sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Brincadeira de adulto

Pra você ver como são as coisas. Há alguns meses, recebi uma ligação do Sam, um australiano que também deu aulas de inglês na escola onde trabalhei. Ele tinha feito um filme chamado Red Light Revolution , queria inscrevê-lo num festival brasileiro e precisava traduzir o título. “Deve ser um curta de teor histórico”, imaginei, e respondi que devia ser “Revolução da Luz Vermelha”. Meses depois, estava dando uma olhada na programação da 34a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo quando o nome do longa-metragem Revolução da Luz Vermelha me pareceu bem familiar. Estava lá: dirigido por Sam Voutas, o filme é a primeira comédia chinesa sobre sex shops. Perdi a chance de batizá-lo de “Uma Sex Shop Muito Louca”.

Esta semana me encontrei com o Sam pra saber mais sobre esse filme. Não é todo dia que se vê um estrangeiro fazendo cinema na China, ainda mais com um tema desses. Acabei descobrindo que a relação do Sam com o país vem de criança. Ele morou aqui por dois anos na década de 80, mais um tanto nos anos 90, até que voltou em 2004 e se estabeleceu de vez em Beijing. Foi vendo a transformação radical pela qual a cidade passou nessas três décadas que ele teve a idéia de usar as lojas de “brinquedos adultos” como pano de fundo para um roteiro.

   
Os três atores principais: Zhao Jun, Vivid Wang e a boneca Candy. 

A quantidade de sex shops espalhadas por Beijing também já me chamou a atenção. Para quem imagina uma China conservadora e recatada, ver uma lojinha dessas em cada esquina é uma grande surpresa. São duas mil só na capital. A China também fabrica 70% dos brinquedos sexuais vendidos no mundo, e existe até uma feira de produtos do tipo com um nome genial: Shanghai Sexpo. 

O roteiro de Sam, sobre um chinês desempregado que decide apostar as fichas no mercado erótico, foi indicado a Melhor Roteiro Inédito no prêmio australiano Inside Film Awards. Foi aí que ele e a produtora (que convenientemente também é sua namorada) decidiram tirar o Red Light Revolution do papel. A maior parte da grana saiu de seus próprios bolsos – Sam já atuou em vários filmes chineses e é adepto da Escola John Cassavetes de investir o salário de ator nas próprias produções. Melhor do que seguir a Escola Robert Rodriguez e fazer dinheiro submetendo o corpo a exames médicos suspeitos. 

Ainda assim, o filme não teria sido feito não fosse o patrocínio de uma fabricante de produtos eróticos. Eles cederam à produção uma quantidade imensa de “brinquedinhos”, de artigos sadomasoquistas a membros de borracha. Também doaram um estoque considerável de bonecas infláveis, incluindo várias baseadas em atrizes pornôs famosas e até uma sereia (!). Parece que existe um boneco inflável do Obama (!!) sendo vendido por aí, mas não conseguiram um desses para o filme. 

 
Pau-pra-toda-obra. 

Foram 27 dias de filmagem em Beijing, com uma equipe e elenco 90% chineses. Como Sam mora aqui há bastante tempo, a comunicação não foi difícil. Problema mesmo era o clima. No último dia de gravação, que seria uma cena externa, veio a neve e avacalhou tudo. Não dá nem pra dizer que foi culpa de São Pedro: tratava-se da neve de 31 de outubro de 2009 , provocada pelo próprio governo chinês. Duas semanas esperando a neve nas ruas derreter, reuniram o elenco, montaram todo o equipamento... e nevou de novo. Fica a lição: melhor deixar as externas para o verão. 

Seis meses de edição depois, Red Light Revolution estava pronto. Mas e aí? O que se faz com um filme pronto na China? Exibir nos cinemas normais, sem chance. Se já é quase impossível no Brasil, com todas as picuinhas de distribuição, na China é preciso passar pelo crivo do governo. Teoricamente, todos os filmes exibidos nos cinemas chineses devem ter classificação livre – e não acho que verão com bons olhos uma comédia que tem membros de borracha balançando pra cá e pra lá o tempo todo. A saída é tentar os festivais de cinema independente, que é o que o Sam vem fazendo. 

