sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Trem de doido

Sábado à noite topei com um saci-pererê no metrô de Beijing.

Contextualizar é preciso. Pelo segundo Halloween consecutivo, um bando de malucos organizou um flashmob chamado Subway Loop Party. A proposta era todo mundo aparecer numa determinada estação de metrô, fantasiado de qualquer coisa, subir no primeiro trem que aparecesse após as 21h e fazer uma festa improvisada de 50 minutos, duração de uma volta completa da linha 2.

Fiquei sabendo da festa no metrô algumas horas antes, a convite de um amigo, e como era perto de casa resolvi encarar. Cheguei à estação de Dongzhimen às 20h40 e tudo parecia razoavelmente normal, trens atravessando, transeuntes transitando. Perto de uma pilastra, uma enfermeira ensangüentada de peruca branca observava o movimento. Do outro lado da estação havia um cavaleiro medieval de armadura de plástico, que veio falar com ela. Em dois minutos se juntaram ao grupo uma bruxa, uma policial e um Zorro. Os chineses achavam graça e pediam pra tirar foto.

 

Eu fui sem nenhuma fantasia e logo me arrependi. Em dez minutos, Dongzhimen estava tomada por uma horda de criaturas saídas de filmes, livros, histórias infantis e contos de terror. Muitos cowboys, vikings, piratas, zumbis, bruxas, soldados, vampiros. Um lutador de luta livre, um Fantasma da Ópera, um Super-Homem, um leprechaun. Gente de peruca prateada, cocar indígena, orelha de coelho, roupa de oncinha. Um pendurou cabides pelo corpo e foi de homem-varal. Outro prendeu cartolina amarela na frente e atrás e virou um post-it gigante, que a galera logo encheu de recadinhos, corações, insultos e desenhos pornográficos. Havia ainda Ultraman, Marty McFly, Noiva Cadáver, Papai Noel, Super Mario, Ryu e Guile do Street Fighter, Angry Birds, um Power Ranger amarelo (logo o amarelo!) e um Homem-Aranha com cueca por cima da calça – com o símbolo do Batman! 

  

Às 21h em ponto estavam todos a postos, prontos para invadir o metrô, e devidamente munidos de material etílico. Eu tinha uma garrafinha de chá que enchi de saquê. O trem chegou e já estava bem cheio – ao que parece, qualquer hora é hora do rush em Beijing. Ao contrário do BH Music Station, festival de música que acontece no metrô de Belo Horizonte após o horário de fechamento da linha, o esquema em Beijing era justamente surpreender os pobres passageiros usuais do transporte público. E funcionou: tinha dona saindo do trem com expressão de horror e desgosto, e com razão. A turba entrou aos empurrões, gritando êêêêêê, ocupando cada milímetro cúbico dos vagões e espremendo uns aos outros. Eu não conseguia beber meu saquê, sacar minha câmera ou mesmo manter os dois pés no chão, e já não dava pra voltar atrás. As portas se fecharam e o trem de doidos seguiu caminho. 

 

Duas estações depois, parte da galera havia escoado para os cantos menos populosos, mas continuava impossível se movimentar. Meu amigo se comunicava pelo celular com outro amigo que estava no mesmo trem, mas a três portas de distância, e combinou de ir até lá encontrá-lo. E fomos, pedindo licença, esgueirando-nos pelas poucas brechas, pisando em pés. O tal amigo estava em uma área menos superpovoada do vagão, mas ainda insatisfatória. Resolvemos descer na estação seguinte e pegar o próximo trem, que continha as criaturas que não conseguiram adentrar o primeiro comboio. Bem menos gente, mas ainda com clima de festa. Eu conseguia tomar meu arroz fermentado e até respirar. 

Descemos em Dongzhimen, a estação inicial, depois de uma volta completa pelas 18 estações da linha 2. Mais uns vinte ou trinta minutos de confraternização, fotos, perfomances improvisadas (como um Peter Pan sendo perseguido por um Capitão Gancho sendo perseguido por um crocodilo de relógio na mão), e a tropa se debandou. Fim da festa. Ano que vem eu vejo se me programo melhor e vou a caráter. E direto no segundo trem. 

