sábado, 31 de dezembro de 2016

Top 20 filmes favoritos de 2016



Se fechei o ano passado com apenas 109 longas assistidos, em 2016 aumentei o número para 150, sendo 137 que nunca tinha visto antes.

Escrevi um parágrafo sobre cada um deles no Cinema de Buteco, coisa que já havia feito antes em 2012 e prometido a mim mesmo que nunca tentaria outra vez. Portanto, caso te interesse, veja lá todos os filmes a que assisti em janeiro, fevereiro, março, abril, maio/junho/julhoagosto/setembro/outubro e novembro/dezembro.

Se quiser a versão resumida, cá estão os meus 20 filmes favoritos de 2016:



20- Hush - A Morte Ouve
(Hush, dir. Mike Flanagan)

Com uma protagonista surda perseguida por um serial killer, temos um terror sem gritaria e clichês subvertidos. A trama pode parecer besta, mas aqui é o estilo que importa. Boa surpresa que apareceu meio de surdina na Netflix.



19- Mogli - O Menino Lobo
(The Jungle Book, dir. Jon Favreau)

É o Mogli que todos conhecemos, um moleque de tanga vermelha falando com bichos, mas com dois diferenciais fundamentais: um visual impecável e um elenco de vozes de botar respeito. Leia minha crítica completa no Cinema de Buteco.



18- Capitão América - Guerra Civil
(Captain America: Civil War, dir. Anthony & Joe Russo)

Eu não estava lá muito empolgado para mais um filme da Marvel com as mesmas piadas, a mesma direção genérica e um elenco de 79 heróis, e talvez por isso mesmo tenha me surpreendido. Além da trama mais séria (dando continuidade ao eficiente O Soldado Invernal), Guerra Civil traz uma das sequências de ação mais divertidas de todos os 13 filmes da Marvel até agora: justamente o confronto entre esses trocentos heróis num aeroporto alemão. E ainda nos apresentou ao melhor Homem-Aranha dos cinemas.



17- Carol
(dir. Todd Haynes)

Romance sem melodrama bastante eficaz, que poderia fácil ter ocupado o lugar de algum dos indicados a Melhor Filme (estou olhando pra você, A Grande Aposta).



16- Creed - Nascido Para Lutar
(Creed, dir. Ryan Coogler)

Mais um Episódio VII que utiliza as melhores características de sua franquia quarentona (incluindo um ex-protagonista interpretado por um ator muito querido e que aqui vira mentor) ao mesmo tempo em que abre caminho para novos filmes com uma nova geração. Só faltou o Oscar pro Stallone.



15- O Quarto de Jack
(Room, dir. Lenny Abrahamson)

Drama calcado em duas atuações incríveis (torço para uma carreira de sucesso para o garotinho Jacob Tremblay) com uma direção que trabalha confinamento, tensão e readaptação com bastante eficácia.



14- Kubo e as Cordas Mágicas
(Kubo and the Two Strings, dir. Travis Knight)

O visual é tão impressionante que a maior parte do público vai achar que se trata de computação gráfica, mas é stop-motion, e um dos mais bem feitos que já pintaram por aí. Junte a divertida química entre os personagens — um garoto, um macaco e um homem-besouro! — e temos uma das melhores animações do ano.



13- Anomalisa
(dir. Charlie Kaufman & Duke Johnson)

Um stop-motion mais realista do que muito filme de carne-e-osso, junto com toda a esquisitice que é marca registrada de Charlie Kaufman e bastante espaço para interpretações.



12- Spotlight - Segredos Revelados
(Spotlight, dir. Tom McCarthy)

Os elementos que tornam o vencedor do Oscar menos “dramático” (a falta de um protagonista único ou de revelações que realmente surpreendam) o deixam justamente mais realista e menos glamouroso. Uma aula de como o bom jornalismo deve ser.



11- Cinco Graças
(Mustang, dir. Deniz Gamze Ergüven)

O representante da França no Oscar em 2016 é na verdade um filme turco, falado em turco e totalmente enredado na cultura do país, com sua trama trágica sobre cinco adolescentes rebeldes forçadas a casamentos arranjados pela família conservadora. Um belo longa de estreia da diretora Deniz Gamze Ergüven.



10- Zootopia
(dir. Byron Howard & Rich Moore)

A Disney mostra que continua em ótima fase: Zootopia é daquelas animações que criam um mundo repleto de detalhes piscou-perdeu, coadjuvantes que roubam a cena e uma trama que ganha surpreendentes cunhos sócio-políticos em meados do segundo ato.



