segunda-feira, 27 de julho de 2009

España? No! Catalunya!



Barcelona, Espanha (digo, Catalunha)
24 a 26 de janeiro de 2007


Em Barcelona, não ouse chamar os nativos de espanhóis. Teve uma menina que conheci num pub crawl em Berlim, perguntei de onde vinha e ela disse: "Barcelona", com aquele "c" sibilante, com a língua no céu da boca. "España!", bradei empolgado, mas ela foi veemente: "No! Catalunya!". Tanto que placas, anúncios e até as lixeiras do McDonald's vêm com textos em catalão, esse inusitado cruzamento de espanhol com francês e umas intromissões de italiano.

Turisticamente, Barcelona respira Gaudí, o arquiteto que assina os edifícios mais famosos da cidade e que morreu em 1926 atropelado por um bonde (!). É dele a Casa Battló, cuja fachada parece ser feita de ossos. É dele o Parc Güell, que demorei um tempão pra achar (isso é que dá pegar o metrô errado), onde mora o famoso lagarto de pedra que levou uma porrada de adolescentes punks apenas alguns dias depois que estive lá. É dele a Casa Milà, que também atende por La Pedrera, um prédio enorme que funciona como um museu sobre seu projetista, com audioguia incluído na visita e um andar mobiliado como um apartamento do início do século XX, bem bacana.

E é também de Gaudí, claro, a notória Sagrada Família, catedral que está em construção desde 1882 e que deve ficar pronta, se nada mais der errado, em 2026. É de se esperar que seja um grande canteiro de obras - como tem sido nos últimos cento e vinte e sete anos. Mas isso não tira o fascínio de se admirar as fachadas prontas, a beleza de ver a cidade de cima de uma das torres ou o cansaço de ter que descer depois a estreita escadaria (não tem outra opção, o elevador só sobe mesmo). A Sagrada Família também foi um dos poucos pontos turísticos em toda minha viagem que tinha folhetos explicativos em língua portuguesa. O engraçado era que juntava português, finlandês, holandês, basco e mandarim, tudo no mesmo folder.

Para caminhar a esmo por Barcelona, o melhor é percorrer a pé as Ramblas - um imenso calçadão fechado para carros que desemboca perto do porto, cheio de homens-estátuas tentando ganhar o seu - ou se perder no Bairro Gótico, onde as ruas nunca chegam aonde se imagina. Acho que andei umas duas horas pra encontrar o Museu Picasso, que fica por ali e traz desde os desenhos do artista quando moleque até obras clássicas do cubismo, incluindo variações que ele fez do "Las Meninas" de Velásquez. Curioso que ainda hoje no Museu do Prado, em Madrid, fica cheio de copistas reproduzindo os quadros mais famosos, e o próprio Picasso já foi um deles antes da fama. Mais curioso ainda é o nome completo do pintor: Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Ruiz y Picasso. Todo mundo zoa D. Pedro II, mas o nome de Pablito tinha apenas 2 letras a menos.

Acho que o meu erro em Barcelona foi ter escolhido um albergue muito pacato. Eu estava apenas na primeira semana de viagem: precisava era da alardeada farra do Kabul ou do Gothic Point, não do marasmo do Centric Point, apesar das instalações serem ótimas. Tinha café bacana, internet grátis, localização jóia (no meio do Passeig de Gràcia, do lado da Casa Battló). Mas em comparação com o Cat's, onde a cada minuto se conhecia alguém, no Centric Point o ambiente não era tão propício à socialização. No meu quarto, só apareceu gente na segunda noite. No salão onde os hóspedes se reuniam, ficavam todos assistindo televisão ou vidrados em seus próprios laptops.

No dia em que eu voltar a Barcelona, vai ser pra encher a cara. Quem sabe na festinha de inauguração da Sagrada Família?

Mais Barcelona aqui.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

¡Olé!



