sexta-feira, 1 de março de 2013

Um dia com os elefantes

 

O mahout explica pacientemente os comandos físicos e as instruções verbais: "Segure na parte de cima da orelha dela, dê um chutinho na pata dianteira e diga sum-sum . Quando ela levantar a pata, use como degrau para subir." Faço o que ele diz, mas meu pontapé na pata não surte efeito algum, quiçá faz uma cosquinha. O mahout chuta com mais determinação, ela dobra a pata e mantém, eu pego impulso e subo com esforço, puxando a orelha, não sem precisar de um empurrão extra do mahout. Como era pra andar pra frente mesmo? Pou-pou Pai-pai ? Se é verdade que os elefantes nunca esquecem, não dá pra dizer o mesmo dos humanos. 

Estamos no Elephant Village, a uma hora de Luang Prabang, centro-norte do Laos. Escolhemos este lugar entre quase uma dezena de opções após uma rápida caminhada pela rua principal de Luang Prabang. Algumas agências trabalham apenas com passeios-relâmpago de trinta ou quarenta minutos. Outras, como o Elephant Village e o All Lao Elephant Camp, organizam mini-aventuras que duram até 6 dias, onde você acampa no mato e aprende a andar de elefante, comandar o elefante, alimentar o elefante, dar banho no elefante. Os passeios que duram mais do que uma voltinha ligeira costumam ser chamados de "cursos de mahout". Na verdade, um mahout – o cara que conduz e trata dos bichões – costuma ficar com um mesmo elefante a vida inteira, e não é uma semana no mato que vai fazer de um turista um especialista; mas a experiência é certamente mais válida do que simplesmente sentar em uma cadeirinha nas costas do elefante, posar para umas fotos e ir embora. A palavra "mahout", aliás, tem equivalente em português: "cornaca". Acho que "mahout" impõe mais respeito. 

 

Chegamos às oito da manhã após uma hora de estradinha de terra, trazidos em uma van do próprio Elephant Village. As inúmeras Beerlao Dark tomadas na noite anterior fazem o corpo pedir clemência, mas não dá tempo de pensar na ressaca: o dia será longo e não é sempre que você vai parar no meio do Laos para aprender a ser um condutor de elefantes. Optamos pelo programa de um dia só, mas fica a curiosidade de fazer o curso de seis dias, num futuro distante onde tempo, dinheiro e disposição não forem problemas. A impressão é a de que estamos em um Jurassic Park. Há várias tendas espalhadas no meio das árvores, cada uma devidamente sinalizada: aqui é onde os elefantes são alimentados, ali fica o veterinário responsável, lá no meio é o centro de visitantes. Você aprende que todos os elefantes vivendo aqui são fêmeas, mais mansas e fáceis de lidar; são da espécie Elephas maximus, vulgo elefante asiático, menores que seus primos africanos; e a maioria foi resgatada da árdua indústria madeireira, que "emprega" centenas de elefantes no Laos. Aqui elas também têm que trabalhar em troca de hospedagem e comida, mas é carregando humanos nas costas duas ou três vezes por dia, não puxando árvores inteiras por quinze horas seguidas. 

 

Pai-pai ", diz o mahout, ensinando ao bando de estrangeiros como é que faz para o elefante andar pra frente. Como todo comando verbal, um pai-pai deve ser acompanhado por um gesto físico correspondente: neste caso, encostar os dois pés atrás das orelhas da elefanta. Todos os comandos são no idioma lao e não é mole decorar vários de uma vez: sai-sai para virar à esquerda, kuá-kuá para virar à direita, hao-hao para parar, map-map para descer, kop chai lai lai para ser gentil e agradecer ao bicho pelo passeio. 

Pai-pai ", digo eu, já montado no pescoço da elefanta, as duas mãos em sua cabeça, o corpo ainda meio duro, tentando descobrir se vou me equilibrar. Ela obedece e dá a partida. Caminha sem pressa, rebolando, balançando a tromba e abanando as orelhas. Um mahout vai atrás de mim, sentado sem cerimônia ou preocupação. Damos uma volta rápida onde ela obedece a todas as minhas instruções, ainda que eu tenha que repeti-las algumas vezes: hao-hao hao-hao hao-hao ! Desço – ou melhor, escorrego pra baixo – e agradeço à elefanta com uma carícia no rosto e um kop chai lai lai 

Enquanto os mahouts preparam várias elefantas para o primeiro passeio de verdade, nosso guia nos leva a uma pequena fábrica de papel dentro do próprio Elephant Village. Com o papel produzido aqui, eles fazem cartões, marcadores de livros e bloquinhos de anotações. E o que papel tem a ver com um acampamento de elefantes? Tudo: ele é fabricado a partir do cocô dos elefantes. 

O processo é explicado tintim por tintim – só faltou uma animação do Mr. DNA, como havia no Parque dos Dinossauros. Os toloscões de cocô são coletados, lavados e fervidos para matar as bactérias. Segundo a explicação, cocô de elefante não fede – e eu prefiro acreditar nisso do que aproximar o nariz de um monte fresco e averiguar por conta própria. Eles adicionam um pouco de alvejante, amassam a massa em uma maquininha por algumas horas e enrolam bolinhas de 300 gramas cada. Cada bolinha é espalhada em uma tábua grande para virar uma folhona de papel. Aí é só deixar secar, tingir o papel de azul, vermelho ou o que você preferir e transformá-lo em belíssimos souvenirs. O dinheiro é usado para comprar mais comida para os elefantes, que por consegüinte fazem mais cocô – são cerca de 50 quilos por dia! – e mantêm o ciclo funcionando. 

