segunda-feira, 25 de maio de 2009

Voa passarinho voa



"Não vou me render ao Twitter". Escrevi essa frase no décimo terceiro dia de abril passado, pronto para iniciar um texto sobre minha resistência ao mais novo (ou nem tão novo) fenômeno efêmero da internet terráquea. Abandonei porque quatro dias depois eu me rendi e criei um perfil cujo endereço, www.twitter.com/lucaspaio, não divulguei pra ninguém. Ainda assim consegui 10 seguidores, sendo seis conhecidos e quatro de quem nunca ouvi falar.

Não foi minha primeira experiência na ferramenta microblóguica. Nos finalmentes de 2007, criamos um perfil na agência onde eu trabalhava que funcionava como aquelas notícias de última hora sobre os participantes do Big Brother: huguinho saiu pra beber água, zezinho anunciou que está com fome, luizinho não pára de cantar. Uma diversão que durou dois dias e algumas centenas de nanoposts, depois acabou como qualquer modismo. (Infelizmente o troço saiu do ar, ou sou eu que não lembro o endereço nem a pau).

Daí quando me rendi e criei o @lucaspaio, fiz mais pra ver se eu viciava, e por umas semanas até atualizei com certa freqüência. Dos 35 minitextos de 140 caracteres ou menos, foram 4 sobre filmes ("...E o Vento Levou - Victor Fleming, 1939: épico com suas ressalvas, mas bem conduzido. 4 estrelas em 5"), 7 sobre o Comida di Buteco ("Ali-Ba-Bar: kafta ao molho, mandioca com manteiga e couve. Bem bom, principalmente os molhos"), 4 descrições de almoço ("arroz com bacon, frango, bife à parmegiana, batata frita, mandioca frita, milho, alface e ovo de codorna"), 5 comentários sobre discos ("Já fui muito fã de Green Day e gostei bastante do American Idiot, mas este 21st Century Breakdown não me convenceu..."), 2 links interessantes ("Portal pra quem quer fazer cinema: http://filmmakeriq.com - tutoriais e dicas de produção, roteiro, direção, edição..."), 3 links para posts do Biselho, 6 observações sortidas sobre o cotidiano ("Carro é foda. Depois de arrumar suspensão, escapamento, trocar óleo e alinhar, agora foi a luz do freio que deu pau"), 1 sobre Lost ("The Variable"), 1 sobre Futurama (DVDs da primeira temporada), 1 sobre uma HQ ("Wolverine: Origem") e 1 sobre shows ("Conexão Vivo 21/04: valeu o Samuel Rosa no final tocando Skanks antigos e a participação surpresa do Milton Nascimento no bis").

Agora me desrendi, ou pelo menos perdi a vontade de ter mais uma obrigação virtual, ainda mais uma que exige uma constância tão rígida. Fica igual a maioria dos portais jornalísticos: na ânsia de atualizar a página principal com notícias urgentes, destacam-se manchetes como "Jurado diz que foi beijado por Susan Boyle" ou "Naiá fala mal de Priscila na TV" (fonte: G1 e Folha Online, minutos atrás). Citando um amigo meu citando Caetano, quem lê tanta notícia? Quem precisa saber que Susana Vieira tomou o microfone das mãos de um repórter do Video Show, ou que eu comi ovo quente com sal e pimenta-do-reino hoje de manhã?
Além do mais, deve ter algo de errado com um site que faz a Jennifer Aniston terminar com você.

De qualquer forma, não achei no Twitter foi uma utilidade verdadeiramente exclusiva. Pra escrever textos tenho o Biselho e A Saga de Tião, pra divulgar o Biselho e o Tião tenho as mensagens de MSN, pra falar de filmes tenho a planilha online e o Cinema de Buteco, pra conversar com os outros sem privacidade tenho o scrapbook do Orkut. Ou sei lá, às vezes amanhã me rendo de novo e passo a compartilhar com o mundo minhas análises sobre o pôr-do-sol, minhas recomendações dos melhores sabores exóticos de sorvete disponíveis no meu quarteirão ou minha descoberta de uma nova rede social diferente de tudo o que existe. Vai saber.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Maria Antonieta entre dois séculos



Maria Antonieta
(Marie Antoinette, 2006, de Sofia Coppola)

Texto produzido para a aula de Introdução à Crítica, da Escola Livre de Cinema.

O rei da França joga cartas, as damas da corte discutem a vida alheia e a rainha Maria Antonieta, amuada em meio à corte e sonhando com o amante, pede licença para deixar a sala. Enquanto percorre os corredores do palácio rumo ao seu quarto, a música que a acompanha não é um tema triste de piano ou um vigoroso concerto de cordas típicos do século 18, mas um rock dos anos 2000, tocado com instrumentos que nem tinham sido inventados ainda, e uma letra que manifesta: “Eu quero ser esquecido / Eu não quero ser lembrado”.

