sábado, 26 de dezembro de 2009

圣诞快乐!

O Natal é uma coisa meio nova pros chineses, que se abriram para o mundo há relativamente pouco tempo e tentam assimilar toda a cultura ocidental do jeito que dá. O que significa que nessa época é fácil encontrar um monte de árvores iluminadas, muitos restaurantes servindo peru na noite do dia 24 e a figura do Papai Noel ("Shengdan Laoren", em mandarim) devidamente explorada pelo comércio, mas dificilmente se vê o menino Jesus cercado por vacas e ovelhas, seja em presépios, seja em cartões de Natal. Não dá pra culpá-los: primeiro, que não são cristãos; segundo, que a imensa maioria de filmes e desenhos que chegam do oeste foca mais no Pólo Norte do que em Belém, e convenhamos que a compração e a comilança desenfreadas são muito mais a cara do Natal dos dias de hoje.

Enfim. O Natal acabou de acabar, mas deixo aqui duas fotos que simbolizam bem o espírito dessa data tão festiva. A primeira é de um inusitado Papai Noel chinês lendo os números vencedores de um sorteio no jantar do qual participei. A outra é da árvore de Natal mais original que já vi na vida, situada no lado de fora do Bla-Bla-Bar, no campus da BLCU. Cadeiras empilhadas, galhos amontoados e luzinhas pisca-pisca amarrando tudo, numa demonstração muito bonita de que o que vale é a intenção. Shengdan kuaile!
 

 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Alô alô brasileiro

Vivendo num reduto de estrangeiros como é Wudaokou, às vezes me esqueço de quanto somos criaturas exóticas no meio de uma multidão de cabelos pretos e olhos puxados. Perambulando pela Cidade Proibida e a Praça da Paz Celestial, no último domingo, fiquei surpreso com a quantidade de chineses que veio puxar papo comigo, assim sem mais nem menos. Alguns poucos intentam te arrastar para galerias de arte onde expõem e vendem pinturas a precinhos nem tão camaradas, mas a maioria quer mesmo é praticar o (ch)inglês ou entender o que um alienígena tá fazendo em Beijing. Se você fala um mínimo de mandarim então, nem que seja um "nihao" no tom errado, vira atração. Até foto comigo pediram pra tirar. E quando perguntam de onde eu sou e respondo: "巴西", não tem um que não emenda: "football!", ou "soccer!", ou "足球!", ou "you must play football very good!" (é, quem me conhece sabe o quanto sou habilidoso). 

Só teve um caso de uma mulher que, ao ouvir "Baxi" como resposta, não mencionou o esporte bretão mas perguntou: "Ah, ¿hablas español?". Curioso pra saber como uma chinesa de raiz falava a língua de Cervantes, indaguei-lhe e ela esclareceu: "Yo no soy china, soy de Costa Lica. Soy plofesola de mandalín". Eu já tinha notado a dificuldade da população local em dizer coisas como "obrigado" ou "Firenze" (conheci chineses estudantes de português e italiano que falavam "obligado" e "Filenze"), mas uma costa-riquenha, ainda que de origem oriental, que não aprendeu a pronunciar um dos fonemas mais importantes de seu idioma nativo me surpreendeu. Palece que o esteleótipo de chineses falando que nem o Cebolinha tem seu glande fundo de veldade.


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Surprise me

 

Homer Simpson disse uma vez que não é homem de se surpreender facilmente (fala imediatamente seguida por: "O que é aquilo, um carro vermelho?!"). Ao pisar na China pela primeira vez, é difícil não olhar tudo com um ar intrigado, como se desembarcássemos no Mundo Bizarro de uma historieta do Super-Homem. Mas com o passar do tempo, a gente acaba se acostumando a ver algumas coisas. Hoje em dia eu (quase) não me surpreendo mais com: 

1. Cuspes. Ia usar um eufemismo qualquer, tipo "secreções viscosas expelidas pela cavidade bucal", mas a palavra certa é cuspe mesmo. É raro andar na rua sem ouvir os ruídos da puxada de ranho e da garganta raspando, seguido por um "ptu!" característico. Jovens, adultos, velhinhos, e – sim! – mulheres, inclusive as bonitas, curtem lançar saliva e companhia limitada em torpedos certeiros nos chãos da cidade. Mamãe ficaria horrorizada. 