 

 

As elefantas estão equipadas agora com uma howdah – aquela famosa cadeirinha de madeira, amarrada com cordas, que você vê nos filmes. Para chegar lá em cima não basta dizer sum-sum e esperar a elefanta levantar a perna. É preciso ir até o segundo andar de uma cabana de madeira, deixar a elefanta estacionar ao lado e subir. Vamos de dois em dois, mais um mahout no pescoço. As elefantas, que pesam cerca de duas toneladas cada, não parecem se importar muito com a carga extra. Seguimos em uma fila de seis ou sete paquidermes por uma trilha de terra com mato nos dois lados. O ritmo é lento e há tempo para admirar a natureza e tirar fotos. Alguns mahouts descem do elefante com as câmeras dos turistas nas mãos; enquanto os cornacas de primeira viagem têm que se virar com os sai-sais kuá-kuás , os mahouts experientes se divertem mais com os brinquedinhos fotográficos e tiram fotos de tudo e todos. 

 

 

 

 

No meio do passeio, uma senhorinha aparece com grandes caules e folhas de bananeira, que são devorados pelos elefantídeos em questão de minutos. Por um momento achei bonito o altruísmo da senhorinha, mas depois vi a logomarca do Elephant Village num carro estacionado ali perto e entendi que ela é paga para fazer isso. A trilha de terra dá em um rio enorme, mas esta parte do passeio ficará para depois do almoço. Vamos apenas até à margem – depois de descermos um barranco íngreme onde você tem a certeza de que vai se esborrachar no chão – para que as elefantas possam saciar a sede. Todos os mahouts agora já desceram e deixaram um dos turistas que estavam na cadeirinha comandando os bichos. Click, click, click: elefantes não são nenhuma novidade, mas as câmeras eles acham um barato. 

De volta à nossa base, chegou a hora de encher a pança. Mas primeiro vem a pança das elefantas: os caules de um metro que ganharam da senhorinha na ida na volta foram apenas aperitivo. Elas comem mais de duzentos quilos de vegetais por dia. Um de seus preferidos são folhas de abacaxi – sim, aquelas folhas duras e espinhudas que nós jogamos fora sem pestanejar. Na hora do almoço paquidérmico, elas recebem montes e montes de comida dos tratadores, mas os turistas também podem comprar cachos de banana – a preço de banana, ainda bem – e fazer um agrado às elefantas que acabaram de nos levar no lombo. Compramos um cacho. Precisa descascar?, perguntamos. Nada, é só tirar a banana do cacho e entregar à elefanta, que busca avidamente por comida com a ponta da tromba. Ela agarra a banana, manda pra boca e engole antes que possamos arrancar outra do cacho. Devora um, dois, três cachos inteiros de bananas como quem engole um pacotinho de M&Ms. 

 

Estamos de volta em cima das elefantas, depois de um almoço bem servido e uma meia horinha de descanso. É a última parte do passeio e o ponto alto do dia. Cada turista – digo, aprendiz de mahout – está sentado agora em sua própria elefanta, sem cadeirinhas ou confortos. O lance agora é roots: você vai descalço, montado no pescoço da elefanta, as mãos nos pêlos espetados do cocoruto dela. Seguimos a mesma trilha de antes. A perna dói de vez em quando, tensa na mesma posição. Não faz mal, logo chegamos ao nosso destino: o rio onde antes elas beberam água. Só que agora, instruídas pelos mahouts experientes, elas continuam seguindo sem cerimônia, pata ante pata, entrando no rio até cobrirem as pernas, a tromba e a boca. Chegou a hora de dar banho nas elefantas. 

 

 

O mahout, sentado nas costas do bicho, me entrega uma escovona dessas de lavar roupa no tanque. Esfrego a testa da elefanta, o cocoruto, o pescoço, atrás das orelhas. Ela fecha os olhos, toda folgada, achando ótimo. O mahout usa um balde para despejar água nas partes que ainda estão secas: eu, obviamente, também fico encharcado em dois minutos. Ao meu lado, os outros aprendizes também se divertem com suas respectivas elefantas, e elas parecem adorar. Um dos mahouts diz uma palavra no idioma lao: a elefanta levanta a tromba sobre sua cabeça e dispara um jato no americano que está sobre ela. Minha elefanta não é tão bem treinada, para meu alívio: o americano ficou não apenas encharcado, mas com resquícios de meleca de elefante na cara. Nada que um mergulho rápido do rio não resolva. Eu, mesmo sem meleca, aproveito para fazer o mesmo. 

Nosso pacote ainda inclui um passeio de barco, uma visita a um acampamento vizinho e uma cachoeira com ares de artificial. Mas o que fica marcado é mesmo o contato com aquelas garotas de nariz comprido, orelhas de abano e corpo troncudo – não posso garantir que, como no dito popular, elas jamais esquecerão, mas nós certamente não vamos. Não é todo dia que você fica amigo de alguém com duas toneladas. 


FIM! 

(da série Laos)


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

Quem

Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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