A trilha anacrônica não é mero capricho de Sofia Coppola. Uma obra geralmente tem a cara da época em que foi produzida, e a diretora eleva isso a um outro nível. Sua Maria Antonieta, forçada a se casar aos 14 anos com um garoto que não conhecia e feita rainha sem que soubesse muito bem pra quê, é uma personagem deslocada. Não está apenas fora de lugar, como os protagonistas de Encontros e Desencontros, filme anterior de Coppola, mas principalmente fora de seu tempo. A menina nada tem de visionária ou revolucionária: é que simplesmente, em essência, poderia ser uma nova-iorquina rica mantendo um casamento de aparências com outro jovem, ou mesmo uma brasileira de classe média-alta que faz uma faculdade que não lhe interessa e curte a noite em boates de shopping center. A diferença, e é o que provocou tanta polêmica, é que aqui a retratada é uma célebre personalidade histórica.

A obra de Sofia Coppola, no entanto, não quer o compromisso com uma suposta fidelidade a fatos. O filme pertence a Maria Antonieta: sua visão do mundo, seus problemas pessoais. Não é à toa que o primeiro ato investe em muitos planos subjetivos, compartilhando com a protagonista sua descoberta das pessoas, costumes e minúcias do Palácio de Versailles. Até a introdução de personagens ao espectador é feita com esse intuito: o delfim Luís Augusto é enquadrado bem de longe ao aparecer pela primeira vez, e só quando sua futura esposa Maria Antonieta é apresentada a ele, alguns minutos depois, é que seu rosto é mostrado para nós. Da mesma forma, o importante cenário político da França do século 18 só é abordado no final do filme, quando a revolução já bate à porta e a rainha não pode mais ignorá-la.

É claro: Sofia Coppola sabe evitar o exagero e mescla com equilíbrio os elementos cronologicamente conflitantes. Na cena do baile a fantasias, por exemplo, é suave a transição entre a música clássica e a moderna. A trilha nunca é verdadeiramente diegética, não há bandas de rock ensaiando na garagem do Palácio ou fazendo jam sessions com os músicos da corte.

No entanto, há duas concessões. A primeira é a opção pela língua inglesa em detrimento do idioma original, o que geralmente me incomoda – vide o recente Operação Valquíria e seu Hitler falando em inglês com seus compatriotas – mas que aqui cai bem. A segunda é a breve aparição de um All Star na cena em que Maria Antonieta experimenta seus sapatos, ingenuamente tratada como erro por alguns espectadores. Não é um erro e nem é pra ser levado tão a sério: é uma piada rápida e sagaz, como se ela tivesse cogitado usar o tênis mas intuisse que ainda era cedo demais. De resto, a direção de arte é suntuosa como se esperaria, figurinos e cenários foram reproduzidos com precisão e o filme inclusive foi rodado no próprio Palácio de Versailles, que hoje em dia virou museu, o que contribui ainda mais para a sensação de anacronismo: a Maria Antonieta de Kirsten Dunst é quase a visitante de um museu vivo.

Maria Antonieta guarda muitas semelhanças com Encontros e Desencontros. O tema da distância – geográfica, temporal ou emocional – é central em ambos os filmes. Os personagens de Bill Murray, Scarlett Johansson e Kirsten Dunst compartilham da mesma aversão a solenidades despropositadas, da mesma falta de diálogo com seus cônjuges e do mesmo cotidiano morto, tentando aproveitar como podem uma vida vazia. Diferente de Encontros e Desencontros, porém, a trama de Maria Antonieta não se desenrola em poucos dias, mas em um período de duas décadas. O filme não perde unidade com isso, porque o foco continua nas impressões de sua protagonista, e nem é necessário que nos esforcemos para preencher lacunas de informações.

É interessante, aliás, notar como pouco envelheceram os personagens mesmo após tanto tempo, especialmente Maria Antonieta e Luís XVI. Certamente não foi descuido da equipe de maquiagem deixá-los quase adolescentes mesmo depois dos trinta. Tanto o rei quanto a rainha parecem não compreender exatamente o panorama político em que estão inseridos e quão graves são as conseqüências de suas decisões tomadas de forma descuidada, juvenil. Maria Antonieta, como figura histórica, sempre carregou o fardo de ser uma governante que não se importava com seus governados. O filme de Sofia Coppola tenta mudar essa imagem? Em partes. Ao mesmo tempo em que a rainha declara nunca ter dito a desdenhosa frase “que comam bolo”, quando os franceses reclamavam a falta de pão, ela continua mais preocupada com a unha que com a fome dos súditos, e nem entende porque as pessoas não a acompanham mais quando ela puxa aplausos ao assistir uma ópera. No fundo, ela continua a menina marota que escapa do palácio para ir a festas disfarçada. Como na música dos Strokes, ela não quer ser lembrada, não quer ser o centro das atenções. Já que não tem escolha, ela faz o que pode.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Funeral

Lucas Paio, maio/2009
Quando tinha seus dezoito anos, num boteco, surgiu o papo do enterro. Como vocês imaginam o seu próprio funeral? Ele pintou na mente uma tela invejável. Manhã ensolarada, multidão. A bandeira do Brasil sobre o caixão, discreta, e outra do América ocupando todo o resto. A viúva, aos prantos, amparada por familiares. Sua filha controlando a emoção para discursar. Os amigos conversando entre si, nostálgicos: esse foi um cara legal. A banda toca um tango, a neta enxuga uma lágrima, fim. Anos depois, vendo a esposa comer com as mãos sobre o balcão da cozinha, a filha entrar em casa fedendo a pinga, o neto malcriado chutando o cachorro e o América naquela situação, doar o corpo para a faculdade de Medicina não parecia tanto um disparate.

Quem

Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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