O primeiro festival que selecionou Red Light Revolution , vejam só, foi a Mostra de São Paulo. Sam zarpou com a namorada para o Brasil e passou três semanas entre passeios, caipirinhas e sessões de seu filme. Foram 4 exibições, duas delas com bilheteria esgotada e, ao que parece, boa recepção do público, mesmo com todas as diferenças culturais de uma comédia chinesa falada em mandarim. 


O diretor e a produtora na Mostra São Paulo. 

E aí resta a pergunta: que fim levaram todos os objetos doados para a produção? Bom, grande parte foi distribuída entre a equipe e o elenco, inclusive os atores da terceira idade. Mesmo assim, a casa do Sam continua abarrotada de brinquedinhos que o papa não aprovaria. Se você quiser, siga o Red Light Revolution no MySpace ou no Twitter e peça pro Sam. 


Trailer (legendado em português): 



Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Churrasquinho coreano

Enquanto a tensão entre as duas Coréias volta aos noticiários e preocupa o mundo, aproveite para conhecer uma especialidade da gastronomia da península: o churrasco coreano.

Só em Beijing moram dezenas de milhares de sul-coreanos, que costumam se aglomerar nas mesmas regiões e criar suas próprias "Koreatowns" em plena capital da China. Assim, é muito fácil encontrar estabelecimentos coreanos por aqui - a própria escola onde estudo mandarim atualmente tem donos coreanos. Restaurantes, claro, também existem aos montes.

Ao contrário das churrascarias rodízio que temos no Brasil, com o garçom trazendo e fatiando a carne pronta no seu prato, o churrasco coreano utiliza a mão-de-obra da clientela. Os próprios comensais se encarregam de cortar e grelhar a carne que comem, numa experiência meio fonduesca (ou hotpotiana). Confira como se prepara um churrasquinho à maneira coreana:

Eles começam servindo os acompanhamentos. Cebola, nabo, kimchi (prato de vegetais levemente picante, tipicamente coreano), molhinhos diversos e salada de folhas fazem parte do pacote. 

  

Parece uma pia com torneira, mas é um bojo com exaustor em cima. Todas as mesas têm um desses no centro.

 
 

Dentro do bojo, coloca-se um balde de ferro com brasa ardendo quá fogueira de São João... 


 

...e uma grelha por cima. 


 

Há carnes de boi, porco e outros bichos (mas não vi cachorro no cardápio). Algumas já vêm picadas, outras você mesmo precisa cortar, a tesouradas. 


 

Coloque os pedaços sobre a grelha e deixe o calor fazer o serviço. Também dá pra sapecar umas batatas e outros legumes. 


 

Para degustar o churrasco, pegue uma folhona de alface e o molhinho de sua preferência... 


  

...faça uma trouxinha com a alface, e mande pra dentro. 


 

Churrasco sem bebida não é churrasco, e os coreanos sabem disso. A garrafa verde da foto traz um líquido esbranquiçado chamadomakkoli , um vinho de arroz com sabor adocicado e 6,5-7% de álcool. A bebida transparente no copinho é a soju , um destilado que lembra vodca mas tem graduação alcóolica menor (20%). 


 

Melhor ainda é a propaganda da Bek Se Ju , uma bebida fermentada também conhecida como "vinho de cem anos". O anúncio no cardápio traz o desenho abaixo... 


 

...e uma "parábola" explicando: 

A Lenda de Bek Se Ju 

Certa vez, um nobre cavalgava por um vilarejo, quando testemunhou uma cena incomum. Um jovem surrava um homem velho que parecia ser seu pai! 
O nobre parou seu cavalo para xingar o jovem. 
"Por que você está batendo em um velho tão frágil?" 
O jovem virou-se e disse: "Na verdade, este é meu filho, que nasceu quando eu tinha 80 anos. Por várias vezes mandei que ele bebesse Bek Se Ju para não envelhecer. Mas ele nunca me ouviu, por isso agora parece muito mais velho do que eu." 
O nobre ficou bastante surpreso e imediatamente mostrou seu respeito ao homem que parecia jovem. Então perguntou o que era Bek Se Ju. E o sujeito explicou: 
"Bek Se Ju é um vinho de arroz cultivado junto com 12 tipos de ervas orientais diferentes, incluindo ginseng coreano e gengibre. Quem bebe Bek Se Ju se mantém jovem e saudável". 