2. Camisas com estampas absurdas. Algumas recriam marcas famosas virando a ortografia de ponta-cabeça, como a já citada logo da Diesel que dizia "DSELEI". Outra que me fez rir alto pelas ruas foi uma com a bandeira do Reino Unido e o texto que dizia: "New York, New York". Sem falar nos diversos amálgamas entre Mao Tsé-tung e Barack Obama, resultando em desenhos do Barack com chapeuzinho comunista e o improvável nome: "Obamao". 

 

3. Camelôs vendendo de tudo. Bolsas, cadernos, cachecóis, macaco, praia, jornal. Livros – falsificados, é claro, mas geralmente sem páginas faltando; dá pra comprar por 10 yuans (R$ 2,50) o que vendem nas livrarias por 200. Comidas de todos os tipos, incluindo algumas que fedem (tofu, tô fora). Outro dia tinha até um camelô vendendo aquários com peixinhos vermelhos. Era fim de tarde e tava tão frio que a água começava a congelar, e os peixinhos lá dentro, uns nadando lentamente, outros já completamente imóveis. 

4. Gente usando máscaras. (Não máscaras de monstros ou da Ópera de Pequim, bocó, falo das máscaras de proteção das que se compra na farmácia.) Se fosse no Brasil a gente imediatamente ia olhar e pensar: "Fudeu, gripe suína!". Mas em Beijing elas são comuns por vários motivos, entre eles: a) protegem nariz, boca e bigode do frio de lascar que tá fazendo e ainda vai piorar, e b) Beijing é uma cidade notória por sua poluição, e tem dias que é mais saudável cheirar um cigarro aceso do que respirar o ar das ruas. Mas a moda é usar máscaras que não pareçam vindas do hospital, mas de um shopping center. Aí dá-lhe florzinhas, moranguinhos, Hello Kitty e Bob Esponja. Mas uma vez vi uma menina com uma linguona dos Rolling Stones estampada em sua máscara, foi divertido. 

5. Bicicletas transportando as mais diversas coisas. Enquanto no Brasil a gente usa Kombis, caminhões e até carroças, em Beijing a galera curte uma bicicleta com carroceria pra levar de alimentos a bolas de basquete (?!). O cúmulo foi quando vi um ciclista carregando uma porção de botijões de gás em sua bike – e fumando ao mesmo tempo! 

 

6. Chinglish. É como foi apelidada a insólita maneira chinesa de falar e escrever inglês por essas bandas. Se em cardápios brasileiros eu já me deparei com um certo "against-fillet", aqui a coisa é muito mais comum e a gente fica surpreso é quando vê tudo escrito corretamente. Os exemplos já começam no meu quarto. No banheiro há uma placa avisando: "Do not put toilte paper into toilte". As informações sobre as saídas de emergência do prédio incluem "you aer here" e "evaxuation route". Também é comum substituir uma letra por outra "similar". Tipo: "loud conversation not affowed". Ou um cabeleireiro aqui perto cuja placa diz "hQirdresser", assim mesmo, com um Q maiúsculo vandalizando o idioma. 

7. Velhinhos se exercitando nas ruas. Com que freqüência você vê os seus avós fazendo jogging ou pedalando bicicletas? Na China a terceira idade é bem ativa e mesmo às 7 da manhã, com o frio que for, a gente se depara com senhores e senhoras praticando os intrincados movimentos do tai-chi-chuan ou chacoalhando o esqueleto em animadas partidas de tênis. 

 

8. O trânsito caótico. Deixei esse pro final porque, na verdade, é o que menos me acostumei. Em três meses de Beijing eu ainda não sei como atravessar a rua. Sinais vermelhos e verdes são ignorados de tal forma que parece que todos os motoristas são daltônicos. Chega uma hora que você toma a decisão de atravessar e atravessa, pedindo pelo amor de Confúcio que não passem por cima. Andar de táxi é sempre adrenalina pura, buzinas são muito mais usadas que retrovisores e as ultrapassagens dão a impressão de que estamos jogando GTA, mas sem acesso ao joystick. E quando as motos cismam de invadir a ciclovia e se comportar como bicicletas selvagens?


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

Quem

Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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