9- Sing Street
(dir. John Carney)

Carney (de Apenas Uma Vez) retorna com mais uma simpática comédia romântica musical, desta vez trocando a contemporaneidade pelos anos 80. Se já vimos antes histórias parecidas (“moleque forma banda para conquistar garota”), esta aqui tem charme próprio – e ótimas canções originais – para andar com as próprias pernas.



8- Sala Verde
(Green Room, dir. Jeremy Saulnier)

Suspense claustrofóbico que segue uma banda de punk rock metida numa enrascada das brabas no backstage de uma casa de shows neo-nazista. Bem construído, tem um momento tenso atrás do outro; destaque para o vilão minimalista de Patrick Stewart, um dos melhores de 2016.



7- A Bruxa
(The VVitch: A New-England Folktale, dir. Robert Eggers)

Terror psicológico que evita os sustos fáceis, causando medo muito mais por sua atmosfera — tanto as forças exteriores que aterrorizam uma família nos EUA do século 17 quanto os membros dessa própria família se voltando uns contra os outros.



6- O Regresso
(The Revenant, dir. Alejandro G. Iñárritu)

Paisagens, planos longos, DiCaprio rastejando a caminho do Oscar, Tom Hardy balbuciando, o melhor urso digital desde Ted e a melhor cena com um cavalo morto desde O Poderoso Chefão tornam esta uma experiência memorável.



5- Rua Cloverfield, 10
(10 Cloverfield Lane, dir. Dan Trachtenberg)

Este auto-intitulado “primo” do Cloverfield de 2008 ganha do seu parente em todos os sentidos — da direção segura que sabe contar uma história (ao invés da câmera trêmula que causava ataques de labirintite) ao elenco pequeno e eficiente, passando pelo clima claustrofóbico e pela dúvida perene: o que realmente há lá fora?



4- Deadpool
(dir. Tim Miller)

Dos créditos iniciais zoados à referência final a Curtindo a Vida Adoidado, o filme quebra a quarta parede (“McAvoy ou Stewart?”), tira sarro de tudo e todos (a começar por seu ator principal) e faz da metalinguagem um diferencial mais que bem-vindo aos já cansados filmes de super-heróis.



3- A Chegada
(Arrival, dir. Denis Villeneuve)

No melhor sci-fi do ano, a porradaria intergaláctica dá lugar a uma trama sobre linguagem e entendimento mútuo, colocando Denis Villeneuve definitivamente entre um dos diretores mais interessantes da atualidade — e que retorna em breve com a sequência de Blade Runner.



2- Capitão Fantástico
(Captain Fantastic, dir. Matt Ross)

Um belo estudo de personagens com excelentes performances (o destaque, sem dúvida, é o protagonista Viggo Mortensen), momentos tocantes e que evoca outros ótimos filmes como Pequena Miss Sunshine e Na Natureza Selvagem.



1- O Lagosta
(The Lobster, dir. Yorgos Lanthimos)

Com a trama mais surreal do ano — solteiros são enviados a um hotel onde têm 45 dias para encontrar um novo par, ou serão transformados no animal de sua preferência —, Lanthimos criou uma mistura de drama, distopia e humor negro, que vai ficando cada vez mais estranho e fascinante de se assistir.

Leia também:

As melhores animações de 2016
Os melhores vilões do cinema em 2016
Top 10 filmes favoritos de 2015

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

A Menina Que Comia Música

Ela sempre andava triste da vida. E o motivo era sempre o mesmo: comida.


Direção: Lucas Paio
Roteiro: Lucas Paio & Daniel de Pinho 
Estrelando: Fernanda Morena (A Menina), Luiz Tasso Neto (O Músico), Mikael Salomonsson (O Namorado) e Tina Madeira (A Mãe)
Elenco de apoio: Antti Silvennoinen, Cadu Leite, Cristiane Módolo, Cristiano Liu, Lucas Paio, Rahel Zoe Buschor e Richard Amante


domingo, 18 de setembro de 2016

O papelzinho


O dia 18 de setembro de 2001 foi uma terça-feira e eu tive aula de Biologia. Sei disso porque a terça anterior havia sido um tanto marcante, com a mesma professora entrando na sala de olhos esbugalados e informando-nos em primeira mão que o World Trade Center, o Pentágono e a Casa Branca (as informações ainda eram parcas) estavam sendo atacados. Uma semana depois, pairava o medo de que a Terceira Guerra Mundial ia estourar a qualquer instante, mas tínhamos assuntos mais sérios a tratar, como cloroplastos, lipídios e ácidos ribonucleicos.

