da perseguição aos judeus e se mudar para um esconderijo num prédio no centro de Amsterdam, apelido por seus ocupantes clandestinos de "Anexo Secreto".

poucas paginas após o início do diário, que começa com um relato bem-humorado do seu dia-a-dia na Holanda, a família de anne foi obrigada a se mudar para um esconderijo, num prédio no centro de amsterdam, apelidado de "Anexo Secreto" por seus ocupantes clandestinos. junto de anne, seus pais e sua irmã, também viveram nesses 2 anos uma outra família e um dentista avulso. eram ajudados por outras pessoas.

curiosidades como as "Regras do Anexo Secreto", escrita por um dos moradores, com trechos como: "Todo idioma civilizado é permitido, portanto nada de alemão"

Brigas por causa de banalidades e todas as angústias adolescentes por que ela passava convivem no diário com minuciosas descrições sobre a moradia, o cotidiano do esconderijo, as comidas ou a falta delas, o banheiro, o medo de serem pegos e as notícias da guerra, que vão se tornando cada vez mais freqüentes nos relatos de Anne à medida em que a guerra se aproxima de um fim, culminando com o desembarque dos aliados no Dia D e a esperança de que a Holanda seja libertada da ocupação alemã.

De fato foi. Mas em agosto de 1944,

ainda hoje há dúvidas sobre a autenticidade do diário
no epílogo: "À parte algumas passagens, que pouco interessariam o leitor, foi impresso o texto original."

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Em março de 2009...

Taí um texto realmente inacabado: parágrafos incompletos, rascunhos desleixados e um monte de frases que terminam no meio. Dois meses depois eu tive a oportunidade de visitar a casa de Anne Frank, uma experiência realmente

sexta-feira, 20 de março de 2009

Os textos inacabados do Biselho # 13

Em novembro 2006...



No dia em que for eleito vereador, já tenho o primeiro projeto de lei que apresentarei. Mas não será para instituir pontos de amarração de cadarço nas calçadas, ao contrário do que venho dizendo ultimamente (apesar de que ainda a julgo uma boa idéia... quem tem All Star com cadarço de três metros sabe do que estou falando).

Meu projeto é para regulamentar os nomes de ruas da cidade.

1) Ponto principal: os nomes devem ser pronunciáveis por qualquer cidadão brasileiro. Não devem restar dúvidas quanto à sua grafia.

2) Se quiser homenagear alguém, é nome e sobrenome. Nada de colocar o nome completo do Dom Pedro. E convém evitar as profissões mais complicadas. "Otorrino Otto Renault"

Junto com o projeto, eu apresentaria um detalhado estudo sobre a quantidade enorme de dinheiro perdido por ano por causa de confusões de nomes de ruas. Correspondências e encomendas extraviadas, tempo gasto no telefone ("Apgaua... A-pê-gê-ú-á... não, não é Apágua, é Apgaua!", etc), gente perdida por confundir ou não lembrar o nome da rua...

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Em março de 2009...

Não pretendo me candidatar pelos próximos trinta anos, mas se alguém quiser apresentar o projeto na Câmara, fique à vontade.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Os textos inacabados do Biselho # 12

Em outubro de 2006...



O grande malandro da praça

Chico Buarque é um farsante. Depois de passar uns bons quatorze anos tendo o cara em alta conta por ser ele o mentor da zôo-ópera Os Saltimbancos, o compositor de canções tão díspares de sua obra usual como "A Cidade Ideal"

Top 4 canções saltimbânquicas:

4. Minha Canção
3. A Cidade Ideal
2. História de Uma Gata
1. Todos Juntos

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Em março de 2009...

Como não terminei nem a segunda frase do post, deixei de explicar o motivo do "farsante": sempre tinha achado que Chico Buarque era o compositor e letrista de todas as canções dos Saltimbancos, disco fantástico que tem a Nara Leão, a Miúcha e outras figuras, além de músicas excepcionais como as citadas acima. Na verdade, ele traduziu as letras para o português, a partir do original em italiano de Sergio Bardotti (texto) e Luiz Enriquez (música). Não deixa de ser uma excelente adaptação, mas que não é dele de verdade, não é. Tem um DVD muito bom sobre a obra, "Chico Buarque - Saltimbancos", décimo primeiro de uma série de doze. Assistam.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Os textos inacabados do Biselho # 11

Em agosto de 2006...



