terça-feira, 2 de julho de 2013

Despedida


“Você vai ficar na China pra sempre?” 

Era uma pergunta recorrente entre amigos e familiares no Brasil. “Pra sempre é muito tempo”, eu respondia toda vez. Às vezes completava: “Fico pelo menos mais um ano”. Passavam-se doze meses e eu tornava a dizer: “Pelo menos mais um ano”. Com o tempo, pararam de perguntar. 

Quando cheguei na China, em setembro de 2009, jamais imaginava que moraria aqui por quase quatro anos. O plano inicial era estudar mandarim por um semestre, tentar arranjar um emprego por outros seis meses, e aí tchau Beijing, alô Beagá e pronto. Mas hoje, relendo o primeiro post que escrevi neste blog, encontro pistas do que o futuro me reservava: “ Topei com blogs e fóruns cheios de brasileiros que se aventuraram no país mais populoso do mundo e tiveram experiências um tanto positivas. Gente que foi pra ficar 6 meses e está lá há dois, três anos ”. E depois: “ O curso (de mandarim) termina no fim de janeiro (de 2010). Depois disso, sabe-se lá ”. 

Bom, sabemos agora: depois desses seis meses previstos, estudei outro semestre na mesma universidade, fiz mais uns meses de chinês em uma escola particular e arrumei, no final de 2010, um emprego de tradutor e revisor em uma agência de notícias, onde fiquei por dois anos e meio. Vim pra China para ter uma experiência internacional e morar fora por uns tempos, uma vontade antiga; como dizia minha amiga Clarissa Funghi, “você precisa conhecer pessoas, fazer coisas e ver lugares”. 

Vi lugares. Conheci Beijing como a palma da mão, subi num porta-aviões em Tianjin, andei de camelo na Mongólia Interior, vi os guerreiros de terracota com minha mãe em Xi'an, tomei cerveja no saco plástico em Qingdao, mergulhei no Mar Amarelo em Rizhao, perdi dinheiro na corrida de cavalos em Hong Kong, passei o ano-novo vietnamita em Hanói, reencontrei um amigo coreano em Seul, dei banho em elefantes no Laos. 

Fiz coisas. Aprendi mandarim (embora tenha desaprendido bastante por falta de prática e disciplina). Aperfeiçoei o inglês. Dei aulas de inglês (para uma molecada que queria fazer qualquer coisa, menos ter aula na sexta-feira às oito da noite). Experimentei carne de cachorro, burro, gafanhoto, cigarra, pepino do mar, intestino de pato e Pringles sabor alga marinha. Toquei bastante em bares pequineses, dividindo o palco com grandes amigos. Filmei curtas-metragens com uma galera supimpa: Cat Wig passou no festival da Bookworm e Carne ganhou uma première que durou até de manhã; outros dois estão a caminho. Cresci pessoal e profissionalmente, e pela primeira vez na vida fui capaz de me manter com o meu salário. 

Conheci pessoas, muitas pessoas: fiz amigos brasileiros, alemães, ingleses, americanos, espanhóis, italianos, coreanos, australianos, belgas, franceses, canadenses, russos, ucranianos, portugueses e, claro, chineses. Muitos continuam aqui, e muitos outros já voltaram pra casa há tempos. Foram incontáveis despedidas de amigos, e agora chegou a minha vez. 

Não sentirei falta da poluição, da internet censurada, dos taxistas aborrecidos, da quantidade de gente ou da burocracia. Mas terei uma saudade danada dos amigos que ficam, do transporte público barato, dos meus restaurantes prediletos, das noites de open mic e pub quiz, dos coelhos que tivemos por dois anos, do ambiente internacional misturado com o que há de mais local, entre tantas outras coisas. 

Este blog termina aqui, junto com meus quase quatro anos na China. Ele já vinha capengando há tempos, ganhando atualizações raras e esparsas, mas o arquivo todo continuará online, para novos leitores conhecerem e os antigos relembrarem. A todos que acompanharam o Boca de Gafanhoto, fiel ou esporadicamente, comentando ou não, um grande obrigado, galera!  

E o que o futuro reserva agora? Ainda é um mistério, pra mim, inclusive. Não fiquei na China pra sempre, mas ainda não é hora de retornar ao Brasil: minhas aventuras se voltam agora para o Velho Mundo. Ganharão textos, fotos, vídeos? Não planejei nada, mas se eu fosse você, daria uma olhada no Biselho de vez em quando.  

Zaijian, Beijing!  

Hallo, Deutschland! 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

Quem

Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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