segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Chinês pra você fingir que sabe - Parte final

Para ouvir a pronúncia, clique na palavra e, na página que se abrirá, no botão  . Preste atenção à “melodia” da fala: um tom errado em chinês pode levar a significados completamente diferentes, do tipo confundir "está chovendo" com "estão caindo peixes". 



傻屄 [shǎbī] 

Já dei a dica aqui de como insultar alguém em chinês, simplesmente chamando-o de “ seu duzentos e cinqüenta! ”, que misteriosamente significa “ seu imbecil! ”. Mas agora chegou a vez de um palavrão cabeludo de verdade. Não digam que fui eu quem ensinei, mas pra xingar em chinês com propriedade, diga: “ shǎbī! ”. A tradução literal, colocando assim em termos técnicos, seria “vagina mentalmente desfavorecida”. Equivale ao nosso “ filho da p&%@ ” e é exaustivamente utilizado nos estádios de futebol.

E ainda vem com bônus: se você disser “ shǎbī ” várias vezes, em seqüência, consegue xingar em chinês e português ao mesmo tempo. Experimente!


E tem muito mais de onde saiu esse! 

什么? [shénme?] - o quê? 

Pronuncia-se “ chãmâ?! ”. É interessante arregalar os olhos e levantar a sobrancelha, pra dar ênfase. Nas minhas primeiras semanas de China, era uma expressão recorrente, já que eu não entendia patavina do que me falavam e só podia retrucar: “ shénme?! ”. Cogitamos até fazer uma camisa com os caracteres 什么 na frente e um imenso ponto de interrogação nas costas, mas a idéia não vingou. Se você ouvir alguma coisa em chinês e não entender bulhufas, ou perceber que alguém te chamou de “ shǎbī ”, não hesite e mande um “ shénme?!! ”. 



听不懂 [tīngbudǒng] – não entendi 

Literalmente, “escutei mas não entendi”. Pronuncie o “ti” do começo como “ tea ” em inglês, e engula o “g” do final. E não se esqueça da cara de pateta. 



喂 [wèi] – alô 

É engraçado como diferentes povos atendem de diferentes formas ao telefone. Os italianos declaram: “pronto!”, os espanhóis demandam “¡diga!”, os portugueses perguntam: “está?”. E teve uma época negra em que os brasileiros não diziam “alô”, diziam “Alô Cristina” ou “A Usurpadora”. 

Já os chineses atendem com “wèi”, que significa pura e simplesmente “alô”, e é dito caprichando nos Es: “ weeeeeeeei ”. Se você ligar do Brasil e ouvir um “wèi” como resposta, te prepara que a conta vai ser o olho da cara. 

 
"Weeeei! O Wang tá aí?" 



糟糕 [zāogāo] – que azar! 

Essa é uma das minhas preferidas. “ Zāogāo ” é a exclamação perfeita para os momentos de azar. Literalmente significa “desperdiçar bolo”, no sentido de que deixar seu pedaço de bolo cair no chão é um azar da muléstia. Pronuncia-se “ dzau gau! ”. Com sarcasmo funciona ainda melhor, equivalendo à sádica “ cada um com seus problemas ”. Fez chapinha no cabelo e pegou chuva? Escorregou na lama e ferrou o joelho? A torrada caiu com a manteiga virada pra baixo? Só lhe resta exclamar: “ zāogāo! ” 

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Crônicas de um estudante de chinês - the next generation

Previously on Boca de Gafanhoto... 
Depois de 1 ano estudando chinês todos os dias na mesma universidade , Lucas decidiu que era hora de mudar de ares. Seguindo a recomendação dos amigos, ele migrou para uma escola particular em Wudaokou 

Terceira temporada – Diqiucun, julho a dezembro/2010 

O esquema da escola Diqiucun – ou Global Village, ou Aldeia Global, como queira – é assim: aulas de conversação, todos os dias, por 90 minutos. Na prática, não é tão diferente das aulas que tive na BLCU: você tem um livro, aprende novos ideogramas a cada lição, escreve ditado, recita os diálogos do texto e tudo mais. O maior diferencial é o tamanho reduzido das turmas, que permite que todos ouçam, sejam ouvidos e, como diria minha avó, destronquem a língua.

