sexta-feira, 28 de agosto de 2009

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Arrivederci



Roma, Itália
18 a 20 de fevereiro de 2007

Quando regressei a Roma depois de alguns dias perambulando por Venezia e Firenze, cumpri a promessa de não pisar novamente no Alessandro Palace e me instalei no Stargate Hostel, na mesma região feia mas bem localizada, perto da Termini. O albergue seguia o esquema que eu já experimentara no Peace & Love de Paris: chuveiro dentro do próprio quarto, sem porta nem nada - mas com cortinas impedindo a exibição das nudezes alheias - e privada no corredor, essas com portas. Outro aspecto marcante do Stargate era seu elevador à moda antiga, com grades de metal ligeiramente enferrujadas. Não quis nem conferir o estado das correntes.

Logo que cheguei, o Efeito Itália fez-se presente mais uma vez: vira e mexe conhecia alguém numa cidade e encontrava por acaso em outra. Foi assim com as duas brasileiras que conheci em Roma e vi de novo em Veneza, o casal australiano de Newcastle que reencontrei casualmente em Florença e esse baiano, com quem bebi no pub crawl de Berlim e topei outra vez nas ruas romanas.

A última noite da viagem - uma segunda-feira de Carnaval! - foi com um apanhado de várias regiões brasileiras: o baiano, os três cariocas que estavam com ele e com quem rodei em Pompéia, e as três gaúchas que conhecemos nas ruínas. Elas sugeriram um bar logo ao lado de onde estavam hospedadas. Ironicamente, se era tão fácil esbarrar a esmo com alguém, foi complicado reunir toda a patota pra sair à noite, sem celular.

Chegamos no tal pub e um rapaz veio saber o que queríamos ali. Ué, tomar uma cerveja? Ele foi lá dentro, consultou um superior e deixou que entrássemos. Senhores com muita cara de mafiosos penduravam seus ternos e nos olhavam de rabo de olho. Olhávamos o cardápio quando a garçonete veio e avisou que, na verdade, todas as bebidas custavam 10 euros. E a gente achando aquilo muito estranho, mas uma das gaúchas estava com muita vontade de beber e acabou pedindo a cerveja mais cara de sua vida - 27 reais por uma long neck. Assim que ela terminou, pegamos os casacos e demos no pé, antes que nos dessem um tiro ou furassem nosso olho, o que viesse primeiro.

Melhor pedida foi o Julius Caesar Pub, que tinha cerveja Guinness mais em conta e tocava de tudo, até uma ou outra música brasileira - uma razoável para cada outra lamentável, mas brasileira ainda assim. Depois saímos todos bêbados, em busca do Yellow Hostel, o albergue onde os cariocas estavam e que tinha um bar para continuarmos a noitada. Após seis quarteirões sem reconhecer um nome de rua sequer, nos demos conta de que andáramos aquilo tudo na direção errada. Tudo bem: eu já tinha feito coisa parecida antes, e sóbrio.

Voltei para o albergue às 4 da manhã, depois de algumas horas de vinho e cavaquinho, confiando no acaso para acordar antes do horário do check-out, que era às 10h. Abri os olhos, assustado, às 11h40. Ninguém no quarto: nem os iranianos, nem o casal do Peru, nem as mochilas e malas de ninguém - exceto as minhas, ainda bem. Desci correndo, pedindo pelamordedeus que não me cobrassem outra diária, e os caras: "Va bene, va bene!", naquele bom humor que você já conhece. Saí pelas ruas apressado em direção à estação, carregando as mochilas, despenteado e com uma já prevista dor de cabeça. Nada mais adequado para encerrar uma viagem do que uma boa ressaca.

Este post conclui a série tardia sobre meu mochilão na Europa em 2007. Para ler todos, clique aqui. A seguir, voltamos com nossa programação normal. Ou quase.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Ashes are burning



Pompéia, Itália
19 de fevereiro de 2007

Depois de Tróia e Esparta, a próxima cidade antiga a virar blockbuster seria Pompéia, num thriller dramático de 130 milhões de dólares dirigido por Roman Polanski. Só que o Polanski saiu do projeto e infelizmente não se sabe se o filme vai ou não vingar. Por outro lado, o mundo fica livre de mais um papel insosso de Orlando Bloom.

A história de Pompéia é cinematográfica por natureza. Cidadezinha romana típica, de agitada vida cultural e popular destino de verão. Em 62 d.C., é antigida por um terremoto de 7.5 na escala Richter, que destrói grande parte de suas edificações e instaura o pandemônio no lugar. Nos dezessete anos seguintes é reconstruída pouco a pouco, até que em 79 d.C. o vulcão Vesúvio resolve acordar e espalha pedras e cinzas pra todo lado, soterrando todo mundo. Sua localização é esquecida por mil e quinhentos anos, até que acidentalmente descobrem suas ruínas e iniciam as escavações. Até hoje não terminaram: dos 66 hectares, 21 ainda permanecem intocados. Como se não bastasse, em 1943 os Aliados jogaram 150 bombas em Pompéia, achando que os alemães estavam usando o lugar para estocar munição. Ô lugar zoado.

Eu ouvia essas histórias desde criança e, para meu último dia de mochilão, escolhi fazer um bate-e-volta a partir de Roma para conhecer o famoso sítio arqueológico à beira do Vesúvio. É só pegar um trem pra Nápolis (227km) e outro rapidim (30km) pra cidade de Pompéia. E foi aí que fiz a primeira descoberta, quando cheguei na estação com três cariocas que havia conhecido no dia anterior: existem as ruínas de Pompéia antiga, mas há também uma cidade moderna, logo ao lado, com o mesmo nome. Em italiano, elas se distinguem pela quantidade de Is: "Pompei" é a atual e "Pompeii", a antiga.

Um monte de taxistas se ofereceram pra levar a gente até as ruínas, mas preferimos a pão-duragem e rumamos para o ponto de ônibus. Esperamos, esperamos, até que o ônibus finalmente apareceu... e não parou. Vencidos, caminhamos a distância da estação até a entrada de Pompeii, que nem era tanta assim.

O ingresso custou 10 euros e deu direito a um mapa e um livrinho caprichado (80 páginas) com detalhes sobre as várias construções encontradas lá dentro. Um italiano barrigudo ofereceu seus serviços de guia turísticos, dizendo em inglês macarrônico: "Ráier a gáide ru uíl títchiu Rôman rístori". Preferimos recusar. Também me neguei a comprar um guarda-chuva, embora o sol estivesse longe e a previsão do tempo não fosse nada esperançosa. Resultado: o único dia em que levei o meu Guia do Viajante para um passeio externo também foi o único dia em que choveu. O coitado ficou encharcado.

Ainda na entrada, conhecemos duas garotas cariocas que eram intercambistas em Nápoles, e mais adiante se juntaram a nós três gaúchas que também percorriam o continente europeu. Foi também a primeira vez que andei durante o dia junto com outros brasileiros, e é impressionante como a viagem muda nessas circunstâncias: ganha-se em conversas e piadinhas, mas você deixa de ser mestre do próprio destino, e passa a ir aonde a massa vai.


