sexta-feira, 9 de julho de 2010

Disk-comida-chinesa

No início, pedir comida pelo telefone parecia impraticável. Pior que não se fazer entender, é não entender o que a atendente te fala de volta.

- Você quer com pimenta ou sem pimenta?
- Já falei, moça. Apartamento 1201.
- Ok, mas a comida é com pimenta ou sem pimenta?
- Décimo segundo andar, moça. 1201!

O McDonald's era a salvação. É só apertar 2 que eles falam inglês. E ainda dizem que vão entregar em meia hora, mas chegam em quinze minutos. De vez em quando vem até um copo de vidro da coca-cola de brinde.

Mas não tem estômago que agüente x-burguer duplo todo dia (não, o McDonald's chinês não vende McDog, McScorpion ou Gafanhoto McMelt). Há que se comer a comida local. Pra nossa sorte, não são poucos os estabelecimentos que fazem entregas: basta uma bicicleta elétrica e um chinês, duas coisas que não faltam em Beijing.

O coreano que mora comigo foi apresentado a um desses restaurantes e se apaixonou pelo bife na chapa do lugar. No celular dele não tem o nome do restaurante, tem “bife na chapa”. Experimentei a iguaria e é realmente uma lindeza: carne tenra, molho suculento, salada de batata e arroz para acompanhar, e uma caixinha grátis de chá gelado – que, como todas as bebidas na China, vem quente. O entregador invariavelmente é um moleque que, sem sacanagem, deve ter uns doze anos.


(Qualquer semelhança com a vida real é extremamente improvável.) 

Cinco bifes na chapa depois, decidi que era hora de provar outras opções do cardápio – é enorme, tem de carne e macarrão até sushis e sashimis. Acabei descobrindo algumas gororobas sem sabor (o sanduíche de salmão, na verdade, era um punhado mirrado de peixe envolto por uma camada intransponível de arroz), mas muito quitutes apetitosos, como o frango com queijo que derrete na sua boca e não no seu prato. O mandarim da atendente é tranqüilo de entender, e o bom é que ela não varia a ordem das perguntas: é sempre qual o pedido, vai querer mais alguma coisa, qual o endereço e até logo. 

Melhor assim. Perguntas adicionais são sempre um risco. 

- O bife é bem passado ou ao ponto? 
- Já falei, moça. Décimo segundo andar! 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

Quem

Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

Busca no blog

Leia também


Cinema por quem entende mais de mesa de bar

Crônicas de um mineiro na China


Uma história parcialmente non-sense escrita por Lucas Paio e Daniel de Pinho

Arquivo