Sentamos ao redor de uma mesa, com a professora na ponta comandando a massa. A rotatividade dos alunos é alta. Nesses 5 meses que estudei na Diqiucun, pelo menos 30 pessoas já passaram pela turma, mesmo que o total nunca ultrapasse oito ou nove. Como é uma escola privada e não uma universidade, é muito fácil trocar de classe. Muitos chegam, assistem a uma aula, acham muito difícil ou muito fácil e não voltam nunca mais.

 
Estudantes felizes no site da Diqiucun : é tanto aluno da Coréia que o site é só em coreano. 

Entre meus colegas que já foram embora, incluem-se um japonês de uns 70 anos, um suíço-tibetano (sim, essa mistura existe) e um mexicano que era a cara do Tobey Maguire nos filmes do Homem-Aranha: cabelinho, oclinhos, tudo. Também havia uma coreana de 13 anos, a colega de sala mais nova que já tive depois do ginásio. Ela já estudava chinês há algum tempo e lia os textos com uma fluência quase robótica, sem errar um caractere, mas sem esboçar nenhuma emoção. 

Minha última turma na Diqiuncun apresentava basicamente asiáticos, mas de várias regiões. Tinha um russo alto do extremo leste, que parecia vilão do James Bond nos tempos da Guerra Fria; um indiano com jeitão de George Costanza; e um coreano que usava os dedos para enfatizar os tons das palavras, como se regesse uma orquestra invisível. 

Se minha sala passada na BLCU contava com um panamenho pé-no-saco, o mala da vez foi um coreano de meia-idade. Toda vez que abria a boca, falava por 10 minutos e não deixava a aula fluir. Ele fazia sempre questão de reafirmar sua juventude e detestava quando os colegas o tratavam de forma respeitosa, porque “é a mesma coisa de me chamar de velho” . E ainda dava um jeito de encaixar mulher em todas as frases, não importando o assunto em pauta. Se o texto da lição era sobre o verão, ele falava de mulheres bonitas tomando sol. Se era sobre TV, ele dizia que havia muitas mulheres bonitas trabalhando na televisão. Se eu mencionava o Brasil, então, era batata: “Carnaval! Praia! Mulheres bonitas!” 

O legal dessas aulas com gente do mundo todo é perceber as diferenças culturais nas pequenas coisas. Uma vez, por exemplo, descobri vários equivalentes à expressão “Você fumou maconha estragada?” , que usamos para insinuar que o interlocutor está maluco. Na China, dizem “Você tomou remédio errado?” . No México, “Você comeu cogumelo estragado?”. Na Coréia, “Você tomou veneno de rato?” 

Também tivemos uma aula rápida sobre onomatopéias. Por incrível que pareça, existe um caractere chinês representando cada som, de latidos de cachorro (汪汪, “wang wang”) até o som de uma avalanche (咕噜噜, “gu lu lu”). A água não faz chuááá, mas “hua la la”; o trem não faz piuííí, mas wuuuuu; e os fogos de artifício são descritos por uma burlesca seqüência de “pilipalá, pilipalá!”. 

Começamos a comparar como representávamos esses sons em nossos idiomas, e o coreano mala se empolgou. Começou a bater asas e imitar um galo com sotaque coreano: “Kó-kori-óóóó, kó-kori-óóóó!” . Se tinha uma cena que eu nunca imaginara presenciar, era um coreano de meia-idade cacarejando. 



Bônus extra – A última aula de inglês 

Já falei aqui aqui sobre minha experiência como professor de inglês para adolescentes chineses. Volto ao assunto uma última vez, porque esse capítulo está oficialmente encerrado. Minha primeira aula com uma nova turma foi também a derradeira, já que o americano que ali lecionava anteriormente voltou a ocupar a vaga. Não que eu tenha ficado chateado: dar aulas nunca foi meu forte, ainda mais para capetinhas de 12 anos que estão interessados em tudo, menos em aprender inglês por 3 horas seguidas num horário tão ingrato (sexta-feira, das 17h30 às 20h30). 

Comecei a aula com uma bola fora. Olhei a sala de relance e a primeira coisa que disse foi: “Puxa, como tem menino nessa sala. Vinte alunos e só três meninas!” . Nisso uma garota de cabelo curtinho, quietinha no canto, levantou o dedo e me corrigiu: “São quatro meninas, professor.” 

