segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Aqui jaz o Bla-Bla-Bar

Beijing é uma constante metamorfose.

Qualquer um que já morou na capital chinesa sabe: se você fica algumas semanas sem passar por um lugar, é grande o risco de encontrar outra paisagem quando retornar. Construções são demolidas, restaurantes passam por reformas a jato, prédios enormes são erguidos num pulo. A lojinha de DVDs perto do metrô Wudaokou ficava nos fundos de uma loja de esportes; conseguiram pôr abaixo a loja de esportes e transformá-la num restaurantezinho em pouco mais de uma semana. A equipe do "Lar, Doce Lar" morreria de inveja.

Passei o último mês no Brasil, visitando amigos e familiares depois de um ano morando na China. Ainda em BH, fiquei sabendo que queriam fechar o Bla-Bla-Bar.

Ele foi o quartel-general da minha turma por muito tempo: convenientemente localizado dentro do campus da BLCU (Beijing Language and Culture University), no primeiro andar do prédio da cantina, com chopp barato (meio litro por R$ 1,20), música de qualidade duvidosa geralmente escolhida por uma samoana, uma mesa de totó onde perdi incontáveis partidas e até ganhei algumas, tábua de dardos na parede, troféus de um time de futebol local orgulhosamente expostos na prateleira (e uma foto da equipe autografada por todos os jogadores), bandeiras de várias nações, banheiro de espelho constantemente quebrado por clientes alcoolizados, camisetas à venda com a logomarca do bar, quadros com notas e moedas de todo o planeta (tinha até uma verdinha de 1 real dando sopa), funcionários que nos conheciam pelo nome.

Foi no Bla-Bla-Bar que comemorei meu aniversário de 25 anos, com direito a dancinha em cima da mesa quando as cervejas e as tequilas subiram à cabeça. Foi lá que bati o meu recorde de dias consecutivos indo ao mesmo boteco (15 dias seguidos, sem pular um). Lá eu conheci espanhóis, mexicanos, italianos, brasileiros, russos, joguei drinking games, esqueci minha mochila com todos os meus livros de mandarim (estava lá no dia seguinte), presenciei samoanos dançando em cima da mesa (e um paulista tentando fazer o mesmo e despencando de cabeça), acompanhei a Copa do Mundo, treinei o chinês com as garçonetes e briguei com o dono por causa do meu pão árabe quentinho 

 
O Bla-Bla-Bar, em outubro de 2009. 

O e-mail que me mandaram sobre o Bla-Bla-Bar não transmitia muito otimismo: 

"Desconto de 50%! Porque a BLCU quer que o Bla-Bla-Bar feche! A partir de 11 de setembro, todos os drinques (cerveja, coquetéis etc) estarão pela metade do preço! Agradecemos nossos velhos e animados clientes desde 1999 até 2010. Foi um prazer servir a todos!". 

 

Por isso, logo no dia em que voltei, liguei para alguns amigos e marcamos uma cerveja no Bla-Bla-Bar, antes que fechassem o negócio pra sempre. Quando cheguei lá, tarde demais: o estabelecimento já estava na chon . Da atmosfera vibrante e os retratos na parede, só restaram escombros e uma mancha na parede revelando onde ficava a escada para o segundo andar. Na parede, um aviso triste, dizendo em letras garrafais: "ELES QUEREM FECHAR O BLA-BLA-BAR" e terminando com um encarecido " por favor, gente, por favor, não sejam tão simplórios ". Por mais que o dono fosse um babaca, é de cortar o coração. 

 
O Bla-Bla-Bar, em setembro de 2010. 

 
R.I.P. Bla-Bla-Bar 1999-2010 

 
Tauba de tiro ao álvaro, não tem mais onde pendurar. 

O fim do Bla-Bla-Bar, no entanto, era só o começo da tragédia. O prédio inteiro da cantina estava entregue às moscas: o primeiro andar, onde serviam o bandejão; o segundo, onde vendiam refeições fartas a 2 reais; e todos os restaurantes que ficavam no mesmo edifício, incluindo o japonês, o coreano, o chinês (onde faziam os jantares de final de semestre com as turmas e os professores) e o Diamond Restaurant. Até o restaurante muçulmano, onde faziam o pão árabe e a carne de boi com curry e a carne moída com iogurte e os espetinhos de cordeiro, virara pó. 

 
É aqui que faziam o pão árabe quentinho. 

 
O bandejão da cantina já era... 

 
...e o Diamond Restaurant não existe mais. 

É claro que uma universidade com milhares de estudantes não pode ficar sem lugar pra comer. Desde o ano passado vinham construindo um prédio enorme no coração da BLCU, cuja finalidade era um mistério. Especulavam-se novas salas de aula, karaokê e até pista de boliche. Nem uma coisa nem outra: virou simplesmente a nova localização da cantina. O bandejão e os pratos a 2 reais foram transferidos para o prédio novo, que cheira a tinta fresca e tem até escadas rolantes. 

Ao topar com o escritório da administração, perguntei o que tinha acontecido com o Bla-Bla-Bar. 
- Fechou – disse a mulher. 
E o restaurante japonês? 
- Fechou. 
E o muçulmano? 
- Mudou para este prédio. Saia pela porta principal e vire à esquerda. 
Alívio: nem tudo está perdido. Atrás de uma fachada apropriadamente arábica, o Muslim Restaurant ganhou gás extra com sua nova decoração, novo cardápio, novos uniformes e novas toalhas de mesa. Se bobear, está até virado pra Meca. 

 
Se 
pelo menos restaurante muçulmano servisse cerveja... 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

Quem

Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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