Leve desespero

Domingo. Criança Esperança. Capital Inicial cometendo playback. O baterista faz uma dancinha e sacode o pandeiro meia-lua, mesmo que, no áudio, a bateria coma solta. Black Gold Dinho grita "Que país é esse?". O sonoplasta responde com a crássica vinhetinha: "Brasil-sil-sil".

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Em março de 2009...

Acho que não resta mais nada a comentar.

terça-feira, 17 de março de 2009

Os textos inacabados do Biselho # 10

Em fevereiro de 2006...



Em poucos dias, Katilce deixou de ser uma mera baranga que beijou o Bono pra virar ícone da internet, mito do orkut. Mais que isso: virou instituição. Reles desconhecida na segunda-feira, na terça ela já era reportagem em todos os telejornais e a homenageada em 50 comunidades no orkut. Na quarta o número pulou de 50 pra mais de 800, e hoje já passam de mil (isso porque o orkut não mostra mais o número quando ultrapassa o primeiro milhar). Quarta à noite e Katilce atingiu a marca história de um milhão de scraps.

De início as mensagens eram todas endereçadas a ela, mas logo seu scrapbook virou espaço público, visitado por centenas, talvez milhares, de pessoas ao mesmo tempo. Virou chat. Pessoas fazem amizades, tentam vender suas bugigangas e divertem-se à beça no scrapbook da moça. "Te vi na Katilce" virou bordão e nome de quinze comunidades diferentes.

A diversão ontem à noite, enquanto contribuíamos para chegar a um milhão de scraps, era fazer com que desconhecidos postassem mensagens non-sense em nosso próprio scrapbook. Fiz um teste e escrevi assim: "Me viu? Escreva Y no meu scrap". Ganhei cinco ípsilons, um X e uma mensagem assim: "Y e viva o Chuck Norris pelado!" Sucesso total.

O audacioso passo seguinte foi tentar fazer com que desconhecidos postassem em scrapbooks alheios.

Qual será o próximo passo?, as pessoas perguntarão. Um portal katilciano, com domínio www.katilce.com.br? E se eu te disser que já existe?

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Em março de 2009...

O portal katilciano não existe mais e definitivamente não se fala dela hoje como há três anos, mas ainda restam algumas centenas de comunidades no orkut em sua homenagem. Quem sabe na nova turnê do U2 ela não volta à grande mídia?

segunda-feira, 16 de março de 2009

Os textos inacabados do Biselho # 09

Em novembro de 2005...



E se as pessoas fossem coloridas?

- Pai, tenho que te contar uma coisa.
- O quê, minha filha?
- Eu... eu conheci um cara amarelo.
- Amarelo??
- É, pai. Um amarelo meio ouro.
- Minha filha, você sabe o que eu penso a respeito disso.
- Sei, pai. Que a gente carrega essa nossa tonalidade azul há tantas gerações, e blá, blá, blá.

>> Alternativa bélica: haveria guerras por todo mundo, pois cada raça se adaptaria melhor a um tipo de lugar. As pessoas verdes às florestas, as azuis aos rios e mares, as marrons às montanhas, as brancas à neve. Pessoas rosas, claro, seriam todas dizimadas.

>> O Green Peace teria que mudar de nome pra não passar por grupo racista.

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Em março de 2009...

O arremedo de idéia das pessoas coloridas não chegou nem a ser desenvolvido, mas o Blue Man Group e o Dr. Manhattan tão aí pra provar que provavelmente elas fariam sucesso.

domingo, 15 de março de 2009

Os textos inacabados do Biselho # 08

Em agosto de 2005...



O princípio que às vezes se aplica ao vestuário
Lembra um pouco o que ocorre com os cães
Assim como certas roupas são relegadas ao armário
Algumas raças somem do mapa como infelizes capitães

É só pensar quanto tempo faz que você
Não vê nas ruas um doberman, um fila
Enquanto ainda se proliferam poodles e bassets

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Em março de 2009...