Depois começamos as apresentações: qual o seu nome, sua idade, o que você gosta de fazer. Cada aluno tem seu nome em inglês, escolhidos por motivos totalmente aleatórios. Cheguei a batizar um deles: 

Ele: “Professor, não tenho nome em inglês.” 
Eu: “Hm, tudo bem. O que você gosta de fazer?” 
Ele: “Gosto de computador.” 
Eu: “Então você vai ser Bill, que nem o Bill Gates. Que tal?” (não me xinguem, tive que pensar rápido.) 

E teve o chinesinho que se levantou meio envergonhado e, entre as risadinhas dos colegas, se apresentou: 

- Professor, meu nome é Obama. 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Crônicas de um estudante de chinês

Previously on Boca de Gafanhoto... 
Sem entender bulhufas de chinês, Lucas vai para a China e cai numa aula onde os professores só falam a língua local.Alguns meses depois , aquele falatório incompreensível passa a fazer algum sentido, e ele já é capaz de pedir comida em restaurantes e escrever uma redação sobre seu fim-de-semana. Mas a odisséia para aprender esse idioma insano está longe de terminar... 

Segunda temporada – BLCU, março a julho/2010 

Em março de 2010, comecei um novo semestre na BLCU (Beijing Language and Culture University). Eu não morava mais num dormitório dentro do campus nem tinha tantos amigos que estudariam lá novamente, mas continuar o aprendizado na mesma universidade pareceu a opção mais lógica.

Os níveis da BLCU vão de A até F. “A” de Analfabeto, pra quem é um Tiririca em mandarim e precisa começar do zero. “F” de Foda, pra quem já se expressa num chinês invejável. Depois de completar o nível Analfa, em janeiro, fiz uma nova prova e me puseram numa classe com nome de vitamina, B12.

 
Aula multi-cultural: como se escreve "chá" em chinês, inglês, português, japonês, coreano, tailandês e espanhol. 

Ao contrário da turma anterior, que oferecia um apanhado geral dos povos do mundo (tinha francês, israelense, americano, cazaque, indiano, indonésio...), a maioria dos meus novos colegas eram coreanos. Minha interação com a classe acabou caindo um pouco, por uma simples questão de comunicação: geralmente eles conseguem ler e entender inglês, mas não o bastante para manter uma conversa longa ou improvisar uma piada. Conversávamos em mandarim, aos trancos e barrancos, e saímos todos juntos uma única vez, para um karaokê, óbvio – mas eu desconhecia os hits coreanos que faziam a cabeça da moçada. 

Também havia um pessoal legal de outros países, com quem eu proseava mais: um espanhol de dois metros de altura, um americano de Virginia, um australiano nascido na Inglaterra. Em compensação, tínhamos na sala um panamenho muito mala, que adorava dar sua opinião sobre o que não era perguntado. 

Panamenho mala: “O que você vai fazer no feriado?” 
Eu: “Vou pra Mongólia Interior.” 
Panamenho mala: “Putz, que escolha péssima, lá faz muito frio nessa época, credo.” (ele acabaria viajando à mesma Mongólia Interior no mesmíssimo feriado) 

O panamenho era tão mala que, em dia de provas, não arredava o pé da sala até que a professora corrigisse todas elas, e depois saía espalhando as notas de cada um. 

 
A sala B12, após a aula. 

Nossa professora também não era o melhor exemplo de bom comportamento. Tinha 28 anos e mentalidade de 14. Ela lecionava duas disciplinas: “Compreensão” (a aula principal, que engloba gramática, leitura e conversação) e “Chinês Prático”, uma aula semanal com temas mais ligados à vida cotidiana. Íamos pra frente da turma falar sobre algum assunto – uma comida típica do seu país, um filme que você gosta – e a professora se sentava pra assistir. Não raro ela ficava no fundão conversando borracha com as alunas coreanas, sem prestar atenção ao pobre estudante que gastava saliva lá na frente. 

Ela também gostava de tirar sarro dos alunos, com predileção especial por um gordinho da Indonésia de apenas 16 anos. Dava risadinhas quando ele falava e às vezes debochava de seu tamanho levemente avantajado: 

Indonésio: “Eu moro com dois primos mais velhos, e ocupo o quarto menor.” 
Professora: “Menor? Você tinha que ocupar o maior! Hihihihi” 

 
Foto da classe no jantar de final de semestre: a professora é a que está sentada no meio; na extrema direita, o gordinho da Indonésia.

O quadro de professores contava ainda com mais dois. Um era um cara bacana, mas que pouco podia fazer pra tornar sua aula menos maçante. A matéria era “Escuta”, e ele tinha que botar aquela infeliz fita cassete pra que ouvíssemos diálogos ininteligíveis e respondêssemos às perguntas. Era todo mundo com cara de “hein?” por duas horas seguidas. 