Entramos em Pompéia com um desejo em comum: queremos ver os corpos! E não demoramos a encontrá-los no chamado "Jardim dos Fugitivos", um amplo espaço cheio de pompeenses mortos. Aí foi a vez da segunda descoberta: não são pessoas cobertas de lava petrificada ou algo que o valha, mas moldes de gesso feitos durante as escavações das ruínas. A técnica foi introduzida pelo diretor das escavações na segunda metade do século XIX, Giuseppe Fiorelli, e funciona assim: os corpos soterrados por cinzas foram se decompondo lentamente e deixaram um vão ali no meio, na posição em que estavam; injeta-se gesso ali dentro, que endurece e pronto. É como uma marca de giz no asfalto, em volta do cadáver recém-assassinado, só que 3D.

Caminhar por Pompéia é um barato. São dezenas de construções, entre casas, estabelecimentos comerciais, teatros e o enorme anfiteatro, onde o Pink Floyd filmou seu "Live at Pompeii", provavelmente o show com pior média de público da história. Grande parte dos objetos, bem como muitos dos corpos de gesso, foram tirados de lá e levados para o Museu Arqueológico Nacional de Nápoles, malditos napolitanos. Ainda assim, muitas estatuetas, pinturas e objetos continuam firme e fortes em seu lar original, bem conservados, e em muitas casas é possível entrar e se pegar imaginando como seria viver ali há dois mil anos.

Na volta para Nápoles, tivemos provas de que o mau humor não é exclusividade dos cidadãos de Roma. Primeiro, um cara implicou com nosso passe de trem e queria cobrar trinta e tantos euros de multa, até que a intercambista carioca, que falava um italiano mais razoável, conversou com ele e resolveu a encrenca. Em seguida, um bigodudo chato não queria aceitar meus euros pra reserva do trem porque a nota estava molhada, mas eu não tinha um secador portátil na mochila e ele acabou cedendo. Depois o Umberto Eco diz que o maior problema da Itália são os italianos, e o pessoal acha ruim.



O Anfiteatro de Pompéia.



Este pub encerrou suas atividades há 1930 anos.



Ruas romanas e mau tempo.



Um cadáver deitado.



Um cadáver agachado.



Um cadáver de bruços.



Um cadáver dormindo.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Florentina, Florentina



Florença, Itália
16 a 18 de fevereiro de 2007


Não vou me alongar quanto à minha passagem por Florença. A capital da Toscana, berço do Renascimento, lar de obras-primas da pintura, escultura e arquitetura, é sem dúvida um destino visual e culturalmente imperdível. O caso é que simplesmente não vivi ali experiências dignas de virar história de mesa de bar. O principal culpado, provavelmente, é o hostel que escolhi através do Hostelbookers.com. Não era um albergue de verdade, mas um pseudo-hotel com quartos individuais e banheiro no corredor. Ou seja: não tinha a comodidade de poder tomar um banho na hora que der na telha, nem a vantagem dos quartos coletivos de propiciar conversas enriquecedoras com viajantes intrépidos do Azerbaijão.

Minha chegada a Firenze - o nome oficial da cidade em italiano, ou você achou que era "Florenza"? - deu-se às nove e meia da noite de uma sexta-feira. Fui confiar em meu senso de direção e no mapa estilizado do meu Guia do Viajante Independente, e penei pra encontrar o tal Soggiorno Pitti. Também, o cara consegue se perder na Savassi e acha que chegar numa cidade estrangeira totalmente nova vai fazer brotar um GPS na cabeça. A localização da hospedagem, no entanto, era bem boa. Caminhando, margeei o Rio Arno, cruzei a Ponte Vecchio, comi panino de mortadela na Piazza Duomo. Na Galleria dell'Accademia visitei o desinibido David de Michaelangelo, esculpido quando seu autor tinha 26 anos. O que dá na cabeça desse povo, pra ser gênio tão cedo? Na Galleria degli Uffizi enfrentei uma fila de duas horas para contemplar "O Nascimento da Vênus" de Botticelli e outras trocentas maravilhas renascentistas, isso quando os japoneses não invadiam as salas em bando e atrapalhavam a tranqüilidade. Pelo menos, o ingresso nesse dia era de graça. Na Basilica di Santa Croce, topei com os túmulos de Maquiavel, Michaelangelo e Galileu - e o Père-Lachaise de Paris se gabando de ter o Jim Morrison. Foram boas visitas, boas comidas, boas andanças. Mas sei lá: olhando em retrospecto, eu poderia ter deixado a "obrigação" de visitar Florença e aproveitado para me aventurar em cidadezinhas medievais fora do circuito tradicional, ou para procurar os poucos Paios ainda nativos da Itália. O bom é que eu fico com desculpa pra voltar.



O David de Michaelangelo. Mentira, é uma réplica do mesmo tamanho que fica na Piazza della Signoria. Mas muita gente tira foto como se fosse a original.



Michaelangelo, Leonardo e Donatello. Só faltou o Rafael e o Mestre Splinter.



Multa de 50 euros pra quem colocar cadeado na grade...



...mas aparentemente ninguém tá nem aí.



Peraí caceta.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Serenissima



Veneza, Itália
15 e 16 de fevereiro de 2007

Tudo que eu tinha pra falar de Veneza eu já escrevi neste post de 2007. De como deixei pra última hora a tarefa de encontrar abrigo e acabei num camping na cidade vizinha de Marghera, onde tomava banho no pior chuveiro do mundo. De como o Carnaval veneziano passa longe das ruas sujas de Diamantina, do frevo suado de Olinda e das penas coloridas da Sapucaí, e se resume a transeuntes trajando fantasias caras à moda de 1600 - isso fora dos grandes salões, onde o pau quebra de verdade, mas só pra quem está disposto a desembolsar cento e tantos euros numa folia aristocrática.

Isso é mais ou menos tudo. Em Veneza não colecionei casos hilariantes, não conheci figuras pitorescas nem me embrenhei museus adentro sedento por cultura. A única atração paga que visitei foi o Campanário da Praça de São Marcos (6€), de cujo topo tem-se uma vista invejável da porção continental da cidade e de suas ilhotas espalhadas pelo Mar Adriático. Também não me dei o trabalho de encontrar o centro de informações turísticas e requisitar meu mapa grátis. Era muito mais divertido tentar seguir as placas duvidosas e as pessoas apressadas, confiando na sorte e conhecendo cantos escusos que um guia de papel não se importaria em ignorar.

Porque Veneza é isso: atração por si só, lugar pra andar a esmo sem outras preocupações a não ser achar sorveterias e desviar dos pombos. Muita água, mas também muita terra firme, o que era uma questão que me perseguia: será que todas as ruelas de Veneza são aquáticas, e a locomoção em duas pernas é só por pontes e meios-fios? Não: os canais são abundantes e vão dos filetes de água à imponência do Gran Canale, mas há diversas praças além da San Marco, e muito chão de verdade para os hidrofóbicos. Transporte, só mesmo os vaporetti - barquinhos motorizados que ligam as várias regiões da cidade - ou as gôndolas, se você for casal ou japonês.

