segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 33


ERASERHEAD (EUA, 1977, dir. David Lynch)
Filme de estréia de David Lynch, já é um perfeito representante do que se convencionou chamar de “lynchiano”. Há sim uma narrativa básica, envolvendo o protagonista de cabelo maluco, um bebê-dinossaurinho e o medo da paternidade, mas a história é contada de maneira bem livre e nunca sabemos o que é alucinação e o que é “verdade”. É um filme de estilo único, cheio de cenas nojentas, sons perturbadores, poucos diálogos e momentos surreais (as mini-galinhas são minhas favoritas). Eu gostei bastante, mas não me peça pra explicar. Acho que curtirei ainda mais quando assistir uma segunda vez. Nota 4/5


O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN (Brokeback Mountain, EUA/Canadá, 2005, dir. Ang Lee)
Várias escolhas me surpreenderam em Brokeback Mountain, e todas positivamente. O momento em que o relacionamento entre Ledger e Gyllenhaal começa foi uma delas – surge quase sem aviso, mesmo que todos já saibamos de antemão o que vai acontecer. Outra foi o longo período que escolheram para contar a história: são duas décadas, tornando o difícil romance entre os dois protagonistas não apenas um episódio com final aberto, mas uma história longa com início, meio e fim. Calhou de ser um filme sobre “cowboys gays”, mas poderia ser sobre qualquer relacionamento difícil. Nota 5/5


O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA (The Texas Chain Saw Massacre, EUA, 1974, dir. Tobe Hooper)
Tem um início intrigante quando um grupo de jovens dá carona para um sujeito bizarro, mas o “grosso” do filme – os ataques de Leatherface com a ferramenta-título – já foi tão repetido nas décadas seguintes que não soa tão interessante hoje em dia. A última meia hora, que envolve uma família definitivamente disfuncional, impressiona mais e melhora substancialmente o conjunto final. Nota 3/5


MEGA SHARK VS CROCOSAURUS (EUA, 2010, dir. Christopher Ray)
Peca principalmente não por ser um filminho safado claramente feito em poucas semanas, mas por carecer de mais humor. O mais divertido é mesmo observar a tosquice dos efeitos especiais – a barbatana gigante recortada que sequer faz ondas nas águas ao seu redor (seria mais barato e convincente filmar numa piscina com uma barbatana de plástico), as explosões feitas com plug-ins do After Effects, a sensação nula de profundidade, o tubarão mais tosco que aquele holograma em De Volta Para o Futuro II, os ovos gigantes que parecem batatas, as pegadas do crocodilo feitas digitalmente, as cenas de pessoas correndo na rua que eles repetem invertidas para parecer que são outras, as cenas debaixo d'água que parecem os infográficos animados mostrados por Bill Paxton em Titanic... a lista é imensa. De resto, é um caça-níqueis propositalmente ruim cujo personagem mais marcante é um Indiana Jones genérico, as cenas de ação são tão escuras e malfeitas que você não entende o que está acontecendo e até o slogan do pôster (“Whoever wins, we lose”) é plagiado – de Aliens vs Predador! Nota 1/5


JUVENTUDE TRANSVIADA (Rebel Without a Cause, EUA, 1955, dir. Nicholas Ray)
O personagem de James Dean é um rebelde “sem causa” exatamente como na música do Ultraje a Rigor: seus pais estão sempre do seu lado, seja quando está bêbado na delegacia, seja quando acabou de participar de um pega fatal. Os conflitos com os pais permissivos e a chegada de Dean na escola, como um novato outsider, funcionam melhor que o romance entre ele e Natalie Wood (que acontece muito rápido após uma tragédia) e que a mudança de foco no final, que muda de Jim para o psicopatinha Plato. Nota 4/5

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 32

Filmes vistos de 8 a 15 de setembro:


OS MERCENÁRIOS 2 (The Expendables 2, EUA, 2012, dir. Simon West)
A nova reunião de bad-asses da terceira idade corrige muitos dos problemas de Os Mercenários e com isso se torna um filme bem mais divertido, ainda que essencialmente tosco. Entre os acertos estão a inclusão de Van Damme como o vilão Villain (distribuindo pontapés, sua especialidade, ao lutar contra Stallone, este como sua notória preferência por socos), a participação de Chuck Norris fazendo piada com os Chuck Norris Facts e o trio Stallone-Schwarzenegger-Bruce Willis finalmente contracenando de verdade, após o fiasco do chroma-key no primeiro filme (rola até um intercâmbio de bordões, como “I'll be back” e “Yippie-ki-ay”). Os clichezões continuam – a cena da morte do Mercenário mais jovem é um grande exemplo – mas pelo menos as piadas funcionam mais (“Rest in pieces!”). Será que no próximo finalmente teremos o Steven Seagal? Nota 3/5


