domingo, 18 de setembro de 2016

O papelzinho


O dia 18 de setembro de 2001 foi uma terça-feira e eu tive aula de Biologia. Sei disso porque a terça anterior havia sido um tanto marcante, com a mesma professora entrando na sala de olhos esbugalados e informando-nos em primeira mão que o World Trade Center, o Pentágono e a Casa Branca (as informações ainda eram parcas) estavam sendo atacados. Uma semana depois, pairava o medo de que a Terceira Guerra Mundial ia estourar a qualquer instante, mas tínhamos assuntos mais sérios a tratar, como cloroplastos, lipídios e ácidos ribonucleicos.

Provavelmente buscando maneiras de fazer a aula passar mais rápido — o que, em outras ocasiões, também daria origem à Teoria dos Números Absurdos e aos quadrinhos do Super Zé —, arranquei um pedaço de papel do meu caderno espiral Tilibra e resolvi embarcar num experimento científico-temporal. Registrei em letras cursivas a mensagem para o futuro: "hoje é dia 18 de setembro de 2001, e estou escrevendo esse papel (sic) para guardar e ver quanto tempo ele dura até se decompor. ass: Lucas."

Para oficializar, intimei quatro colegas que sentavam perto de mim a averiguar o papel e assiná-lo como testemunhas oculares. Dobrei-o duas vezes e pus na carteira. 

A Terceira Guerra Mundial não estourou, eu terminei o Ensino Médio, me formei em Publicidade, trabalhei como redator, produtor de TV e tradutor, fui hexacampeão da Quinta Master do Canapé com o Piano Alemão e mudei de país duas vezes. E nesse tempo todo, o papelzinho rascunhado numa aula chata em 2001 continuou zanzando comigo para todo canto. Afinal, a graça não estava em deixá-lo perdido numa gaveta, decompondo-se a passos de formiga, mas sim sobrevivendo ao risco de sumir num descuido bêbado, num assalto infortuito ou, sei lá, numa combustão espontânea. Considerando que na última década e meia eu parei de usar relógio, renovei a carteira de motorista três vezes e até troquei de celular, o papelzinho é provavelmente o objeto que carreguei comigo diariamente por mais tempo na vida. E se for verdade aquela história de que trocamos completamente de células a cada sete anos (eu saberia se tivesse prestado atenção às aulas de Biologia), até os meus átomos são mais novos que os do papelzinho.

Em 2005, escaneei o documento histórico (é a imagem que abre este texto) e compus-lhe um haikai no extinto fotolog do Biselho:

"Quatro anos depois,
continua na minha carteira
e ainda não se decompôs."

Os comentários dos amigos foram pouco efusivos. Bernardo Silveira reagiu monossilabicamente ("Só…"), seu xará Bernardo Silvino utilizou um de seus bordões sem significado intrínseco ("Mãe…") e Daniel de Pinho comentou: "Olha, que interessante… Volto daqui a 185 anos."

Acabei desenvolvendo a mania, à la Bilbo Bolseiro, de manusear o papelzinho de tempos em tempos, como que para respirar aliviado ao constatar que a decomposição ainda estava distante. Meu amigo Léo, cuja assinatura adorna o documento, deve se lembrar das várias ocasiões em que, nostálgico, torrei-lhe a paciência mostrando o pedaço de papel velho pela trigésima vez.

Numa dessas, veio a primeira tragédia: dobrado e pressionado há tanto tempo, o papelzinho rachou no meio. Como se tratava apenas de uma cisão longitudinal, e não de decomposição total, botei de volta as duas partes na carteira. E, sem aprender a lição, não perdi o hábito de dar-lhe uma espiadela de quando em quando.

Eis que na última noite do ano passado, a menos de uma hora para 2016 despontar, me deram uma semente embrulhada em papel-alumínio pra colocar na carteira, numa dessas tradições europeias de ano-novo. Imediatemente me bateu a vontade de conferir como estava o velho papelzinho. Após retirar cuidadosamente a metade direita, revirei a carteira de cima a baixo, fucei todos os seus bolsos, recônditos e cantos ocultos, e enfim cheguei à triste e irremediável conclusão: a metade esquerda do papelzinho havia caído por aí, provavelmente num prenunciado descuido bêbado. E como papel leva de 3 a 6 meses para desaparecer na natureza (sei pelo Google, não pelas aulas de Biologia), as chances de um reencontro épico estilo medalhão do Double Dragon são bastante reduzidas.

A metade direita completa hoje 15 anos, continua na minha carteira e talvez, com sorte, sobreviva a outra década e meia. Conto pra vocês em 2031.

Quem

Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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