Vagando pela Piazza San Marco, reencontrei duas brasileiras que conhecera no famigerado Alessandro Palace de Roma. Uma de Recife e outra de Belo Horizonte, ambas viajando juntas há semanas. No trem para Veneza, passaram sufoco: alguém afanou a bolsa da belo-horizontina; investigaram todos os vagões e tiveram a sorte de encontrar o passaporte, intacto, dentro de um vaso sanitário. Longe da amiga, a recifense me confidenciou que já estava de saco cheio de viajar com ela. O ritmo das duas não batia, cada uma tinha horários e objetivos e gostos e vontades diferentes, e eu pensando: tem hora que viajar sozinho é bom demais. Lembrava do grupo enorme de Brasília que conheci em Amsterdam, duas mulheres e três homens, e reparando nos problemas causados por falta de afinidades e excesso de convivência. Às vezes é melhor andar sozinho e não ter ninguém te aporrinhando quando você resolve entrar numa loja de instrumentos e comprar um kazoo barato de plástico, ou escrever postais na beira do mar tomando gelato de stracciatella (sempre ele). Se for em Veneza, então, melhor ainda.

domingo, 23 de agosto de 2009

Sono pazzi questi romani



Roma, Itália

12 a 15 de fevereiro de 2007


Olha, o mundo todo devia ser como a União Européia: cheio de diferenças culturais, idiomáticas e gastronômicas entre os países, sim, mas com uma só moeda e essa facilidade incrível de transitar sem chateações alfandegárias e burocráticas encheções de saco. Quando desci em Roma, até perdoei o avião claustrofóbico da Ryanair e o meu ouvido que ficou entupido por dois dias: sair de um aeroporto internacional sem que sequer peçam seu passaporte vale tudo isso.

Me falaram que Roma era feia, que era violenta, mas caminhei bastante pela região da Stazione Termini - que realmente não é das mais vistosas -, inclusive de madrugada, e não tive problema algum. Já a história de que o trânsito romano é o mais próximo que já chegamos do apocalipse não é intriga. Por via das dúvidas, eu só atravessava a rua quando outros transeuntes se aventuravam também.

De resto, passear por Roma é uma beleza, e é melhor que você o faça a pé. O metrô é muito cheio e você acaba perdendo detalhes da paisagem, como um pé gigante de mármore dando sopa numa ruela qualquer ou ruínas que estão ali de bobeira há dois mil anos. Faça o roteiro completo: tome um gelato de stracciatella na escadaria da Piazza Spagna, jogue uma moeda na Fontana di Trevi (mesmo que depois um ladrãozinho maroto meta a mão lá dentro pra pegá-la), prove um gole do pior refrigerante do mundo. Percorra o Circus Maximus, mesmo que nenhum vestígio do circo tenha restado no que hoje parece o gramado do Parque Ecológico da Pampulha. Enfrente a fila do Coliseu e ande pelo Palatino imaginando quanta coisa já se passou naquelas ruínas - só não precisa tirar foto com os legionários fake loucos por uns trocados.

O grande problema de Roma - na visão de quem ficou por lá menos de uma semana, não custa repetir - são mesmo os romanos. Obelix tinha razão: esses romanos são loucos, e o que é pior, mal-educados pra cacete. O albergue onde fiquei, Alessandro Palace Hostel, tinha funcionários que faziam a americana ranzinza do Peace & Love de Paris parecer recepcionista de hotel 5 estrelas. Quando viram que eu era brasileiro, então, danaram a desfilar o repertório de palavrões que eles conheciam na língua de Dercy Gonçalves. Ainda bem que meu repertório é maior e eles não entenderam metade do que eu retruquei.

Mas a fauna de hóspedes do hostel era interessante. Tinha uma californiana com cara de asiática que estava lá há duas semanas, só acordando tarde e saindo com os amigos à noite, "just hanging out" (palavras dela). Tinha dois escoceses que viajavam com dois violões, provavelmente gastando mais com taxas extra do que com as próprias passagens. Fizemos um som no quarto - toquei "Hello" do Oasis e "Karma Police" do Radiohead, as primeiras canções britânicas mais ou menos recentes que me vieram à cabeça. Quando alguém perguntou, em tom de galhofa, se eles vestiam kilt, um deles não hesitou em tirar seu saiote xadrez da mala e exibi-lo com orgulho.

Depois os corteses funcionários do albergue me trocaram de quarto sem motivo aparente, e fui parar em outro com uma chinesa que mora em Tóquio e viajava sozinha pela Itália. Seu nome era quase impronunciável, mas ela se apresentava como "Ding Ding". Era engraçada: pegou meu guia de viagem e ficou horrorizada com a falta de fotos; disse que se um guia não tiver muita, muita foto, japonês não compra. E me mostrou o guia dela, que parecia álbum de figurinhas de tão ilustrado. Ding Ding também comprou um livro em italiano pra tentar aprender a língua. Detalhe: não era um dicionário ou um guia de frases, mas um livro normal, de ficção. Aposto que até hoje ela não sabe o que é porca miseria.

Nesse mesmo quarto, sofri com um dos maiores problemas alberguísticos: o famoso cara que ronca. Em vários dos lugares onde fiquei, sempre tinha alguém que roncava em maior ou menor intensidade, e eu mesmo devo ter dado minhas ressonadas quando bebia um pouco mais. Mas esse cara, um sujeito mais velho que chegou quando eu já estava quase dormindo, embrenhou-se numa barulheira nasal que não cessava nem por determinação de bula papal: cutuquei, soquei o estrado de sua cama por baixo, acendi a luz na cara dele, e ele só parou quando eu já estava sonhando que estava numa convenção da Harley-Davidson.

Quando voltei a Roma três dias depois, fiz questão de não voltar ao Alessandro's.



Cidade do Vaticano, Vaticano
14 de fevereiro de 2007

Como nação, o Vaticano é tão fuleiro que nem fiz um post separado só pra ele. Teoricamente, você pode ficar pisando dentro e fora da Piazza San Pietro e contar depois que fez quatrocentas e cinqüenta viagens internacionais em cinco minutos. Mas é quase a mesma coisa de você entrar num supermercado, derramar uma porção de latas de Pomarola e fundar uma ilha cercada de massa de tomate por todos os lados: alguém pode até entrar na sua e saudá-lo como o Novo Imperador da Licopérsia, mas país, país mesmo, não vai ser nunca.

Como atração, no entanto, o Vaticano é imperdível, mesmo que você - como eu - não seja católico apostólico romano e nem queira tomar bênção de Benedictus XVI. O Vaticano já vale a pena pelo seu incomensurável valor histórico e cultural. Começa com o Museu do Vaticano, cuja entrada não é pela Praça de São Pedro, mas por Roma mesmo. Dá pra passar uma semana inteira ali dentro, admirando as zilhares de estátuas, as salas decoradas por Rafael Sanzio, as obras de arte religiosa moderna que incluem até Dalí. A visitação culmina com a Capela Sistina, invariavelmente abarrotada de turistas. Enquanto eu tava ali com o pescoço doendo de tanto olhar pros afrescos do teto, um funcionário teve que pedir silêncio duas vezes, tamanha a balbúrdia.