A outra era a “Nainai Laoshi”, que em chinês quer dizer “Professora Vovó” e era o apelido pouco carinhoso que ganhou de seus discípulos – não que ela soubesse disso, claro. A Vovó conseguia a proeza de tornar uma aula que tinha tudo pra ser ótima, “Conversação”, num tédio hediondo. Ao invés de conversarmos, ficávamos repetindo trechos enfadonhos do livro-texto. Acho que ela dá essa aula há cinqüenta anos e não está muito disposta a se atualizar. No final do semestre ela até pôs a gente pra falar um pouco mais e, num dia especialmente memorável, chegou a sorrir. Mas já era tarde demais. 

Preferi o meu primeiro semestre na BLCU do que o segundo. Talvez eu estivesse cansado das quatro horas por dia com o mesmo método, ou os novos livros embrenhassem por assuntos pouco atraentes (fábulas chinesas? formulários de inscrição?). Quando decidi permanecer na China e continuar os estudos, segui a recomendação de vários amigos, também egressos da BLCU, e migrei para uma escola particular. 

No próximo episódio: colegas que vão um dia e não voltam nunca mais, um mexicano sósia do Homem-Aranha e o dia em que o coreano de meia-idade cacarejou. Segunda-feira, no Boca de Gafanhoto. 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

sábado, 11 de dezembro de 2010

Perturbando os monges: uma visita ao Lama Temple

 

Você sabe que está chegando ao Lama Temple quando todas as lojinhas da rua passam a vender exclusivamente incenso. Faz sentido: lá dentro encontram-se queimadores de incenso quase tricentenários e Budas suficientes para atender todo tipo de pedidos. Durante o Festival da Primavera, hordas de chineses vão ali acender seus incensos e pedir sorte para o ano vindouro – mesmo aqueles que, nos doze meses seguintes, esquecem os preceitos budistas lá dentro do templo. 

 

O Lama Temple é o templo budista-tibetano mais famoso de Beijing, e talvez o mais importante fora do Tibete. Pra variar, seu nome em chinês passa longe da versão inglesa: “Yonghegong” significa “Palácio da Paz e Harmonia”. Ele já foi residência oficial de eunucos da corte, convertido no lar de um príncipe e depois num monastério. Apesar de aberto ao público já há algum tempo, ainda hoje cerca de 70 monges vivem no lugar. Tem que ter mesmo uma paciência budista pra agüentar tanto turista no seu monastério. 


"Chega, vamo dá o fora daqui." 

Numa visita ao Lama Temple você passa por cinco grandes salões. Cada um tem estátuas e decorações bem diferentes, misturando estilos de várias etnias chinesas, especialmente a han e a tibetana. O lugar é bem agradável e, se não é exatamente o poço de tranqüilidade que se espera de um templo budista, também não costuma ficar empapuçado como uma Cidade Proibida ou uma Grande Muralha. 

O mais impressionante fica para o final: o Buda Maitreya de 26 metros de altura. Se ele parece menor do que o tamanho que tem, é porque 8 metros estão debaixo da terra. Pra se ter idéia, tiveram que construir o hall em volta da estátua, que levou 3 anos para ser transportada do Nepal até Beijing e foi esculpida a partir de uma única árvore de sândalo branco. Tanto trabalho acabou virando recorde: numa pilastra do lado de fora do hall, uma plaquinha exibe orgulhosamente um certificado do Guinness Book. 

 

 

 
Plaquinha na entrada do templo, grafada em chinês, mongol, manchu e tibetano (mas vai saber qual é qual...) 

 

Entre cada grande salão há um pátio como esse, com os queimadores de incenso. 

 

Acender incenso: uma experiência coletiva. 

 
Burn! Burn! Burn! 

 

Bonitão o sino, né? Mas se quiser dar 3 badaladas, tem que pagar 10 yuan (R$2,50). 

 

Várias partes do Lama Temple são proibidas para os visitantes. Senão, não tem monge que agüente. 

 
O aviso é claro: não é pra jogar incenso nem moedas... 

 
...mas a vontade de ter um pedido atendido por Buda fala mais alto. 

 
Jogar moedinha que não vale nada ainda vai, mas galho de árvore? 