Já pensou um anúncio assim passando na TV? 

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

É bem possível comer um só: 10 batatas chips que você nunca viu

Nos últimos anos, deu a louca nas empresas de salgadinhos: se antes tínhamos apenas uma Ruffles Cebola e Salsa aqui, um Fandangos Presunto acolá, hoje as prateleiras brasileiras estão inundadas de chips sabores Peito de Peru, Cream Cheese, Costelinha e outras invencionices.

Não seria diferente na China, claro. Marcas famosas de salgadinhos como Lay's e Pringles se adaptam ao mercado local e lançam um sabor bizarro atrás do outro. Para este post, experimentei os 10 sabores de batatas chips mais estranhos que encontrei, mais um refrigerante para acompanhar:

 

Chá de Limão 
Que chinês é louco por chá, todo mundo sabe. Essa batata da Lay's faz parte da série “Cool & Refreshing”, e mesmo que pareça insanidade fazer chips de chá, ela é até razoável. Na verdade é o limão que se sobressai, lembrando a Ruffles Twist lançada no Brasil há alguns anos. Veredicto: não tem muito de chá, mas vale provar. 

 

Camarão 

A Pringles lançou na China uma série de frutos do mar que é bem duvidosa. Eu, que sou fã de camarão, tinha uma ingênua expectativa para esta batata. Afinal, a Elma Chips já tinha sido bem-sucedida na sua Sensações Espetinho de Camarão (espetinho , ainda por cima!). Mas a Pringles Camarão passa longe do crustáceo. Tem sim um gosto de frutos do mar, mas é extremamente artificial e quase intragável. Veredicto: nunca confie numa batata frita cor-de-rosa. 

Caranguejo 
Esse foi o primeiro sabor bizarro que experimentei, há mais de um ano. Lembro que você abria a embalagem e já vinha aquela maresia sintética. Só consegui chegar até metade do pote. Veredicto: uma vez pra nunca mais. 

Alga Marinha 
Sabe aquela alga que os restaurantes japoneses usam para enrolar temakis e tekamakis? Na China é fácil encontrá-las nos supermercados, e são um bom petisco, sequinhas, crocantes. Mas aí tentaram juntar o sabor da alga à textura da batata, e o resultado foi um desastre. Veredicto: ruim, e ainda tem uma cor verde-radioativa que dá medo. 

  
Pringles Camarão e Alga Marinha: coloridas e intragáveis 

   

Sichuan Spicy Flavor 

Sichuan é a província da China famosa por sua comida apimentada. Uma batata “sabor Sichuan”, portanto, é simplesmente uma batata apimentada. Vou me abster de um veredicto porque experimentei já faz um tempão, mas lembro que era boazinha. 

Hot Pot 
Essa batata ondulada faz parte de outra série da Lay's, “Intense & Stimulating”. Parece eufemismo para afrodisíaco. Hot pot, como já mostrei no Boca de Gafanhoto, é uma espécie de “fondue chinês” onde você cozinha sua própria comida. A imagem da embalagem é engraçada: o cantor sino-americano Leehom Wang posando de cool com uma concha de metal numa mão e uma batata na outra. As três pimentinhas estampadas no pacote, a coloração avermelhada e o nome completo (“Numb & Spicy Hot Pot Flavor”) já dão a pista: vem ardência por aí. Parece uma Ruffles Churrasco mais picante, que deixa a boca ligeiramente anestesiada e pede um refrigerante para acompanhar. Veredicto: muito boa. Desses sabores insólitos, sem dúvida é a melhor.

Sopa de Peixe 
Fico imaginando as reuniões de marketing que decidem: “ nosso próximo sabor de batatinha será sopa de peixe ”. O produto final é razoável: varia entre o doce e o azedo, com uma pimentinha de leve. No entanto – ou ainda bem – faltou o gosto de peixe. Veredicto: ok, tirando a propaganda enganosa. 

  

Kiwi 

Salgadinho de fruta é um troço bem esquisito. E, de todas as frutas existentes nesse mundão, escolheram logo o kiwi (!). Daí fui pesquisar e descobri que a fruta é originária da China, não da Nova Zelândia como sempre pensei. Se a opção pelo kiwi faz sentido, a batatinha decepciona. É bem sem graça e não dá pra distinguir gosto algum: parece um biscoito doce crocante, genérico e sem personalidade. Veredicto: nhé. 