O momento mais avulso da noite, no entanto, não foi festejar no metrô cercado de seres bizarros. Foi o saci-pererê que citei lá no início do texto. Quando vi o saci albino pulando fui imediatamente falar com ele, porque é óbvio que era brasileiro. Até aí, nada de anormal. Mas ele me parecia bem familiar, e não era amigo meu ou conhecido. Quem iria imaginar: era o Cazé da MTV. 

 

Lá estava ele pulando de uma perna só, fazendo macaquices e entrevistando a moçada fantasiada, os passageiros comuns e até o segurança da estação. Disse que havia chegado à China naquele mesmo dia e ficaria uma semana, gravando programas para a MTV brazuca - uma das pautas escolhidas foi o tal do Dia das Bruxas metroviário. Batemos um papo rápido e me pareceu bem gente boa. Quando fui embora, ele estava roubando a espada do Capitão Gancho pra matar o Peter Pan. 

Beijing é uma cidade insólita e atrás de cada dia mais monótono pode se esconder uma surpresa bizarra. Mas um Cazé-Pererê no metrô? Essa bateu recorde. 

 
 

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Pérolas do Google

 

Tem muito tempo que não faço um post com as buscas mais insólitas do Google e foi difícil selecionar só umas poucas pra colocar aqui. Dá de tudo. Gente que chega a este blog procurando por “ corpos em poço de elevador ”, “ como retrucar um xingamento de chineisinho ”, “ como se escreve a frase beijinho na boca em alemão ”, “ kung-fu catinguento ”, “distorcedor de voz para por na boca para assustar a galera ” ou “ batata chips sabor pepino azedo ”. Gente que acha que o Google é o dono do boteco da esquina e digita coisas como “ que horas sai o onibus 917? ” ou “ onde consigo comprar bottons aqui em salvador? ”. Muito mais gente procurando por “ bolas catinguentas na boca ”, “ crio bolinhas amarelas na garganta,devido a resto de alimentos,oque devo fazer? ” e similares do que seria mentalmente saudável imaginar. 

Aqui vão outras: 

colecao,mundo,animal,sexo,animal,decabo,arabo,egua,cavalo 
“Decabo”, “arabo”. Genial. 

como fazer um porta avioes você mesmo 
Definitivamente, com muito mais paus do que se usa pra fazer uma canoa. 

mequidonalde 
Prefiro queiefissí. 

por que eles fazem errado o chinglish 
O chinglish eles fazem perfeito. O que fazem errado é o english. 

@deathwishes nunca mais vou olhar com os mesmos olhos pra uma garrafinha de água a panela tem o miolo estragado. passa na inspecção? 
Em primeiro lugar, Google não é Twitter. Em segundo lugar... hein?!! 

a relação dos números primos com os gafanhotos 
Se você descobrir, vai ganhar o IgNobel de Matemática. 

eijing fica onde em qual continente 
Atlântida. 

nunca escreva isso e cola em estou com sorte 
Se o estou com sorte tivesse lugar pra copiar e colar, você tava ferrado. 

çomo vive na çhina 
Çei lá. 

como chama o nome da plaquinha com nomes e especies de animais no zoologico 
Er... “plaquinha”? 

filme porno blasileilinha 
Cebolinha, seu tarado! 

achei um gafanhoto verde e amarelo o que eu faço 
Guarda pra 2014 e vende pros turistas gringos. 

minha boca esta fedendo a coco 
Coco fruto do coqueiro, né? Né? Diz que sim, pelo amor de deus. 

filme polar a cerca 
"A Esquimó Safada"? 

gafanhoto e mosquito tem algo em comum sim ou nao 
Talvez. 

grafia de raças de cães em itálico 
Poodle labrador dálmata pastor alemão ... É isso mesmo que cê quer? 

redação pronta imagine que voce presenciou uma cena muito engra\z\ 
Pior que aluno preguiçoso... 

uma frase com 125 caracteres que incentive revendedores 
...é publicitário cara-de-pau. 

canal 5 que esta passando agora 
Você tem que apontar a webcam pra televisão, que aí o Google te responde. 

xexo no fenque 
Xó tem no xou de roquenrou. 

japonesa coreana chinesa inglesa portuguesa francesa italiana africana sexo gratis 
É isso aí, diga não ao preconceito. 

comunidade mulher gostosa e temos dentes podres 
Putz, que sexy. 

monstro fodendo panda 
Mais sexy ainda. 

homen fasendo zexo con porca animal 
Não zerve porca vegetal? 

www.filmes de mulheres trasando como cavalos .com.br 
Você esqueceu o http://. 

