segunda-feira, 17 de abril de 2017

Uma overdose de Beatles em Liverpool — Parte 2



"Hi, are you Lucas? I'm Roag", cumprimentou-me o cabeludo cinquentão de jaqueta jeans, saindo do carro. Eu estava em Hayman's Green, ruazinha numa área bem residencial de Liverpool, no jardim da casa da mãe dele. Não pra tomar chá da tarde ou algo que o valha, mas pra continuar minha peregrinação beatlemaníaca por Liverpool, que já tinha me levado a Penny Lane, Strawberry Field, Cavern Club e outros destinos ilustres. Agora eu vinha conhecer o estabelecimento que, há 60 anos, fica no subsolo daquela casa suburbana: o Casbah Coffee Club. E ao cumprimentar o Roag, que seria meu guia, eu estava conhecendo nada menos que o irmão de um ex-beatle.



Quem fundou o Casbah foi a mãe de Roag, Mona Best, que em 1959 quis surfar na onda roquenrôu e juntar a molecada pra curtir música ao vivo no porão da própria casa. A banda que ela arrumou pra tocar ali, uns tais de Quarrymen, mudaria seu nome pouco depois para The Beatles. O filho adolescente de Mona, Pete Best, seria o batera da banda de John, Paul e George por dois anos até levar um pé na bunda em 1962 pra dar lugar a Ringo Starr. Foi no mesmo ano que Mona fechou o bar e em que Roag, filho dela com Neil Aspinall (então roadie dos Beatles e futuro presidente da Apple Corps, a empresa que o grupo fundou nos anos 60), nasceu. Dava pra ver que eu estava ali em família.



Enquanto o Cavern Club recebe uma horda de fãs e turistas todos os dias, o Casbah — que reabriu para visitas há uns dez anos — não tem nem metade da fama. É uma pena, porque a visita é um barato; por outro lado, a falta de muvuca torna tudo mais exclusivo e intimista: naquela ensolarada segunda-feira havia apenas eu e mais um casal para conhecer o lugar. Roag é um guia entusiástico e reconta com bom humor aquelas histórias de família que cresceu ouvindo  — tanto é que já escreveu um livro sobre o Casbah e tem outro sobre seu pai em pré-produção. Não falta veneno contra o Cavern, que costuma levar as glórias como "o bar onde os Beatles começaram" ("Tenho aqui esta citação do Paul numa entrevista que fiz com ele, dizendo que o Casbah foi onde realmente começaram", mostra ele, orgulhoso) mas que, como contei na primeira parte deste post, é hoje uma réplica (bem divertida) do Cavern original.

O Casbah, em contrapartida, foi preservado igualzinho como era, o que inclui pinturas nos tetos e nas paredes feitas por ninguém menos que John, Paul e George, praticamente forçados por dona Mona Best a ajudar na decoração. Aí você vê um padrão "meio asteca" feito por John em um dos cômodos; faixas multicoloridas pintadas por Paul sobre o palquinho original; uma pintura laranja nada inspirada de autoria de George; uma teia de aranha gigante feita por Pete; e estrelas coladas por John num teto que, hoje, está avaliado em 1 milhão de libras. Vai colar estrela no teto procê ver se alguém vai dar valor.



Ainda menos mencionado nessas listas de "lugares beatles em Liverpool", mas que os fãs mais dedicados certamente já ouviram falar, é o pub Jacaranda — sem acento mesmo, tônica no "rân" e não no "dá". Logo quando você entra já vê na parede fotos antigas de John, Paul, George e Stuart, o baixista que morreu tragicamente em 1961 após abadonar a música pra ficar com sua amada em Hamburgo. No quadro de avisos, entre promoções e drinques do dia, a frase "The BEATLES WerE HERE". E estiveram mesmo: de início apenas frequentadores e tomadores de cerveja, os garotos começaram a ensaiar e depois a se apresentar ao vivo ali no "Jac", onde eram pagos com coca-cola e torradas. Aliás o dono do bar, Alan Williams (que morreu recentemente), viria a ser o primeiro empresário dos Beatles.

Fechado e reaberto trocentas vezes, o Jac tem essas homenagens bítous aqui e ali, mas não vive disso como outros lugares em Liverpool. Hoje são três andares: um porão, que tem um mural pintado por John e Stuart; o andar da rua, pub classicão servindo chope; e o andar de cima, onde funciona uma loja de discos especializada em anos 60 e 70 (topei até com uns vinis tropicalistas).