Blueberry 
A outra frutinha selecionada para virar chips é típica dos invernos rigorosos, e talvez por isso seja meio desconhecida dos brasileiros. Em português ela é chamada de “mirtilo” ou “uva-do-monte”, dois nomes que nunca ouvi falar. A primeira mordida na batatinha de blueberry me lembrou o flúor sabor uva que minha antiga dentista me aplicava nos dentes. O sabor doce é mais acentuado, mas ainda não dá pra identificar muito bem que fruta quiseram recriar. Veredicto: melhor que a de kiwi, o que não quer dizer muita coisa. 

Pepino 
Se, na maioria das tentativas, o gosto da batata pouco lembra o sabor pretendido, na Lay's Pepino conseguiram acertar a fórmula e criar um simulacro bem fiel. Azar o meu, que não gosto de pepino. Só espero que não invistam nas leguminosas e lancem batatas sabor rúcula, beringela, jiló. Veredicto: pra quem gosta de pepino, eu não sei. Pra quem não gosta, mantenha distância. 

 
UM REFRI PRA ACOMPANHAR 

Sprite Chá 
Se a gente bebe refrigerante que mistura as ervas mate e chapéu de couro, porque os chineses, tão viciados num chá, não podem misturar suas folhinhas ao limão gasoso do Sprite? Diferentemente da Lay's Chá de Limão, aqui o gosto de chá é bem marcante, quase um ice tea com bolinhas. Eu achei estranho nas primeiras goladas, depois acostumei. Veredicto: é bizarro, mas é bão. 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Bloco do eu sozinho

11 de novembro é o Dia dos Solteiros.

Não tava sabendo? É porque a data só é comemorada na China. Foi criada por universitários de Nanjing (ou Nanquim) nos anos 90, provavelmente procurando novos pretextos para cair na farra. Nem precisava: afinal, a simples existência de um Dia dos Namorados transforma todos os outros 364 dias do ano em Dias dos Solteiros. Mas a desculpa dos nanquineses colou e a data se espalhou pela China.
 

O dia foi escolhido por motivos meramente matemáticos: a data 11/11 é formada por quatro solitários números 1. Imagino que daqui a um ano, em 11/11/11, a festança deva ser ainda mais especial. 

A comemoração do Dia dos Solteiros não é só uma esbórnia desregrada como você deve estar imaginando. A tradição manda que o dia comece com um café da manhã especial: quatro youtiaos (pauzinhos fritos de pão) representando os quatro 1s e um baozi (pãozinho cozido no vapor) representando o ponto no meio (eles escrevem "11.11"). 


E ainda tem que comer sozinho... 

Também há quem passe o dia vestido de verde, que seria a cor “oposta” do vermelho, simbolo clássico do amor. Conheço muitos diretores de arte que discordariam dessa definição, mas tudo bem. É à noite que os solteiros festejam seu dia de verdade. Solteiros convictos jantam com os amigos que também estão descomprometidos – cada um pagando a própria conta, claro. Quem quer aproveitar a data pra tentar desencalhar se aventura em “encontros às cegas” dos mais diversos tipos. Já vi um – popular inclusive entre europeus – que funciona assim: um número X de mulheres ocupam uma grande mesa, e uma quantidade igual de homens se revezam conversando por 5 minutos com cada uma delas. Todos carregam bloquinhos de anotações e rabiscam suas rápidas impressões sobre cada pretendente. Se, ao final, um determinado casal tiver opinões positivas e recíprocas a respeito um do outro, podem esticar o encontro e ver no que dá. Parece prova do “Em Nome do Amor”. 

Solteiros pelo mundo afora já fizeram outras tentativas de criar um dia só seus. Há uma versão comemorada em 14 de fevereiro, que é Dia dos Namorados em grande parte do mundo. É chamada de Singles Appreciation Day – algo como um “Dia do Orgulho de Estar Solteiro”, que em inglês abrevia-se SAD (“triste”). É meio esquisito festejar a solteirice no dia já reservado aos comprometidos – que nem comemorar o Dia do Saci no Dia das Bruxas –, tanto que muitos acabam preferindo o dia 13 ou o dia 15. 


