sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Trem de doido

Sábado à noite topei com um saci-pererê no metrô de Beijing.

Contextualizar é preciso. Pelo segundo Halloween consecutivo, um bando de malucos organizou um flashmob chamado Subway Loop Party. A proposta era todo mundo aparecer numa determinada estação de metrô, fantasiado de qualquer coisa, subir no primeiro trem que aparecesse após as 21h e fazer uma festa improvisada de 50 minutos, duração de uma volta completa da linha 2.

Fiquei sabendo da festa no metrô algumas horas antes, a convite de um amigo, e como era perto de casa resolvi encarar. Cheguei à estação de Dongzhimen às 20h40 e tudo parecia razoavelmente normal, trens atravessando, transeuntes transitando. Perto de uma pilastra, uma enfermeira ensangüentada de peruca branca observava o movimento. Do outro lado da estação havia um cavaleiro medieval de armadura de plástico, que veio falar com ela. Em dois minutos se juntaram ao grupo uma bruxa, uma policial e um Zorro. Os chineses achavam graça e pediam pra tirar foto.

 

Eu fui sem nenhuma fantasia e logo me arrependi. Em dez minutos, Dongzhimen estava tomada por uma horda de criaturas saídas de filmes, livros, histórias infantis e contos de terror. Muitos cowboys, vikings, piratas, zumbis, bruxas, soldados, vampiros. Um lutador de luta livre, um Fantasma da Ópera, um Super-Homem, um leprechaun. Gente de peruca prateada, cocar indígena, orelha de coelho, roupa de oncinha. Um pendurou cabides pelo corpo e foi de homem-varal. Outro prendeu cartolina amarela na frente e atrás e virou um post-it gigante, que a galera logo encheu de recadinhos, corações, insultos e desenhos pornográficos. Havia ainda Ultraman, Marty McFly, Noiva Cadáver, Papai Noel, Super Mario, Ryu e Guile do Street Fighter, Angry Birds, um Power Ranger amarelo (logo o amarelo!) e um Homem-Aranha com cueca por cima da calça – com o símbolo do Batman! 

  

Às 21h em ponto estavam todos a postos, prontos para invadir o metrô, e devidamente munidos de material etílico. Eu tinha uma garrafinha de chá que enchi de saquê. O trem chegou e já estava bem cheio – ao que parece, qualquer hora é hora do rush em Beijing. Ao contrário do BH Music Station, festival de música que acontece no metrô de Belo Horizonte após o horário de fechamento da linha, o esquema em Beijing era justamente surpreender os pobres passageiros usuais do transporte público. E funcionou: tinha dona saindo do trem com expressão de horror e desgosto, e com razão. A turba entrou aos empurrões, gritando êêêêêê, ocupando cada milímetro cúbico dos vagões e espremendo uns aos outros. Eu não conseguia beber meu saquê, sacar minha câmera ou mesmo manter os dois pés no chão, e já não dava pra voltar atrás. As portas se fecharam e o trem de doidos seguiu caminho. 

 

Duas estações depois, parte da galera havia escoado para os cantos menos populosos, mas continuava impossível se movimentar. Meu amigo se comunicava pelo celular com outro amigo que estava no mesmo trem, mas a três portas de distância, e combinou de ir até lá encontrá-lo. E fomos, pedindo licença, esgueirando-nos pelas poucas brechas, pisando em pés. O tal amigo estava em uma área menos superpovoada do vagão, mas ainda insatisfatória. Resolvemos descer na estação seguinte e pegar o próximo trem, que continha as criaturas que não conseguiram adentrar o primeiro comboio. Bem menos gente, mas ainda com clima de festa. Eu conseguia tomar meu arroz fermentado e até respirar. 

Descemos em Dongzhimen, a estação inicial, depois de uma volta completa pelas 18 estações da linha 2. Mais uns vinte ou trinta minutos de confraternização, fotos, perfomances improvisadas (como um Peter Pan sendo perseguido por um Capitão Gancho sendo perseguido por um crocodilo de relógio na mão), e a tropa se debandou. Fim da festa. Ano que vem eu vejo se me programo melhor e vou a caráter. E direto no segundo trem. 

O momento mais avulso da noite, no entanto, não foi festejar no metrô cercado de seres bizarros. Foi o saci-pererê que citei lá no início do texto. Quando vi o saci albino pulando fui imediatamente falar com ele, porque é óbvio que era brasileiro. Até aí, nada de anormal. Mas ele me parecia bem familiar, e não era amigo meu ou conhecido. Quem iria imaginar: era o Cazé da MTV. 

 

Lá estava ele pulando de uma perna só, fazendo macaquices e entrevistando a moçada fantasiada, os passageiros comuns e até o segurança da estação. Disse que havia chegado à China naquele mesmo dia e ficaria uma semana, gravando programas para a MTV brazuca - uma das pautas escolhidas foi o tal do Dia das Bruxas metroviário. Batemos um papo rápido e me pareceu bem gente boa. Quando fui embora, ele estava roubando a espada do Capitão Gancho pra matar o Peter Pan. 

Beijing é uma cidade insólita e atrás de cada dia mais monótono pode se esconder uma surpresa bizarra. Mas um Cazé-Pererê no metrô? Essa bateu recorde. 

 
 

Quem

Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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