domingo, 11 de julho de 2010

Se serve de consolo, eu esqueci meus óculos de leitura

Acontece com todo mundo.

Por algum motivo besta – trânsito intenso, bebida demais, memória de menos – você não chega ao aeroporto ou à estação e acaba perdendo o vôo para aquela viagem de negócios, o ônibus pra sua terra natal, o trem das onze para Jaçanã.

Aqui em Beijing, ultimamente, vejo isso acontecendo com freqüência. Amigos e conhecidos estrangeiros que perdem seus vôos de volta pra casa. Se remarcar um vôo doméstico já dói a cabeça e os bolsos, imagine um internacional.

Teve a ex-namorada do coreano que mora comigo, filha de um pai turrão e controlador, que veio de Seul só pra carregar a rebenta de volta para o lar. Ao chegar no aeroporto, ela notou que esquecera alguma coisa. Nada demais: só o passaporte.

Ou um italiano que se despediu da galera, fez o check-in e acabou perdendo o vôo porque antes resolveu comer um Big Mac. Algumas horas depois teve que voltar à casa dos amigos, com cara de cachorro sem dono, pedir abrigo por mais uma noite.

Uma amiga inglesa estava em Shanghai com passagem marcada para a Tailândia, gandaiou além da conta e chegou atrasada no aeroporto. Deve ter enchido o saco dos funcionários da Air China até o limite, porque conseguiu pegar o vôo seguinte sem custo adicional.

E tem a italiana riquinha – e loira, vale mencionar – cujos pais marcaram três vôos para que ela voltasse pra Milão e ela conseguiu perder os três. Na última vez, estava numa festa na casa de um amigo, achando que viajaria no dia seguinte, 16 de junho, quando foi sacudida por uma dúvida: peraí, meu vôo é dia seis ou dezesseis? Era dia seis. Como é que você só percebe que perdeu um vôo dez dias depois?

 
Dá tchau pro avião, dá. 

Ontem o Joe, inglês que mora na China desde setembro (um semestre em Beijing, outro em Chengdu, na província de Sichuan), e com quem até toquei num bar em Wudaokou , veio para um último dia pequinês antes de pegar o avião para Londres hoje, às onze e quinze da manhã. Sairia do aeroporto já de terno, direto para o casamento de um amigo. Para economizar a grana do hotel, ficou hospedado no nosso apartamento. 

Amigos do semestre passado que ainda estão em Beijing apareceram também, e partimos todos para o bar sino-mexicano La Bamba para celebrar o reencontro de uma noite. E vinha cerveja, e vinha tequila, e vinha licor de melão. Quando saí de lá, pouco após a meia-noite, o Joe continuava aceitando as bebidas que chegavam e mandando tudo pra dentro. 

É claro que não ia sair coisa boa. 

Fiquei sabendo que, do La Bamba, eles emendaram para o Propaganda, boate-inferninho que fica no subsolo, e foram dormir às cinco da manhã. Quando o coreano acordou e viu o horário – dez e meia –, correu até a sala rezando para não encontrar nenhuma bagagem e nenhum inglês dormindo no sofá. Mas o Joe estava lá, imerso no sono, perdido no mundo de Morfeus. Acordou com o coreano chacoalhando sua perna e dizendo: shit, it's ten thirty, you're too late, shit, shit. 

Fica a pergunta. Será que existe uma força misteriosa impedindo os forasteiros de deixar a China? Ou ela atende simplesmente pelo nome de álcool? 

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Disk-comida-chinesa

No início, pedir comida pelo telefone parecia impraticável. Pior que não se fazer entender, é não entender o que a atendente te fala de volta.

- Você quer com pimenta ou sem pimenta?
- Já falei, moça. Apartamento 1201.
- Ok, mas a comida é com pimenta ou sem pimenta?
- Décimo segundo andar, moça. 1201!

O McDonald's era a salvação. É só apertar 2 que eles falam inglês. E ainda dizem que vão entregar em meia hora, mas chegam em quinze minutos. De vez em quando vem até um copo de vidro da coca-cola de brinde.

Mas não tem estômago que agüente x-burguer duplo todo dia (não, o McDonald's chinês não vende McDog, McScorpion ou Gafanhoto McMelt). Há que se comer a comida local. Pra nossa sorte, não são poucos os estabelecimentos que fazem entregas: basta uma bicicleta elétrica e um chinês, duas coisas que não faltam em Beijing.

O coreano que mora comigo foi apresentado a um desses restaurantes e se apaixonou pelo bife na chapa do lugar. No celular dele não tem o nome do restaurante, tem “bife na chapa”. Experimentei a iguaria e é realmente uma lindeza: carne tenra, molho suculento, salada de batata e arroz para acompanhar, e uma caixinha grátis de chá gelado – que, como todas as bebidas na China, vem quente. O entregador invariavelmente é um moleque que, sem sacanagem, deve ter uns doze anos.


(Qualquer semelhança com a vida real é extremamente improvável.) 

Cinco bifes na chapa depois, decidi que era hora de provar outras opções do cardápio – é enorme, tem de carne e macarrão até sushis e sashimis. Acabei descobrindo algumas gororobas sem sabor (o sanduíche de salmão, na verdade, era um punhado mirrado de peixe envolto por uma camada intransponível de arroz), mas muito quitutes apetitosos, como o frango com queijo que derrete na sua boca e não no seu prato. O mandarim da atendente é tranqüilo de entender, e o bom é que ela não varia a ordem das perguntas: é sempre qual o pedido, vai querer mais alguma coisa, qual o endereço e até logo. 

Melhor assim. Perguntas adicionais são sempre um risco. 

- O bife é bem passado ou ao ponto? 
- Já falei, moça. Décimo segundo andar! 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

Quem

Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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