PROMETHEUS (EUA/Reino Unido, 2012, dir. Ridley Scott)
É e não é um prelúdio de Alien. O universo da história é o mesmo e as tramas estão intimamente ligadas, mas o estilo do filme está muito mais Star Trek e sua filosofia de “descobrir novas vidas, novas civilizações”. O andróide David (Michael Fassbender), aliás, é o personagem mais interessante e lembra bastante o Data de A Nova Geração. Muitos reclamaram que as grandes questões da Vida, o Universo e Tudo Mais não são respondidas, mas não me importo em ter que esperar um Prometheus 2 pra ver como isso vai se resolver. Outros problemas do roteiro – os cientistas que logo tiram o capacete em um planeta estranho, a tripulação que embarcou sem saber a natureza da missão – são mais difíceis de justificar. O 3D – aleluia! – é bem utilizado, da belíssima cena inicial aos apetrechos tecnológicos (hologramas, os “pops” procurando vida) que nos passam exatamente a sensação de utilizá-los. Prometheus tinha potencial para ser bem mais ousado, mas a aura de deslumbramento e a atmosfera de tensão já me deixaram satisfeito. Nota 4/5


THE CUTTING EDGE - THE MAGIC OF MOVIE EDITING (EUA/Japão/Reino Unido, 2004, dir. Wendy Apple)
Um documentário sobre a montagem cinematográfica que é uma boa aula sobre o assunto. Os entrevistados vão desde diretores renomados – Scorsese, James Cameron, Tarantino, Spielberg (que explica a diferença que 36 e 38 frames podem fazer) – até seus respectivos montadores, como Sally Menke, Thelma Schoonmaker e Michael Kahn, além de várias cenas com Walter Munch editando Cold Mountain em pé (!). The Cutting Edge analisa a montagem de filmes de ação, de suspense, os jump cuts de Acossado, as transições inovadoras de Easy Rider, a tendência atual de se editar rápido demais e como a montagem pode melhorar a performance dos atores. Recomendado pra qualquer um com um mínimo interesse na arte de se fazer cinema. Nota 4/5


DESYAT NEGRITYAT (União Soviética, 1987, dir. Stanislav Govorukhin)
O Caso dos Dez Negrinhos é meu livro preferido da Agatha Christie e já foi adaptado várias vezes para o cinema. Eu já tinha visto a versão americana de 1989 e achado uma porcaria, com sua ambientação em um safári na África e sua infeliz escolha por um final feliz. Foi uma surpresa encontrar recentemente uma versão absolutamente fiel ao livro, dos nomes dos personagens ao destino trágico de cada um deles, e feita na mesma época. Detalhe: é um filme soviético, falado em russo. O elenco é bem escolhido, a direção de arte reflete muito bem a época e muitas das cenas são iguaizinhas ao que eu imaginava. Se falta tensão, talvez seja devido ao próprio estilo de Christie, mais “quebra-cabeça” do que suspense. Nota 4/5


PACTO DE SANGUE (Double Indemnity, EUA, 1944, dir. Billy Wilder)
O personagem de Fred MacMurray narra toda a história logo no começo – como ele ajudou uma mulher a matar o marido para conseguir o dinheiro do seguro, e como perdeu a mulher e perdeu o dinheiro – mas continuamos querendo saber como tudo aconteceu. Billy Wilder não nos decepciona: os personagens são dúbios e ainda assim cativantes, os diálogos são sempre ótimos e os desdobramentos da trama mantêm nossa atenção até a icônica fala final, sempre marcante nos filmes de Wilder (“Nobody's perfect”, “Shut up and deal”, “All right, Mr. DeMile, I'm ready for my close-up”). Aqui, ele consegue fazer milagre com a batida “I love you too”. Nota 5/5

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 31

Estou atrasadaço com meus comentários filmísticos (não que alguém leia, mas foi uma promessa de ano-novo...). Cá estão os filmes vistos entre 1 e 6 de setembro:


