sábado, 1 de setembro de 2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 30

Chegando aos 150 filmes...


JOGOS VORAZES (The Hunger Games, EUA, 2012, dir. Gary Ross)
Jogos Vorazes veste uma roupagem de distopia futurista disposta a discutir questões políticas, mas na verdade é uma aventura estilo "A Jornada do Herói" bem comum e cheia de problemas. Pra começar, a própria idéia dos jogos não faz muito sentido: nem as regras, nem o propósito, muito menos a reação da opinião pública ou a desculpa furadíssima que usam para realizá-los há 74 anos. Até o Mortal Kombat e os Jogos Mortais eram mais convincentes. A estética steampunk é bacana, mesclando designs tecnológicos com roupas ultracoloridas e quase vitorianas. Jennifer Lawrence entrega um trabalho competente, mas o mesmo não se pode dizer de Josh Hutcherson, seu insosso parzinho romântico. Os outros competidores são apresentados de maneira bem rasa e ficam basicamente divididos entre os malvados e os coitadinhos, nunca indo além do arquétipo. A morte de uma das personagens, previsível pela própria lógica do filme, tem um impacto emocional muito pequeno e não há chororô e musiquinha melosa que salvem. Pior é ver o distrito se revoltando só quando a menina morre, e não quando ela e outras tantas crianças foram forçadas a participar de um comblate de gladiadores. Completam o pacote um amontado de situações-clichê, como o vilão que fica enrolando pra matar a vítima só pra dar tempo de um terceiro personagem vir evitar, e a montagem feita para espectadores com déficit de atenção, cheia de cortes em excesso e muitos sem continuidade alguma. Nota 2/5


O SEGREDO DA CABANA (The Cabin in the Woods, EUA, 2011, dir. Drew Goddard)
Há vários filmes convivendo dentro de The Cabin in the Woods, cada um de um gênero diferente, cada um provocando em mim um sentimento conflitante em relação aos outros. O primeiro é um terror bacaninha mas absolutamente convencional (e propositalmente, é preciso deixar claro). O segundo, bem mais interessante, se passa em um ambiente corporativo e é uma grande piada metalinguística, brincando com os clichês dos filmes de horror de forma original e intrigante. O problema é que esse "segundo filme" levanta muitas questões que acabam resolvidas por um "terceiro", que começa parecendo ficção científica (lembrando Cubo e trazendo a ponta de uma célebre estrela do sci-fi) e se revela uma fantasia, um deux ex machina surpreendentemente literal. Talvez o problema seja meu, tentando encontrar explicações racionais demais, mas pra mim o desfecho se mostrou insatisfatório e frustrante, prejudicando o resto do filme em retrospecto. Nota 3/5


ANJOS DA LEI (21 Jump Street, EUA, 2012, dir. Phil Lord & Chris Miller)
Comédia de ação bem simpática baseada em uma antiga série de TV protagonizada pelo jovem Johnny Depp, Anjos da Lei coloca Jonah Hill (na pele, quem diria, de um policial) voltando à escola para participar de uma operação à paisana. É boa sua química com Channing Tatum, um personagem que tinha tudo pra ser antipático – a dupla tem carisma e até clichês envolvendo a infame "prom night" descem redondo. O humor é consistente e investe em piadas recorrentes sobre os efeitos de uma certa droga e o conflito entre expectativa/realidade de jovens policiais que cresceram vendo filmes do gênero (os carros batem e não explodem, por exemplo). Boa surpresa. Nota 4/5


O BEBÊ DE ROSEMARY (Rosemary's Baby, EUA, 1968, dir. Roman Polanski)
O filme já abre com uma cantiga de ninar com ares tétricos, prenunciando o clima tenso que acompanhará a protagonista em sua sinistra gravidez. Mia Farrow faz um ótimo trabalho em um de seus primeiros papéis, enquanto John Cassavettes inspira confiança, o que é fundamental para seu personagem. O Bebê de Rosemary não é um horror que choca, não há nada explícito, o máximo nesse sentido são algumas sequências de pesadelo. O próprio bebê-título só é descrito verbalmente, nunca mostrado. E por isso mesmo o filme funciona tanto: é um suspense construído com calma e cuidado, envolvendo o espectador na paranóia da coitada da Rosemary. Ela pode parecer maluca para os outros personagens, mas estamos sempre do seu lado, compartilhando de suas suspeitas. Nota 5/5


BONNIE E CLYDE - UMA RAJADA DE BALAS (Bonnie and Clyde, EUA, 1967, dir. Arthur Penn)
A violência de Bonnie e Clyde pode ter chocado na época, mas o público de hoje é capaz de estranhar mais os jump cuts pós-Nouvelle Vague. Tirando isso, o filme não envelheceu nada e continua supreendendo por muitas escolhas ousadas, como a “paixão sem tesão” entre o casal de protagonistas. Bonnie e Clyde são gângsters “gente boa” e encaram a vida de fora-da-lei como uma grande diversão, papeando com as vítimas, mandando poemas para os jornais. É só quando o cerco aperta que a realidade desmorona sobre eles, culminando nas cenas mais violentas do filme e em um final seco, sem espaço para esperanças ou recomeços. Nota 5/5

