sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Sabaidee, Luang Prabang!


Uma viagem de ônibus de Vientiane a Luang Prabang , centro-norte do Laos, leva 11 horas de estradas tortuosas e esburacadas – já vi a pavimentação descrita como uma "paisagem lunar". Navegando pelas águas barrentas do rio Mekong, leva-se 8 horas em um barco ligeiro e três dias inteiros numa embacação menos apressada. Já um vôo da Lao Airlines que dura apenas meia hora, em um avião novinho que tem até entrada USB nas poltronas para você recarregar seu celular. Não é a opção mais barata ou a que permite a melhor visão dos belos cenários silvestres do Laos, mas com certeza é a mais prática e segura. 

Se o aeroporto de Vientiane mais parece uma rodoviária do interior, o de Luang Prabang te lembra de cara que você pousou em um destino turístico, cheio de cartazes anunciando trilhas, viagens de barco, passeios de elefante. A cidadezinha de 50 mil pessoas já foi capital do Laos em mais de uma ocasião, sendo a última até 1975, quando os comunistas arrancaram o rei do trono e mudaram a capital para Vientiane. Enquanto a importância política diminuiu, o apelo da cidade só cresceu: Luang Prabang é hoje patrimônio mundial da Unesco e um dos lugares mais visitados no Laos. Sabaidee Luang Prabang, primeiro longa-metragem produzido no país (em 2008!), faz a cidade de cenário e título. Há vôos que a ligam a Bancoc, Hanói e outros destinos internacionais, dispensando o uso de Vientiane como conexão: na verdade, quem está sem tempo para peregrinar pelo Laos pode ir direto pra Luang Prabang e não vai se arrepender. 

Ensanduichada entre dois rios, o Mekong e o Nam Khan, a cidade tem aquele clima meio praiano, onde ninguém parece ter muita pressa, água de coco e peixe são fáceis de achar e o sol rachando é mais que adequado para uma cervejinha à beira d'água. É algo assim como uma Paraty sem ruas de pedra, casarões coloniais ou mar – mas tão charmosa quanto. 

   
Placa da nossa pousada: achei que o nome fosse "That's a phone", dado por entusiastas da invenção de Graham Bell, mas é "Thatsaphone" mesmo, o sobrenome do dono do lugar 

O budismo é muito forte no Laos e mais ainda em Luang Prabang. Um dos programas favoritos dos turistas, aliás, é testemunhar a tak bat , cerimônia matutina de doação de alimentos aos monges. Eles ficam nas ruas ao nascer do sol, coletando arroz, frutas e outros alimentos de moradores locais e visitantes. É uma tradição antiquíssima que, pra variar, anda sofrendo com o excesso de turismo. O cardápio de um restaurante onde jantamos (Lao Lao Garden, excelente) trazia até uns conselhos sobre o assunto, começando com: " não trate os monges como se fossem macacos no zoológico ". Porque é isso que muitos fazem: chegam para o ritual matinal, dão ali umas contribuições compradas na hora de um camelô e ficam tirando fotos na cara dos monges. " NÃO compre nada dos vendedores de rua ", dizia o cardápio. " Logo haverá mais pessoas do Laos vendendo arroz grudento pros turistas do que doando elas mesmas para os monges. " O artigo sobre Luang Prabang no Wikitravel diz ainda que muitos ambulantes vendem comidas velhas e estragadas para a turistada, deixando muitos monges doentes e pouco dispostos a continuar a tradição. Pior: o governo do Laos mandou avisar que, se os monges não quiserem participar mais do teatrinho, serão substituídos por gente comum vestida com os típicos roupões de cor laranja. Seria uma lástima para o budismo e para a tradição, mas bem que alguns turistas mereciam. 

 
Acordar às seis da manhã pra presenciar comportamento escroto de turista é brabo. 
(Foto do Wikitravel, porque a essa hora eu tava dormindo) 

Muitos dos inúmeros templos espalhados por Luang Prabang, por outro lado, estão abertos ao público e agradecem sua visita. As regras de respeito continuam, claro: não entre de bermuda ou camiseta, tire os sapatos antes de pisar nas áreas internas e, pelo amor de Buda, não fique falando aos berros um com o outro como certos grupos de turistas adoram fazer (cof cof chineses cof cof). Um dos templos mais legais fica no monte Phu Si, onde, ao final de 100 metros de subida, você é recompensado com uma bela vista da cidade. Há várias estátuas e pequenos adornos no caminho, Budas gordos e magros, deitadões, espichados, meditando. A atração mais curiosa não é uma estátua, mas uma casinha marcada com a placa "pegada de Buda". Tá mais para um Budasaurus rex, porque o pezão gravado na pedra mede pelo menos 1 metro de comprimento. 


Compare meu pé com os dedões no canto inferior direito. Buda gue bariu! 

 
Ofidiofóbicos, tremei: olha quem encontramos ao passear no Phu Si. 