 
"Hmmm quero mais!" 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Os Chineses

 

Uma boa pedida para quem quer entender um pouco mais da China e ir além dos estereótipos: o livro Os Chineses, da Cláudia Trevisan. A Cláudia é uma jornalista brasileira que mora em Beijing e tem um blog no Estadão . Seu livro dá uma pincelada em trocentos assuntos relativos à China, da recente e desenfreada corrida pelo enriquecimento às antigas tradições que resistiram ao tempo. A leitura flui fácil, entremeada por um batalhão de curiosidades e fotografias. 

Dá pra dividir o livro em três partes. As primeiras 150 páginas esmiúçam a China contemporânea. São capítulos dedicados a alimentação, medicina, costumes, o contraste entre o campo e a cidade, as minorias étnicas, o papel das mulheres e os números assustadores do crescimento econômico chinês. 

A segunda parte trata da longuíssima História chinesa. Mesmo resumindo em 100 páginas séculos e mais séculos de dinastias, rebeliões e revoluções, ajuda a corrigir uma falha que vem desde os nossos tempos de colégio. A gente não aprende nada sobre a China na escola. Aliás, a Ásia em geral é solenemente ignorada. Vemos um Japão ali na Segunda Guerra, um Vietnã brigando com os Estados Unidos acolá, e só. E não é por falta de assunto: se o século XX foi especialmente agitado na História Mundial, na chinesa, então, nem se fala. 

Os últimos capítulos de Os Chineses falam da arte do país. Entram aí os quatro grandes clássicos da literatura, a cantoria dissonante da Ópera de Pequim, as artes marciais e o cinema que emergiu nas últimas décadas. Longe de esgotar qualquer um desses temas, os textos são bons pontos de partida para interessar o leitor no assunto e fazê-lo procurar mais por conta própria. 

No site da editora dá pra baixar um PDF com a introdução e o primeiro capítulo, e ainda conferir outros volumes que fazem parte da mesma coleção, intitulada “Povos e Civilizações”. Até agora já foram publicados Os Japoneses Os Americanos ,Os Espanhóis Os Franceses Os Italianos Os Portugueses O Mundo Muçulmano . Apóio a idéia e incentivo o lançamento de Os Alemães, Os Britânicos, Os Russos, Os Indianos, Os Coreanos, Os Cubanos, Os Escandinavos, Os Esquimós . Chega de deixar que a nossa referência de outros povos sejam as novelas gloriapereanas. 

Os Chineses 
Cláudia Trevisan, 2009 
Editora Contexto 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Eu vi Mao Tsé-tung

Desde que aportei na China, há mais de um ano, venho enrolando para ir visitar o corpo embalsamado de Mao Tsé-tung. Não era uma prioridade, mas eu estava curioso – não é todo dia que você vê uma figura histórica, morta há 34 anos, em exibição por aí. Mas fui adiando, com preguiça da burocracia pra entrar no mausoléu do Mao (só pode ir de manhã, tem que levar passaporte, não pode carregar mochilas ou câmeras) e da fila monstruosa que eu sempre via quando passava pela Praça da Paz Celestial.

 

Mao Tsé-tung morreu aos 82 anos. Foi o líder máximo do país mais populoso do mundo por 27 anos, desde que deu início ao regime comunista na China em 1949. Mesmo quando era vivo, já havia um culto gigantesco à sua personalidade. Todo chinês tinha um retratão do Mao na parede de casa e sabia de cor o Livro Vermelho, uma coleção de citações do líder. Antes de morrer, em 1976, ele pediu para ser cremado. Ao invés disso, preferiram embalsamar seu corpo e construir um mausoléu para exibi-lo. 

Conservar os restos mortais de seus antigos líderes parece ser uma tradição comunista. Lênin se foi em 1924 e até hoje está à mostra na Praça Vermelha de Moscou. Ho Chi Minh, importante líder vietnamita (cujo nome rebatizou a antiga Saigon), bateu as botas em 1969 e ainda é exibido diariamente em seu memorial em Hanói. Como Mao, Ho Chi Minh também queria virar cinzas, mas teve seu último desejo ignorado. Pensa só: você só quer um pouco de paz, e acaba virando atração turística. 


Mao onipresente: retrato na entrada da Cidade Proibida, corpo conservado no meio da praça e rosto estampado em souvenirs de todos os tipos 

Fui ver o Mao num sábado de manhã. Acordei cedo, cheguei à Praça da Paz Celestial às 10h05 e encarei a fila. Fui preparado pra mofar durante duas horas, sujeito às intempéries do outono, empurra-empurra, perna gangrenando de tanto ficar em pé, e depois escrever um texto detalhando a aventura. 