Quem conhece a expressão "é como ir a Roma e não ver o Papa" deve imaginar que o Pontífice fica lá o dia inteiro, sentado num sofá e tirando foto com os fiéis. Mas se você realmente for se sentir uma pessoa mais iluminada se topar com Lord Ratzinger, procure saber antes que dia ele vai aparecer, porque ele só celebra missas ali em dias específicos.

Entrei na Basílica de São Pedro no meio de uma missa, mas com velhinhos mais simpáticos no comando. Me infiltrei na multidão pra chegar mais perto do altar, cumprimentei os que estavam mais perto desejando "pace di Cristo", e depois fiquei sentado esperando a massa ir embora para visitar a Basílica com calma. Quando finalmente a turba se dissipou e eu podia respirar tranqüilo, avistei ao longe a Pietà de Michaelangelo e me aproximei, mas fui interrompido por um funcionário:

- Todo mundo tem que sair.
- Não, peraí rapidinho, só vou ali ver a Pietà!
- Não não, todo mundo tem que sair - e me pôs pra fora.

Esses romanos são uns intransigentes.



A Praça de São Pedro, durante a missa.



A mesma praça, depois da missa.



Um pé gigante no meio da rua.




Uma bunda gigante no meio da praça.



Tá vendo o Circus Maximus? Não? Então é melhor pegar um DeLorean pra 50 antes de Cristo.



Guarda l'uccello!



Ave, Caesar, morituri te salutant.



O legítimo Pombo Times New Roman.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Uppsala abaixo de zero



Uppsala, Suécia
9 a 11 de fevereiro de 2007

Música-tema: "Speedy Gonzales", de Stefan Sundström & Weeping Willows

A Suécia foi um diferencial na minha viagem. Brasileiro que vai a Paris ou Veneza não falta por aí, mas não são tantos os que se atrevem a conhecer a simpática e gelada cidade de Uppsala, 70 quilômetros ao norte de Estocolmo. Uppsala abriga a universidade mais antiga de toda a Escandinávia, a Uppsala Universitet, fundada em 1477. Cabral nem sonhava em pisar na Bahia e calouro já levava trote na Suécia. Muitos alunos notáveis se formaram lá, entre eles Lineu, o cara que criou os nomes científicos da biologia, e 15 ganhadores do Prêmio Nobel - e você feliz por ter ganhado o Criafest.

Pernilla, que também estuda lá mas ainda não ganhou prêmio nenhum, morava numa acomodação específica para estudantes: uma "nation". As nations não pertencem às universidades: são como repúblicas independentes, mas bem maiores, com quartos individuais e cozinhas compartilhadas. Algumas - como a Smålands Nation, da Pernilla - têm até um pub próprio.

Se em Estocolmo conheci comidas típicas e tive fartas opções para o desjejum, em Uppsala nosso café da manhã se resumia a pão e água da torneira (não faça essa cara, a água da torneira da Suécia provavelmente é mais potável do que muita água mineral que você bebe por aqui). E o pão era pão mesmo, sem manteiguinha ou ioiô nutcream. A Pernilla até me fez provar patê de fígado, mas entre isso e pão puro, fico fácil com o segundo. Outras refeições interessantes foram o purê de batata em pó (é só misturar com água que ele adquire a pastosidade do original) e o strogonoff de salsicha que ela preparou e que se parecia com tudo, menos com strogonoff ou com salsicha. Enquanto isso, eu fiquei encarregado de fazer o arroz e, no auge de minha habilidade gastronômica, deixei o negócio queimar a panela nova dela. "You burned my panela!", ela reclamava, falando o nome do objeto em português mesmo: nenhum de nós sabia falar "panela" em inglês, e era de "Panela" que havíamos apelidado Pernilla em Salvador, dada a semelhança da pronúncia de seu nome com o utensílio de cozinha.

Mas a coisa mais estranha que ela me fez experimentar, no pub da Smålands Nation, não foi comida nem bebida, mas um tal de snus. O snus é um troço feito de tabaco que você coloca sob o lábio superior e deixa lá um tempão. O que ele faz? Nada. Não dá onda, não é gostoso, não te deixa feliz. Você fica lá com aquele gosto ruim anestesiando sua boca, achando que pelo menos tá agindo como os locais. Depois descobri que a Pernilla mesmo nunca provou esse negócio.


Uppsala estava com um visual bem agradável. Céu azulão, neve cobrindo tudo e aquela atmosfera da última tirinha de Calvin e Haroldo: "é como ter uma grande folha de papel pra desenhar". Mas no quesito frio, o bicho pegava. Teve noite que fez menos 14 graus, e ao meu figurino habitual - gorro, cachecol, luvas, camisa hering, camisa de manga comprida, casacão, calça jeans, meias de lã e bota - tive que adicionar outro par de meias grossas e uma calça de moletom sob o jeans.

Em um dia dá pra fazer o sightseeing tradicional: a Catedral de Uppsala, maior igreja escandinava e lar eterno do rei Gustav Vasa e outras figuras; o Castelo de Uppsala, que data do século XVI e hoje é lar (temporário) do governador; e o Museum Gustavianum, onde o visitante pode ver antigos artefatos egípcios, tentar decifrar a caligrafia de Lineu em seus bloquinhos de anotações de mil setecentos e fumacinha e visitar um autêntico teatro anatômico, onde muita gente foi dissecada enquanto atentos estudantes teciam suas observações.

Cidade universitária que se preza tem que ter também uma vida noturna à altura. O esquema é parecido com uma Ouro Preto: algumas nations fazem shows, como o da banda Shake the Nation a que assisti na Kalmars Nation; outras fazem festinhas fechadas, cozinha-e-sala, em que cada um leva seu vinho branco de supermercado e todo mundo se diverte. Mais legal que isso, só passar a noite escorregando morro abaixo na neve.

O "esporte" chama-se pulka. Na verdade não é bem um esporte, mas uma brincadeira bem semelhante ao esquibunda que se pratica na grama ou nas areias das praias, só que na neve. Nos reunimos num morro perto do Castelo, com mais alguns estudantes uppsálicos e um visitante... do Rio de Janeiro. (É. Nem no interior da Suécia a gente se esquiva de encontrar compatriotas.) O "trenó" é uma pequena prancha de plástico onde você coloca os pés, a bunda e vai descendo sem muito controle.

Na primeira vez, machuquei o cotovelo. Na segunda, me desequilibrei do trenó e saí rolando pelo morro, a neve entrando pelas mangas do casacão. Na terceira vez fiz tudo certo: tem até um vídeo pra provar, embora não dê pra ver nada pela escassez de holofotes na região. Na quarta, resolvi nem esperar um trenó vago: desci sobre um pedaço de saco plástico mesmo, sorrindo que nem menino. É como diz o Calvin em sua última fala em seu último quadrinho. "It's a magical world, Hobbes, ol' buddy... Let's go exploring!".