Madrid, Espanha
22 e 23 de janeiro de 2007

Cheguei na fila da imigração do aeroporto de Barajas com todas as respostas na ponta da língua: vim passar 30 dias na Europa, aqui está minha passagem de volta, meu seguro-saúde internacional, a reserva do albergue em Madrid, não sou terrorista, traficante ou cantor de barzinho com playback, não pretendo estabelecer família nem abrir uma lojinha de suprimentos de informática por aqui. Afinal, depois da minha experiência ao entrar na Nova Zelândia, é natural que eu esperasse o pior.

Sacanagem: só me pediram o passaporte, carimbaram e emendaram um "Bienvenido". Muito mais trabalhoso, na verdade, foi sair dali e chegar no albergue. Caminhei que nem condenado nos terminais T1 e T2, avistei ao longe o terminal T4 em destroços (por causa do atentado do ETA algumas semanas antes), peguei um elevador que andava na diagonal (!!), fiz 3 baldeações no metrô e emergi nas ruas de Madrid, debaixo de uma chuva chata, sem idéia de onde ficava a tal da rua Cañizares.

Resolvi perguntar prum sujeito parado em frente a um hotel, naquele meu espanhol torto, e recebi como resposta:

- Ô meu amigo, eu não sou daqui não, sou de Belo Horizonte.

Ante meu olhar incrédulo, ainda deu a dica:

- Quando cê for pedir informação, pede pra policial. Esses zé bucetas aí na rua não sabem nada.

O Cat's Hostel é um albergue ideal pra você começar uma viagem. É verdade que peca no café (croissant, suco de laranja e só) e tem um chuveiro extremamente irritante - a cada 10 segundos, você precisa apertar um botão pra ele não desligar. Parece o computador da escotilha de Lost. Mas o grande barato do Cat's é o porão, que tem bar, internet grátis, vez ou outra algum show e cerveja de 1 litro a 3 euros. Na primeira noite, bebendo e batendo papo com uma galera de Idaho, Califórnia, Sydney, Buenos Aires e Québec, acabei me empolgando com o preço da cerveja e terminei batizando a privada do albergue.

Nos dois dias em que andei por Madrid, visitei os três museus mais famosos da cidade. Foi um exagero: devia ter me concentrado em apenas um por dia, porque visitar o Thyssen-Bornemisza depois de uma manhã inteira no Museu do Prado dá uma canseira e não se aproveita mais nada. O que mais me agradou foi o Reína Sofia: um monte de Dalís, Mirós e Picassos, como o monumental "Guernica" (um senhor quadro de 3,5 por 7,7 metros) e o intrigante "El Hombre Invisible", de Dalí, que só é revelado quando se enxerga de longe.

Em Madrid também pude aproveitar almoços relativamente baratos (para o padrão europeu), como o combo paella + bife + garrafinha de vinho + flan de sobremesa por 8 euros. Se em reais não soa nada econômico, era uma pechincha comparando com as refeições de países mais setentrionais. Aliás, vale lembrar a velha máxima: "quem converte não se diverte". Você não vai pagar 120 euros por um jantar no La Terraza del Casino, mas também não pode passar a viagem inteira comendo pão com cream cheese.

Na minha segunda e última noite no Cat's, planejei ficar mais tranqüilo, não exagerar na bebedeira, tomar minha gemada e dormir cedo, porque meu trem pra Barcelona partia às seis e vinte da matina. No entanto, acabei saindo pra dar uma volta com uma turma brasileira e um madrilenho mala, que encheu a cara de sangria e ficava tentando dar as direções em inglês ("Left... I mean, right... I mean..."), e fui dormir tarde do mesmo jeito.

Confiei no alarme do relógio vagabundo que eu comprara por dérreal no Shopping Tupinambás, que evidentemente não funcionou, e quando abri os olhos eram cinco e trinta e seis. Saí correndo pela rua, zonzo de sono, e só quando já estava dentro do trem é que percebi que tinha deixado pra trás as luvas emprestadas da minha tia. Melhor pra ela, que na volta ganhou luvas novas de Paris.



