segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 5

Parágrafos sobre filmes vistos entre 26 e 28 de janeiro, inclusive dois vistos nos cinemas de Beijing que só colocam legenda em chinês e o espectador não-chinês que se vire pra entender inglês, francês, russo ou até Na'vi! (Só um desabafo.)


O TERCEIRO HOMEM (The Third Man, Reino Unido, 1949, dir. Carol Reed)
Noirzão clássico com todos os elementos do gênero: uma morte que é mais do que parece, um protagonista preocupado em investigar o que ninguém dá muita bola, uma mulher misteriosa, um vilão ambíguo, fotografia em preto-e-branco e cheia de sombras, composições que abusam dos ângulos tortos. Joseph Cotten está adequadamente confuso como o escritor de faroestes que chega a Viena a convite de um amigo e encontra o amigo morto, e Orson Welles, mesmo com pouco tempo de tela, compõe um personagem intrigante, variando sutilmente as expressões faciais e contribuindo com frases clássicas do cinema (eu nem sabia que vinha deste filme a citação que compara a Itália sanguinária que produziu o Renascimento e a Suíça pacífica que produziu o relógio cuco). Nota 5/5


SUPERMAN IV - EM BUSCA DA PAZ (Superman IV: The Quest for Peace, EUA/Reino Unido, 1987, dir. Sidney J. Furie)
Lembro vividamente de assistir Superman IV na tevê em Cabo Frio no reveillón de 1991 pra 1992. Eu tinha seis anos e adorei, claro. Vinte anos depois, só encarei de novo por ter assistido recentemente ao restante da série, já esperando aquela bomba – imagine um filme que tem 10% de aprovação no Rotten Tomatoes e nota 3.5/10 no IMDB. E é realmente bem ruim, mas não é um desastre monumental, no sentido de que Batman & Robin é um desastre monumental. É que o espectador ideal é o menino de seis anos que brinca de bonequinhos e não dá a mínima para as leis da física, que aqui são devidamente chutadas, mastigadas e cuspidas: tem a Mariel Hemingway respirando no espaço, tem o Superman movendo a Lua para provocar um eclipse e contando que aprendeu isso "na aula de física do ensino médio". Mas ei – a ciência não é o forte da série desde o primeiro filme, com a famigerada cena da Terra girada ao contrário. Em comparação com Superman III (que trazia Richard Pryor como gênio da computação!), o quarto episódio maneira no pastelão e no humor verbal, que quando aparecem não têm muito êxito – a tirada do Superman sobre a segurança no metrô não funciona nem como piada nem como referência ao filme original. Os efeitos especiais são tosquíssimos, com cromakeys dignos de Chapolin, e o roteiro continua com a tradição iniciada pelo "superbeijo do esquecimento" de inventar superpoderes para o herói que não existiam nos quadrinhos: aqui ele tem poderes eletromagnéticos, reconstrói a Muralha da China com uma supervisão-de-pedreiro e toca a campainha com a força do pensamento (além de aparecer falando russo e italiano, numa demonstração clara de supererudição). Gene Hackman volta como Lex Luthor, que desta vez inventa um novo supervilão chamado Homem-Nuclear, com mullets loiros de McGuyver, unhas prateadas gigantes e uniforme à la He-Man. Com tanto vilão bacana nos quadrinhos que nunca apareceu nas telonas (Darkseid, Brainiac, mesmo o Superman Bizarro), por que é que ficam inventando moda? Nota 2/5


SHERLOCK HOLMES - O JOGO DE SOMBRAS (Sherlock Holmes: A Game of Shadows, EUA, 2011, dir. Guy Ritchie)
O primeiro Sherlock Holmes de Guy Ritchie me surpreendeu porque, apesar de fugir completamente da caracterização habitual do personagem, o estilo narrativo de Ritchie e a química entre Robert Downey Jr. e Jude Law deram um novo gás ao velho detetive. A rigor, esta seqüência não acrescenta nada de novo, mas continua bem bolada e divertida. As brincadeiras visuais de Guy Ritchie no primeiro filme estão de volta, e algumas funcionam por subverter o conceito original (Holmes prevendo os golpes antes de uma luta), mas outras acabam cansativas (como a câmera leeeenta na cena da floresta). Downey Jr. se diverte com os inúmeros disfarces, enquanto os personagens clássicos Mycroft Holmes (Stephen Fry) e Professor Moriarty (Jared Harris) são adições muito bem-vindas, este último protagonizando o ótimo embate final com Sherlock, mais fiel ao conto O Problema Final do que eu imaginaria. Nota 4/5