BAMBI (EUA, 1942, dir. David Hand)
Muitas características de Bambi seriam recicladas meio século depois em O Rei Leão: o nascimento de um “príncipe”, os animais da floresta se reunindo pra ver, a trágica morte da mãe (ou pai, no caso de Simba), o amadurecimento do personagem-título. As cenas são bem dirigidas e a fotografia traz cores e sombras que contrapõem com eficácia as diversas estações do ano/fases da vida. Bambi tem menos humor do que Branca de Neve, Pinóquio ou Dumbo, e sua primeira metade é bem mais infantil: só quando os personagens estão crescidos é que se brinca mais com gags visuais. O filme é curto, mas os conflitos são pontuais – a ameaça do Homem, o confronto com outro veado (opa), o incêndio na floresta –, fazendo com que o roteiro não seja tão bem amarrado. Mas embora hoje seja pouco visto e seu nome mais usado pra fazer piada, Bambi vale uma redescoberta. Nota 4/5




A MARCA DA MALDADE (Touch of Evil, EUA, 1958, dir. Orson Welles)
Mais um filme de Orson Welles que sofreu nas mãos dos estúdios, com trocentas remontagens e alterações, A Marca da Maldade foi finalmente montado nos anos 90 como seu diretor queria. Talvez seja um dos últimos noirs da “era clássica”, trazendo Charlton Heston como um investigador mexicano (!) metido em uma conspiração e Welles, gordaço, como o antagonista. A célebre cena inicial, um plano-seqüência primoroso, dá início ao plot intrincado envolvendo o assassinato de um figurão. Mas a trama principal é mesmo o confronto que se desenrola entre Heston e Welles, ambos policiais, que culmina em um final bastante irônico para o personagem de Welles. Nota 5/5


A EXPERIÊNCIA (Das Experiment, Alemanha, 2001, dir. Oliver Hirschbiegel)
Das Experiment foi baseado em um experimento psicológico real que tinha tudo pra dar errado, e deu: homens comuns são divididos em dois grupos, guardas e prisioneiros, e precisam agir como se esses papéis fossem de verdade. Já prevemos desde o início que os participantes vão começar a levar aquilo tudo a sério demais, mas ainda é interessante acompanhar o desenvolvimento da trama e das questões que ela propõe: por exemplo, o sadismo é inerente ao homem? Quando o filme peca, é principalmente no roteiro, ao optar pelo maniqueísmo de prisioneiros-mocinhos versus guardas-bandidos, ausentar o professor-chefe em um período crítico do experimento apenas para servir à história e investir na subtrama da namorada do protagonista, que é dispensável e faz o filme perder o ritmo sempre que foca nela. Nota 4/5


O DISCRETO CHARME DA BURGUESIA (Le Charme Discret de la Bourgeoisie, França/Itália/Espanha, 1972, dir. Luis Buñuel)
Mais uma excelente história surrealista de Buñuel. Se em O Anjo Exterminador os burgueses jantavam e não conseguiam ir embora, aqui eles vêm e vão à vontade, mas não conseguem iniciar a refeição, interrompidos a cada hora por um incidente mais absurdo: o restaurante está realizando um velório; os anfitriões fugiram pra trepar no jardim; a sala de jantar se revela o palco de um teatro. É mais uma coleção de minicausos do que uma narrativa coesa, e Buñuel se esbalda com flashbacks e sonhos dentro de sonhos dentro de sonhos, décadas antes de Inception. Os personagens insólitos (o bispo que faz bico como jardineiro, os diplomatas que também são traficantes) completam o retrato irônico que o diretor adora fazer desse mundinho burguês. Nota 5/5


UM BALDE DE SANGUE (A Bucket of Blood, EUA, 1959, dir. Roger Corman)
Roger Corman teve apenas cinco dias e 50 mil dólares pra fazer este filme, mas saiu com uma pequena pérola do humor negro. Dick Miller é um garçom aspirante a artista (“Seja um nariz!”, ele diz a um monte de argila, incapaz de dar forma ao troço) que ganha sua grande chance a partir de um incidente bizarro envolvendo um gato preso na parede (!). Embora o desdobramento da história seja meio previsível desde o início, a sátira ao mundo das artes e o humor negro que atravessa o filme, do balde-título à cena final, valem desenterrar Um Balde de Sangue. Nota 4/5

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Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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