As placas das ruas no centro histórico de Madrid têm sempre esse design interessante, 9 azulejos e uma ilustração alusiva. Se fosse em BH, finalmente descobriríamos quem diabos foi Raja Gabaglia.



Cavalos e carruagens debaixo de chuva (tá bom, chuvisco) na Plaza Mayor.



E não se fala mais nisso!



Pichação na parede do Real Monasterio Santa Isabel Agustinas Recoletas.



Ela é uma vaaaaaaca...

Antes tarde



Um dos meus arrependimentos em relação a este blog é não ter escrito direito sobre o mochilão europeu que fiz em 2007. Postei alguns causos de Roma, Paris e Berlim, coloquei algumas fotos de Amsterdam, Veneza e Barcelona, mas no geral fui deixando passar e acabei não explorando o potencial bloguístico de muitos lugares. Madrid, por exemplo, virou só uma nota perdida no meio de um post. Os escombros de Pompéia e os lagos congelados da Suécia sequer foram citados.

Portanto, é numa tentativa de corrigir essa falha que inicio hoje uma série sobre as cidades que visitei há dois anos e meio, um texto por cidade, em ordem cronológica, seguindo o itinerário publicado aqui. Com isso, torno profético o comentário deixado por meu pai em janeiro de 2007: "Do jeito que as coisas estão indo vai publicar as novas aventuras daqui a dois anos!" Além do mais, vale como aquecimento para minha próxima viagem, que acontecerá em breve e merecerá um blog à parte.

良好的阅读!

domingo, 19 de julho de 2009

Esse disco é a sua cara

A idéia é velha e a moda já passou, mas fiz uns sleevefaces com alguns amigos no fim-de-semana, usando velhas bolachonas de Roberto Carlos, Rita Lee, Julio Iglesias e a trilha da novela "Te Contei?", e cá está o resultado:










Para milhares (literalmente) de sleevefaces bacanas, o Flickr é uma boa pedida.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Jurassic Truth

Estava lendo no banheiro uma revista antiga do Cebolinha quando topei com uma historieta genial do Horácio. Não sei se atualmente ainda é o Mauricio que escreve os roteiros do tiranossauro de cabeça oval. Mas em 1995 certamente era. Em apenas quatro quadros, simples, sagazes, Maurição discute idelogias e extremismos com recursos que só os quadrinhos permitem.

Compartilho a descoberta aqui convosco. Cliquem para ampliar:

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Tapete vermelho

4a Mostra de Cinema de Ouro Preto
Parte III



Fechando a série, os melhores e os piores da CineOP 2009:

Melhor evento - Le Rendez-Vouz Du Sam’di Soir. O palavroso nome em francês era o título da sessão mais curiosa e interessante de toda a CineOP: três curtas mudos dos anos 20, de Jean Renoir e René Clair, com trilha sonora tocada ao vivo por três músicos também franceses. Um cara no violão e guitarra (Maxime Roman), uma moça no violino (Céline Benezeth) e outro no teclado e voz (Marco Pereira), criando sons diferentes, melodias ricas, sobrepondo áudio em cima de áudio enquanto as delirantes imagens dos curtas nos hipnotizavam. Parabéns pros caras e pra quem teve a idéia de levá-los a Ouro Preto.

Melhor show - Falcatrua tocando Tim Maia. Primeiro as críticas: fazer um show só com Tim Maia já é meio caminho andado pra entreter o público. O mérito principal, nesse caso, é do finado soul man carioca. O cd, idealizado por Nélson Motta e produzido pelo John do Pato Fu, soa mais como uma forma de lucrar sobre um repertório difícil de estragar. Sem falar que a CineOP careceu de shows realmente bons para comparar. MAS! Pelo menos ao vivo, as versões ficaram realmente legais. As adições de Glauco Nastácia na bateria e, principalmente, de Gleison Túlio na guitarra deram uma cara nova e um feeling especial às canções. Gleison Túlio, na verdade, se sustenta sozinho: sua versão para "Rational Culture" só com guitarras sobre guitarras mata a pau.