DISQUE M PARA MATAR (Dial M for Murder, EUA, 1954, dir. Alfred Hitchcock)
Um marido planeja assassinar a esposa adúltera, mas o plano dá errado e ele tem que improvisar. A trama se passa quase inteiramente dentro de um apartamento; ao contrário de Festim Diabólico, é filmado de maneira mais convencional, mas ainda extremamente precisa, passeando pelos vários detalhes do roteiro – as diversas chaves sendo o maior destaque – sem confundir o espectador. Nota 4/5


MISSÃO: IMPOSSÍVEL - PROTOCOLO FANTASMA (Mission: Impossible – Ghost Protocol, EUA/EAU, 2011, dir. Brad Bird)
Brad Bird construiu uma carreira impecável na animação, com O Gigante de Ferro, Os Incríveis e Ratatouille – este último meu favorito dentre as várias obras-primas da Pixar. Sua estréia no live-action com o quarto episódio de Missão: Impossível não chega ao brilhantismo de suas animações, mas é um filme-pipoca de primeira, preferindo usar seu tempo com a ação desenfreada (e bem dirigida) do que em tentar ser "sublime". Ethan Hunt é um action hero com profundidade zero, e é melhor que seja assim – nas poucas vezes em que começa a esboçar os problemas mais emocionais de Hunt, o filme fica menos interessante. O que interessa aqui é a ação, e nisso Bird é impecável, usando humor na invasão ao Kremlin, provocando vertigem na cena do prédio mais alto do mundo, apresentando trocentos gadgets absurdos que são imediatamente invejados pela platéia. Tom Cruise já é quase cinqüentão mas ainda convence nos saltos e corridas; Simon Pegg não decepciona no seu papel habitual de nerd piadista – ele e Jeremy Renner são agentes secretos mais humanos, mostrando medo onde qualquer um de nós também o faria. Paula Patton, por outro lado, é uma "impossiblegirl" meio genérica, e Michael Nyqvist empalidece diante do vilão de Phillip Seymour Hoffman no Missão Impossível anterior. Protocolo Fantasma acaba sendo o pior filme de Brad Bird até agora – mas só porque ele estabeleceu um padrão alto demais. Nota 4/5

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 4

Os filmes que vi entre 16 e 25 de janeiro (uma viagem no feriado arruinou minha média de 1 por dia, mas quem sou eu pra reclamar) incluem uma animação da DC Comics, o primeiro Planeta dos Macacos (decidi rever este original e assistir ao restante da série), um clássico do De Palma, um dos poucos Nolans que não tinha visto (acho que agora só falta o primeiro, Following) e um dos 9 candidatos a Melhor Filme no Oscar 2012 - como no ano passado, pretendo ver todos antes da cerimônia, e até agora só tinha assistido Meia-Noite em Paris.


BATMAN - ANO UM (Batman: Year One, EUA, 2011, dir. Sam Liu e Lauren Montgomery)
A DC vem lançando longas animados em vídeo com seus principais personagens nos últimos anos, e este, primeiro que vejo, adapta quadro a quadro a clássica Batman – Ano Um de Frank Miller e David Mazzucchelli. Estão lá todas as cenas, todas as falas, todos os detalhes, sem tirar nem pôr – e isso tem um lado bom e outro ruim. Bom porque a história é ótima e não há espaço para simplificações ou invencionices, e tudo o que não podia existir na mídia impressa (vozes, trilha, efeitos sonoros) é feito direitinho. Ruim porque o projeto não extrapola em nada a obra original, quando tanto a duração do filme (apenas 60 minutos) quanto da trama (que cobre um ano inteiro) seriam motivos bem justificados para aprofundar personagens e conceitos. Do jeito que ficou, e pela própria natureza pouco ambiciosa do projeto, feito para ser lançado direto em DVD, a impressão é de que Batman - Ano Um é uma animação competente, mas a maior parte dos seus méritos vem mesmo dos quadrinhos. Nota 3/5