Fiquei até desapontado: a fila andou rápido, organizada por guardinhas com megafone indicando as direções e dividindo a fila em duas na entrada do prédio. Passei pelo detector de metais sem problemas e nem ao menos olharam meu passaporte. A única restrição é mesmo quanto a mochilas e câmeras – aí você tem que deixar a fila, guardar num escaninho ali perto e voltar. E isqueiros. Tinha uma bacia repleta de isqueiros recolhidos dos visitantes. Vai ver, querem impedi-los de realizar o último desejo do Mao. 

 
Fila para ver o Mao: idosos, adultos, crianças e o guardinha com megafone 

Passei direto pela barraquinha de flores (todas brancas e idênticas, por R$ 0,80 cada) e subi as escadas para entrar no mausoléu. O edifício foi erguido e inaugurado poucos meses após a morte de Mao. Dizem que, em sua construção, foram utilizados materiais de todas as partes da China: granito de Sichuan, pratos de porcelana de Cantão, sementes de serratula de Xinjiang e até pedrinhas do Monte Everest. Embalsamar o cadáver não foi tão complicado: aprenderam a técnica com os vietnamitas, que já haviam conservado o Ho Chi Minh alguns anos antes. Arranjar o caixão de cristal à la Branca de Neve é que foi o problema. 

 

O projeto do caixão de Ho Chi Mihn não pôde ser passado adiante porque tinha sido fornecido pela União Soviética, que na época não era exatamente a melhor amiga da China. O caixão de vidro que a própria URSS providenciara anos antes para Sun Yat-sen (revolucionário chinês morto em 1925) também foi cogitado, mas era pequeno demais: 1,75m de comprimento, contra os 1,80m que Mao tinha – quer dizer, ainda tem. Além disso, só a tampa era de vidro, os lados eram de metal. Ou seja, os visitantes teriam que olhar para Mao de cima pra baixo, o que era inadmissível para as autoridades chinesas. 

Houve até um concurso de caixões de cristal feitos especialmente para o líder. Mais de vinte esquifes de todo o país participaram da competição, incluindo um em formato redondo. O caixão vencedor foi testado contra vibrações, temperaturas extremas e o escambau. Dizem que agüenta um terremoto de magnitude 8,0. 

A entrada do mausoléu é um hall enorme, com uma estátua gigante do Mao sentado de pernas cruzadas, bem relax. Quem comprou as flores brancas deve deixá-las ali, aos pés da estátua. Alguns se curvam ou fazem gestos quase religiosos. Continuei seguindo a fila e finalmente entrei no “solene Salão dos Últimos Cumprimentos”. É ali que Mao Tsé-tung (não) descansa em paz por toda a eternidade, até alguém decidir que já chega e resolver enterrá-lo. Existe uma corrente que afirma que isso já foi feito: o Mao que permanece no mausoléu com seus eternos 82 anos seria um boneco de cera. Às vezes o prédio é fechado por um tempo para “restaurações” no corpo, o que só alimenta a boataria. 

Sinceramente, não dá pra saber se é boneco ou não. O caixão é cercado por uma grande parede de vidro, não dá pra simplesmente chegar e examinar de perto. Só o rosto fica à mostra: o resto do corpo, incluindo as mãos, permanecem cobertos por um pano vermelho. E a fila não pára: guardinhas orientam os visitantes para que andem lentamente, mas sem nunca parar. Foi o tempo de ver a cara do Mao, seguir a fila e sair do Mausoléu, caindo direto nas barraquinhas de souvenir. 

Obviamente não pude tirar foto, mas o folheto que vendem na entrada a R$ 0,25 traz uma imagem do salão onde fica o caixão, que reproduzo aqui embaixo. Se você pesquisar na internet, talvez encontre uma fotografia tirada mais de perto. Quem sabe, até no site do Madame Tussauds. 

 

Para visitar o Mausoléu 
Horário: 8h-12h 
Entrada grátis. Obrigatório deixar bolsas, mochilas e câmeras no escaninho. 
Onde fica: no meio da Praça da Paz Celestial, Dongcheng District. Metrô Qianmen (linha 2), Tiananmen West ou Tiananmen East (linha 1) 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Chinês pra você fingir que sabe - Parte 3

Para ouvir a pronúncia, clique na palavra e, na página que se abrirá, no botão  . Preste atenção à “melodia” da fala: um tom errado em chinês pode levar a significados completamente diferentes, do tipo confundir "meia-noite" com "desempregado". 