O alô desta vez vai para os internautas que tentam, mas não acertam o nome do blog. Se não fosse o Google e o “você quis dizer”... 

blog boca de cafanhoto 
boca de gafonhoto 
boca de gaganhoto 
boca de garfanhoto 
blog cabeca de gafanhoto sobre pequim 
glog gafanhoto 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Como não fazer um festival de cinema

 

O organizador do festival, um americano, assumiu o microfone e se dirigiu ao público que aguardava diante do telão: 

- E aí, galera. Como já deu a hora e o cara da bilheteria ainda não chegou, vamos começar a passar os filmes e depois a gente cobra o ingresso. 

Deu o play no laptop e apresentou o primeiro curta. Era uma produção sobre alienígenas azuis que caem acidentalmente em Beijing. Ah, e a espaçonave é um vibrador gigante. Efeitos especiais de quinta, atuações duvidosas e o idioma extraterrestre, um mimimimimi agudo traduzido por legendas em inglês e mandarim, completam o pacote. Não chega a ser engraçado, mas vale pela bizarrice. 

Daí, antes de começarem propriamente o programa da noite – o curta da nave peniana era só uma zoeira de abertura – anunciaram no microfone que o moço da bilheteria havia chegado e que infelizmente todos deveriam deixar a sala, comprar o ingresso e entrar novamente. O que se resolveria simplesmente com um sujeito indo de cadeira em cadeira, como faria um trocador de ônibus, virou um rebanho de dezenas formando um fila desencontrada na porta, atrasando a exibição e fazendo fuzuê. 

O nome do evento era Beijing International Movie Festival , que se autoproclama "o mais antigo festival de cinema internacional" da capital chinesa – estão na quinta edição. Pelo visto, longevidade não necessariamente se traduz em competência. Agora há eventos do tipo pipocando aos borbotões: um quase homônimo Beijing International Film Festival, patrocinado e organizado pelo governo, um festival de cinema europeu que rola no início de novembro e o 2o Festival de Cinema Brasileiro, que começa em meados de novembro (brazucas em Beijing, táqui o site oficial). Decidi encarar o International Movie Festival, que seria realizado a uma distância caminhável da minha casa, o que é um alento para esta cidade gigante. Os primeiros dias seriam no Yugong Yishan, um bar/pub/casa de shows transformado em microcinema quando necessário. 

Meia hora depois, ingressos comprados, povo sentado, veio um curta japonês. Chama-se "Script" e mostra um grupo de quatro pessoas em uma sala quase escura que estão ali para um certo "experimento". Ninguém se conhece e nem sabe o que fazer, não há instruções ou esclarecimentos. Sobre a mesa, encontram quatro envelopes de conteúdos diversos, incluindo um cronômetro, algumas fotos reveladoras e um enigmático script de cinema narrando com detalhes cada ação que eles haviam acabado de fazer e cada palavra que pronunciaram segundos atrás. Com direção tensa e roteiro bem amarrado, estava indo muito bem até que puf: o cara do laptop fechou sem querer a janela do player. Ao retomar o filme, não soube encontrar o ponto certo onde a história parou, mesmo com todas aquelas vozes da platéia berrando "é antes, é mais pra trás!". Colocou o filme uns dois ou três minutos depois do ponto onde fora interrompido e virou as costas, e que a audiência se virasse pra entender. Parece aquela hora no "Planeta Terror" do Robert Rodriguez que há um suposto rolo de filme faltando. A diferença é que ali era opção do diretor, e não burrice. 

O resto da exibição, aleluia, transcorreu sem problemas, e a qualidade do material me surpreendeu bastante. Havia um curta dinamarquês sobre bullying, uma mini-comédia francesa sobre um fazendeiro que cria parisienses em sua granja (!) para vender ao mercado chinês (!!), uma história de amor entre um palhaço de rua e uma ex-violinista rechonchuda, e um curta excepcional chamado "Piano Fingers", história de um casal já com décadas de casamento, um passado famoso como cantores de rádio e um futuro pouco promissor obnubilado pelo Alzheimer. 