Leitura adicional: o post que a Pernilla fez no blog dela sobre minha visita a Uppsala. Se você não foi alfabetizado em sueco, pode jogar no Google Translate que dá pra entender.




Antes da descida.



Mergulhando na escuridão.



Sobrevivente.


Everything familiar has disappeared! The world looks brand-new!

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Sweded



Estocolmo, Suécia
7 a 9 + 11 e 12 de fevereiro de 2007


Fui parar na Suécia por conta de uma passagem da Gol de 50 reais.

Mentira, não foi bem assim. A ligação é ligeiramente mais tortuosa: a passagem barata foi para uma viagem-relâmpago de Beagá a Salvador, em 2006, com mais três amigos. No albergue, conhecemos duas meninas de Estocolmo, mantivemos contato pelos MSNs da vida e, quando contei que estava planejando um mochilão para a Europa, elas me chamaram para me hospedar de graça por lá. E como é que eu não vou?

Às dezesseis horas e trinta minutos, já era noite em Estocolmo. E a neve, que tinha tanto ar de novidade na Alemanha, começou a virar a coisa mais corriqueira. Comprar as botas de neve em Berlim provou-se uma decisão acertada: meus tênis ficariam encharcados na mesma hora. Eu só não precisava ter caído na conversa da vendedora e levado também um spray para proteger o couro da bota, porque só usei o negócio uma vez e ele tá lá em casa até hoje, ocupando o guarda-roupa.

A Suécia é um país para se ir de couchsurfing. Os preços não são nada amistosos: pra se ter idéia, uma viagem simples de metrô custa 20 coroas, o equivalente a 5 reais. Por isso, foi ótimo ter economizado em albergue e me abrigado na casa da Sara. Toda hospitaleira, ela fez comida, milk-shake, e apesar de não ser sueca de raiz - nasceu no Sri Lanka! - preparou alguns pratos típicos da terra do Bergman, como o köttbullar (almôndegas suecas) e o semla (doce servido tradicionalmente no primeiro dia da Quaresma). De manhã, saía e deixava bilhetes com instruções detalhadas sobre o café da manhã: "Com fome? Pão [setinha indicativa perto do pão] - 2 tipos diferentes (na verdade também tem torradas no freezer). Um branco que você pode enrolar ou outro marrom. Na geladeira você encontra leite (mjölk), iogurte, e 4 coisas diferentes para você provar com o pão: frango (kyekling), peru (kalkon), salame e queijo". Mordomia pouca é bobagem. Mas ei, eu lavava as vasilhas!


20 köttbullars prontos para o abate.

Estocolmo é um arquipélago formado por 14 ilhas cercadas, no inverno, de água congelada por todos os lados. Eu até peguei uma pedra e joguei na água pra ver se a camada de gelo furava fácil, mas não, ela saiu deslizando em movimento retilíneo uniforme com atrito desprezível. A ilha mais famosa é a Gamla Stan. Como você poderia deduzir se soubesse falar sueco - o nome significa "Cidade Velha" - ela é o centro histórico e, previsivelmente, lar das abundantes lojinhas de souvenirs vendendo alces de pelúcia pra ocupar espaço no avião e estatuetas de vikings pra quebrar na mala. É também na Gamla Stan que fica o Palácio Real, onde você observa os guardas andando mecanicamente de um lado pro outro, como soldadinhos de corda.

Tinha museus interessantes em Estocolmo. Perto da casa da Sara, que ficava em Östermalm, topei com um tal Museu da Música (Musikmuseet), cheio de instrumentos exóticos pra olhar, ouvir e até tocar, além de exibições temporárias, como aquela que homenageava o ABBA. Outro bacana, ali na ilha de Djugården, é o Museu Nórdico (Nordiska Museet), com vários andares e os mais diversos artefatos, de esqueletos a casas de boneca. O mais legal era a exposição temporária com dezenas de coleções de tudo quanto é cacareco: selos, moedas, chapéus, xícaras, brinquedos de Kinder Ovo, artigos do ABBA (pelo visto, eles estão em toda parte).

Mas o museu que mais se destacou ante meus olhos foi o Vasamuseet. O Vasa era um navio de guerra que afundou em sua viagem inaugural, em 1628. O mergulho foi na própria baía de Estocolmo, perto do porto, só que ninguém conseguiu tirá-lo da água e sua localização acabou esquecida (você sabe como era a tecnologia de resgate de embarcações no século XVII). Trezentos e trinta e três anos depois, em 1956, conseguiram achar o navio inteiro, com várias armas de guerra, canhões e, naturalmente, cadáveres. O barcão tá lá exposto no museu: você só não consegue caminhar por dentro dele, mas dá pra ver bem de perto como era e se imaginar limpando o convés. Curiosamente, o museu do Vasa foi uma das duas únicas atrações em toda a viagem que tinha folheto em português (a outra era a Sagrada Família em Barcelona). Nosso idioma era o último de uma lista que tinha sueco, inglês, norueguês, dinamarquês, alemão, francês, holandês, italiano e espanhol.


Depois de Estocolmo fui a Uppsala escorregar na neve e visitar a Pernilla, a outra sueca que conheci na Bahia. Mas depois de dois dias precisei voltar a Estocolmo, para azar da Sara e do namorado dela - o quarto deles ficava no andar de cima e o apartamento não tinha paredes. Eu, deitadão no sofá no andar debaixo, era o legítimo empata-foda.

Mas não tive escolha: é que meu avião da Ryanair para Roma saía de um aeroporto de Estocolmo. Na verdade, não ficava dentro da cidade: era em Skavsta, longe pra cacete, a mais de 100 quilômetros. E o horário não podia ser menos camarada: 6h45 da manhã. Tive que sair às 3h15, tomar um táxi para o City Terminalen e depois um ônibus para o aeroporto. E você achando que os escandinavos eram todos exemplos de cidadania: para entrar no ônibus, peguei uma fila desorganizada e um empurra-empurra de dar inveja à Praça Sete na hora do rush. Pelo visto, a Suécia não fica assim tão longe do Brasil.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Trem de døido



Berlin, Hamburg e Neumünster, Alemanha + København, Dinamarca + Malmö e Stockholm, Suécia
6 e 7 de fevereiro de 2009

A viagem que realmente valeu meu passe de trem foi a longa e sinuosa jornada entre a República Federal da Alemanha e a capital do Reino da Suécia. Foram 1.421 quilômetros percorridos. 5 viagens de trem. Mais de 13 horas sobre trilhos, e outras 5 horas e meia panguando na estação entre um trem e outro. Seis cidades, um cassino fajuto, um sujeito levado em cana dentro do vagão.