E vira e mexe rola música ao vivo, inclusive noites de open mic onde qualquer um pode subir lá, dedilhar um violão e cantarolar uma canção. Rolou um na minha primeira noite em Liverpool, com músicos locais se revezando entre músicas lentas, clássicos folk e inusitadas canções originais. E rolou de novo na minha última noite, um domingão, quando pintei por lá novamente para uma cerveja de despedida e perguntei na cara-de-pau se podia usar o violão do apresentador (ele me emprestou na boa). Cheguei na frente da plateia cem-por-cento desconhecida e escolhi mandar uma enérgica canção dos Beatles brasileiros, Os Mutantes. E a inglesada lá, tentando entender que cazzo era aquele de "Sabotagem! Eu quero que você se… top top top uh!".



Entre os passeios turísticos, talvez o melhor que fiz nessa viagem foi a visita a dois endereços nos subúrbios liverpudlianos: 20 Forthlin Road e 251 Menlove Avenue. Foram nessas duas casas, respectivamente, que cresceram Paul McCartney e John Lennon. Hoje elas pertencem ao National Trust, que reconstruiu os interiores exatamente como se fossem do final dos anos 50, início dos 60. O Magical Mystery Tour passa ali na porta, mas pra entrar é preciso reservar separadamente e, de preferência, com semanas de antecedência, já que só aceitam umas dez pessoas por visita.

A casa na Menlove Avenue, mais conhecida como Mendips (sua casa tem nome? a minha não), pertencia à tia Mimi, aquela que disse pro sobrinho que "esse negócio de tocar violão é muito bonito e coisa e tal, mas você nunca vai ganhar dinheiro com esse troço". A visita, guiada por um senhorzinho simpático que toma conta da casa, começa pela porta de trás — Mimi, conta ele, reservava a da frente apenas aos convidados de alta importância, que obviamente não incluíam os pirralhos Paul e George quando vinham visitar o John depois da escola. Dali conhecemos a cozinha, cheia de objetos da época; a sala de estar, repleta de livros que fizeram a cabeça do menino John; seu quarto, com discos de rock'n'roll e desenhos que ele fez; e por aí vai, tudo com uma porção de fotos e histórias sobre aqueles tempos.


Já na Forthlin Road, número 20, fica a casa onde Paul McCartney morou por anos a fio com o pai Jim e o irmão Mike (a mãe, Mary, morreu de câncer no ano em que a família se mudou pra lá). Começamos na sala de estar, que não é uma sala qualquer: foi dali que saíram "Love Me Do", "I Saw Her Standing There" e outros futuros sucessos; as fotos nas paredes, inclusive, mostram John e Paul com guitarras a tiracolo, sentados naquele mesmo chão e rascunhando aquelas canções. O piano não é exatamente aquele no qual Paul compôs a melodia de "When I'm 64" (esse fica hoje com o próprio Paul), mas é um modelo bem parecido. E os outros cômodos da casa são igualmente interessantes: a antiga sala de jantar, que virou quarto de ensaios e berço de "She Loves You"; o quarto de Paul e Mike; a cozinha; o jardim com uma calha onde Paul se pendurava pra fazer zoeira. Assim como em Mendips, a maioria dos objetos em si não são originais da casa, porque afinal pra que guardariam móveis e tralhas ao se mudarem dali no auge da beatlemania? Mas a reconstrução é tão bem feita que a sensação é de se estar viajando no tempo, pisando numa casa de sessenta anos atrás.



No final, a guia (que era a esposa do senhorzinho de Mendips) disse que, se alguém quisesse se sentar ao piano e tocar uma música dos Beatles, que ficasse à vontade. E eu ia lá perder essa chance? Abri o piano — que pode não ser o original, mas isso também não impediu Elvis Costello, James Taylor e outros visitantes famosos de tocarem —, forcei a memória muscular e arranhei a introdução de "Martha My Dear", aquela que Paul compôs em homenagem à sua felpuda sheepdog. E depois de conhecer o irmão de um ex-beatle, tocar Mutantes num bar onde os Beatles começaram, curtir um roquenrôu no Cavern Club e tocar piano na casa do Paul, fui embora de Liverpool satisfeito e feliz.

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Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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