Precisando de um ombro amigo? 

No Brasil, também temos um Dia dos Solteiros: acontece em 15 de agosto, que além diso é Dia da Informática, Dia do Analista de Sistemas e, segundo a Wikipedia , Dia do Smartphone (hein?) Ser um homem solteiro no Brasil, porém, não é tão desesperador quanto na China: aqui, existem 30 milhões de machos a mais do que mulheres. E a diferença continua a crescer – em 2005, para cada 100 menininhas chinesas que nasceram, foram 118 varões. Se eu fosse empresário na China, investia no mercado de bonecas infláveis.

Por isso, solteirões desse Brasil varonil: neste 11 de novembro, aproveitem a desculpa de uma data comemorativa do outro lado do mundo e celebrem sua solteirice da forma que melhor lhes convier. Você pode até adaptar a tradição chinesa e comer quatro churros e um pão de queijo no café da manhã, ou tomar quatro garrafas de cerveja e um copinho de pinga. E se for homem, ainda que sozinho, desiludido e desesperançoso, dê graças por não ter nascido na China.


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Chinês pra você fingir que sabe - Parte 2

Para ouvir a pronúncia, clique na palavra e, na página que se abrirá, no botão  ( neste post, nem sempre a pronúncia está disponível). Preste atenção à “melodia” da fala: um tom errado em chinês pode levar a significados completamente diferentes, do tipo confundir "posso fazer uma pergunta?" com "posso te beijar?". 



服务员 [fúwùyuán] – garçom 

No Brasil chamamos o garçom de comandante, capitão, tio, brother, camarada, chefia, amigão... Em mandarim só há uma palavra: “fúwùyuán”, que serve tanto pros garçons quanto para as garçonetes. E não existe aquele pudor em levantar o dedinho, procurar por um atendente, fingir educação. Na China, a forma mais comum é gritar a plenos pulmões: “fuuuuieeeeeen! ”.

Eles não tomam a gritaria como insulto. Na verdade, costuma ocorrer o contrário: quanto mais alto for o berro, melhor o humor do atendente.

Para soar como um pequinês de raiz, é só puxar um R paulista no final: “ fuuuuiaaaaaarrrr! ”.



干杯 [gānbēi] – tintim! 

Essa é daquelas expressões que você tem que saber em qualquer idioma. Não há melhor lugar para fazer amigos instantâneos do que numa mesa de bar, e não há melhor momento que o brinde para selar essa amizade. Gānbēi significa “copo seco”, o que implica num vira-vira imediato após o tintim. Levante o copo, prepare o esôfago e repita: “ ganbeeeei!

 
E o melhor: dá pra achar um copão desses por R$ 1,30 



加油 [jiāyóu] - força! 

Pronuncia-se “ djá ióu ”. Literalmente, “adicionar óleo”. Tanto que posto de gasolina em mandarim é jiāyóuzhàn, “estação de adicionar óleo”. Mas é o sentido figurado que tornou a expressão famosa. Equivale ao nosso “dar um gás”, fazer um esforço extra. Geralmente é usada como uma demonstração de apoio ao esforço de outrém, uma palavra de ânimo: “Jiāyóu, XV de Piracicaba! ”. É o grito de guerra preferido das cheerleaders. E também dá pra ser usado com certo sarcasmo. Da próxima vez que passar pela mesa do colega entupido de trabalho, dê um sorrisinho e incentive: “ jiāyóu, camarada! ”. 



看什么看? [kàn shénme kàn?] - tá olhando o quê? 

Tem um chinês te olhando torto? Devolva o olhar e diga: “kàn shénme kàn?”, que se pronuncia “ cã chama cã ” e significa “tá olhando o quê?”. Também é boa para a garota que pega o namorado no flagra admirando as boas formas de outra moçoila: “kàn shénme kàn, sem-vergonha?” 

可口可乐 [Kěkǒukělè] – Coca-Cola 

Já mencionei aqui que os nomes das marcas internacionais são sempre traduzidos quando chegam na China. Algumas versões são literais: Apple vira “Maçã”, Red Bull vira “Touro Vermelho”. Mas a maioria ganha uma recriação fonética, que lembra o som original e de quebra ainda adquire um significado extra. A rede de sanduíches Subway, por exemplo, virou “Sàibǎiwèi”, que significa algo como “uma competição entre cem sabores”, bem apropriado para uma rede que se propõe a fazer o sanduba do jeito que o cliente quer. 