Voltei ao festival dois dias depois, numa terça preguiçosa, para ver dois longas. Dessa vez a seleção foi bem mais fraca. Havia um filme suíço-canadense, "Neutral Territory", dirigido (mal) pelo mesmo sujeito que intepreta (pior ainda) o protagonista. E em seguida "My Blind Uncle", produção taiwanesa estrelada por um ator que é cego de verdade. Começa bem, mas depois descamba para o melodrama e dana tudo. Além disso, a menina choramingosa que faz a sua sobrinha é uma das criaturinhas mais irritantes que vi ultimamente nos cinemas. 

 
O nome do filme é "Meu Tio Cego". Se fosse "Minha Sobrinha Muda" seria bem melhor. 

Pior do que ver filme ruim foi aguentar a trapalhada da vez da organização: o diretor mandou a cópia errada do DVD, uma versão que tinha a palavra SAMPLE em letras gigantes tampando metade da tela, e os organizadores do festival sequer checaram com antecedência se estava tudo nos trinques. Descobriram o problema junto com o público, quando apertaram play. 

 
Muito agradável de assistir. 

O último dia do festival tinha o nome de "Budgetless Bombs" e prometia um apanhado dos piores filmes já recebidos pelos organizadores. Eu devia ter aprendido a lição e ficado em casa, mas a curiosidade mórbida falou mais alto: a entrada era franca, e se tinham escolhido o curta do dildo espacial como parte dos "bons", a seleção das bombas prometia momentos estrambóticos e divertidos. Dessa vez o local não foi um cineminha improvisado, mas um restaurante com mesas, hambúrgueres e cerveja barata. Como não fecharam o lugar especialmente para o evento, vários clientes estavam ali só pra comer e não faziam idéia de que haveria uma exibição de porcarias audiovisuais dali a pouco. 

De repente soltaram umas imagens sem som, projetadas na parede, de uma mulher que mora no meio do nada e passa o dia pintando soldados e criando cabras. Imaginei que estivessem apenas testando o datashow e que fossem repetir tudo depois. Ligaram o áudio no finalzinho do filme, veio o título – "Kaziah, the Goat Woman" – e os créditos finais, e ficou por isso mesmo. Aí, sem que anunciassem o que viria em seguida ou mesmo explicassem aos desinformados que tinha um evento acontecendo, eles deram início ao filme seguinte, um longa chamado "Heavy Metal Picnic". O áudio estava baixo, os comensais continuaram a tagarelar sem cerimônia e não dava pra entender porra nenhuma. Uma pena, porque parecia até interessante: era um documentário – dos mesmos realizadores de um certo "Heavy Metal Parking Lot" – que contrapunha imagens amadoras feitas em 1985 durante um festival de rock com registros recentes, vinte e cinco anos depois, de vários metaleiros e ex-cabeludos que participaram desse festival, hoje carecas e pais de família. 

 
Very Crazy Jeremiah. 

Ainda haveria a exibição de outras pérolas, mas pra ver daquele jeito, como um CDF na primeira fileira tentando prestar atenção na aula de geografia enquanto a turma do fundão toca o terror na sala, preferia não ver. Na saída aproveitei pra perguntar pro organizador do festival por que é que eles fizeram o troço num restaurante e nem se dignaram a avisar a clientela. E ele: 

- A gente achou que os clientes do restaurante fossem ficar nas mesas lá fora e aqui dentro ficariam só quem veio pra ver os filmes ruins. Mas aí esfriou, e todo mundo veio pra dentro. 

Outubro é outono em Beijing, a temperatura à noite oscila em torno dos 10 graus – todo santo ano – e não raro cai uma neve na segunda quinzena, como aconteceu em 2009. Tem que botar muita fé no aquecimento global pra taxar isso de imprevisto e soltar um "aí esfriou". 

