sexta-feira, 17 de abril de 2009

Devia ser proibido



Todo mundo fala do Latino ou do Calypso, mas uma das letras mais picaretas da música brasileira recente vem da afamada e aclamada senhora Marisa de Azevedo Monte, junto de seus comparsas Dadi e Seu Jorge. Senão vejamos:

Jujuba, bananada, pipoca,
Cocada, queijadinha, sorvete,
Chiclete, sundae de chocolate.

Começa com uma estrofe claramente sem critério. Não que seja ruim escrever uma letra só com nome de doces - George Harrison já fez isso em "Savoy Truffle" (do Álbum Branco), acrescentando que seu interlocutor poderia se deliciar com tudo aquilo, mas teria que arrancar todos os dentes depois da trufa de Savóia. Também não falo mal da falta de rimas: grandes clássicos do cancioneiro popular já foram feitos só com versos brancos ("A rosa com cirrose, a anti-rosa atômica / Sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada"). Mas "Jujuba, bananada, pipoca"? "Chiclete, sundae de chocolate"? Qualquer turma de maternal escreve um disco assim em uma tarde de brincadeiras.

Paçoca, mariola, quindim,
Frumelo, doce de abóbora com coco,
Bala juquinha, algodão doce e manjar.

Aqui o caso é diferente. Relendo as prosaicas sobremesas encaixadas na primeira estrofe, os autores nitidamente tentaram se superar adicionando nomes de doces menos usuais, como a mariola e o frumelo. Pode averiguar: nunca a Bala Juquinha e o doce de abóbora com coco foram empregados tão gratuitamente quanto aqui.

Venha pra cá, venha comigo!
A hora é pra já, não é proibido.
Vou te contar: tá divertido
Pode chegar!

As primeiras rimas dão as caras. Um primor: "Venha pra cá" com "A hora é pra já", "contar" com "chegar", "comigo" com "proibido". De fazer inveja em Fernando Pessoa. Mas o ponto principal que quero abordar sobre este trecho é que ele é um refrão de axé disfarçado. Não faltam nem os verbos no imperativo. Eu não me surpreenderia se uma cantora baiana cantasse essa música no próximo Carnaval. Opa, espera aí: a Ivete Sangalo já fez isso.

Vai ser nesse fim de semana
Manda um e-mail para a Joana vir

Marisa Monte mostra como está antenada com as novas tecnologias, num apropriado uso da palavra "e-mail" em uma letra. Nos próximos álbuns certamente ela vai mandar um scrap para o Pepe e um Twitter para o Peter. E a Joana em questão é tão importante para Marisa que não vai receber um telefonema nem uma mensagem de celular, que são instantâneos, mas um e-mail que ela pode nem chegar a abrir. Sorte a dela.

Não precisa bancar o bacana
Fala para o Peixoto chegar aí!

O primeiro verso é cantado com duvidosa dicção e eu sempre entendia algo como "Não precisa esquentar a cama". Acho que o meu virundum é melhor. O segundo é coberto de mistérios: será que ela se refere ao ilustre Floriano Peixoto, segundo presidente do Brasil? Ou a Alvarenga Peixoto, poeta e inconfidente exilado na África? Talvez ao médico, político, escritor e crítico literário Afrânio Peixoto? Fica a pergunta.

Traz todo mundo, tá liberado, é só chegar.
Traz toda a gente, tá convidado, é pra dançar,
Toda tristeza deixa lá fora, chega pra cá!

Esse refrão sem-vergonha é um axé por si só. Dava pra encaixar fácil aí no meio um "O povo do gueto mandou avisar". E como boa música de axé, é nesse ponto que Marisa começa a repetir a letra inteira novamente, sem faltar os numerosos "Uh!" que ela solta ao longo da canção. Pobre de nós.

Este post vai para a Bella, que ontem me mandou uma mensagem assim: "Tem uma infeliz sentada atrás de mim no ônibus cantando a música da jujuba da Marisa Monte. Mato ela ou não?", e para o De Pinho, que é fã de Marisa Monte mas me ajudou a descascar a letra de "Não É Proibido" em merecedores comentários sarcásticos.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Number nine




É sabido que uma alta porcentagem dos participantes do Big Brother é de boçais sem muito o que acrescentar ao mundo, o que não é nem culpa deles, mas de quem os colocou ali dentro. Sempre achei a seleção dos participantes mal feita e nesta nona edição continuou rigorosamente previsível. Até os idosos, que puseram pra fingir inovação, eram boçais disfarçados de avós: uma velha escandalosa, um velho tarado. Na final de ontem, como de praxe, os participantes eliminados fizeram uma última aparição - provavelmente pelo resto de suas vidas, porque dali pro limbo é uma semana e olhe lá. As gostosas ainda garantem sobrevida mostrando as partes na mídia impressa, o que talvez explique porque elas nunca tenham vencido um Big Brother. Mas quem neste mundão se lembra de Sammy ou Rafael Valente, terceiros lugares em edições relativamente recentes?