老外 [lǎowài] – gringo 

É uma cena comum: um estrangeiro passeia pelas ruas chinesas quando nativos subitamente apontam para ele e comentam entre si: “ lǎowài, lǎowài! ”. Alguns tomam isso como xingamento ou chacota – é óbvio, parece que estão rindo da sua cara. Mas o termo não é insulto nem elogio, é apenas uma expressão que significa “estrangeiro”. Que nem o nosso “gringo”. Como muitos chineses não vêem estrangeiros todo dia, qualquer biótipo diferente – branco, negro, ruivo – desperta atenção. Se bobear até comentam em casa: “ Você não sabe o que eu vi na rua hoje. Um gringo! 


Se fosse insulto, não viraria nome de bar... ou viraria? 



麻烦 [máfan] - trabalhoso 

Máfan é tudo que exige um trabalho chato, demanda um esforço que você não está afim de enfrentar. Por exemplo: decidi não enviar os documentos para justificar meu voto pelo correio , porque é muito mais trabalhoso e caro do que simplesmente pagar a multa. Resumindo, é uma grande máfan 

Fazer um longo desvio porque a estrada está em obras, subir as escadas porque o elevador estragou, reinstalar todos aqueles programas após formatar o HD: tudo isso é máfan . Para pronunciar é fácil: quanto mais aborrecida for a tarefa, mais você prolonga o “má”: mááááfan 

马马虎虎 [mǎmǎhūhū] - marromenos 

Nem bom, nem ruim: mediano. “Mǎmǎhūhū” é o equivalente chinês ao nosso “mais ou menos”, “assim assim”. Ela é legal de pronunciar (“ mamá rurrú ”) e tem um significado curioso: significa “cavalo, cavalo, tigre, tigre”. Diz a lenda que um pintor pouco habilidoso retratou um animal e ninguém conseguia identificar o bicho: não era um cavalo, não era um tigre, ficava ali no meio termo. Virou uma expressão que serve pra inúmeras situações: 

- O filme é bom? 
- Como foi a viagem? 
- O que achou do meu cabelo? 

Mǎmǎhūhū ... 

 


你好吗? [nǐhǎo ma?] - tudo bem? 

A essa altura você já deve saber que “ nǐhǎo ” é “oi” em chinês. Vá além e pergunte “tudo bem?”, acrescentando uma simples sílaba: “ nǐhǎo ma? ”. A resposta, invarivalmente, é “ hǎo ” (“bem”). Mesmo que no dia você esteja mǎmǎhūhū 



啤酒 [píjiǔ] - cerveja 

Cerveza, beer, birra, Bier, bière, piva. Botequeiro que se preze passa fome em outros países, mas não fica sem cerveja. Além do que, é mais fácil imitar um frango ou um boi do que especificar “ cerveja” só na base da mímica. Vai que o garçom comete a heresia de te trazer um chá? 

Cerveja em chinês é “ píjiǔ ”, e sua pronúncia se parece menos com “funil” e mais com “piscou”: “ pííí djiôôu ”. 

拍马屁 [pāimǎpì] – puxa-saco 

O que nós chamamos de “puxar o saco” e os ingleses de “lamber as botas” ( bootlicking ), os chineses chamam de pāimǎpì – “dar um tapa na bunda do cavalo”. Às vezes acontece de você dizer “ nǐhǎo ” para um chinês e ouvir em seguida: “nossa, mas como seu mandarim é fluente!”. Não precisa ficar lisonjeado: ele só está dando uma de pāimǎpì 

 




Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Brincadeira de adulto

Pra você ver como são as coisas. Há alguns meses, recebi uma ligação do Sam, um australiano que também deu aulas de inglês na escola onde trabalhei. Ele tinha feito um filme chamado Red Light Revolution , queria inscrevê-lo num festival brasileiro e precisava traduzir o título. “Deve ser um curta de teor histórico”, imaginei, e respondi que devia ser “Revolução da Luz Vermelha”. Meses depois, estava dando uma olhada na programação da 34a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo quando o nome do longa-metragem Revolução da Luz Vermelha me pareceu bem familiar. Estava lá: dirigido por Sam Voutas, o filme é a primeira comédia chinesa sobre sex shops. Perdi a chance de batizá-lo de “Uma Sex Shop Muito Louca”.