Um dia vi um dálmata na rua e fiquei pensando como raças caninas caem de moda: qual foi a última vez que você viu um pequinês, por exemplo? Comecei a escrever um soneto sobre o tema, mas tava tão ruim que não tive pudor em abandoná-lo.

sábado, 14 de março de 2009

Os textos inacabados do Biselho # 07

Em agosto de 2005...



Este é o centésimo post do bISELHO, e deu vontade de voltar a contar histórias. No começo do blog eu falava dos tombos engraçados, da visita ao zoológico e dos primeiros de abril que eu tinha passado. 100 posts depois, vejo que tenho escrito bem mais sobre discos, filmes, sites que descobri, e resolvi contar alguns casos do passado pra variar um pouco.

Daí lembrei do reveillón de 2000 pra 2001, virada de século, que passei na Bahia, na primeira vez em que me aventurei na região nordeste brasileira. Fui com meus pais e meu primo Bruno. A intenção era subirmos de carro até Ilhéus, mas as muitas e muitas horas na estrada nos cansaram e nos fizeram pesquisar num guia de viagem alguns hotéis numa cidade mais perto que nosso destino original. Chegamos ao Quiriri Park Hotel, na cidade de Prado, na tarde do dia 27 de dezembro, e nos estabelecemos em dois quartos, um para meus pais e outro que dividi com o Bruno, onde tínhamos, com certa freqüência, problemas com baratas.

Não havia realmente muito o que fazer na cidadezinha. Tinha uma feirinha noturna, um monte de lojinhas de bugigangas e praias apenas razoáveis, como a da praia da Barraca 51, a melhor que encontramos por ali. Nossas manhãs de sol, na verdade, eram mais dedicadas a passear pelos arredores do que ficar em Prado. Fomos à praia do Tororão, ao balneário de Guaratiba, à farofada de Alcobaça e à impronunciável Cumuruxatiba. O melhor lugar que achamos foi Guaratiba, uma espécie de condomínio fechado misturado com praia, onde os garçons que nos serviam não faziam jus às boas ondas que o mar de lá nos oferecia.

O cúmulo foi o diálogo que tive com um garçom:
- Me traz uma Coca.
- Só tem Pepsi – disse ele.
- Então traz uma Fanta.
E, quando vejo, ele tinha me levado um Guaraná.

Guaratiba e as demais praias vizinhas eram em geral melhores que as de Prado, e o sol tão forte quanto, e o resultado foi que me queimei feio no lugar menos improvável, o peito do pé, onde tinha esquecido de passar protetor solar. Demorei uns dois dias para conseguir calçar um simples chinelo, e tive que caminhar descalço pela cidade quando íamos jantar à noite em restaurantes como o “Bânâna” da Terra, acentos circunflexos meus numa imitação da pronúncia local. Na falta de um creme pós-sol para aliviar o ardor do pé, a única solução foi passar Hypogloss. Na manhã seguinte, cometi o terrível erro de brincar com o pé na areia, que grudou toda na pomada, causando arranhados irritantes quando precisei, no banho, tirar a mistura grudenta do peito do pé.

Nossa rotina de praia de manhã/hotel de tarde/restaurante à noite durou até o último dia do ano, e também do século e do milênio, quando estávamos todos meio queimados e o dia ainda amanheceu meio nublado, e em vez de irmos à praia decidimos pegar o carro e dirigir até o Monte Pascoal, o primeiro monte de terra que a esquadra de Cabral avistou no dia em que chegou a Porto Seguro.

Assim que chegamos lá, os pataxós que nos receberam indicaram o caminho para o Centro de Visitantes, que não tinha muita coisa além de uns mapas e um jaboti, que um indiozinho se apressou em colocar no chão pra andar quando viu que tinha gente chegando. A grande atração turística do parque era mesmo a caminhada até o topo do Monte. Quando expressamos o desejo de subir até lá em cima, o jovem índio que seria nosso guia olhou pros meus pés calçados apenas com chinelos e perguntou:

- Você não tem um tênis, não?