Provavelmente buscando maneiras de fazer a aula passar mais rápido — o que, em outras ocasiões, também daria origem à Teoria dos Números Absurdos e aos quadrinhos do Super Zé —, arranquei um pedaço de papel do meu caderno espiral Tilibra e resolvi embarcar num experimento científico-temporal. Registrei em letras cursivas a mensagem para o futuro: "hoje é dia 18 de setembro de 2001, e estou escrevendo esse papel (sic) para guardar e ver quanto tempo ele dura até se decompor. ass: Lucas."

Para oficializar, intimei quatro colegas que sentavam perto de mim a averiguar o papel e assiná-lo como testemunhas oculares. Dobrei-o duas vezes e pus na carteira. 

A Terceira Guerra Mundial não estourou, eu terminei o Ensino Médio, me formei em Publicidade, trabalhei como redator, produtor de TV e tradutor, fui hexacampeão da Quinta Master do Canapé com o Piano Alemão e mudei de país duas vezes. E nesse tempo todo, o papelzinho rascunhado numa aula chata em 2001 continuou zanzando comigo para todo canto. Afinal, a graça não estava em deixá-lo perdido numa gaveta, decompondo-se a passos de formiga, mas sim sobrevivendo ao risco de sumir num descuido bêbado, num assalto infortuito ou, sei lá, numa combustão espontânea. Considerando que na última década e meia eu parei de usar relógio, renovei a carteira de motorista três vezes e até troquei de celular, o papelzinho é provavelmente o objeto que carreguei comigo diariamente por mais tempo na vida. E se for verdade aquela história de que trocamos completamente de células a cada sete anos (eu saberia se tivesse prestado atenção às aulas de Biologia), até os meus átomos são mais novos que os do papelzinho.

Em 2005, escaneei o documento histórico (é a imagem que abre este texto) e compus-lhe um haikai no extinto fotolog do Biselho:

"Quatro anos depois,
continua na minha carteira
e ainda não se decompôs."

Os comentários dos amigos foram pouco efusivos. Bernardo Silveira reagiu monossilabicamente ("Só…"), seu xará Bernardo Silvino utilizou um de seus bordões sem significado intrínseco ("Mãe…") e Daniel de Pinho comentou: "Olha, que interessante… Volto daqui a 185 anos."

Acabei desenvolvendo a mania, à la Bilbo Bolseiro, de manusear o papelzinho de tempos em tempos, como que para respirar aliviado ao constatar que a decomposição ainda estava distante. Meu amigo Léo, cuja assinatura adorna o documento, deve se lembrar das várias ocasiões em que, nostálgico, torrei-lhe a paciência mostrando o pedaço de papel velho pela trigésima vez.

Numa dessas, veio a primeira tragédia: dobrado e pressionado há tanto tempo, o papelzinho rachou no meio. Como se tratava apenas de uma cisão longitudinal, e não de decomposição total, botei de volta as duas partes na carteira. E, sem aprender a lição, não perdi o hábito de dar-lhe uma espiadela de quando em quando.

Eis que na última noite do ano passado, a menos de uma hora para 2016 despontar, me deram uma semente embrulhada em papel-alumínio pra colocar na carteira, numa dessas tradições europeias de ano-novo. Imediatemente me bateu a vontade de conferir como estava o velho papelzinho. Após retirar cuidadosamente a metade direita, revirei a carteira de cima a baixo, fucei todos os seus bolsos, recônditos e cantos ocultos, e enfim cheguei à triste e irremediável conclusão: a metade esquerda do papelzinho havia caído por aí, provavelmente num prenunciado descuido bêbado. E como papel leva de 3 a 6 meses para desaparecer na natureza (sei pelo Google, não pelas aulas de Biologia), as chances de um reencontro épico estilo medalhão do Double Dragon são bastante reduzidas.

A metade direita completa hoje 15 anos, continua na minha carteira e talvez, com sorte, sobreviva a outra década e meia. Conto pra vocês em 2031.

domingo, 26 de junho de 2016

Paul McCartney ao vivo, enfim!


Ouvir Paul e sua banda tocando o icônico acorde inicial de "A Hard Day's Night" não foi só um alívio após duas horas em pé ouvindo um DJ desastroso, mas o fim de uma década e meia de espera. 