O PLANETA DOS MACACOS (Planet of the Apes, EUA, 1968, dir. Franklin J. Schaffner)
Incomodam alguns exageros, como o excesso de zooms e o notório overacting de Charlton Heston. Mesmo assim, O Planeta dos Macacos original é ficção científica de primeira, com uma história contada com calma, trilha atonal nervosa, maquiagem que ainda convence após 44 anos e um final-surpresa hoje ultraconhecido (a capinha do DVD já solta o spoiler descaradamente), mas que é legal pra caramba. Também me agrada como todas as semelhanças entre macacos e humanos – eles falam inglês, andam a cavalo, usam armas de fogo – fazem sentido dentro da lógica do filme, ao contrário de tantos outros exemplares do gênero. Nota 5/5


SCARFACE (EUA, 1983, dir. Brian De Palma)
Filmão de gângster com Brian De Palma no auge (7 anos após Carrie, 4 antes de Os Intocáveis) e Al Pacino interpretando novamente um mafioso, depois de dois O Poderoso Chefão. Mas Tony Montana é um personagem bem diferente de Michael Corleone, ficando mais entre um Sonny (pelo temperamento explosivo) e um Vito (por ter construído do nada sua carreira no crime). Enquanto Michael falava baixo e usava os olhos para impor respeito, Tony é impulsivo, muda de humor em questão de segundos, grita com os cantos da boca virados pra baixo. O filme é longo mas jamais cansativo, repleto de falas clássicas ("Say hello to my little friend" é só a última delas) e cenas violentas, mas visualmente impecáveis – com destaque, claro, para os últimos instantes de Tony Montana. Nota 5/5


O GRANDE TRUQUE (The Prestige, EUA/Reino Unido, 2006, dir. Christopher Nolan)
Como em Amnésia e A Origem, a estrela é o roteiro engenhoso dos irmãos Nolan, que mescla com competência flashbacks, plot points e revelações que alteram, em retrospecto, nossa percepção da história. Christian Bale e Hugh Jackman estão ótimos como dois mágicos rivais que vivem num incessante jogo vingativo que lembra o Spy vs. Spy da revista Mad. Das duas grandes revelações da cena final, uma funciona muito bem e nos dá vontade de rever o filme todo, enquanto a outra decepciona por ser extremamente implausível e bandear para um estilo sci-fi (ou, neste caso, "steampunk") que infelizmente destoa de todo o resto. Nota 4/5


A ÁRVORE DA VIDA (The Tree of Life, EUA, 2011, dir. Terrence Malick)
É o 2001 de Malick. As semelhanças não estão no conteúdo – que focam na relação conflituosa entre pai e filho numa família americana dos anos 50 – mas na forma, no ritmo e até nas reações dos espectadores. Aqui também temos grandes saltos temporais, questões filosóficas e existenciais, um uso poético de efeitos especiais (meu preferido é quando Jessica Chastain dança no ar), uma visão da Terra pré-histórica e do espaço (até Júpiter reaparece aqui; não por acaso, os efeitos à moda antiga foram feitos pelo mesmo Douglas Trumbull de 2001), um roteiro que não se preocupa em se explicar, música clássica a rodo, belíssima fotografia, ritmo lento, muito simbolismo e um final onírico, meio malucão. Não me admira que o cara que entra no cinema esperando um típico blockbuster do Brad Pitt ache um saco, e que as opiniões do público se polarizem entre o ambicioso e o pretensioso. Eu gostei, minha seqüência favorita sendo a que vai do início da vida na Terra ao desenvolvimento da família de Pitt e Chastain – mas, assim como 2001, assistindo só uma vez não dá pra dizer que pude digerir tudo. Nota 4/5

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 3

Filmes vistos entre 9 e 15 de janeiro:


PLANETA DOS MACACOS: A ORIGEM (Rise of the Planet of the Apes, EUA, 2011, dir. Rupert Wyatt)
Depois de ver o filme nos cinemas e rever em casa, não mudo minha percepção: apesar dos defeitos na caracterização unilateral da maioria dos personagens humanos (Tom Felton é mau por ser mau, Freida Pinto é boazinha e sem sal, John Lithgow some quando o roteiro não precisa mais dele), as estrelas são os macacos e são eles que fazem esse reboot de Planeta dos Macacos funcionar. No ano fraco em blockbusters que foi 2011, este sem dúvida foi um dos melhores. E pra quem está esperando pela seqüência, é só ver Contágio, também de 2011: não tem macaco, mas o resto encaixa como uma luva. Nota 4/5