No entanto, a idéia do programa não é ruim. E, embora eu tenha ignorado solenemente os quatro primeiros, nos últimos anos acompanhei com curiosidade, tanto para desenvolver mais repertório para esculachar, quanto porque admiro um programa de televisão bem produzido. Confinar pessoas em uma casa e fazê-las passar por situações ridículas é divertido. Ver o pau quebrar e a galera avançar umas nas outras também. O problema com o Big Brother, e que foi ainda mais visível em 2009, é que ele é bonzinho demais.

Porque confinar o povo e deixar um casal sair pra voar de helicóptero ou pular Carnaval é que nem deixar os jogadores do Survivor escolherem entre minhoca ou chocolate. Confinamento é confinamento: prisão domiciliar, sem direito a visitas ou regalias. Nesse sentido, nada mudou e nem vai mudar, mas nesta edição fizeram três tentativas para tentar variar um pouco. Todas furadas.

Uma: separar a casa em dois grupos, divididos por um muro. A intenção era jogar uma turma contra a outra quando eles se juntassem, o que realmente ocorreu, mas como óbvio efeito colateral gerou panelinhas de gente insuportável que duraram até o fim. Duas: a casa de vidro. Juntaram quatro dos boçais e puseram numa espécie de bolha em um shopping center. Mas os participantes podiam ver o povo lá fora! Que chulé na cabeça é esse, pessoal? Em vez de interagirem entre si e proporcionarem ao público a inusitada experiência de presenciar um reality show ao vivo, os quatro ficavam rebolando e fazendo mímica para a platéia, como um chipanzé que joga bosta pra chamar a atenção. E três, o quarto branco. Foi a melhor idéia: um confinamento dentro do confinamento, só que de verdade dessa vez, ouvindo o Pedro Bial só pela voz, a luz acesa o tempo todo, sendo desistir a única possibilidade de sair dali. Só não deu certo porque o chorão que foi pra lá pediu pra sair em poucas horas, acabando com a graça.

Desde o primeiro programa, com aquele sorteio suspeito de lado A e lado B e erros nítidos de direção - os participantes/personagens chegavam e não eram mostrados de frente pelas câmeras - já dava pra ver que, em muitos momentos, nem a Globo, nem o Boninho e nem o Bial sabiam direito o que estavam fazendo. Se as festas sempre foram constrangedoras e a presença do Latino cantando "Hoje é festa aqui no BBB" não surpreende, as provas do líder, por exemplo, costumavam ser mais criativas. A regra aqui foi vender a prova para grandes marcas. Como publicitário, devo reconhecer que descobriram ali um bom negócio - para a Globo e para os anunciantes - mas como espectador é frustrante notar a preguiça mental dos produtores em idealizar competições mais interessantes. A única com alguma emoção foi a tirolesa de ponta-cabeça com os participantes colados pelo pé (e mesmo assim já tinham feito coisa semelhante). De resto, um monte de provas de sorte, provavelmente rabiscadas pelo estagiário às pressas para que o chefe apresentasse logo ao cliente.

O alento é saber que, quanto mais insosso e risível é o espetáculo, maior a chance de originar bons comentários sarcásticos. Na próxima edição, podiam contratar o pessoal do Big Bosta.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Hail Freedonia



Fale em Marx hoje em dia e a imagem imediata ainda será o barbudão do Karl, mesmo que a maioria de suas idéias tenha ficado soterrada sob a poeira do muro de Berlim. Mas o cinema já presenteou o mundo com uma trupe de comediantes em família que, ainda mais com tanta comédia acéfala surgindo por aí nas telas grandes e pequenas, merece ser revista sempre para lembrar que pode existir mais do que escatologia no humor: os irmãos Marx.

Dos quatro, o mais famoso é Groucho Marx. O bigode estranhamente pintado e os óculos redondos, lembrando aqueles óculos de plástico com nariz e bigode acoplados, tornaram seu rosto icônico, e muitas de suas frases ainda são célebres - não é difícil encontrar algumas, como "Eu nunca faria parte de um clube que me aceitasse como sócio", em assinaturas de e-mails ou fóruns de discussão. Mas se Zeppo Marx definitivamente não tinha a mesma graça, Chico e Harpo também eram palhaços de primeira linha.