Em vão aguardei um show do Paul McCartney no Brasil desde os idos de 2001, 2002. Suas aparições em terras tupiniquins eram raras e a última fora no longínquo 1993, quando o Brasil nem tetra era, eu cursava a terceira série primária e só tinha visto um show na vida: o do Jaspion no Mineirinho. 

Já mencionei o assunto neste blog em algumas ocasiões. Em 2004, reclamando que Paul não vinha para o Rock in Rio do Rio, mas dava as caras no Rock in Rio de Lisboa, comentei: "o velho Macca já tá quase com seus 64 anos profetizados em "When I'm 64"... se o cara morrer antes de voltar ao Brasil mais uma vez (toc, toc, toc três vezes na madeira), não vou me conformar". Em 2007, com os grandes shows internacionais aumentando em frequência, chutei: "em breve anunciarão para o final de 2007 a vinda de Sir Paul ao nosso Brasilzão de meu Deus. Aí, contem pra imprensa que vocês leram antes no Biselho".

Fui morar na China no final de 2009 sem que minha previsão ou minhas esperanças se concretizassem. E as chances de vê-lo em Beijing eram praticamente nulas: poucos anos antes, Paul anunciara que nunca tocaria no país após ver um vídeo sobre a violência contra cães e gatos em Guangzhou. Parece que depois reconsiderou a decisão e disse que curtiria tocar para uma plateia chinesa, mas até hoje não pintou por lá.

Eis que em novembro de 2010, enquanto eu continuava a onze fusos horários de distância, Paul resolveu aportar com sua Up and Coming Tour em São Paulo e Porto Alegre, tocando hits de seus 50 anos de carreira para trocentas mil pessoas, incluindo vários amigos meus. E eu lá, vendo fotos e relatos pelo Facebook, isso quando o VPN funcionava e eu conseguia acessar.

Não satisfeito em me fazer inveja uma vez só, Paul voltou ao Brasil em 2011. E em 2012. E novamente em 2013. E uma vez mais em 2014. Tocou no Rio, em Brasília, em Floripa e Recife. Voltou a São Paulo, agitou Fortaleza e deu as caras até em Cariacica, na região metropolitana de Vitória. E, claro, animou meus conterrâneos no Mineirão, praticamente no quintal da casa da minha avó. Parecia de propósito. Só faltou ter tocado n'A Obra e no Matriz.

Enquanto isso, eu já morava na Alemanha desde meados de 2013 e nada do senhor McCartney anunciar uma apresentação por estas bandas. Ele não passava por Berlim desde 2009 e, até onde eu sabia, nada tinha contra tocar para plateias alemãs — coisa que fazia com regularidade desde os tempos loucos de Hamburgo em 1960-62. Em 2016 ele anunciou uma nova turnê mundial que passaria pela Europa, e minhas então minguadas esperanças ressurgiram.

Às 8 da manhã de uma quinta-feira de março, recebi um e-mail do Songkick, um site que informa quando seus artistas favoritos marcam show na sua cidade: "Paul McCartney em Berlim no dia 14 de junho". Vi pelo celular e comprei os ingressos assim que tive acesso a um computador, para ficar em pé, em frente ao palco. Duas horas depois, estava quase tudo esgotado. Dois meses de expectativa depois, lá estava eu em pé, a uns dez metros do palco do Waldbühne, um anfiteatro dos anos 1930 construído no meio de uma floresta no oeste berlinense.


À minha frente, um DJ medonho mutilava canções dos Beatles e dos Wings em remixes bisonhos, sem noção nenhuma de equalização ou de bom senso. Ao meu redor, cabeças brancas dividiam espaço com quarentões de rabo-de-cavalo, famílias com crianças e camisetas estampando versões sortidas da capa do Abbey Road ("The Beetles" com Fuscas atravessando a rua; "The Bottles" com garrafas). Ao todo, contando a galera em pé e todo mundo sentado atrás nas arquibancadas do anfiteatro, éramos vinte e duas mil pessoas.

Mandando a pontualidade britânica às favas, Paul McCartney subiu ao palco berlinense com meia hora de atraso e começou com "A Hard Day's Night", que entrou no setlist dessa One on One Tour pela primeira vez em sua carreira pós-Beatles. E por nada menos que 2 horas e 45 minutos, cercado de músicos supercompetentes e carismáticos (com direito a dancinhas coreografadas), tocou guitarra, violão, piano, teclado, ukulele e seu baixo Hoffner, conversou, falou alemão e cantou à beça.


