11/07/2021

A praia alemã


A força da natureza que rege a praia alemã não é o sol, mas o vento. Mesmo no verão, o sol pode ser meio arisco, e vê-lo aparecer por quatro ou cinco dias consecutivos é tão fácil quanto ganhar na loteria: no litoral do mar Báltico, há mais nuvens entre o céu e a areia do que sonha a nossa vã meteorologia.

O vento, em contrapartida, está sempre soprando de algum lado. É por isso que se veem poucas sombrinhas fincadas na areia: voariam longe no primeiro vendaval. Em seu lugar, o alemão inventou a tal da Strandkorb – literalmente, “cesta de praia” –, mobiliário onipresente nas areias germânicas.

A Strandkorb é uma cadeira de vime, com espaço para duas pessoas, que lembra uma carruagem. É fechada dos lados e em cima, protegendo contra ventanias, pés-d’água, insolações e demais intempéries. Dá pra reclinar o encosto e puxar uma gavetinha acolchoada para esticar as canelas, e todas vêm com um indispensável porta-copos para repousar a cerveja. É praticamente uma instituição alemã, com um design que data do século 19 e pouco mudou desde então. Na Wikipédia descobri um videozinho, feito provavelmente por um orgulhoso alemão, mostrando as diversas funcionalidades desse símbolo teutônico:


Ocupar uma Strandkorb não sai de graça e a taxa de locação tampouco é irrisória: você morre nuns quatorze euros para curtir sua cestinha privativa por um dia. Tem gente que aluga por uma semana inteira, trancando a sua com chave ao fim da tarde e guardando ali as tralhas praianas que não quer carregar de volta pro hotel. Dentro da cesta, adultos e idosos passam o dia lendo romances policiais e tabloides sobre celebridades regionais, fazendo sudoku e palavras cruzadas, fumando e tomando coquetéis em copo de plástico.


Nem todo mundo fica trancafiado numa Strandkorb – até porque elas são disputadas e pode ser difícil conseguir a sua. Há quem simplesmente estenda uma toalha para um bronzeado, se o sol for camarada e resolver surgir; há quem improvise e espete um guarda-chuva comum na areia; há quem traga sua barraca de camping e há ainda aqueles que montam uma espécie de cercadinho de lona, que também bloqueia o vento lateral e garante uma privacidade extra. 


Apesar do vento, o mar é manso e quase sem ondas. Há barquinhos velejando, mas nada de surfistas. As praias bálticas são de areia, como as brazucas, e por isso a água do mar é turva, certamente frustrando as crianças que mergulham com seus mini-snorkels tentando ver algum peixinho. Eu sempre achava que dizer “praia de areia” era redundância, mas no litoral do sul da Europa, em países como Grécia ou Croácia, há muitas praias de pedrinhas, que oferecem uma experiência bem distinta: por um lado, quem caminha sem chinelo arrisca esfolar o pé; por outro, a ausência de areia torna a água límpida, como se você estivesse num aquário gigante. Não é o caso do arenoso litoral do Báltico – que, entretanto, permite engenhosos castelinhos e esportes como o frescobol (não, não é uma exclusividade brasileira) e o vôlei de praia.


Na praia têxtil, a vestimenta é o padrão praiano – biquínis e maiôs, sungas e bermudões. Sim, eu disse “praia têxtil”, pois foi esse nome mesmo que vi numa plaquinha na orla, indicando o segmento à beira-mar onde os humanos devem cobrir suas partes íntimas. Uma setinha para o lado apontava a praia nudista, onde se pratica o FKK (sigla para Freikörperkultur, ou “cultura do corpo livre”, como o naturismo é conhecido em terras germânicas; é bastante popular, inclusive). Há ainda uma certa Hunde-Strand, a praia para cães, que presumidamente também a frequentam com o corpo livre.


Mas quem realmente toma conta da praia alemã são as gaivotas – mais especificamente, as gaivotas-prateadas, ou Larus argentatus, uma espécie que abunda nos litorais do hemisfério norte. Sempre famintas, elas sobrevoam a areia e também perambulam a pé, fuçando sem inibição os pertences de quem sai para um banho de mar e deixa pra trás as toalhas e bolsas. As mais abusadas atacam os humanos diretamente: presenciei uma senhorinha, que andava tranquila com o sorvete de casquinha que acabara de comprar, ter um naco do sorvete arrancado por uma gaivota gatuna que deu um rasante e foi-se embora satisfeita. Não sei se as gaivotas têm algum apreço especial por sorvete, mas devem comer qualquer coisa que for fácil de pescar.
 

Na praia alemã não tem água de coco, mas tem caipirinha. Invariavelmente ela é preparada com Pitú, aquela cachaça que custa 5 vezes mais na Alemanha do que no Brasil. Há também outros clássicos litorâneos como Piña Colada, Sex on the Beach e Tequila Sunrise, além de coquetéis tradicionais do verão europeu como o alaranjado Aperol Spritz. Cerveja, claro, se encontra fácil, mas há que se ter cuidado: numa barraca menos honesta, nos venderam uma garrafa que não tinha estado nem cinco minutos na geladeira e estava mais quente que a água do mar.

Em termos alimentícios, você encontra os quitutes padrão que se vende em qualquer Biergarten alemão, como pães com salsicha em diversas cores e variedades, porções de fritas e panquecas de batata (a célebre Kartoffelpuffer) com recheios de salmão defumado, arenque ou purê de maçã. Mas o mais comum é comprar um Fischbrötchen, ou “pãozinho com peixe”, um sanduíche típico dessa região do globo.

Comprei um que continha salmão defumado, alface, pepino, pimentão e cebola e saí caminhando com ele nas mãos, despreocupado e contente. De repente, ouvi um zunido bem próximo do ouvido e foi por pouco que uma gaivota não me afanou o sanduba recém-comprado das mãos. Olhei pra cima e me senti num filme de Hitchcock, mirado por aves que sobrevoavam minha cabeça, provavelmente lambendo os beiços ao ver aquele salmão suculento dando sopa na mão de um brasileiro ingênuo. Tive que voltar correndo à minha Strandkorb e me esconder sob o telhado de vime para comer o meu sanduíche de peixe em paz. E descobri mais uma das mil utilidades da Strandkorb, que é proteger a gente de ser caçado pelos pássaros.

Quem

Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

Busca no blog

Leia

Leia
Cinema-Múndi: Uma viagem pelo planeta através da sétima arte

Leia também

Leia também
A Saga de Tião - Edição Completa

Ouça

Ouça
Sifonics & Lucas Paio - A Terra é Plana

Mais lidos

Leia também


Cinema por quem entende mais de mesa de bar

Crônicas de um mineiro na China


Uma história parcialmente non-sense escrita por Lucas Paio e Daniel de Pinho

Arquivo

Contato

Nome

E-mail *

Mensagem *