Problemas técnicos acontecem. Filme ruim até que passa. Evento com organizador tapado, aí não tem perdão. 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

terça-feira, 5 de julho de 2011

Tudo azul no Mar Amarelo

 

Minhas expectativas para uma praia chinesa passeavam por dois extremos: ou ela seria impossivelmente lotada, ou pós-apocalipticamente vazia. A primeira hipótese se justifica por matemática simples. Se os brasileiros já tornam tantas praias tão insuportáveis nos feriados, imagine um povo sete vezes mais numeroso. Eu me lembrava do meu último reveillón em Cabo Frio, quando precisava enfrentar quatro grandes camadas de pessoas pra poder entrar no mar, e mesclava às minhas aventuras diárias no metrô de Beijing. O prognóstico era pouco otimista. 

Por outro lado, eram grandes as possibilidades de não haver viv'alma à beira-mar. Afinal, já basta um solzinho mirrado para que as moçoilas chinesas empunhem suas sombrinhas, num receio de queimar a pele – nem que seja apenas um bronzeado – que parece beirar a fobia. A imagem de uma multidão em trajes de banho estirada na areia recebendo sol na cara me parecia improvável em território chinês. 

Minha primeira experiência praiana na China acabou acontecendo no Mar Amarelo. Que, como o Mar Vermelho e o Mar Negro, grazadeus, não reflete nas águas a cor que lhe dá nome. Foi em Qingdao, que além de terra da cerveja e de inúmeros bons restaurantes de frutos do mar, também oferece sol e praia pra galera. Fui parar lá porque o Laurens, amigo belga que estudou mandarim comigo em Beijing, agora mora e trabalha em uma cidadezinha perto de Qingdao, e além da companhia e da hospedagem grátis, ele tem carro e se ofereceu para nos levar pra cá e pra lá durante o feriado. Difícil achar proposta melhor. 

Depois de passarmos horas perdidos em busca de um hotel e depois nos empanturrarmos com peixes, camarões, caranguejos e cerveja preta, pisamos na areia da praia já num horário pouco propício para um banho de mar ixperto, por causa do vento aborrecido e da água semi-glacial. Na areia, nada de futevôlei, vendedor de água de coco ou catador de latinhas, apenas uns esparsos gatos pingados. Chamava a atenção a noiva que escolheu a praia deserta como cenário para seu álbum de casamento (na China, os noivos geralmente fazem um book antes da cerimônia pra poder mostrar pra todo mundo na festa). 


Só chove na noiva? Pô, São Pedro. 

 
"Amarelo deserto e seus temores..." 

O mergulho no Mar Amarelo só aconteceu quando fomos a Rizhao, a cidade onde meu amigo mora. Pouco populosa – tem a mesma população de Salvador, o que é quase uma aldeia para os padrões chineses –, Rizhao recebe pouquíssimos turistas estrangeiros e andar por suas ruas largas e vazias é um alívio. A praia, porém, surpreendeu: estava longe de ter gente pipocando por todo canto mas tampouco era erma. O que mais divergia da concepção tupiniquim de praia era que noventa por cento dos "banhistas" continuavam vestidos, do casal esticado na toalha ao molequinho cavando buraco no chão. O máximo a que se permitiam era levantar a barra da calça e caminhar com os pés descalços. Uns poucos marmanjos tiravam a camisa para um rápido tibum e só topei com uma garota que trajava biquíni – não chegava a ser um maiô de vovó, mas era tão ou mais bem-comportado, incluindo uma sainha na parte de baixo impensável numa praia carioca. 


Pra não falar na bóia. 

 
Com que roupa eu vou... pra praia que você me convidou? 

 

No quesito entretenimento, pelo menos para a criançada, nada a reclamar: um parque de diversões montado na orla tinha carrossel, touro mecânico, carrinho bate-bate e todos aqueles brinquedos estilo Playcenter que causam vômito fácil. Uma dupla (de adultos) empinava duas pipas gigantes, fazendo acrobacias ousadas e divertindo os espectadores. E no mar, uma série de "bicicletas aquáticas" (ou seja lá como se chama esse troço) eram pedaladas com gosto pelos, digamos, aquaciclistas. Chinês gosta tanto duma bicicleta que pedala até no mar. 

 

 

 


É pra divertir ou pra assustar? 