Teve Beatles do começo ("Can't Buy Me Love") e do final ("I've Got a Feeling"). Teve músicas dos discos mais recentes ("Save Us", "New", "My Valentine") e canções dos primórdios de sua carreira solo ("Maybe I'm Amazed"). Teve homenagem ao John no violão ("Here Today"), ao George no ukulele ("Something", de arrepiar) e a George Martin ("Love Me Do"). Teve obras-primas como "Here, There and Everywhere" e "Eleanor Rigby" (que não é a mesma coisa sem a orquestra, mas ainda é Eleanor Rigby). Teve até uma de suas poucas aventuras no mundo da música eletrônica ("Temporary Secretary", de 1980). A mais recente foi "FourFiveSeconds", sua inusitada parceria com Rihanna e Kanye West lançada no ano passado. A mais antiga foi "In Spite of All the Danger", primeira composição própria gravada pelos adolescentes John, Paul e George quando ainda eram Quarrymen, em 1958. Cinquenta e sete anos separam uma da outra.

O telão atrás completava o show, jorrando artes psicodélicas em "Being for the Benefit of Mr. Kite", desenhos russos em "Back in the U.S.S.R.", figuras femininas fortes em "Lady Madonna" e imagens variadas dos jovens e velhos Bítous. A superprodução teve seu clímax, como de praxe, em "Live and Let Die", penúltima do set principal, onde o palco cospe um fogaréu a cada "paaaaam! paaaaaam!" e fogos de artifício inundam o céu. E aí ele mandou "Hey Jude" e milhares de pessoas repetiram os infindáveis "na na na na" até acabar a voz. No final do show, eu estava mais rouco que o Paul.


Antes de engrenar o bis, Paul se enrolou na bandeira arco-íris em homenagem às vítimas do massacre em Orlando e ainda recebeu no palco dois japoneses da plateia, pai e filho vestidos de Sgt. Pepper's, pedindo que ele assinasse a justificativa escolar do moleque para matar cinco dias de aula e ir assistir ao seu show em Berlim. Ele assinou, chamou o pai do menino de "péssimo exemplo" e demonstrou não ser exatamente dotado de ouvido absoluto ao perguntar o nome do cara ("Takushi", disse o japonês. "Hello, Tatushi!", disse Paul).

O bis teve a inevitável "Yesterday", "Birthday" (dedicada a "todos que fazem aniversário hoje ou em algum dia do ano") e o medley "Golden Slumbers"/"Carry That Weight"/"The End" que encerra o derradeiro e quiçá melhor disco dos Beatles. "And in the end, the love you take is equal to the love you make". Paul e banda cumprimentam o público e ele se despede em alemão: "Auf Wiedersehen! Tschüss! Bis zum nächsten Mal!" — "Valeu, falou, até a próxima!" Mais fogos de artifício no céu. Um fumacê no palco. Milhares de papéis picados nas cores alemãs caindo na galera. E vinte e duas mil pessoas vão pra casa mais felizes e mais do que satisfeitas após terem presenciado ao vivo a trilha sonora com a qual cresceram.

Quatro dias depois, Paul McCartney completou 74 anos.

E agora aguardo o Songkick me mandar um e-mail falando que vai ter show dos Stones.

Setlist:

1- A Hard Day's Night
2- Save Us
3- Can't Buy Me Love
4- Letting Go
5- Temporary Secretary
6- Let Me Roll It
7- I've Got a Feeling
8- My Valentine
9- Nineteen Hundred and Eighty-Five
10- Here, There and Everywhere
11- Maybe I'm Amazed
12- We Can Work It Out
13- In Spite of All the Danger
14- You Won't See Me
15- Love Me Do
16- And I Love Her
17- Blackbird
18- Here Today
19- Queenie Eye
20- New
21- The Fool on the Hill
22- Lady Madonna
23- FourFiveSeconds
24- Eleanor Rigby
25- Being for the Benefit of Mr. Kite
26- Something
27- Ob-La-Di, Ob-La-Da
28- Band on the Run
29- Back in the U.S.S.R.
30- Let It Be
31- Live and Let Die
32- Hey Jude

Bis:
33- Yesterday
34- Hi, Hi, Hi
35- Birthday
36- Golden Slumbers
37- Carry That Weight
38- The End

segunda-feira, 30 de maio de 2016

"This Boy", um experimento harmônico-vocal


Descobri esses dias um canal no YouTube dedicado às intrincadas harmonias vocais das músicas dos Beatles. Por trás da página (intitulada The Beatles Vocal Harmony) está um luthier italiano chamado Galeazzo Frudua, que tem um ouvido deveras apurado para esse tipo de coisa e produz vídeos que detalham as melodias cantadas por John, Paul e George e ensinam como reproduzi-las no conforto do seu lar.