Prêmio Dr. Manhattan de Onipresença - Esse é dividido. Em qualquer lugar que a gente fosse em Ouro Preto, dava de cara com um desses três: Rafael Ciccarini, que foi meu professor na Escola Livre de Cinema e é editor da Filmes Polvo; Tutti Maravilha, radialista da Inconfidência há uns cento e cinqüenta anos; e a onipresente-mor, homenageada da CineOP que aparecia nas telas, nos painéis e até no meio da rua: Zezé Motta. Falei tanto dela que, quando a TV Mostra a entrevistou para a edição especial de encerramento, eu apareci lá no fundo também.

Troféu Milli Vanilli de Fraude Sonora - DJ Roger Moore. Segundo a programação, ele tocaria o melhor da música brasileira dos anos 70. Chegou na hora, só colocou o pior da música internacional dos anos 2000. Ou o Snoopy Dog era colega do Simonal e eu não sabia?

Prêmio Irmãos Wright para o vôo que não aconteceu - Vai para a pipa que iria protagonizar nosso curta improvisado, na tarde de segunda-feira. Reunimos um grupo duns cinco, fomos para o Morro da Forca munidos de uma pipa, preparamos alguns poemas para dar um ar mais experimental, cult e pseudo-intelectual, mas na hora agá a pipa não voou. Foi devidamente pisoteada e desmembrada, por ter se recusado a colaborar. Pelo menos recitamos os poemas para a câmera. Trecho do meu:

Pipas, ó pipas
Contemplar o seu vôo
Me dá um enjôo
Embrulha-me as tripas

Troféu Malba Tahan de Sanduíche Mal Calculado - Cheguei numa padaria da Praça Tiradentes e pedi um misto quente. O cara me falou que não tinha queijo. Eu: não tem problema, pode ser só com presunto mesmo. Ele: só que é apresuntado. Eu, desanimado: pode ser, mas já que não tem queijo, capricha. Ele: pãozim de forma ou pãozim de sal? Escolhi o de sal e fiquei lá sentado, aguardando o resultado. Eis que, hesitante, ele alerta: acho que exagerei no apresuntado. Ele tinha caprichado tanto, e ainda colocado umas cinco fatias de tomate não solicitadas, que o pão era só uma mancha perdida num mar de apresuntados escorrendo pelos lados, de fazer inveja em um toscoburguer. Foi o primeiro misto quente que comi de garfo e faca, e ainda sobrou.

Troféu Pedra de Rosetta de Caligrafia Mais Indecifrável - Vai para o Bigode, instrutor da nossa oficina. Ele copiou a sentença de Tiradentes num pedaço de papel para o Paulo Augusto ler, e ninguém conseguia traduzir o que estava escrito. Foi preciso que voltassem ao Museu e pedissem uma cópia digitada para que sanássemos nossas dúvidas. Depois comprei um livro com a biografia do Bigode (Luiz Carlos Lacerda, de Alfredo Sternheim, para a Coleção Aplauso) e pedi para ele autografar, mas com menos de dez minutos consegui decifrar a dedicatória toda.

Música-tema da CineOP - São várias as candidatas: "Todos Estão Surdos", do Robertão ("Mas meu amigo, volte logo..."), "Rational Culture" do Tim Maia ("We are gonna rule the world, don't you know, don't you know") e até as marchinhas histórico-carnavalescas do Tião do Doce. Mas o grande prêmio - em homenagem, claro, a Zezé Motta - vai para Xica da Xica da Xica da Xica da Silva.

domingo, 12 de julho de 2009

Os bastidores de Oui Uai

4a Mostra de Cinema de Ouro Preto
Parte II
19-23 de junho de 2009

Descer ladeira até o Centro de Convenções indica uma custosa subida na hora da volta. É pouco mais de um quilômetro do meu albergue até lá, mas vai fazer isso várias vezes ao dia pra ver como a perna fica. Pelo menos o espaço armado lá dentro (o nome oficial é "Cine-Bar-Café") tem bancos e puffs esparramados pra aplacar cansaço e preguiça. E de madrugada - pois os shows noturnos também acontecem por lá - o álcool ajuda a criar coragem de caminhar morro acima no inverno ouro-pretano de lascar.