Na hora em que eu e o belga fomos pra água, os únicos que estavam efetivamente nadando eram dois chineses um pouco ao longe, que logo começaram a acenar e gritar: "laowai! laowai!" ("gringos! gringos!"). O mar estava limpo e refrescante, ainda que carecesse de ondas. Terminado o mergulho, voltamos à beira-mar e foi aí que notamos que tínhamos virado atração: dezenas de olhos virados para nós e pelo menos três câmeras fotografando e filmando. Unicamente por sermos branquelos saindo do Mar Amarelo. Nunca pensei que, tão longe da costa brasileira, iria um dia me sentir como se estivesse na Ilha de Caras. 

domingo, 26 de junho de 2011

O Central Perk pequinês ganhou um puxadinho

 

Meses atrás, publiquei um vídeo mostrando uma réplica do Central Perk, o café de Friends , em plena capital da China. A obra é de um chinês que é fã hardcore do seriado e reproduziu o visual do café onde os seis amigos se reúnem todo santo episódio, de maneira tão fiel quanto suas limitações de espaço e grana permitiram. 

Quando visitei o lugar em novembro, perguntei pro dono o que era aquela quebradeira atrás da porta e ele me disse que estava construindo uma réplica do apartamento de Joey e Chandler na sala adjacente. Hoje, sete meses depois, voltei ao Central Perk pequinês e topei com o puxadinho já pronto. Exceto pelo tamanho, ficou bem parecido. Não faltou a mesa de totó nem as poltronas superconfortáveis: 



Um pouco apertado, mas tá valendo. 
 

Embora o café estivesse lotado na hora, o apê adjacente estava meio às moscas, talvez pela falta de uma conexão mais óbvia entre os dois ambientes (a porta entre eles estava fechada e pra chegar ali você tinha primeiro que sair do café). Ficou mais como uma curiosidade turística para quem via o seriado. 
 

A poltrona estava confortável como deve ser. O acesso aos quartos é que ficou meio complicado. 
 

O box de Baywatch foi uma escolha acertada. Mas por que é que não estava passando na TV? 
 

No café propriamente dito, as chinesinhas se esparramam pelo sofá. A TV em frente a elas passa Friends o tempo inteiro, ininterruptamente. 
 

Do lado de fora, um painel exibe as citações da série favoritas dos chineses (imagino que os nomes entre parênteses sejam de quem fez a contribuição). 
 

E na entrada, uma parede recém-pintada substitui os rostos dos personagens por balõezinhos com seus bordões mais recorrentes. Pra quem viu meia dúzida de episódios já fica fácil saber quem é quem: 
 

 

segunda-feira, 20 de junho de 2011

A capital chinesa da cerveja

Qingdao é a capital chinesa da cerveja. Não por acaso, foi a única cidade da China a ser uma espécie de colônia alemã – o nome oficial era "concessão", mas a gente sabe que cidades não são dadas de presente assim por aí. Os alemães ocuparam Qingdao do finalzinho do século 19 até o início da Primeira Guerra, quando os japoneses pediram licença e se apoderaram de lá. Depois de algumas idas e vindas, a posse do lugar voltou a ser completamente da China, mas o que interessa para este texto são mesmo aqueles anos germânicos, que explicam porque, mais de um século depois, o nome da cidade virou sinônimo de suco de cevada.


Ali na beira do Mar Amarelo, no nordeste chinês, encarando a Coréia do Sul, fica Qingdao. 

É claro que a alemãzada não poderia ficar muito tempo sem sua cota de bier : em 1903, meros seis anos após desembarcarem em Qingdao, eles abriam a cervejaria Germania, que acabaria virando Tsingtau e finalmente Tsingtao. Esses nomes todos (Qingdao, Tsingtao, Tsingtau) se pronunciam da mesma forma, " tchim dau " – a diferença se deve a diferentes romanizações dos nomes chineses, que também transformaram Beijing em Pequim , Nanjing em Nanquim, e tantas outras. 