Sempre achei difícil fazer segunda voz ao cantar com alguém — meu ouvido nada joãogilbertiano se atém à melodia principal e olhe lá —, e o que dirá de conseguir separar todas as diferentes vozes de "This Boy", "Yes It Is", "Because" e outras canções dos Beatles famosas pela fantástica harmonia vocal. Mas ao topar com os vídeos do Signor Frudua, resolvi fazer um experimento no GarageBand, gravando sozinho as diversas vozes e juntando tudo numa áudio-salada. A escolhida foi "This Boy", gravada pelo quarteto liverpudliano em 1963 ao estilo doo-wop americano. Fica aí para vocês jogarem tomate:

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Soneto da primavera alemã



Um cancioneiro inteiro a festeja
Em mi, evocou-a Vivaldi com esmero 
E também Berlim, findo um março austero, 
Ansiava por sol, céu azul e cerveja 

Abril foi, contudo, um baldão de água fria 
Em vez de azul, um céu cinza-indeciso 
Em vez de esquilos contentes, granizo 
De primaveril, só o pólen e a alergia 

Eterno pensei que seria o ocaso 
Mas maio tratou de tirar o atraso 
Auf wiedersehen, luvas! Adeus, cobertor! 

Curtamos as temperaturas amenas 
Pois pode anotar: em dois meses, apenas, 
Estaremos todos xingando o calor


(Leia também:

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Mirela - a short story


Her misfortune was to be born in a family of musicians.

Not that she hated music. She liked it, the same way she enjoyed eating cotton candy at the park, every now and then. But she lacked any talent for playing. The same guitar that sounded beautiful on her sister's fingers was like chalk on a blackboard if she touched it. The same harmonica her dad played with mastery made their dog a mad beast when she breathed on it. "You don't have to play an instrument just because we do," her family used to say, in good faith. Mirela saw it as a provocation and continued to castigate songs.

One day she said: that's it.

She declared defeat and became quickly annoyed by anyone bold enough to play a tune in front of her, like an unmarried old aunty who loathes couples in love. Mirela went to live alone in a noiseless house, with egg cartons soundproofing the walls, so that not even the nightingale's singing could disturb her anymore.

At family parties, she still suffered. She had to endure her nephews performing Stravinski on the dinnerware, her uncle burping Ravel's Bolero, their parrot perfectly impersonating Sinatra. Sometimes she would burst into an unexpected rage, like the day she interrupted "Happy Birthday To You" at her own birthday party, barking out insults at her guests.

Time turned her distaste into a phobia and Mirela became a bitter woman who despised love serenades and filled her ears with wax during Carnival. She ended up a lonely single lady — and, to her dismay, with the moral obligation of housing her newly widowed mother. It was her ruin. Mirela's mom would spend her days striking keys, fiddling strings, practicing chords, arpeggios, glissandos. Whenever her daughter complained, she would promptly respond: "I refuse to give up my passion over a stupid contempt."

Listening to her mom playing the same Paganini fugue for the thirteenth time on the same rainy Tuesday afternoon, Mirela made a decision. Her farewell note was a double barline scribbled at the very end of an empty music sheet. She ripped off the thickest string from her mother's cello, tied one end on the ceiling fan and the other on her neck, and jumped from the piano stool. She would still hear the lovely vibration that slipped out of it, and to her own surprise would think, astonished: a perfect E-flat, and I did it myself. But then it was too late.


I wrote this short story nine years ago for a literary contest in Brazil, and it was published by the Piauí magazine on their November 2007 issue. This is my first attempt at translating into English something I originally wrote in Portuguese, and any feedbacks are welcome!

Os leitores antigos do Biselho conhecem Mirela desde que ela nasceu, há nove anos (!), quando foi publicada na Piauí naquele distante novembro de 2007. Fazia tempo que eu tentava traduzi-la pro inglês e aí está. Para ler o conto original, clique aqui.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Mamonas, vinte anos depois



A primeira vez que ouvi falar nos Mamonas foi em outubro de 1995.