 
 
Sem sapato e com blusa, faça-me o favor! 

 

 

 
 
Essa aí tá mais pro Buda de domingo. 

Várias outras atrações merecem uma visita em Luang Prabang. O Wat Xieng Thong ("Templo da Cidade Dourada") remonta ao século 16, quando o Brasil ainda era neném. É o mosteiro mais antigo da cidade, continua sendo usado normalmente por jovens e velhos monges – como todos os outros no Laos – e é cheio de detalhes interessantes, como as paredes com figuras de vidro representando a vida cotidiana nos tempos de outrora. 

 

 

 

 

O Haw Kham é o antigo palácio real, hoje museu nacional. Mais recente – tem "apenas" cento e poucos anos –, foi o lar do rei Sisavang Vong (1885-1959) e sua família: podemos ver seus aposentos, objetos pessoais e uma suntuosa coleção de carros, com fotos de todos os sorridentes motoristas que levaram o rei para passear por aí. É também o local onde guardam a Prabang, uma imagem de Buda de 83 centímetros feita no Sri Lanka em algum momento entre os séculos I e IX (é, faz tempo). Todo ano, no terceiro dia do ano-novo lao, a Prabang é levada em procissão pela cidade até o Wat Mai, o maior templo da cidade. Há rumores – que só descobri depois, pesquisando na internet – de que a Prabang exposta no museu é uma cópia, e que a original está trancada em um cofre em Vientiane por questões de segurança; outros sugerem que a imagem verdadeira foi presenteada aos soviéticos nos anos 1970 em troca de ajuda durante a Guerra Fria. Vai saber. 

Já o Centro de Artes Tradicionais e Etnologia é um museu pequeno, mas bem interessante pra quem quer conhecer um pouco mais da cultura do Laos. Seu foco são as várias etnias que habitam o país e como elas diferem entre si: estimativas apontam 160 grupos étnicos no Laos, falando um total de 82 idiomas. Uma sala exibe roupas usadas em cerimônias tradicionais, cheias de cores e tecidos. Outra mostra objetos rurais de uso cotidiano, como uma armadilha para ratos. A exibição mais interessante relata causos de casamentos, que deram certo ou não. Há o relato de uma mulher: " Como eu ficava dizendo não, ele achou que precisava me roubar. Disse que ia me levar de moto até a casa da minha mãe, mas quando passamos pelo campo e ele continuou seguindo em direção à vila Khua Thee Neung, eu sabia o que ele tinha planejado. Joguei um sapato na estrada e mandei ele parar para que eu pudesse pegar. Aí desci da moto e disse: tchau tchau! ". Outra conta o primeiro encontro com seu futuro marido: " Eu não sabia o que dizer pra ele, e era muito tímida. Então ficamos só olhando um pra cara do outro. Além disso, meus pais eram muito protetores. Não tínhamos a chance de conversar um com o outro como as pessoas fazem hoje... Nos primeiros três meses de casamento, sequer comíamos juntos, porque eu era tão tímida ". 

Para levar uns souvenirs pra casa, o ideal é dar uma passada no mercado noturno que ocupa vários quarteirões da rua principal ao entardecer. Nada de eletrônicos, produtos falsificados de marcas famosas ou artefatos modernos: o lance aqui é só produto artesanal, das obrigatórias camisetas estilo fui-ao-Laos-e-lembrei-de-você (eu tive que comprar uma camisa da Beerlao) e muitas bolsas de pano, cachecóis coloridos e badulaques, até elefantinhos e macaquinhos de todos os formatos e tamanhos e garrafas de Lao Lao – a fortíssima aguardante do Laos – com cobras (mortas) em seu interior. Vai encarar? 

 
Além de vestir de maneira bem discreta, o gringo ainda queria pagar em euro! 

 
Quer pagar quanto? 

Mas o programa mais legal que fizemos em Luang Prabang não estava descrito em nenhum guia turístico: simplesmente alugamos bicicletas e saímos por aí, desbravando a área rural da cidade. O aluguel é barato – o equivalente a R$ 2,50 por um dia inteiro –, embora não dê pra dizer que sejam as bikes mais bem conservadas do mundo: eu precisava começar a frear a trinta metros de onde queria parar, senão já era. Estava um sol de rachar e as garrafinhas d'água e o protetor solar só ajudavam o suficiente para não desidratarmos. Seguimos a rua principal até sairmos do tranqüilo miolo turístico e chegarmos a uma estrada asfaltada e barulhenta, cheia de carros, motos, tuk-tuks. Mais um pouco e toda a fumaça e o barulho dos veículos já tinha sumido. Dezenas de crianças saíam da escola, todas de bicicleta: fomos atrás, escolhendo os caminhos menos movimentados, as estradinhas de terra mais precárias, para ver onde aquilo ia dar. 