Porém – sempre tem um porém – o tiro pode sair pela culatra. Quando a Coca-Cola chegou à China, a tal recriação fonética realmente tinha um som parecido com o nome do produto, mas os ideogramas utilizados significavam “morda o girino de cera”. Posteriormente o departamento de marketing acordou e trocou os caracteres. Agora querem dizer “feliz e saboroso”. 

 

Quer dizer que se eu falar “Coca-Cola” a chinesada vai entender? Não exatamente. “Kěkǒukělè” tem um som mais fechado, pronunciando os Es como se fosse Â: “ câ cou câ lâ ”. E se servirem girinos, recuse.


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

domingo, 7 de novembro de 2010

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Pérolas do Google

 

E lá vamos nós para nosso relatório periódico de buscas no Google que trouxeram internautas até o Boca de Gafanhoto: 

causos rápidos para decorar e interessantes 
Ouviu, seu Google? Tô cheio desses seus causos chatos e maçantes. 

como é na china 
Adoro essas perguntas específicas. 

a polêmica da internet 

Uma só? Aí cê me apertou. 

aonde fica oseu nariz no gafanhoto 
O meu?? 

o que significa ver um gafanhoto gafanhoto 
Pergunta pra Ruth Lemos. 

fotos proibidas da macarena 
Em que ano estamos mesmo? 1996? 

3 amigos foram a um bar beber cerveja. a conta deu 30 reais. como eles eram amigos do gerente, este fez um desconto de 5 reais e eles deram 2 pro garcom de gorjeta. logo, o desconto deles foi de 3 reais, restando 27 reais e consequentemente 9 reais para cada um pagar. somando os valores, 9 reais de cada um (27) mais 2 do garcom, chegamos a 29....cade esse 1 real??? 

A calculadora do Google tá penando com essa até hoje... 

porca sem pernas traseiras vira atração turística 
E com razão! Me fala onde é, que eu quero um ingresso. 

como matar um gafanhoto na cortina 
Na cortina é foda mesmo. Sugestões, pessoal? 

a batalha da humanidade contra os gafanhotos 
Daria um bom roteiro para o próximo filme-desastre. 

brazilian portuguese girias "balançar o esqueleto" 
Tem gringo aí querendo cair no samba. 

bebi gasolina como retirar este gosto da boca 
Taca fogo. 

musica dos mamonas que leva gafanhotos 
Tem não, tem? A não ser que você considere os “bicho estranho com um tal de gergelim”. 

fui pra china sem visto 
Então te prepara, que tu vai ser deportado, rapá. 

tudo sobre michaeljackson roupas,calçados,desenhos preferidos,filmes,cores,bricadeiras preferidas,sabe andar de bicicleta brinquedo que ele gosta bebidas 
Essa é genial. O cara quer saber realmente tudo sobre o Michael Jackson: cores preferidas, brincadeiras preferidas, e até se ele SABE ANDAR DE BICICLETA! Se ele não estivesse morto, eu diria pro Michael ficar esperto, que tem stalker muito esquisito por aí. 

coisas curiosas estou com sorte 
É pra CLICAR no “estou com sorte”, animal. 

cruzadinha (quem tem fama com 6 letras) 
“Fácil” e “Moleza” estão difíceis demais pra essa moçada. A Coquetel tá precisando criar uma nova categoria de palavras-cruzadas: “Ameba”. 

com se escreve a palavra sombrinha em ingles 
Little shadow? Turum tssss 

como fazer sexo com um cavalo sem que ele me bata 
Pede com carinho. FREAK! 

quero ver video de mulher transando com cavalo e cachorros, eu esquecie onde estar . 
Além de pervertido, não sabe salvar nos favoritos. 

mulheres botando a boca na pinta do homem 
Na pinta! Está criado um novo fetiche: sexo dermatológico. 