Tsingtao é hoje em dia a mais famosa cerveja chinesa. É vendida em mais de 60 países, aparece em filmes como Blade Runner Gran Torino , e durante o período em que a China esteve mais isolada do mundo, em meados do século 20, era responsável por 98% (!!) das exportações chinesas. Comparada com as cervejas brasileiras, a Tsingtao tem menos álcool (gira em torno dos 3,5%) e é bem mais barata: nos mercadinhos mais locais, dá pra achar por 2 yuans, ou R$ 0,50. Nos bares da vida, obviamente, eles enfiam a faca e cobram dez vezes mais. Cães. 

 
"A cidade ideal do cachorro tem um barril de chope por metro quadrado..." 


"O elefante pergunta pra vaquinha: tomou?" 

Qingdao, a cidade, se destaca por várias qualidades. Tem praias, frutos do mar, um clima mais tranqüilão que a correria de Beijing. A cerveja entra aí como um adendo turisticamente importante, já que até a fábrica original da Tsingtao é aberta para visitação. O passeio é interessante. Começa com os obrigatórios letreiros narrando a gloriosa história da cervejaria, conta com maquetes e bonecos de cera representando os trabalhadores de outrora, apresenta um vislumbre da parte da fábrica ainda em funcionamento hoje em dia – garrafas e latinhas passando pelas esteiras, recebendo rótulos e sendo encaixotadas como pinos de boliche – e é coroado com a obrigatória degustação da gelada recém-fabricada, incluindo um exemplar da chamada raw beer , uma espécie de cerveja "crua", sem conservantes, que é uma belezura e difícil de achar fora de Qingdao. 


Garrafas de 5 mil litros também são exclusivas da fábrica. 

Uma maneira no mínimo curiosa de descrever o fim da Segunda Guerra: "Em 15 de agosto de 1945, quando as tropas chinesas venceram a guerra anti-japonesa..." 
 

Vai aí uma cerveja nazista? 
 

Uma prateleira exibe orgulhosamente as variedades de Tsingtao disponíveis no mercado...
 

...enquanto outra reúne latas e garrafas de marcas do mundo inteiro.
 

Entre a cingapuriana Tiger Beer e a mexicana Corona Extra, lá estão nossas Skol e Bohemia. Também vi latinhas de Caracu, Antarctica e até da famigerada Nova Schin.
 

Uma estátua de cera confere os procedimentos de fabricação.
 

Aí, Bruno Paio: uma idéia do que fazer com suas trocentas tampinhas.
 

Quer virar rótulo? Por um punhado de yuans, diga xis e ganhe uma foto-cerveja. 
 

Linha de produção das latinhas. Opa, tá rolando uma tentativa de fuga. 
 

Cerveja atrás de cerveja, nosso amigo ali tem que ficar de olho. Se vier barata dentro da garrafa, a culpa é dele. 
 

Rotula, verifica, agrupa, encaixota... 
 

Quase no final do passeio, uma tal de "Casa de Bêbado" aguarda o intrépido visitante. Ela tem uma inclinação considerável e a sensação de pisar lá dentro é realmente como a de encher a cara a noite inteira e ter que fazer esforço pra se segurar em pé.


A cabeça dói e, se você não segurar, é tombo na certa.


Tá quase...


Para terminar, chega enfim a hora da degustação (a porção é pouco generosa, mas tá valendo).


"Prove, veja, gire, cheire".


É claro que o comércio local não ia desperdiçar uma oportunidade dessas. Batizaram a rua em frente à fábrica de "Rua da Cerveja" e encheram de bares servindo chope em suas mais diversas formas.


Tem até cerveja verde (não sei o que vem dentro, mas deve ser saudável, não?)


Mas a experiência cervejeira qingdaoana por natureza é beber chope na sacolinha de plástico. Você vê isso por toda parte, e se não é das coisas mais práticas, pelo menos diverte.


É preciso perícia para entornar o líquido, ainda mais depois de um certo estado.


Pra facilitar, as sacolas vêm com um "biquinho" estilo bule. Há também que beba de canudinho. E se quiser dar uma pausa, tem que ficar segurando? Não: é só achar uma porta e pendurar na maçaneta. Sério, funciona.
 



Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

Quem

Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

Busca no blog

Leia também


Cinema por quem entende mais de mesa de bar

Crônicas de um mineiro na China


Uma história parcialmente non-sense escrita por Lucas Paio e Daniel de Pinho

Arquivo