Era o aniversário do meu primo Rodrigo e ele ganhara um CD de presente — uma banda nova, com letras engraçadas, cheias de palavrões. "Sabão Crá-Crá" foi a que grudou mais rápido, talvez pela curta duração e o padrão "crá-cré-cri" fácil de memorizar. No dia seguinte, partimos para uma viagem para o rio São Francisco — eu, meu pai, o Rodrigo, o pai dele e o nosso avô —, onde acampamos numa prainha durante o feriado e, entre pescarias e campeonatos de piadas, ficamos cantando "Sabão Crá-Crá" até dizer chega.

Na semana seguinte, alguém apareceu com o CD numa aula de Educação Física e a coisa viralizou, numa época em que ninguém usava ainda a palavra "viralizar". Antes que outubro acabasse, os Mamonas já tinham virado coqueluche nacional: não só "Vira-Vira" e "Pelados em Santos" tocavam incessantemente na rádio, como até as canções mais "lado B" do disco faziam sucesso na TV, nas escolas, nos chopis centis e nas festinhas da quarta série. Sempre tinha aquele moleque que se gabava de ter "decorado todas as letras do disco" e recebia um olhar incrédulo: "Até a 'em inglês'?" — porque ninguém decorava "Débil Metal", dona de versos enigmáticos como "Dying to me now is popcorn" e "So, shake your head, sucker!". Quando perguntei à minha professora do Number One o que queria dizer "sucker", ela deu uma risada e desconversou.

Alguém aí estragou o seu encarte?

Mamonas Assassinas era um disco perfeito, do "top de quatro 'já vái'" que abria "1406" ao improviso à la Só Pra Contrariar que encerrava "Lá Vem o Alemão". Cada música tinha personalidade própria e mesclava o rock a um estilo específico, fado, forró, brega, pagode. Claro, éramos cabeças de bagre e não sacávamos muita coisa — e não falo apenas das referências sexuais (ninguém sabia muito bem por que "comer tatu" era bom, embora provocasse dor nas costas), como também dos nomes das músicas (pronunciávamos "1406" como "mil, quatrocentos e seis", sem fazer a óbvia conexão com os comerciais de facas Ginsu que diziam "catorze zero meia") e das inúmeras citações musicais (como Rush e Dream Theater em "Bois Don't Cry"). Até hoje, escutando esse disco tantos anos depois, ainda me impressiono com a criatividade e o talento dos caras.

A esse ponto, já tínhamos visto os Mamonas ao vivo trocentas vezes na TV — seja ocupando o Domingo Legal inteiro, ou vestidos de He-Man no Domingão do Faustão, ou cantando "Short Dick Man" no Programa Livre do Serginho Groismann. Mas chegou dezembro e, com ele, uma notícia very porreta: os Mamonas Assassinas tocariam ao vivo em Belo Horizonte.

O show seria, claro, no acusticamente precário Mineirinho (não que ligássemos pra isso). Um "acompanhante adulto" era necessário e minha tia Marilu foi a escolhida, levando eu, meu primo Bruno (ambos com 10 anos) e minha prima Paula (com 8). No carro, torrávamos a paciência dos adultos com versões mamônicas que substituíam a Brasília amarela pelo carro do meu tio: "O meu Vectra prateado… Tá de portas abertas…"


Algumas memórias avulsas da noite: a gente tentando adivinhar qual fantasia a banda usaria (apostamos nas Tartarugas Ninja, mas eles surgiram com roupas de coelho); a multidão lá embaixo fazendo chifrinho com a mão em "Bois Don't Cry"; Dinho com sua vestimenta pirotécnica que soltava fogo em "Pelados em Santos" e "Bois Don't Cry"; a máscara de jacaré em "Mundo Animal"; a peruca cabeluda em "Débil Metal"; a apresentação da banda, na qual o vocalista zoava os companheiros e se descrevia como "o lindo, maravilhoso, modesto… Dinho!";  o bis com uma música inédita, da qual não conseguimos entender uma palavra (só o Bruno, que afirmou ter ouvido um nítido "filho da puta"); e talvez o fato mais surpreendente da noite: a Paula dormindo (!) no meio do show. Ela já tinha cochilado no cinema quando fomos ver Mortal Kombat no BH Shopping, mas pegar no sono em pleno show dos Mamonas era demais.

Um mês depois, eu estava na casa do Bruno e da Paula quando o tio Ruy, pai dos dois, chegou de viagem perguntando: "Adivinha quem eu encontrei no avião?". "O time do Cruzeiro?", chutou a Paula. "O time do Galo?", arriscou o Bruno. E ele: "Não. Os Mamonas."