"Diabo a Quatro" ("Duck Soup", 1933, direção de Leo McCarey) traz os irmãos Marx em sua melhor forma, com gags físicas bem ensaiadas e tantas piadas por minuto que é difícil acompanhar tudo de primeira. Também há uma abundância de trocadilhos, então certifique-se que a legenda seja bem traduzida. Eu assisti a uma cópia com legenda lusitana, do tipo que escreve "oiro" em vez de "ouro". Uma cousa de doudo.

No filme, Groucho Marx é o líder de um pequeno e fictício país, a Freedonia. Ter Groucho como governante é um disparate tão grande quanto ver Carlitos comandando a Tomania em "O Grande Ditador" ou, sei lá, George W. Bush presidente dos Estados Unidos. Ele não tem pudor em sacanear seus ministros, nem em declarar guerra pelos motivos mais bestas - chegando, ele próprio, a lutar nas loucas batalhas que encerram o filme.

Chico e Harpo, por sua vez, são dois espiões com a missão de roubar informações do líder da Tomania. Os dois são excelentes, mas o destaque é Harpo, que não diz uma palavra, tem a mania de cortar coisas alheias (cabelos, pedaços de roupas) com sua tesoura e vive tirando objetos absurdos do bolso, como um Pernalonga em carne e osso. A melhor seqüência do filme é quando Chico e Harpo se disfarçam como Groucho, incluindo o pijama com gorrinho que ele vestia na hora, dando origem a cenas memoráveis como a do espelho, tão imitada posteriormente em zilhões de filmes e cartuns.

Mesmo com seu tempo curto (meros 70 minutos), "Diabo a Quatro" é freqüentemente citado na lista dos melhores. O American Film Institute, por exemplo, o elegeu como o sexagésimo melhor filme de todos os tempos e a quinta melhor comédia. Não sei se o considero perfeito desse jeito - admito que os números musicais não me apetecem muito - mas fica a dica de um humor diferente, para quem costuma evitar a prateleira de comédia da locadora achando que tudo é Adam Sandler ou Todo Mundo em Pânico. E quantos filmes têm a honra de terem sido proibidos por Benito Mussolini em pessoa?

>> Também publicado no Cinema de Buteco.

sábado, 4 de abril de 2009

Whatever happened, happened

Vi Lost uma vez no AXN e não gostei. Era o episódio em que Sayid tortura Sawyer porque ele tinha escondido uns remédios, e lembro que me incomodou bastante ver um monte de gente numa ilha deserta permanecendo limpos e bem maquiados. Mas depois me emprestaram os DVDs com a primeira e a segunda temporada completas, que vi tudo em um mês e o estrago já estava feito: mais um viciado no mundo. Pelo menos não foi como no vídeo Previously on Lost, sobre um cara que resolve assistir a todos os episódios em dois dias e meio. E como eu acho que nunca falei sobre Lost no Biselho (exceto neste post), acho que vale uns comentários.


1a temporada (2004-2005)

O primeiro episódio de Lost custou 11 milhões de dólares. Foi o piloto mais caro da história da TV: também, o que você esperava de uma série filmada em 35mm em uma ilha do Havaí, com um elenco populoso e a reconstituição detalhada de um desastre de avião? Sempre gostei de histórias sobre ilhas desertas - Náufrago, Robinson Crusoé, A Cidadela dos Robinsons - e o início da primeira temporada de Lost cumpre bem o papel de apresentar os personagens e mostrar sua sobrevivência (ou não) no meio da selva. Aos poucos, percebemos que a ilha não é só plantas e javalis: ali tem monstros, habitantes nativos e mistérios a rodo, levando a infindáveis conspirações - a sinistra aparição de um urso polar fez muita gente crer que aquilo fosse, na verdade, uma propaganda disfarçada da Coca-Cola. A estrutura de cada episódio é similar: cenas na ilha entremeadas por flashbacks centrados em um personagem. Ficamos conhecendo o passado de todos os personagens principais, e se alguns não são tão interessantes, quando a gente descobre as peripécias de Kate ou Locke antes de caírem na ilha a reação é sempre a mesma: "Nóóóóó!". A história vai ficando intrincada, e as recapitulações no começo ("Previously on Lost...") passam a servir não só para relembrar o episódio anterior, mas para situar o espectador após tantas reviravoltas. Tanto que na quarta temporada ainda tinha cena da primeira sendo recapitulada. Entre episódios mais calmos e outros de tensão excruciante - "Do No Harm", com a morte de um personagem e o nascimento de outro, é um dos melhores - a temporada termina mostrando que Os Outros não são aborígenes como eu pensava (sei lá, acho que tinha em mente as tribos estranhas de King Kong ou A Lagoa Azul) e que aquilo ainda vai dar muito pano pra manga. O plano que encerra "Exodus", o último episódio, é um exemplo perfeito.