É no Centro de Convenções que nos reunimos para pegar o crachá e o material didático (leia-se: pasta de papelão, bloco de anotações e caneta) no primeiro dia da oficina de Realização em Curta Documental. Várias outras também acontecem por ali, a maioria de cunho teórico - História e Cinema Brasileiro, Conservação de Acervos Fotográficos, A Forma e a Informação no Documentário. A nossa é diferente: temos 4 dias para bolar, produzir e editar um documentário em curta-metragem de dez, quinze minutos.

Nosso instrutor é o Bigode, também conhecido por Luiz Carlos Lacerda, cineasta carioca que desde os anos setenta dirigiu um zilhão de curtas, médias e longas, dentre os quais a cinebiografia da Leila Diniz. Abre a aula com a tradicional introdução de primeiro dia: diga pra turma seu nome, sua cidade, sua profissão. Muitos publicitários (eu incluso), gente que já fez o curso da Escola Livre de Cinema (eu também), moradores de Ouro Preto (eu não) e estudantes de teatro (também não). Depois dá uma geral em termos técnicos - tipos de planos, planilhas de produção - e vai direto ao assunto:

- A produção da mostra me pediu que o tema do nosso curta se relacione de alguma forma ao Ano da França no Brasil. Como estamos em Ouro Preto, pensei em fazermos sobre a influência da Revolução Francesa na Inconfidência Mineira.

As idéias começam a surgir: vamos falar com historiadores? Com o diretor do Museu da Inconfidência? Com a curadora da exposição no Museu sobre Inconfidência e Revolução Francesa? Ou vamos atrás de fontes não-oficiais, investigar o lado B da História, entrevistar a maluca que se veste de Marília de Dirceu? Muita gente está bem familiarizada com o assunto (o que não é exatamente o meu caso) e contribui com suas sugestões.

Chega a hora de dividir as funções. Somos mais de trinta, o que se mostra gente pra burro - o número oficial de vagas era 25, e mesmo isso já seria muita coisa. Porque em documentário são poucos os departamentos: roteiro, direção, câmera, edição, produção. Nada de figurino, necas de direção de arte. E aí rola o esperado: todo mundo quer dirigir, ninguém quer produzir, no final ficamos com 8 roteiristas, 8 diretores e só 4 produtores pra dar conta dessa demanda toda. Eu também fujo da produção e fico no time do roteiro.



Claro: oito roteiristas também é demais. Fazemos uma reunião no andar de baixo, cercados por painéis com fotos da Zezé Motta, e é um custo decidirmos uma linha a seguir. As idéias são vagas, abstratas, e é preciso que o Bigode ponha ordem na casa para que pensemos objetivamente e anotemos (o presente do subjuntivo no plural é feio pra cacete!) uma lista de uns dez possíveis entrevistados. Enquanto isso, uma equipe já sai por Ouro Preto para fazer planos genéricos da cidade, que acabaram não sendo aproveitados porque já era fim de tarde e a luz não ficou boa.

Sábado, 20 de junho.



O primeiro dia de produção começa com uma filmagem com José Efigênio, um artista plástico (eu achava que era historiador, mas na legenda do filme tá artista plástico) que já adianta que a Revolução Francesa não teve efeito nenhum na Inconfidência, porque aconteceram na mesma época: a influência foi das idéias iluministas francesas, que inspiraram movimentos tanto lá quanto cá. Depois de um almoço meia-boca (não tinha nem carne que prestasse), filmamos com o ator Paulo Augusto de Lima, que recita trechos do "Romanceiro da Inconfidência" (Cecília Meireles, 1953) em locais apropriados como a Ponte e o Chafariz de Marília:

Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
uns sugerem, uns recusam,
uns ouvem, uns aconselham.
Se a derrama for lançada,
há levante, com certeza!