 

Logo estávamos no meio do nada, cercados por árvores, montanhas e mato, percorrendo trilhas de terra e atravessando pontes bambas de madeira. De vez em quando surgia uma vendinha caseira, onde podíamos reabastecer o estoque de água. Aqui e ali, patos, galinhas e cães conviviam naquele clima sossegado de roça. As crianças que encontrávamos pelo caminho, voltando da escola de uniforme em direção a suas casinhas de bambu, não saíam correndo aos risos nem viravam a cara quando dizíamos " Sabaidee! ", a simpática expressão-curinga que serve para oi, bom dia, como vai: cumprimentavam de volta, sorriam com sinceridade, às vezes até tomavam a iniciativa e eram os primeiros a mandar um sabaidee . A mesma coisa com seus pais, mães e avós com quem topávamos pelo caminho, vivendo em um mundo onde praticamente tudo – língua, cultura, governo, condições econômicas, condições de vida – era bem diferente do nosso: não éramos tratados como hóspedes honorários, estrangeiros intrometidos ou seres exóticos de outro planeta, mas simplesmente pessoas. Às vezes, isso basta. Sabaidee, Luang Prabang! 

No próximo post: um dia com os elefantes 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Comendo com a mão

Talvez a revelação mais surpreendente sobre a culinária do Laos seja que, ao contrário de praticamente todos os países ao seu redor, eles não usam pauzinhos pra comer. Onipresentes na China, no Japão, nas Coréias, no Vietnã, na Tailândia e onde mais você pensar, no Laos eles são encontrados apenas em restaurantes de comida chinesa ou japonesa. Garfos e facas são bem mais comuns, e foram oferecidos em quase todos os restaurantes em que comemos. Mas a maioria dos pratos tipicamente laocianos não exigem do comensal nenhum utensílio específico para serem ingeridos: come-se com a mão e ponto final.

O arroz é um item básico e a forma como é preparado é fundamental para que a comilança manual funcione. Nada do arroz soltinho e bem temperado como fazemos no Brasil: o arroz do Laos é grudento e seco, ideal para você pegar com uma pinça formada pelo polegar, o indicador e o dedo médio, amassar em montinhos que caibam na sua boca, mergulhar em molhinhos dos mais variados tipos e mandar pra dentro. Os molhos mais populares incluem um de tomate, que gostei bastante, e um de berinjela, que definitivamente não curti – mas é que nunca fui fã do legume; os pró-berinjelistas certamente vão apreciar.

 

 

Quem não mantém bom relacionamento com a pimenta deve ter certo cuidado no Laos, porque muitos pratos aparentemente inofensivos vêm carregado no ardor. Um dos mais famosos é a salada de mamão verde, que mistura fatias finas de papaia com uma boa dose de red hot chili peppers. A picância também está presente em muitos dos suculentos peixes servidos nos restaurantes à beira do Mekong, mas se meu estômago reclamou depois, meu paladar apreciou bastante. 

 

Na categoria "aperitivos insólitos para a mesa de bar", entram as algas secas com gergelim e a pele de búfalo seca. As algas desceram bem com goladas de Beerlao Dark, mas a pele borrachuda não me apeteceu: a carne de búfalo, basicamente uma carne de boi com gosto mais forte, saiu-se bem melhor. Mas bom mesmo foram o peixe com ervas embrulhado em folha de bananeira e o capim-limão recheado com frango, ambos degustados no restaurante Tamarind, em Luang Prabang – que também servia, como parte da mesma refeição, a abóbora com gengibre, a lingüiça de Luang Prabang e uma sobremesa de arroz grudento com leite de coco e molho de tamarindo. O Tamarind também oferece cursos rápidos sobre como preparar as iguarias laocianas. Se estiver com tempo em Luang Prabang, dê uma olhada. 

 
Frango no capim-limão: excelente. 

 
Alga seca com gergelim: até que passa. 

 
Pele de búfalo: melhor evitar. 

A influência francesa na Indochina pode ser sentida nas várias barraquinhas que vendem sanduíches em baguetes, e são sempre uma boa opção para o café da manhã. Também são bem comuns os estandes de vitaminas feitas na hora, com ingredientes tão diversos quanto maçã, melancia, limão, abacate, fruta-dragão e... biscoito recheado! 

 

E se a ubíqua Beerlao, já descrita em um post anterior, não for forte o bastante para seu paladar – ou seu fígado –, experimente o Lao Lao, uma aguardante local feita de arroz grudento e que tem pelo menos 50% de álcool. Mas é melhor não marcar nenhuma trilha ou passeio de elefante para o dia seguinte. 

  
Eu não podia deixar de experimentar sabores bizarros e altamente industrializados de refrigerantes famosos. Esta Fanta Laranja-Banana-Abacaxi tem gosto de pasta de dente, enquanto a Fanta Blueberry, claro, causa um efeito colateral que não podia ser outro: 



No próximo post: Sabaidee, Luang Prabang! 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

Quem

Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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