Eu não tinha, e logo entendi o porquê. A caminhada no Monte, que começava plana e ia ficando cada vez mais íngreme, era feita sobre um tapete imenso de folhas e mato, e eu tinha que olhar muito bem pra onde estava pisando porque os insetos que habitavam aquela região eram, digamos, um tanto maiores que os que eu estava acostumado. Um bom tempo depois, meu pai cada vez mais cansado do terreno cada vez mais difícil, perguntou ao indiozinho que ia na frente quanto mais faltava até o topo, e ele respondeu:

- Uns dois terços.

Voltamos para o ponto de partida, desviando das formigas gigantes, sem nem ao menos atingirmos a metade da subida ao topo do Monte. Antes de ir embora ainda assistimos a uma apresentação de dança indígena, onde todos ficavam andando em círculos enquanto repetiam: “Pataxó subiu a serra, todo enfeitado de pena / Ele foi e ele é o guerreiro da Jurema”.

Do parque, em vez de voltarmos ao tédio do hotel, pegamos o sentido contrário da estrada e subimos ainda mais, em direção a Porto Seguro. Em uma tarde fizemos visitas rápidas à cidade e também aos seus “satélites”, Trancoso e Arraial d’Ajuda, cujo único acesso era por uma balsa que levava passageiros e carros por sobre o rio Buranhem.

O único problema era a axé music, uma constante por aqueles lados baianos. Não chegamos a ouvir uma música boa naqueles dias passados no Nordeste. A única rádio que tinha pra ouvir quando passávamos horas na estrada, como naquele 31 de dezembro, era a Pataxó FM, na qual ouvimos pela primeira vez, e várias outras vezes depois, uma das canções mais peculiares daquela época, Bomba, cantada pelos Braga Boys, que começava com os versos “Sensual, o movimento é sensual / Sensual, o movimento é bem sexy / Sexy, o movimento é bem sexy / Sexy, já tá chegando o Braga Boys com essa dança que é uma bomba...”.

Era essa a música que pairava nas nossas cabeças, quando chegamos ao hotel com o sol já posto e descobrimos que a luz tinha acabado, e isso que precisávamos tomar banho para sair e comemorar a passagem de ano. Tomar banho no escuro não foi tão difícil. Complicado mesmo era descobrir qual a cor das camisas que estavam no guarda-roupa e como pegar a branca pro reveillón, pois a única luz de que dispúnhamos, além do pisca-pisca de um farol tão longe que não adiantava nada, era a luz azul do meu relógio de pulso, que também não ajudava já que modificava a cor das camisas. Quando descemos pro saguão do hotel e conferimos, à luz de velas, se as camisas estavam mesmo certas, a energia ainda não tinha voltado e a maioria dos hóspedes estava lá embaixo, esperando a ceia prometida pela gerência do hotel, que só pôde ser realizada quando a luz voltou. Passamos as últimas horas do ano 2000 em busca de algum lugar onde ficar na hora da virada, e cogitamos até o show dos Braga Boys que estavam anunciando no centro de Prado, mas acabamos optando por uma prainha meio deserta, onde brindamos com champanhe e vimos os fogos em meio a várias contagens regressivas diferentes que ouvíamos.

Quando o século XXI chegou, a musiquinha do movimento sexy ainda continuava na nossa cabeça.

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Em março de 2009...

A década já tá quase acabando de novo, mas a saudosa canção dos Braga Boys pode ser relembrada no YouTube.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Os textos inacabados do Biselho # 06

Em junho de 2005...



I hear dead people

Descobriram uma partitura inédita de Bach, até então displicentemente esquecida numa biblioteca alemã. Fantástico. Os fãs de Bach, que estão há mais de 250 anos sedentos por uma música nova do compositor, finalmente podem comemorar. Segundo Christoph Wolff, diretor da Fundação Bach, trata-se de "uma obra de excelente qualidade". Ainda bem que ele gostou. É o diretor da Fundação Bach, o presidente do fã-clube, vamos dizer assim. Imaginem se ele criticasse?