Domingo, 21 de junho.



Tião do Doce é uma figura folclórica de Ouro Preto. Vende cocadas e cajuzões a R$ 1,50 cada, geralmente em frente à Igreja de São Francisco de Assis, e é também compositor das canções e marchinhas que canta entre uma venda e outra. Eu tinha apostado com uma das colegas de oficina, ouropretana de nascença, que ele teria alguma música sobre a Inconfidência. Ela achava que não. Valia um cajuzão do próprio. Perguntamos pra ele e a resposta é sim: tem várias. Ganho o cajuzão e o Seu Tião ganha a honra de abrir e fechar o nosso curta com seu repertório batucado na caixa de doces:

Recordação de um passado presente
Da memória que ficou, ou ou
Os rochedos dessa terra
Contam como começou
A descoberta do ouro
Foi Portugal quem ganhou, ou ou



Domingo é o dia das figuras pitorescas: depois de registrarmos cenas da exposição sobre França e Inconfidência que acontece no Anexo do Museu, partimos para a filmagem com a bailarina carioca Adriana Andrade, que há anos transita por Ouro Preto vestida como Marília de Dirceu. Chapéus, vestidos, anáguas, sombrinhas. Fala em nome de Marília, assina Marília, respira Marília. A gravação dura um tempo considerável, ela chora ao contar casos de Tomás Antônio Gonzaga, permite que apenas poucos da equipe entrem na casa. Mas não sei se é tão pirada quanto pintam na cidade. Estranha, sim, mas me pareceu bem lúcida quando fala sobre os inconfidentes, como no depoimento que fecha o filme: "As pessoas geralmente não se lembram disso, a não ser no 21 de abril, que é aquela coisa meramente teatral. Ir à praça, botar um buquezinho de flor, meia dúzia de palavras discursadas, e acabou o 21 de abril o Brasil todo não sabe quem é Tiradentes nem sabe o que representou o peso que a atitude dessas essas pessoas tiveram pra nós."

Segunda, 22 de junho.



Até então, estava me sentindo meio fora d'água, sem muito o que fazer - com o roteiro pronto desde sexta, a maioria das decisões eram tomadas agora por diretores e produtores (e posteriormente na edição, que é onde realmente se resolve um documentário). Mas com o adiantamento de uma cena e a não-aparição do diretor responsável por ela na segunda-feira de manhã, acabo aceitando o convite para dirigi-la.

A cena é com João Aidar Filho, antropólogo e também colega nosso na oficina. Falou tanto sobre o assunto na pré-produção que o Bigode praticamente o intimou a dar seu depoimento perante a câmera. O cenário escolhido é a Escola de Minas e sua Biblioteca de Livros Raros. Sugiro colocar o João andando, pra variar um pouco - a maioria dos entrevistados falavam parados. O primeiro take é na biblioteca, o segundo no pátio (esse acabou não sendo aproveitado, porque tinha muito barulho de carros e motos) e o terceiro também no mesmo lugar, só que este último com o João sentado. Ainda na Escola de Minas, sou entrevistado pela TV Mostra e apareço depois nas telonas do Cine-Praça e Cine Vila Rica (quem quiser ver, tá aqui).



À tarde, mais Paulo Augusto recitando Cecília, desta vez na imponente casa de Tomás Gonzaga. Ele aproveita e lê também, dramaticamente, a sentença de Tiradentes: "E separada a cabeça do corpo, seja levada a Villa Rica, onde será conservada em poste alto junto ao lugar da sua habitação, até que o tempo a consuma!".

Terça, 23 de junho.
Na terça-feira já estou de volta a BH. Enquanto isso, ainda filmam em Ouro Preto - já tínhamos recebido os certificados e encerrado oficialmente a oficina, mas precisavam gravar com o dr. Rui Mourão, diretor do Museu da Inconfidência, e ele só podia na terça. E eu trabalhando em Beagá, pensando assim: essa trabalheira toda e não vou ver o resultado. O filme estrearia no Cine Vila Rica às 21 horas, fechando a CineOP, e sabe-se lá quando - e se - conseguiríamos uma cópia.