Dinho, meu tio (canto inferior direito) e amigos

Claro que passamos a noite interrogando meu tio sobre todos os detalhes do encontro, no qual ele e sua turma de amigos não apenas conheceram os Mamonas Assassinas como fizeram uma jam session no aeroporto, aproveitando que alguns traziam violões e cavaquinhos a tiracolo. Hoje tenho uma sogra alemã que conheceu os Beatles em Hamburgo — mas imagina ouvir aos 11 anos, em primeira mão, o relato de um parente que acabou de fazer farra com os seus ídolos?

"Quando tínhamos o grupo Tudo Bem no Ano Que Vem, viajávamos todo fim de ano pra praia. Encontramos com os Mamonas no Aeroporto de Congonhas, conversamos e um deles perguntou: 'Você conhece o Dinho?' Eu respondi: 'Não, e você conhece o Tadeu?' Ele disse: 'Também não.' Eu disse: 'A viagem pra Porto Seguro será uma ótima oportunidade'. Não deu outra. Zorra total no avião." - Ruy Barreiros, num depoimento exclusivo para os leitores do Biselho

Autógrafo dos Mamonas para meus primos Bruno e Paula

Aí veio o fatídico domingo, 2 de março de 1996.

Meu pai deu a notícia sem rodeios: "Sua avó acabou de ligar. Teve um acidente de avião com os Mamonas Assassinas. Morreu todo mundo."

A morte dos Mamonas não chocou apenas aquele moleque de 11 anos que havia perdido sua banda favorita da noite para o dia. Por meses a fio, os cinco garotos de Guarulhos não saíram da TV: descobrimos o passado de "banda séria" e malsucedida com o Utopia, vimos Mirela e Valéria duelando pelo posto de "verdadeira namorada de Dinho", ouvimos intermináveis discussões sobre o conteúdo da caixa preta do Learjet e das causas do acidente na Serra da Cantareira. Produtos mamônicos surgiram aos borbotões, do álbum de figurinhas ("180 cromos autocolantes da hora!") a uma biografia assinada por Eduardo Bueno. Esse livro, particularmente, era um barato, cheio de casos divertidos sobre os primórdios da banda e detalhes sobre o eternamente inédito segundo disco dos Mamonas, Blá, Blá, Blá — que traria canções como "Chamada a Cobrar", "Renato, o Gaúcho", "Bate, Mãe", "Primo Pitonho" e outros futuros sucessos.


Ou seriam mesmo sucessos? Só nos resta conjecturar. Blá, Blá, Blá poderia ter sido um fenômeno ainda maior que o disco de estreia, com uma banda no auge de sua criatividade fazendo o que sabia fazer melhor (como dizia uma declaração de Dinho na época, "Temos besteiras para mais quinze discos"). Também poderia muito bem ter sido um fiasco, uma piada requentada que deixaria o grupo no ostracismo. Quem sabe, em certo ponto da carreira, eles optassem por uma ruptura no estilo, deixando o humor de lado para ousar de outras formas. Talvez Dinho se embrenhasse numa carreira solo, tornando-se ator, comediante, apresentador de TV. Ou talvez eles sumissem por duas décadas e voltassem numa turnê de reunião, onde estaríamos todos lá, nostálgicos, fazendo chifrinho com a mão e cantando "Mamona-na-nas, Mamona-na-nas…"

Em vez disso, ficamos com as memórias de um grupo que apareceu do nada, fez História e deixou órfã uma geração inteira. Dinho, Júlio, Bento, Sérgio e Samuel — vinte anos depois, vocês ainda fazem falta.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Soneto do inverno alemão


Em vão eu sonhei com o tal Natal Branco 
Daqueles que via em “Esqueceram de Mim” 
Mas dezembro veio e deu tchau em Berlim 
E o inverno hibernando, sem pegar no tranco 

Janeiro, entretanto, foi outro negócio 
O sol entrou oficialmente de greve 
E se uns se refestelavam na neve, 
Clamavam outros tantos: que venha o equinócio! 

Com duas semanas, tô sendo sincero, 
Os graus já pularam pra cima do zero 
Um verão precoce? Onde é que eu assino? 

Haha!, riu São Pedro, mandando mais vento 
Até segunda ordem, só tem céu cinzento 
E esse chove-não-neva com jeitão londrino


(Leia também: Soneto do outono alemão)

Quem

Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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