Saí de Berlim às nove e pouco da noite, após o pseudo-atentado no Reichstag. Comi alguma gororoba em Hamburg por volta das onze e de lá segui para a estação de Neumünster, no norte da Alemanha, onde desembarquei à uma e meia para esperar o trem para a Dinamarca, que só partia às 4h45. Peraí, eu falei estação? Pois Neumünster (leia-se "Nóimínster", fazendo bico no segundo í) não tinha uma estação de verdade, com lanchonete pra enganar o estômago ou mesmo um banco pra deitar que nem mendigo. Era só um ponto no meio do nada, sem cobertura nem lugar de sentar, e aquele frio camarada que você imagina.

Conheci um alemão que também estava indo pra Copenhagen, onde trabalhava como dentista, e resolvemos sair andando pela madrugada em busca de algum lugar aberto e quente. Achamos um "cassino", bem entre aspas: era uma lan house onde ficamos umas duas horas na internet enquanto um pobre dum sujeito perdia todo o seu dinheiro em uma slot machine. Passou a noite toda ali, solitário, se entregando ao vício.

Às 4h45, pegamos o trem para Copenhagen. Um alemão cascudo pegou meu Europass, olhou desconfiado e sentenciou:

- Not valid.

Opa opa. "Not valid" é o chucrute da sua avó. Meu passe estava nos trinques e o balconista da Berlin Hauptbahnhof me garantira que pra essa viagem não tinha nem taxa de reserva obrigatória. Teimei com ele:

- Tá válido sim, olha a data aí.
- Aqui diz: só é válido junto com o passaporte. E não tem o número do seu passaporte escrito aqui.
- Ué. Não? - fingi de desentendido, tirei o passaporte do bolso e falei - Então é só anotar.

Muito a contragosto, ele pegou a caneta e acatou a sugestão.

Depois indicou o número da cabine onde deveríamos ficar. Foi o primeiro trem da viagem com cabines de verdade, estilo Assassinato no Expresso-Oriente, e não a estrutura de ônibus escolares que tinham os outros. Abrimos a porta e um australiano acordou assustado. Ele tava deitadão num dos bancos da cabine, e falamos pra ele ficar lá mesmo que procuraríamos outra. Entramos na cabine do lado, vazia, cada um esticou-se em um banco e fiquei lá discutindo futebol com o alemão-dentista, cada um zoando a seleção do outro por seus desempenhos na Copa 2006, até pegar no sono.

Lá pelas seis da madrugada, entra um indivíduo uniformizado, com cara de poucos amigos tal qual o alemão cascudo. Pronto: descobriram que a gente estava na cabine errada e iam nos tirar de lá. Mas não, ele só pediu o passaporte. Provavelmente estávamos entrando na Dinamarca. (Não me perguntem como o trem faz para atravessar a água. Dizem que os vagões são colocados num ferry, transportados e depois recolocados nos trilhos. Eu fiquei dormindo e não vi foi nada.)

Alguns minutos depois, assustados, ouvimos a voz do mesmo cara aos berros, agora na cabine ao lado. Falava em inglês:

- Cadê seus documentos?!
- ...
- Não tem documentos? Cadê suas coisas, hein?
- ...
- Você está preso. Vem comigo, você está preso.
-...
- Cadê seus sapatos? Cê não tem sapatos?! Vamos, anda logo.

Nunca saberei o que realmente aconteceu. Na hora cogitamos que o coitado fosse o australiano da outra cabine, mas quando amanheceu fomos ver e ele continuava lá, dormindo folgadão. Imagino que esse zé mané tenha entrado no trem na surdina, sem dinheiro, documentos ou sapatos (?!!), e acabou sendo preso de madrugada em pleno inverno dinamarquês. E o alemão-dentista lá zoando, falando que parecia a polícia nazista invandindo as casas pra prender judeus. Contei pra ele da frase-chave que se deve saber em alemão quando pintar alguma encrenca ("Pô, só porque eu sou judeu?!"), e ele riu bastante. Ao que parece, nem todo alemão vê problema em fazer humor com seu passado.

Descemos em Copenhagen às 10 da manhã. Eu ainda levaria mais algumas horas para chegar a meu destino final, incluindo a travessia da Øresund Bridge e as 4 horas e meia entre Malmö e Estocolmo, com direito a um atraso terrível de vinte minutos (a pontualidade alemã me acostumou mal, fazer o quê). Mas antes, aproveitei meus cinco minutos na Dinamarca para dar uma volta no quarteirão e conferir qual era a cara de København - como escrevem "Copenhagen" no original. Só deu pra notar a falta de gente, a grande quantidade de bicicletas estacionadas e essa interessante peculiaridade do alfabeto escandinavo, de riscar vogais no meio ou pôr bolinhas sobre elas. Se um dia eu arranjar uma dinamarquesa e for morar por lá, pode ter certeza: vou assinar "Lucås Paiø".


K
øbenhavn, perto da estação.


Cruzando os 7.8km da Øresundsbroen
.



Vejam o número 4: esse relógio na estação de Hamburg me fez repensar tudo que aprendi na escola sobre algarismos romanos.

domingo, 9 de agosto de 2009

Berlim Bom Fim



Berlim, Alemanha
3 a 6 de fevereiro de 2007


Depois de treze dias perambulando pelas ruas fáceis de gostar de Madrid, Barcelona, Paris e Amsterdam, quando aportei em Berlim a sensação não foi de amor à primeira vista. Cheguei à noite, dormi meio gripado e só fui ver a cara da cidade na manhã seguinte, ao pôr os pés na estação de metrô. Lixo e escombros perto dos trilhos e uma atmosfera cinza, piorada pelo tempo nublado. Custei a entender como funcionava o sistema de transporte. Primeiro, tinha que comprar o ticket e depois validá-lo em uma outra maquininha, e nada de achar a danada. Depois, fiz umas cinco viagens só pra poder chegar aonde queria, indo na sorte mesmo. Só fui descobrir que existia uma linha subterrânea (U-Bahn) e uma na superfície (S-Bahn) na quarta ou quinta baldeação.

Pisei na Alexanderplatz e aí foi o frio que pegou. Até então, tinha me virado bem com o kit casaco, luvas, cachecol e gorro. Às vezes nem precisava daquilo tudo, e ficava carregando as peças nas mãos. O gorro, então, caiu tantas vezes nas ruas e nos museus que é um milagre que tenha voltado são e salvo. Só que em Berlim, começou um vento daqueles que te faz pensar "o quê que eu tô fazendo aqui", e demorou pra que eu criasse coragem de enfrentar as condições climáticas e desbravar a selva urbana. A calça jeans nada espessa e o tênis bem ventilado definitivamente não ajudavam. Mas aí eu comecei a caminhar pela Unter den Linden, e admirar as construções, e reparar nas reconstruções, e pensar no quanto essa cidade penou de cem anos pra cá e como eles sempre conseguem se reerguer, e quando cheguei no Portão de Brandemburgo já tinha esquecido o frio e mudado completamente de impressão.