Conclusão: peguei o ônibus da Pássaro Verde depois do trabalho e voltei para Ouro Preto a tempo de prestigiar a estréia de "Oui Uai", nome franco-mineiro que nosso curta recebeu (suspeito que o Bigode já tinha o título na cabeça desde o começo). Paulo Augusto, o ator, e Marília de Dirceu, vestida a caráter, também compareceram. Seu Tião do Doce, infelizmente, juntou toda a família para assistir ao seu momento de glória mas errou de lugar e foi parar na Casa da Ópera, uma pena.

Mas quanto à cópia: foi mais fácil que eu imaginava. Os dezessete minutos e vinte segundos de "Oui Uai" já caíram na internet, é só clicar aqui e assistir no Vimeo. Maluco, engraçado e razoavelmente coeso, para um filme feito por mais de trinta cabeças. Fica aqui meu agradecimento a todos os colegas de oficina, à turma que ajudou na produção (transporte, câmeras, edição) e ao Bigode.

No próximo post, os prêmios dos melhores e piores da quarta CineOP.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Chapeuzinho is not my lover



Após aproveitar o cancioneiro de John, Paul, George e Ringo em Os Três Porquinhos de Liverpool, chegou a vez de recontar outra historieta clássica, desta vez homenageando o Rei do Pop. Com vocês,

Chapeuzinho Culkin
Lucas Paio, 01/07/2009
NARRADOR:
Tonight's story is somewhat unique
And calls for a different kind of introduction
A monster had arrived in the village
The major ingredient of any recipe for fear is the unknown

PRIMEIRO ATO – A CASA DE CHAPEUZINHO VERMELHO

A mãe de Chapeuzinho encarrega a filha de uma perigosa tarefa:

MÃE:
There's something you should know
You've got a place to go

Chapeuzinho entende rápido: vai se embrenhar na floresta para levar docinhos à sua avó. Sem delongas, começa a encher sua cesta de quitutes. Sua mãe recomenda cautela.

MÃE:
Come on, ease on down, ease on down the road
Don't you carry nothing that might be a load

Na minha versão, a mãe é ainda mais irresponsável e manda a filha pro bosque num horário pouco recomendado.

MÃE:
It's close to midnight
And something evil's lurking in the dark

Chapeuzinho treme nas bases, mas a mãe não pode se dar ao luxo de perder sua entregadora e encoraja a menina.

MÃE:
You have to show them that you're really not scared
'Cause this is thriller, thriller night
And no one's gonna save you from the beast about to strike

CHAPEUZINHO:
People always told me:
“Be careful of what you do”.

MÃE:
So take my strong advice:
Just remember to always think twice.

Chapeuzinho tranqüiliza a mãe e põe o pé na estrada.

CHAPEUZINHO:
Wherever I go, whatever I do
I'll always come home.



SEGUNDO ATO – O BOSQUE
Lucas Paio, 01/07/2009
Alheia aos perigos da floresta, Chapeuzinho Vermelho cantarola sorridente.

CHAPEUZINHO:
Lovely… is the feeling now
Fever… temperature's rising now

Um lobo gigante, à espreita, observa a graciosa menina e murmura sozinho:

LOBO:
You ever want something
That you know you shouldn't have?
The more you know you shouldn't have it,
The more you want it.

Ele vem andando de costas e intercepta Chapeuzinho no meio do caminho.

CHAPEUZINHO, desdenhosa:
Look who just walked in the place
Dead and stuffy in the face

LOBO:
I've been walking like a shadow,
Right behind you by myself

CHAPEUZINHO:
Don't wanna see your face, you better disappear

LOBO:
Oh, baby, give me one more chance

CHAPEUZINHO:
What do you want from me?
What do you want from me?
Tired of you haunting me, yeah yeah!