Esta semana me encontrei com o Sam pra saber mais sobre esse filme. Não é todo dia que se vê um estrangeiro fazendo cinema na China, ainda mais com um tema desses. Acabei descobrindo que a relação do Sam com o país vem de criança. Ele morou aqui por dois anos na década de 80, mais um tanto nos anos 90, até que voltou em 2004 e se estabeleceu de vez em Beijing. Foi vendo a transformação radical pela qual a cidade passou nessas três décadas que ele teve a idéia de usar as lojas de “brinquedos adultos” como pano de fundo para um roteiro.

   
Os três atores principais: Zhao Jun, Vivid Wang e a boneca Candy. 

A quantidade de sex shops espalhadas por Beijing também já me chamou a atenção. Para quem imagina uma China conservadora e recatada, ver uma lojinha dessas em cada esquina é uma grande surpresa. São duas mil só na capital. A China também fabrica 70% dos brinquedos sexuais vendidos no mundo, e existe até uma feira de produtos do tipo com um nome genial: Shanghai Sexpo. 

O roteiro de Sam, sobre um chinês desempregado que decide apostar as fichas no mercado erótico, foi indicado a Melhor Roteiro Inédito no prêmio australiano Inside Film Awards. Foi aí que ele e a produtora (que convenientemente também é sua namorada) decidiram tirar o Red Light Revolution do papel. A maior parte da grana saiu de seus próprios bolsos – Sam já atuou em vários filmes chineses e é adepto da Escola John Cassavetes de investir o salário de ator nas próprias produções. Melhor do que seguir a Escola Robert Rodriguez e fazer dinheiro submetendo o corpo a exames médicos suspeitos. 

Ainda assim, o filme não teria sido feito não fosse o patrocínio de uma fabricante de produtos eróticos. Eles cederam à produção uma quantidade imensa de “brinquedinhos”, de artigos sadomasoquistas a membros de borracha. Também doaram um estoque considerável de bonecas infláveis, incluindo várias baseadas em atrizes pornôs famosas e até uma sereia (!). Parece que existe um boneco inflável do Obama (!!) sendo vendido por aí, mas não conseguiram um desses para o filme. 

 
Pau-pra-toda-obra. 

Foram 27 dias de filmagem em Beijing, com uma equipe e elenco 90% chineses. Como Sam mora aqui há bastante tempo, a comunicação não foi difícil. Problema mesmo era o clima. No último dia de gravação, que seria uma cena externa, veio a neve e avacalhou tudo. Não dá nem pra dizer que foi culpa de São Pedro: tratava-se da neve de 31 de outubro de 2009 , provocada pelo próprio governo chinês. Duas semanas esperando a neve nas ruas derreter, reuniram o elenco, montaram todo o equipamento... e nevou de novo. Fica a lição: melhor deixar as externas para o verão. 

Seis meses de edição depois, Red Light Revolution estava pronto. Mas e aí? O que se faz com um filme pronto na China? Exibir nos cinemas normais, sem chance. Se já é quase impossível no Brasil, com todas as picuinhas de distribuição, na China é preciso passar pelo crivo do governo. Teoricamente, todos os filmes exibidos nos cinemas chineses devem ter classificação livre – e não acho que verão com bons olhos uma comédia que tem membros de borracha balançando pra cá e pra lá o tempo todo. A saída é tentar os festivais de cinema independente, que é o que o Sam vem fazendo. 

O primeiro festival que selecionou Red Light Revolution , vejam só, foi a Mostra de São Paulo. Sam zarpou com a namorada para o Brasil e passou três semanas entre passeios, caipirinhas e sessões de seu filme. Foram 4 exibições, duas delas com bilheteria esgotada e, ao que parece, boa recepção do público, mesmo com todas as diferenças culturais de uma comédia chinesa falada em mandarim. 


O diretor e a produtora na Mostra São Paulo. 

E aí resta a pergunta: que fim levaram todos os objetos doados para a produção? Bom, grande parte foi distribuída entre a equipe e o elenco, inclusive os atores da terceira idade. Mesmo assim, a casa do Sam continua abarrotada de brinquedinhos que o papa não aprovaria. Se você quiser, siga o Red Light Revolution no MySpace ou no Twitter e peça pro Sam. 


Trailer (legendado em português): 



Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

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Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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