O que é muito especial em Berlim é que, enquanto uma Roma ou uma Florença são ricas em História acontecida há centenas, milhares de anos, na capital alemã a coisa toda é muito recente. As pessoas que estão ali na sua frente sofreram com a separação de uma cidade em duas, participaram da queda do famigerado muro. Os pedaços dele estão ali, alguns pintados com palavras de esperança, outros preservados com as doídas pichações escritas na época (como o comovente "To Astrid: maybe someday we will be together" que fotografei), outros vendidos por centavos como souvenir (serão mesmo de verdade? Na dúvida, comprei vários). O museu do Checkpoint Charlie homenageia todas as pessoas mortas em tentativas de atravessar o muro. O Monumento aos Judeus Mortos e a Exposição Topografia do Terror não deixam ninguém esquecer a quantidade muito maior de gente morta por causa de uma etnia.

Nem tudo tem a devida plaquinha explicativa, e muita coisa pode passar despercebida se você não tiver alguém pra te mostrar. Nesse sentido, foi bem interessante o walking tour de três ou quatro horas que fiz com mais um bando de gente. Mais do que um passeio turístico em que você anda, tira fotos e deixa pra viajar em casa, comendo pistache e exibindo os slides, no walking tour o cara parava e dava todos os detalhes dos lugares por onde passávamos. Por exemplo: a Bebelplatz, a praça onde os nazistas queimaram 20 mil livros em maio de 1933, hoje tem um discreto monumento em seu subsolo. É um cômodo branco cercado por prateleiras vazias, com espaço para exatos 20 mil livros, e uma plaqueta com a inscrição: "Aquilo foi somente um prelúdio; onde se queimam livros, queimam-se no final também pessoas".


O albergue onde fiquei era gigante. O Generator Hostel tem 7 andares, zilhões de quartos por andar e umas quinze camas por quarto, além de bar, restaurante, sinuca e muitas outras vantagens pra você (redator publicitário mode on). Foi lá, aliás, onde lavei minhas roupas pela primeira vez na viagem. Segui as instruções, comprei as fichas e demorei umas 2 horas na operação toda. Quando terminou, as roupas não tinham secado direito. A solução menos trabalhosa foi pendurar tudo ao redor da minha cama, estilo cortiço. No dia seguinte, desci pra tomar café e, quando voltei, todas as roupas haviam desaparecido. Saí pelos corredores pedindo informação, já imaginando ter que recomprar um guarda-roupa inteiro em euros pra não ter que andar pelado pela Europa. Finalmente, descobri que a faxineira tinha pegado as peças todas e guardado num escaninho. Não podia ter deixado um bilhete?

Foi também no Generator que conheci o pub crawl. Uma turma de brasileiros viajando junta tinha ido no dia anterior, animou comparecer de novo no domingo e eu fui atrás. Literalmente "rastejar por bares", o pub crawl funciona assim: você paga uma taxa simbólica pra participar, ganha direito a entrada livre em quatro pubs e ainda bebe "suquinho de laranja" (evidentemente batizado com vodka) entre um bar e outro. Do Silberfisch ao Café Zapata, bebi cerveja quente com brasileiros e espanholas até enjoar e saí andando torto às 3 e tantas da manhã. Chegando na estação de metrô, descobri que o próximo só chegava dali a 68 minutos. Fazer o quê? Andar a pé os 6 quilômetros que me separavam do Generator? Fiquei dormindo no banco da estação que nem um mendigo, até o trem aparecer pontualmente no horário previsto.

Berlim ainda me reservaria outras surpresas, como o pseudo-atentado terrorista no prédio do Parlamento e a primeira vez que vi neve caindo sobre minha cabeça. Já contei tudo neste post aqui, então não vou ficar me repetindo. Fica a vontade de voltar pra lá algum dia e a certeza: quem disse que a primeira impressão é a que fica é um baita mentiroso.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Mochilão em Amsterdão



Amsterdam, Holanda
31 de janeiro a 3 de fevereiro de 2007


Cheguei em Amsterdam no fim de uma tarde de quarta-feira, sob uma chuva ligeira e com certo medo de pegar catapora.

No trem que veio de Paris, atravessando a Bélgica e a típica paisagem holandesa repleta de moinhos e tulipas (mentira, não vi tulipa nenhuma), dividi os assentos com uma família amsterdamesa de mãe, vó e um menino de uns 4 anos. Pra passar o tempo, peguei o multi-dicionário com frases-curinga em 14 línguas européias que o De Pinho tinha me emprestado, abri na seção do holandês e fiquei lá tentando conversar com a criança: "Hallo! Hoe gaat het? Hoe heet u?". E reparando nas estranhas marcas vermelhas que ele tinha na cara e pelo corpo.

- Ele teve catapora esses dias, ainda tá meio doentinho - disse a mãe dele para mim, em inglês.
- Eh... e não tem perigo de pegar?
- Diz o médico que não tá mais na fase de contágio. Mas se você pegar, vai saber em duas semanas - e deu um sorrisinho. Era só o que me faltava, pegar catapora no meio de um mochilão. Mas corto logo o suspense: duas semanas depois, meu pedido à Fontana di Trevi foi me manter livre do HHV3, e parece que funcionou.

Fiquei três noites no Stayokay Vondelpark, albergue grandão com gente do mundo inteiro. Teve dia em que saí com uma pá de brasileiros, Rio, São Paulo, Brasília, Paraná. Noutro, fui pro bar com uma turma de estudantes da Sicília que tinham ido de excursão (e eu que me empolgava quando fazíamos excursão pra Gruta da Lapinha...). Na fauna do hostel tinha até uma austríaca que falava português com sotaque arretado, depois de morar por um tempo em Recife. Ri alto no café da manhã quando ela me disse, estupefata:

- Mas você tá viajando SOZINHA?! PÓRRA!

Amsterdão, como dizem os lusitanos, é uma cidade muito simpática. Plana como todos os Países Baixos, cheia de canais e casas de fachada reta, iguais aquelas casinhas de brinquedo cujo nome exato pelejei pra lembrar agora, sem sucesso. Há que se olhar pros cinco lados antes de atravessar a rua, não só porque bicicletas surgem aos bandos quando menos se espera, mas também pro bonde não pegar você andando. Dá pra percorrer o miolo todo a pé, mesmo porque, nessas cidades onde qualquer lugar onde se olhe é um wallpaper em potencial para seu desktop, não convém desperdiçar paisagem enfurnado no metrô.

Casa de Anne Frank: não vá sem ter lido o livro. O prédio onde a jovem judia se escondeu durante anos com a família, entre 1942 e 1944, é um lugar comum, com painéis contando a história da guerra e da família Frank. Mas só quem passou pela leitura do diário da garota consegue ter uma sensação do que deve ter sido passar tanto tempo naqueles cômodos apertados, subir aqueles degraus inclinados, olhar pelas frestas daquelas janelas.