A COSTELA DE ADÃO (Adam's Rib, EUA, 1949, dir. George Cukor)
Divertida comédia de "guerra dos sexos", quando a luta pelos direitos iguais entre homens e mulheres ainda podia render um filme inteiro em Hollywood e soar atual. Spencer Tracy e Katharine Hepburn são casados e ambos advogados, atuando em lados opostos de um mesmo caso: ela representando uma mulher traída que tentou matar o marido, ele na promotoria, defendendo o cara. Longos planos sem cortes evidenciam o ótimo timing cômico dos dois, e as cenas no tribunal têm inventividades que não eram batidas nos anos 40, como a transformação das testemunhas em indivíduos do sexo oposto. Nota 4/5


O PANACA (The Jerk, EUA, 1979, dir. Carl Reiner)
Um dos primeiros filmes de destaque de Steve Martin, O Panaca está no livro 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer e na lista dos 500 melhores da revista Empire, que o descreve como "sério candidato a filme mais engraçado de todos os tempos". Que decepção. Não só Martin exagera além da conta como o idiota que acaba ficando rico, como os outros personagens parecem igualmente boçais, o que torna a suspensão da descrença quase impossível. A estrutura é episódica demais e as motivações por trás dos personagens são tão avulsas e inverossímeis que não dá pra achar graça. Muita coisa me lembrou Débi & Lóide, de 15 anos depois, que é infinitamente melhor (e não é minha memória afetiva falando: revi o filme há pouco mais de um ano e continua ótimo). Mas no filme com Jim Carrey, os protagonistas eram idiotas mas os coadjuvantes não; se havia um assassino em seu encalço, ele tinha um motivo mais plausível do que simplesmente escolher um nome a esmo na lista telefônica; se a mocinha se mostrava apaixonada por um cabeça-de-vento, era porque precisava fingir, não porque ela também era imbecil. Salvo em duas ou três gags rápidas, O Panaca falha em todas as suas tentativas de provocar risadas. Como é que pode ser tão cultuado? Nota 1/5


GATA EM TETO DE ZINCO QUENTE (Cat on a Hot Tin Roof, EUA, 1958, dir. Richard Brooks)
Adaptado de uma peça de Tennessee Williams (que declarou ter odiado o resultado nas telas), tem os então jovens Paul Newman e Elizabeth Taylor lavando roupa suja durante a maior parte do filme. O elenco é certeiro (incluindo os personagens odiáveis, como a cunhada de Newman) assim como as cenas, calcadas nos diálogos e fluindo quase em tempo real. Destaque ainda para o "Big Daddy" interpretado por Burl Ives, um sujeito cansado da hipocrisia da família e que não hesita em dar patada na esposa chata, no filho sanguessuga, na cunhada megera ou nos netinhos capetas. Nota 4/5


A MENINA QUE BRINCAVA COM FOGO (Flickan Som Lekte Med Elden, Suécia/Dinamarca/Alemanha, 2009, dir. Daniel Alfredson)
Li umas 100 páginas de Os Homens que Não Amavam as Mulheres antes de abandoná-lo de vez, aborrecido com o estilo excessivamente expositivo de Stieg Larsson. O filme sofre desse mesmo problema, mas funciona melhor, apresentando-nos à personagem intrigante que é Lisbeth Salander. Mas esta segunda parte da trilogia Millenium decepciona: mais diálogos expositivos, mais clichês ultrabatidos (alguém troca de canal e começam a mostrar uma notícia importante) e pouco desenvolvimento dos protagonistas Lisbeth e Blomkvist. Falta tensão – seja pegando fogo, levando tiro ou enterrado vivo, você sabe que aquele personagem vai sobreviver. As "revelações" soam bem forçadas e a trama apela até para um vilão jamesbondiano com cara de russo e que não sente dor. Vamos ver como Hollywood vai se sair nessa. Nota 2/5

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 2

Filmes assistidos entre 6 e 9 de janeiro:



AS LUZES DE UM VERÃO (Mùa hè chiều thẳng đứng/À La Verticale de L'été, Vietnã/França/Alemanha, 2000, dir. Trần Anh Hùng)
Comprei este e outros filmes vietnamitas quando fui a Hanói há quase um ano, e só agora parei de enrolar para assisti-los. As Luzes de Um Verão se concentra em uma família de três irmãs e um irmão. Uma descobre que está grávida mas desconfia que o marido é infiel. Outra é infiel e descobre que o marido tem outra família. A mais nova mora com o irmão e aparentemente está apaixonada por ele. Muita coisa fica sem desfecho, mas isso não é necessariamente um defeito e combina com a proposta do filme. Alguns diriam que é bem paradão, mas eu curti e por isso usarei "contemplativo". Nota 4/5