Termino com um alô especial para a multidão de internautas que enfrentam o problema das bolinhas fedidas na boca, e entram esperançosos neste blog em busca de ajuda: 

bola fedida que sai do estômago pela boca 
bolinha amarela fedida boca 
bolinha brancas fedidas na boca, o q é? 
bolinhas amarelas e fedidas q saem da boca 
bolinhas amarelas fedidas na boca 
bolinhas fedidas da garganta 
bolinhas fedidas que dão dentro da boca 
bolinhas fedidas que ficam grudadas na garganta 
bolinhas que fedem na boca 
minha garganta cria umas bolhas fedidas 
o q significa soltar umas bolinhas amareladas com mau cheiro pela boca ? 
o que sao aquelas bolinhas amarelas que saiem da nossa boca 
o que são aquelas bolinhas amarelas que fica na parede das amidalas? 

E para os desconfiados que duvidam da veracidade dessas pérolas, tá aqui um printscreen do Google Analytics, com uma amostra das buscas que acabam caindo neste blog. 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Vida de cachorro

Algumas raças de cachorro parecem entrar em extinção. Os dobermanns, por exemplo, fizeram sucesso até meados dos anos 90, e hoje cadê? Eu também ficava encucado com os pequineses, que eram obrigatórios em qualquer casa de madame há vinte e poucos anos, e depois se escafederam. Quando cheguei na China é que matei a charada. Os pequineses continuam onde sempre estiveram – em Pequim, ora bolas.


"O cachorrinho tem telefone? Vende e faz uma plástica!!" 

O antipático cão-leão é comum nas casas da cidade que lhe deu nome. Outras raças locais que hoje fazem sucesso no Ocidente, como o pug e o shih tzu, também estão bem representados em sua terra-mãe. Peludos ou pelados, eles têm em comum o tamanho diminuto e a fuça amassada. Há quem goste – eu sou mais cachorros com cara de cachorro, com os vira-latas em primeiro na lista. Mas a predileção chinesa por cães menores tem uma razão a mais: a lei. 

Ter cachorro em Beijing é uma burocracia do cão. O registro é obrigatório, só é permitido ter um por casa e o bicho não pode ter mais que 35 centímetros de altura. Você precisa ir à delegacia mais próxima, levar documentos e até foto 5x7 do cãozinho, tirada de frente como convém a um documento oficial. A taxa de registro não é barata: 1000 yuans (R$ 250), com desconto de 50% se o cachorro for castrado, e deve ser renovada todo ano por 500 yuans (R$ 125). Pelo menos o check-up obrigatório está incluso no valor, junto com a vacina contra raiva – aliás, parece que a razão para toda essa burocracia foi o rápido aumento de incidência da doença. Gatos, coelhos, hamsters e peixinhos dourados estão livres da papelada. 

 

O crescente poder aquisitivo dos chineses tem levado o pessoal a gastar cada vez mais com animais de estimação. E dá-lhe pet shop, roupinha pra cachorro, tosas esdrúxulas. De vez em quando vejo até poodle cor-de-rosa desfilando por aí. Algumas transformações são ainda mais radicais: recentemente virou moda pintar cão chow-chow (aquele da língua roxa) como se fosse panda. 

 

 
E tem até quem transforme seu Golden Retriever num Panthera Tigris. 

Conforme cresce a popularidade dos cachorros como o melhor amigo do chinês, cai a demanda por carne de cão. Assar um vira-lata nunca foi das atividades favoritas dos habitantes da capital, mais fãs de pato e porco. Mas, mesmo aqui, muitos restaurantes especializados na cozinha de outras províncias da China – sem falar nos coreanos – ainda oferecem cachorro no cardápio. Não é das carnes mais baratas, nem das mais apetitosas, mas os apreciadores garantem que faz um bem danado pra saúde. 

Hoje em dia, o efeito “fofura” parece ter mais peso. Que o diga o mendigo que bate ponto na avenida atrás do meu prédio. Ele sempre tem um ou dois filhotinhos ao lado, e sua canequinha de esmolas fica invarivalmente mais cheia que a de seus colegas. Quando os cãezinhos crescem, são misteriosamente substituídos por novos filhotes. Onde eles vão parar, é uma questão que só o estômago do mendigo saberá responder. 


  狗 é "cachorro", 肉 é "carne". E não estão vendendo hot-dog... 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

Quem

Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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Cinema por quem entende mais de mesa de bar

Crônicas de um mineiro na China


Uma história parcialmente non-sense escrita por Lucas Paio e Daniel de Pinho

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