Outras atrações intetressantes em Amsterdam incluem o Museu Van Gogh, com zilhões de quadros de Vincent dispostos em ordem cronológica, entre eles os famosos Comedores de Batata e uma das versões do Quarto em Arles; e o Rijskmuseum (não me perguntem como é que se fala isso), abarrotado de obras de Rembrandt, Vermeer e outros baluartes da pintura holandesa. Repetindo o conselho que dei no texto de Madrid: não visitem os dois direto, um atrás do outro, porque cansa. No meu caso era falta de opção mesmo, dei azar de chegar na cidade num daqueles dias onde não abre museu nenhum.


Mas eu sei que você quer saber é sobre drogas e putaria. Então vamos lá. Ainda no âmbito cultural, Amsterdam oferece o Sex Museum, que custa só 3 euros e exibe em vários andares uma vasta coleção de fotos, pinturas, bonecos e esculturas sobre o ato reprodutivo humano, ou nem tão reprodutivo assim. Quem quer ação de verdade pode ir ao velho Red Light District, onde as moças se exibem nas portinhas de vidro mesmo quando o sol está rachando. Quanto à maconha, não é segredo que é vendida em qualquer coffee-shop, tanto a erva pura quanto cigarrinhos já enrolados. Mas tem uma cousa: onde vende cannabis não vende álcool, e vice-versa. Se você quiser fazer uns combos à la Tim Maia e mandar pra dentro um bolo batizado, uma garrafa de absinto e um Big Tasty, precisa pular de galho em galho.

Agora, o que me intrigou foram as lojas vendendo "magic mushrooms". Porque maconha o cara fuma e no máximo filosofa sobre o sentido da vida (se bem que um brasiliense no meu albergue disse que encontrou Jesus). Mas com cogumelo o sujeito vê berimbau no lugar de gaita, pula no canal achando que é piscina de bolinha e aí já viu. Ao que parece, foi tudo proibido no final do ano passado, e quem quiser um vidrinho de cogumelos tailandeses, havaianos ou amazônicos vai ter um trabalho maior do que pedir num balcão e pagar 13 euros. Muita gente vai reclamar, mas os cachorros agradecem.

Mais Amsterdam aqui.

domingo, 2 de agosto de 2009

Paris como a palma da mão



Paris, França

27 a 31 de janeiro de 2007


Um grande barato de se chegar em uma cidade de trem e depois emendar um metrô para o centro é poder ver a cara dela só quando se está realmente nas ruas. Você não faz um julgamento apressado pelo que vê de cima antes de pousar, nem dá o veredicto pela paisagem geralmente feia e sem-graça do longo trajeto entre o aeroporto e a cidade em si. Aparecer no meio do lugar por um buraco no chão é como ir no cinema sem ler antes a sinopse ou ver o trailer: tudo é surpresa, tudo é novidade.

Depois de ficar preso na roleta do metrô que nem um pateta (isso é que dá morar num lugar onde só se anda de metrô quando tem evento de música), emergi na capital gaulesa e de cara fui com a cara dela. Num mapa fixo com setinha indicando "você está aqui", notei minha proximidade com a Torre Eiffel e não resisti a uma espiadela. Cheguei lá embaixo, olhei aquele bichão de metal e segui caminho para o hotel onde encontraria meu pai. Ele morava na Inglaterra e tinha ido me encontrar durante o fim-de-semana, após quase não conseguir devido às loucas peripécias de seu passaporte, andando sozinho por esse mundão de meu deus.

Era a primeira vez de ambos em Paris. Natural que ficássemos perdidos a cada quartier, mas ninguém dava o braço a torcer: "É por aqui", "Não, tenho certeza de que é virando aquela rua ali", "O caminho é esse, conheço Paris como a palma da minha mão". O que rendia momentos engraçados, como quando meu pai comentou sobre uma suntuosa edificação às margens do Sena:

- Olha que legal. Aqui tem esses prédios enormes, devem ser cheios de histórias, e todo mundo passa direto sem nem saber.

Abrimos o mapa e descobrimos que o prédio grandão era um tal de "Musée du Louvre".

Falando no Louvre: é sabido que é tão extenso que nem o mais hiperativo dos turistas conseguiria ver tudo em um dia. Pra se ter idéia, são 380 mil itens no acervo, e nem 10 por cento disso fica em exposição. O melhor é escolher uma área e privilegiá-la. Além do roteiro se-não-viu-é-porque-não-foi-no-Louvre (Mona Lisa, Vênus de Milo, Vitória de Samotrácia), demos atenção particular à seção egípcia, abarrotada de múmias e sarcófagos de todos os tipos, inclusive de gatos. Outro que é bem bacana é o Museu d'Orsay, uma ex-estação ferroviária convertida em abrigo para centenas de Van Goghs, Monets, Gauguins e grande elenco.

Gosto muito é dos museus mais específicos. Aqueles que, mais do que uma pincelada dos melhores momentos, se debruçam sobre determinado estilo ou artista. Como o Museu Rodin, que traz dois Pensadores e mais uma porção de esculturas impecáveis, incluindo algumas da Camille Claudel. Ou o Musée Picasso, que faz um 3-hit-combo com o Guernica no Reína Sofia de Madrid e o Museu Picasso de Barcelona e te deixa escolado na vida e na obra do Pablão.

Comer em Paris não tem erro. Até a birosca mais suja vai ter um brioche dos bons, qualquer padaria da esquina oferece uma bomba de chocolate de se comer de joelhos. Mas não vá achando que é tudo 100% parisiense. Estava com meu pai saboreando um petit déjeuner com chocolates e croissants e o escambaux, fomos elogiar o suco de laranja que era realmente muito bom, até que lemos no rótulo: "Oranges du Brésil". (E não, o McDonald's não tem nada de diferente - a não ser se você for fã do Tarantino e encher a boca pra pedir um Royale with Cheese.)

Na segunda-feira, saímos do pequeno quarto do Tim Hotel, meu pai voltou pra Wigan e eu fui parar no Peace & Love Hostel, o único albergue razoavelmente central que encontrei com vagas (por razoavelmente, leia-se 7 km da Torre Eiffel, mas de metrô tudo é do lado). Tinha que subir seis andares de escada e dormir na cama de cima de uma triliche, de nariz colado no teto. Sem falar na precária simpatia dos funcionários:

- Bom dia. Ontem eu paguei o quarto para um dia só, mas vou ficar mais uma noite.
- Você QUER ficar mais uma noite. Eu é que decido se você pode ficar ou não.

Mas de noite rolou sessão de jogos, conheci uma galera porreta - Califórnia, Rússia, Alemanha, São Paulo - e fiz as pazes com o albergue. E como não encontro uma frase definitiva sobre Paris para fechar o texto, deixo algumas fotos fazerem o serviço.




Think big.



Think small.



A triliche do Peace & Love. O bom é que ninguém consegue ver se sua cama está desarrumada.



Aquela foto clássica pra provar que você pisou mesmo em Paris, e não rodou tudo de ônibus em uma tarde, como fazem os japoneses.



Paios no Louvre.



Não é fácil ser estátua.


Esse filme bóia.

Mais Paris no Biselho: as tumbas famosas do Père-Lachaise e os cenários de filmes famosos espalhados pelas ruas.

Quem

Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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