PASSE LIVRE (Hall Pass, EUA, 2011, dir. Bobby & Peter Farrelly)
Passe Livre não é um filme ruim, mas simplesmente não é engraçado como se esperaria dos irmãos Farrelly. Os primeiros 30 minutos são gastos para estabelecer uma premissa que o próprio pôster já escancara – Owen Wilson e Jason Sudeikis recebem das esposas uma semana de "passe livre" para fazer o que quiserem, "no questions asked". Mas salvo uma ou outra cena mais inspirada, a tal semana decepciona pela falta de ousadia e o excesso de correção política. Onde foram parar os Farrelly criativos e despudorados que fizeram Débi & Lóide, uma das melhores comédias dos anos 90? Nota 2/5



O EXTERMINADOR DO FUTURO: A SALVAÇÃO (Terminator Salvation, EUA/Alemanha/Reino Unido/Itália, 2009, dir. McG)
Se vai ser impossível para a série atingir o nível de O Exterminador do Futuro 2, o quarto episódio ao menos não faz feio na ação. Depois de três filmes adiando o inevitável, chegamos finalmente a um futuro pós-apocalíptico dominado pelas máquinas, e aqui não há Matrix mantendo os humanos felizões e alienados. O John Connor da vez é Christian Bale – interpretado por um ator diferente a cada filme, é difícil que o personagem mantenha uma caracterização consistente, mas o que é apresentado aqui não compromete. As homenagens aos filmes originais divertem, embora não acrescentam muito, e a trama envolvendo um Connor adulto e um Kyle Reese jovem transforma o roteiro numa curiosa mistura de prequel e continuação. Pelo menos escapamos de ver um robô sendo enviado ao passado pela quarta vez pra fracassar em suas tentativas de exterminar a família Connor. Nota 3/5



MISSÃO MADRINHA DE CASAMENTO (Bridesmaids, EUA, 2011, dir. Paul Feig)
O último filme sobre madrinhas de casamento que assisti foi a porcaria Vestida Para Casar, e nunca em sã consciência assistiria a um chamado Missão Madrinha de Casamento não fosse tanto falatório da crítica. E não é que o filme é bom mesmo? A primeira produção de Judd Apatow a fugir dos "bromances" e focar em protagonistas femininas faz a conversão de forma inspirada, mostrando que a versão de saias da camaradagem entre amigos não é o companheirismo entre amigas, mas a inveja e o ciúme. As melhores cenas são aquelas de constrangimento, como o duelo de microfones, a seqüência no avião e o chilique na festa com tema parisiense. Nota 4/5



NA MIRA DO CHEFE (In Bruges, Reino Unido/EUA, 2008, dir. Martin McDonagh)
Pô, que surpresa agradável. Um filme despretensioso, mistura de thriller e comédia, valorizando muito mais os personagens do que a ação, cheio de diálogos genuinamente engraçados e sem medo de serem politicamente incorretos. A dupla de assassinos (Brendan Gleeson e Colin Farrell, finalmente aparecendo com seu sotaque irlandês natal) tem alma, o roteiro (original) encaixa as pontas soltas sem soar forçado e Ralph Fiennes, mesmo aparecendo pouco, convence perfeitamente como um chefão do crime que não abandona seus princípios. E olha que foi o filme de estréia do diretor. Excelente começo. Nota 5/5

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 1

Depois de bater meu recorde pessoal e assistir a 265 filmes em 2011, decidi que vou escrever pelo menos um parágrafo raso sobre cada filme visto em 2012. Na falta de lugar melhor pra publicar (no Cinema de Buteco só posto textos completos), tiro a poeira do Biselho. A cada cinco filmes, colocarei aqui um pacotão de comentários.

Os primeiros cinco filmes que eu vi em 2012:


LIGEIRAMENTE GRÁVIDOS (Knocked Up, EUA, 2007, dir. Judd Apatow)
Uma espécie de primo do Superbad, compartilhando o mesmo produtor (que aqui também dirige), vários dos mesmos atores e os mesmos diálogos espertos. A diferença é que enquanto Superbad tratava de questões adolescentes (comprar bebidas, perder a virgindade), Ligeiramente Grávidos tem um tema mais "gente grande", a gravidez. Seth Rogen e Katherine Heigl formam um casal improvável, que ganha credibilidade pela boa química entre eles. Apesar da duração um pouco excessiva (mais de 2h) e da presença constante da personagem da irmã da protagonista (Leslie Mann), que é uma chata de galochas sem ser engraçada, é uma comédia bem simpática e uma boa pedida pra começar meu 2012. Nota 4/5


SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE (Sex, Lies, and Videotape, EUA, 1989, dir. Steven Soderbergh)
Primeiro filme do versátil Steven Soderbergh, que escreveu o roteiro em 8 dias e tinha 26 anos na época (e eu aqui a 1 dia de completar 27...). O elenco é enxuto e bem escolhido: Peter Gallagher como o marido canalha, Andie MacDowell como a esposa recatada, Laura San Giacomo como a cunhada safada e James Spader como o sujeito meio andrógino que filma entrevistas com mulheres falando sobre sexo. A direção e o texto privilegiam as atuações e, exceto por um ou outro momento mais lento, sempre funcionam. A única sensação estranha é a de não conseguir me envolver muito com nenhum personagem, como se fosse Spader assistindo atento a uma de suas fitas, voyeuristicamente, mas sem participar. Nota 4/5


PAGE ONE: INSIDE THE NEW YORK TIMES (EUA, 2011, dir. Andrew Rossi)
A equipe do documentário passou um ano na redação do New York Times, registrando bastidores e entrevistando figuras proeminentes do jornal. A linha geral é o conflito entre a velha mídia e a era da internet, coisa que já dura pelo menos uma década e não oferece uma perspectiva lá muito boa para a mídia impressa. Há várias cenas interessantes do dia-a-dia do jornal, como a que mostra a decisão de se publicar ou não uma história não confirmada sobre o fim da guerra do Iraque, além de reuniões de pauta e entrevistas com repórteres no meio de um artigo ou de um telefonema com possíveis fontes. Mas a estrutura do documentário é confusa, saltando de um tema a outro sem muita ligação – de WikiLeaks e Twitter a assuntos que não são familiares para não-americanos. E as opiniões/previsões sobre o futuro do jornalismo tradicional, que permeiam o filme todo, soam às vezes como conversa de boteco – mesmo quando sagazes e divertidas, ou talvez justamente por isso – porque ninguém tem certeza completa do que está falando, e não têm mesmo como ter. O filme tenta terminar com um tom otimista, mas logo em seguida põe um letreiro dizendo que "leitores e editores ainda estão debatendo sobre como o jornalismo pode se sustentar". A impressão é de que, sem poder oferecer respostas às questões que propõe, Page One será um documentário datado em pouquíssimo tempo. Nota 3/5


PLATOON (EUA/Reino Unido, 1986, dir. Oliver Stone)
No mesmo ano em que viveu um de seus primeiros papéis no cinema como o drogadito que pega a irmã de Ferris Bueller em Curtindo a Vida Adoidado, Charlie Sheen estrelou este filme baseado nas experiências do diretor Oliver Stone na Guerra do Vietnã. Outros rostos famosos também integram o elenco em suas versões 25 anos mais novas – Willem Dafoe, Forest Whitaker, Johnny Depp. Sheen é um jovem que se voluntaria para a guerra e percebe já nos primeiros dias a cagada que fez. O clima de camaradagem do início do filme, quando os soldados jogam, cantam e fumam maconha juntos, logo dá lugar a abusos e conflitos internos. O embate entre Willem Dafoe e um cicatrizado Tom Berenger polariza os membros do pelotão e têm conseqüências imprevisíveis. Gosto principalmente da falta de um heroísmo explícito, tão batido nesse tipo de produção, e da sensação de desnorteio passada pela maioria dos jovens soldados – ninguém ali é herói de filme de ação e tampouco finge ser. Nota 4/5


RED – APOSENTADOS E PERIGOSOS (RED, EUA, 2010, dir. Robert Schwentke)
Apesar das similaridades com a série Bourne – perseguição a ex-agentes da CIA, uma mulher inocente que acaba envolvida –, RED pende muito mais pro lado da comédia do que para um thriller realista. O grupo de "velhinhos" tem um elenco de peso encabeçado por Bruce Willis e que também inclui Morgan Freeman, um John Malkovich mais malucão do que precisava e uma Helen Mirren que não convence muito como assassina profissional. Se as cenas mais "sérias" parecem recicladas de dezenas de outros filmes do gênero, as cômicas e absurdas – como Willis descendo de um carro em movimento (não é pulando: é descendo!) – fazem jus ao status de "adaptação de HQ" e são as que mais entretêm. Nota 3/5

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Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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