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 29


BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE (The Dark Knight Rises, EUA/Reino Unido, 2012, dir. Christopher Nolan)
É um filme de super-herói tão atípico que nem dá pra inclui-lo nesse, digamos, subgênero. O próprio Batman faz poucas aparições antes do final épico. A paleta de cores segue o clima soturno: é tudo preto, cinza, pardo, sem deixar espaço para cores mais vivas como o verde do cabelo do Coringa. Dá pra contar nos dedos os momentos de humor – uma piadinha de Lucius Fox aqui, outra do Batman com a Mulher-Gato acolá. Definitivamente não é um filme que você vai pra se divertir, mergulhar num mundo de fantasia e esquecer da vida por algumas horas. É pesado, sombrio, pra baixo, que vai deixar poucas crianças com vontade de ser o Batman. Isso está longe de ser um problema, é só uma característica. Ressurge continua sendo um filme muito bom e consistente e um final extremamente digno para a trilogia. Nota 4/5
(Resenha completa no Cinema de Buteco)


BATMAN ETERNAMENTE (Batman Forever, EUA, 1995, dir. Joel Schumacher)
Bastam dois minutos de falsa seriedade para que o primeiro diálogo (Alfred: "Não quer levar um sanduíche, senhor?" Batman: "Eu passo num drive-thru") mostre que o tom será bem diferente dos filmes de Tim Burton. As tentativas de humor estão por toda parte e quase sempre falham vergonhosamente. Schumacher abusa das cores, dos ângulos tortos (sempre que há uma ameaça ou vilão, à la série dos anos 60) e da boa vontade do espectador. Em sua primeira aparição, Batman não está nas sombras, escondido da população – está no meio da rua, sendo apresentado a uma Nicole Kidman que passa o filme inteiro migrando suas paixonites de um lado pro outro como se estivesse em Malhação: "Eu gosto do Bruce!" "Agora gosto do Batman!". Se a escalação do Robin como um marmanjão é bem duvidosa (Val Kilmer tinha 35 anos, Chris O'Donnell tinha 25! Precisava mesmo ir morar na Mansão Wayne?), ainda piores são as desculpas para ele encontrar a Batcaverna e se tornar um super-herói (descuidado e desobediente, Alfred deve ser o pior mordomo do mundo). O subtexto gay não atinge apenas a dupla dinâmica, mas a bandidagem também: Charada e Duas-Caras parecem um casal, um cheio de trejeitos, outro com metade do rosto cor-de-rosa e soltando risadinhas calcadas em Cesar Romero, os dois abraçadinhos planejando o próximo crime. Das poucas coisas que se salvam, o novo tema musical de Elliot Goldenthal é até bacana. Mas o de Danny Elfman ainda era melhor. Nota 2/5


OS BONS COMPANHEIROS (Goodfellas, EUA, 1990, dir. Martin Scorsese)
"De Niro, Pesci, rock dos bons e comida italiana: este é o Scorsese mais scorsesiano", escrevi no Twitter há mais de um ano. É óbvio que o diretor passeia brilhantemente por outros universos (do boxe a Jesus Cristo), mas o crime organizado nas telonas é um território que ele domina, e Goodfellas, que apresenta o submundo da máfia de forma estilizada e quase didática, cheia de cenas marcantes ("Funny how?") e pequenas histórias ligadas pelo tema central, é o filme do tio Marty mais representativo desse seu subgênero particular. Nota 5/5


O DITADOR (The Dictator, EUA, 2012, dir. Larry Charles)
Depois de Brüno não convencer como mockumentary da forma como Borat fez com primor, Sacha Baron Cohen e Larry Charles migram para uma comédia de estética "normal", sem pretensões de enganar ninguém (mesmo que a abertura seja bem similar à de Borat). Assim, O Ditador acaba virando um filme mais comum, com atores conhecidos (John C. Reilly, Ben Kingsley) representando papéis que não são versões de si mesmos (embora bom mesmo seja ver as pontas nada gloriosas de Megan Fox e Edward Norton). Cohen entrega uma performance impecável como sempre: é o único comediante de verdade no filme e todas as piadas que funcionam são suas. As mais hilariantes são justamente aqueles que têm uma triste conexão com a realidade ("Where is the trash can?") e com a política – não sobra pra ninguém, de déspostas e terroristas a democratas e vegans. Já as situações que não têm nada a ver com o tema (como a masturbação) não provocam tanta graça, assim como quase sempre falham as tentativas de humor dos personagens coadjuvantes. Cohen se sai bem melhor quando é a única figura bizarra e fora de lugar, compartilhando a piada somente com o espectador. Nota 3/5


A ERA DO RÁDIO (Radio Days, EUA, 1987, dir. Woody Allen)
Uma coleção de pequenas anedotas compiladas por Woody Allen com base em suas próprias memórias, A Era do Rádio pode não ser estritamente autobiográfico no sentido de aquelas histórias terem ocorrido de verdade, mas evocam com carinho e nostalgia o espírito de uma época que já se foi. Woody narra o filme mas se coloca na história não em sua própria pele, mas na de um garoto (Seth Green, ainda moleque). As anedotas têm o rádio como pano de fundo, usando uma seleção certeira de músicas (tem até Carmen Miranda e "Tico-Tico no Fubá"!) e fatos reais, como a famosa transmissão de A Guerra dos Mundos por Orson Welles. Os personagens provocam tanta empatia que rapidamente nos familiarizamos com eles; é como se morássemos naquela casa onde todos passam o dia metendo o bedelho na vida do outro e cutucando o próximo com tiradas mordazes, mas nunca ofensivas. A gente sabe quando um filme é bom quando só se passaram 20 minutos e já não queremos que acabe. Nota 5/5

Quem

Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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