Se entre os compositores clássicos não é lá muito comum acharem partituras perdidas por aí, na música contemporânea a situação é outra: dá-lhe caixa de raridades do Nirvana, projeto Anthology dos Beatles, Let It Be Naked, fitas perdidas do The Clash, a lista é longa. Certos mortos trabalham mais do que alguns vivos. John Lennon, por exemplo. Lançou duas músicas inéditas com os Bítous na década passada, "Free As A Bird" e "Real Love", sem que fosse pedida sua opinião. O cantor Nat King Cole, depois de morto, gravou um dueto com sua filha, Natalie, onde "juntos" interpretavam "Unforgettable".

Mas o campeão é mesmo Renato Russo. O cara morreu em 1996 e desde então vem colecionando uma lista invejável de lançamentos: um álbum de inéditas com a Legião Urbana, um acústico, dois discos ao vivo, dois álbuns solos e participações em canções alheias. Por exemplo, Múmias, do Biquíni Cavadão. Tem até clipe, com uma cadeira "representando" Renato Russo (será que o menininho do Sexto Sentido consegue ver o cantor?).....

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Em março de 2009...

Quatro anos depois, os Beatles já lançaram um disco de remix e o Renato Russo lançou mais outro ano passado. E o U2 nesse ritmo lento de um álbum a cada cinco anos...

quinta-feira, 12 de março de 2009

Os textos inacabados do Biselho # 05

Em março de 2005...



Uns bicho estranho, com um tal de gergelim


Assisti ao Super Size Me, espécie de "Jackass" disfarçado de documentário onde o autor, diretor e protagonista passa 30 dias comendo exclusivamente produtos do McDonald's. É claro que ele fica um trapo. Numa determinada cena, um médico descreve seu fígado como tendo a textura de um patê.

É um filme interessante. Só que parte de um argumento um tanto quanto óbvio: comer no McDonald's todos os dias faz mal. Bah. Quem não sabe? Morgan Spurlock, o sujeito em questão, parece sofrer da síndrome de Michael Moore: documentários tendenciosos onde o diretor faz questão de dar as caras toda hora. Não sou particularmente fã do Michael Moore. Fahrenheit é muito bom, Tiros em Columbine é muito bom, mas vi uns trechos do primeiro filme dele, Roger e Eu, e passei a considerá-lo um chato de galochas.

Hoje eu não como muito no McDonald's por causa do custo/benefício. Um McChicken da vida custa hoje mais do que a promoção inteira, com refrigerante e batata frita, custava há uns anos. Não dá pra pagar nove, dez reais num negócio desses quando no próprio shopping, onde as coisas são sempre caras à beça, você pode pedir um sanduíche no supermercado

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Em março de 2009...

Quatro anos depois, a promoção do McDonald's está em vergonhosos quatorze reais. A previsão para 2019 é que apenas o hambúrguer custe vinte e cinco reais, mais quatro pelo guardanapo e sete e cinqüenta por um saquinho de catchup. É só esperar.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Os textos inacabados do Biselho # 04

Em março de 2005...



Nove anos depois, completados hoje, eu ainda sei cantar na íntegra "Uma Arlinda Mulher", "Mundo Animal", "Lá Vem o Alemão" e todas as outras. E é impressionante como muita gente ainda sabe também. Quando toco uma dessas em churrascos ou no boteco de sexta-feira na faculdade, sempre juntam uns bêbados em volta, cantando tudo.

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Em março de 2009...

Tirando o fato de que não estou mais na faculdade - e de que não se passaram nove anos, mas treze (TREZE!) -, continua a mesma coisa. No último 2 de março, como de praxe, ouvi o cd na íntegra durante o café da manhã.

terça-feira, 10 de março de 2009

Os textos inacabados do Biselho # 03

Em fevereiro de 2005...



Ewanessence Camargo
Os Paralamas do Hawaira!
Carlinhos Brown Jr.
Bob Dylon
Dead Kenny G's

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Em março de 2009...