2a temporada (2005-2006)

"Make Your Own Kind of Music", canção de Mama Cass Elliot, abre o primeiro episódio da segunda temporada de Lost. Logo nos primeiros minutos, descobrimos que o buraco é literalmente mais embaixo: escondido sob a escotilha misteriosa que os personagens encontraram na selva no meio da primeira temporada, há um bunker com camas, comidas, discos e livros, um habitante e um computador onde a cada 108 minutos você tem que digitar uma seqüência de números - 4, 8, 15, 16, 23 e 42 - porque senão... bem, ninguém sabe direito o que acontece. Os passageiros da cauda do avião, que todos julgavam mortos (o avião rachou no meio ainda no ar e cada pedaço foi para um lado) dão o ar da graça, embora alguns saiam da história antes de descobrirmos o suficiente a seu respeito, como a Libby. O começo da temporada é excelente, mas depois começa a ficar meio chato. Muita enrolação, com Charlie preocupado com o bebê de Claire e flashbacks que não dizem muito. No entanto, quando entra em cena Henry Gale - que se tornaria o melhor personagem da série - Lost volta ao seu melhor, encerrando com vários episódios tensos, a revelação do que acontece quando não se digitam os números e um gancho para a terceira temporada ainda melhor que o anterior.


3a temporada (2006-2007)

Depois de um mês assistindo três ou quatro episódios por dia, em DVD, me vi na obrigação de acompanhar a série como todo mundo: um episódio por semana, e olhe lá. O "olhe lá" fica por conta da estrutura adotada na terceira temporada: foram 6 episódios em outubro e novembro, e o restante só a partir de fevereiro. Se na primeira o foco era a ilha e na segunda foi a escotilha, na terceira destrincha a vida e a história d'Os Outros. O episódio inaugural, "A Tale of Two Cities", começa com uma cena genial. No entanto, a expectativa que se construiu para esses 6 primeiros capítulos não se confirmou. Achei algumas explicações meio furadas ou mesmo decepcionantes, e os flashbacks chegaram ao limite. Quem agüenta tanto Jack brigando com o pai? Além disso, a tão alardeada participação de Rodrigo Santoro (alardeada só no Brasil, claro) se restringiu a algumas cenas dispensáveis. Mas do meio pro fim, o negócio foi melhorando: reviravoltas, pessoas mudando de lado, flashbacks que realmente acrescentam - finalmente descobrimos por que Locke foi parar na cadeira de rodas - e um final de temporada excelente, como de praxe. O último episódio, "Through the Looking Glass" apresenta uma inovação surpreendente, trocando o flashback pelo flashforward. E quando um dos personagens grita, desesperado - "We have to go back!" - as perguntas mudam de "o que vai acontecer agora?" para "que porra é essa que aconteceu?" e "como diabos isso aconteceu?", gerando zilhões de lacunas para a temporada seguinte.


4a temporada (2008)
Oito longos meses depois, Lost voltou ao ar com uma temporada bem mais enxuta. Em vez dos habituais 22 ou 25 episódios, foram apenas 14 - culpa da greve dos roteiristas. Mas foi até bom: pararam com a enrolação e começaram a ir direto ao ponto, principalmente depois que anunciaram o número exato de temporadas até o fim do seriado (vai até a sexta). Diferentemente do ano anterior, em que eu ainda pegava os DVDs emprestados com um ex-colega de trabalho, comecei a baixá-los na quinta-feira, horas após a exibição na TV americana. Os flashforwards, como era esperado, trouxeram um novo frescor à série. Como em outras ficções que imaginam o futuro de personagens já conhecidos (The Dark Knight Returns, O Reino do Amanhã...), é um bom exercício tentar descobrir quem são os Oceanic Six, o que eles estão fazendo da vida e como chegaram ali. E se era óbvio supor que todos escapariam da ilha apenas no último episódio da última temporada, foi uma surpresa agradável ver essa cena aparecer a duas temporadas inteiras do final.

Sobre a quinta temporada, que venho assistindo toda quinta-feira no horário de almoço, comento quando ela terminar, lá pro final do mês que vem.

Veja também: resumão bem editado das temporadas 1 a 3
E ouça: "Make Your Own Kind of Music"

Quem

Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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