Chapeuzinho lembra-se das sábias palavras de sua mãe:

VOZ DA MÃE, pairando numa nuvenzinha sobre a garota:
You wanna stay alive, better do what you can
So beat it, just beat it

E ela sai andando, sem olhar pra trás.

LOBO:
I started talking
She kept on walking

Mas o lobo sabe para onde a garota se dirige e faz uma promessa a si mesmo.

LOBO:
I'll be there, I'll be there…
The girl is mine!

TERCEIRO ATO – A CASA DA VOVOZINHA

Chapeuzinho Vermelho chega ao sobrado de sua progenitora, encontra a porta aberta e entra sem cerimônia.
Lucas Paio, 01/07/2009
VOVOZINHA:
Sit yourself down, take a seat

Chapeuzinho mostra sua garbosa cesta e oferece os doces à avó.

CHAPEUZINHO:
Take, take, take
What you need

A velha se farta de bolinhos e quindins. Em seguida, começa a se aproximar da neta de maneira não muito cristã.

VOVOZINHA:
Hold my hand
Feel the touch of your body cling to mine

Chapeuzinho acha aquilo esquisito. Há algo muito estranho nessa vovó.

VOVOZINHA:
Am I amusing you?
Or just confusing you?
Am I the beast you visualized?

A menina então percebe: a face peluda não é só falta de depilação, nem o nariz pontudo é o resultado de numerosas cirurgias plásticas. É o lobo quem está por trás das vestes da infeliz senhora.

CHAPEUZINHO:
I am tired of this devil!
I am tired of this stuff!

VOVOZINHA:
Why don't you believe me
When I say that I am true?
Is that scary for you, baby?

Vendo que a menina não é assim tão tapada, o lobo tira a touquinha cor-de-rosa e os óculos de leitura.

LOBO:
I found my happiest days
When you came to see your grandma in may

CHAPEUZINHO, tentando escapar:
I don't wanna get eaten alive
'Cause you're so dangerous

LOBO, escancarando a bocarra:
I don't know what’s gonna happen to you baby
But I do know that I want you

Pausa para acalmar os ânimos da platéia.



ÚLTIMO ATO - AINDA NA CASA DA VOVOZINHA

Ouvindo os gritos e a cantoria, um caçador que por ali passava resolve entrar pra ver se é briga ou é brahma. Encontra uma menina de capuz vermelho e um lobo de camisola e pantufas, ambos se acusando mutuamente.

CHAPEUZINHO:
You know he really tried
To take me down by surprise

LOBO:
She’s so dangerous
The girl is so dangerous

Em meio à balbúrdia, ouve-se uma voz ao longe, fraca e roufenha.

VOVOZINHA:
Take me back
Take me back where I belong

Assombro geral: a vovozinha está viva, dentro do ventre do lobo. O caçador pega suas armas e desafia o canídeo.

LOBO, em posição de luta:
Beat me, hate me
You can never break me
Will me, thrill me
You can never kill me

E é com facas e flechas que o caçador atinge o lobo, abre sua barriga e retira lá de dentro a pobre aposentada.

LOBO, moribundo:
You put a knife in my back
Shot an arrow in me
Tell me, are you the ghost of jealousy?

VOVOZINHA, atordoada:
Where have I been?
What lifetime was I in?
Suspended between time and space

CHAPEUZINHO:
Oh, my God, can't believe what I saw

Enquanto limpa o suco gástrico da cara da velha, o caçador demonstra preocupação:
Lucas Paio, 01/07/2009
CAÇADOR:
Will you tell us that you're ok?

VOVOZINHA:
But I am speechlees, speechless

Já Chapeuzinho é só alegria. Canta, dança, rodopia.

CHAPEUZINHO:
I believe in miracles
And a miracle has happened tonight

E depois, para o corpo inerte do lobo:

CHAPEUZINHO:
Who’s bad?

Quem

Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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Cinema por quem entende mais de mesa de bar

Crônicas de um mineiro na China


Uma história parcialmente non-sense escrita por Lucas Paio e Daniel de Pinho

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