Ok, não era nem um texto, só algumas idéias para nomes de bandas misturadas, baseados no Beatallica (projeto muito legal que mistura canções dos Beatles com o estilão do Metallica). Nenhum ficou exatamente brilhante, mas "Dead Kenny G's" foi uma sacada até legal. O problema é que fui no Google e acabei de descobrir que já existe!

segunda-feira, 9 de março de 2009

Os textos inacabados do Biselho # 02

Em janeiro de 2005...



So many people... so many fucking people...
(da nova série de posts musicais Resenhas originais de discos piratas)

Há quatro anos, o Rock in Rio ainda acontecia no Rio, não em Lisboa, e, apesar de não estar lá, na Cidade do Rock, pulando no meio da galera, pude assistir a vários shows pela televisão. Vi Axl Rose sacudindo as banhas, o Carlinhos Brown levando latinha na cara e o Barão Vermelho em seu último show por muitos anos. Vi a Cássia Eller mostrando os peitos, o Ultraje a Rigor mostrando a bunda e o baixista do Queens of the Stone Age chutando o balde e mostrando tudo.

O show do Foo Fighters foi um dos mais legais. Teve solo duplo de bateria em "Stacked Actors", o Dave Grohl comemorando o aniversário em cima do palco e a maioria dos hits até então. Ao contrário do Iron Maiden, que lançou seu show no Rock in Rio em cd e dvd, o Foo Fighters não fez nada disso, mas, meses depois, num camelô no centro da cidade, encontrei por acaso um bootleg chamado Foo Fighters - Rock in Rio 2001, que trazia o show deles no dia 13 de janeiro na íntegra.

O som não é lá essas coisas, por ser uma gravação pirata e mesmo porque o som deles em cima do palco também não estava muito bem equalizado. O começo de "Breakout", com uma enrolação do caramba, também deixa a desejar, mas o resto compensa. Tem o momento isqueiro em "Up In Arms", em que Dave Grohl comenta a respeito da quantidade de pessoas presentes: "Soooo many people... soooo many fucking people...". Tem "Monkey Wrench" e uma pequena demonstração de falta de fôlego na parte final, composta de gritos ininterruptos meio difíceis de se reproduzir ao vivo.

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Em março de 2009...

Já se passaram oito anos e até hoje o Rock não voltou a ser in Rio. O Foo Fighters também não voltou ao Brasil e parece que vai demorar - seguindo o exemplo de muitas bandas, estão em recesso por tempo indeterminado. Foi uma boa lembrar desse cd, vou ver se acho lá em casa. O show também deve estar guardado em algum VHS mofado no fundo do armário...

domingo, 8 de março de 2009

O Biselho completa hoje inacreditáveis 5 anos, e só eu e o Google sabemos quantos posts ficaram só na idéia nesse tempo todo. Pra comemorar o aniversário do blog e me livrar de todo esse lixo guardado, começo hoje uma série de 20 posts, um por dia e em ordem cronológica, com alguns desses textos incompletos. Alguns só foram rascunhados, outros mais desenvolvidos, mas todos estavam esquecidos no mundo virtual - até agora.

Os textos inacabados do Biselho
#01 - Supertramp

Em janeiro de 2005...



Foi em dezembro de 1991. Eu tinha seis anos, quase sete, e fui num aniversário de um amigo do meu pai. Festa grande, tinha até dançarinos de break, a dança da moda na época. Tinha também uma banda chamada Cia. Supertramp, que fazia covers da banda inglesa Supertramp, mais conhecida do grande público pela canção "The Logical Song", que até o Emmerson Nogueira canta. Gostei muito da banda. Mais tarde soube que meu tio também fazia parte, tocando saxofone, mas não tinha ido naquele dia.

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Em março de 2009...

Não lembro qual o motivo para eu começar esse post inacabado sobre o Supertramp, mas continuo ouvindo constantemente a banda até hoje. Esses dias baixei seus dois primeiros discos, que não conhecia. Mas os melhores mesmo, daqueles que você precisa baixar agora antes que um meteoro caia sobre a sua cabeça, são o Crime of the Century e o Breakfast in America.

Quem

Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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