19/01/2021

Felizes aniversários, Joaquins [Conto]


No dia em que completou 34 anos, Joaquim acordou com a vibração do celular. Despertador não era, já que este ano a data caía num domingo e ele não precisava encarar metrô lotado e bater ponto no escritório. Ainda em modo zumbi, limpou uma remela e sentiu uma pontinha de alegria ao ver a notificação do Facebook: “Você recebeu 3 mensagens de parabéns!

Quando começou a ler o que haviam publicado em sua linha do tempo, a empolgação minguou.

Felicidades, Jonas!”, escrevera uma tia-avó octogenária, que adorava as redes sociais mas confundia os familiares todos. Parabéns.” – assim, com ponto final –, dizia um antigo parceiro de League of Legends que nunca conhecera pessoalmente. A terceira mensagem vinha do perfil de uma loja de artigos capilares: “Feliz aniversário! Para celebrar esta data tão especial, siga nossa página e receba 5% de desconto em shampoos antiqueda”. Joaquim largou o celular e foi preparar o café. 

Seu aniversário sempre lhe deixava meio sorumbático. Quando moleque, passava o ano inteiro frequentando as festinhas dos colegas, ouvindo a professora puxar o parabéns na sala de aula, imaginando como seria ter um mágico de cartola e fraque se apresentando no seu próprio quintal. Mas um aniversário que ficava no meio do verão, quando todo mundo se mandava para a praia, tornava as comemorações no máximo mixurucas, quando não inexistentes. Tampouco ajudou ter mudado de escola tantas vezes, tornando as parcas amizades ainda mais efêmeras. Agora que morava em outra cidade, então, tinha uma vida social basicamente nula. Fazia anos que estava solteiro e passava as férias no interior, maratonando séries na casa da mãe. 

O plano para hoje era nessa linha: aproveitar o domingo-preguiça pra tirar o atraso da lista da Netflix, jogar um pouco de PS4 e, no fim da tarde, brindar uma cerveja artesanal consigo mesmo para celebrar mais uma translação. 

Enquanto tomava o café, o telefone vibrou novamente. Desta vez, nem e-mail nem rede social, mas um aplicativo que ele não se lembrava de ter instalado: um certo ChronoLetter. Macaco velho digital, não clicou – estava na cara que era malware. Já ia acessar as configurações para deletar o programinha intruso quando a mensagem abriu assim mesmo, em tela cheia: 

Feliz 34, Joaquim! 

Você está convidado para a melhor festa de aniversário da sua vida, em companhia de seus melhores amigos! 

Compareça às coordenadas 19°58'38.4"S 43°58'22.9"W às 17:15 de hoje. 

Até breve! 

57

Ele encarou a mensagem por um tempo, encucado. Certamente era zoeira – mas de quem? O número 57 não lhe dizia nada. Geografia não era o seu forte e pelas coordenadas só conseguia deduzir o óbvio: ficavam em algum ponto do hemisfério sul ocidental.

Jogou o monte de números e letras no Google Maps e levou um susto. Aquele ponto era bem ali, no seu apartamento – mais precisamente, no sofá azul-marinho de segunda mão onde ele estava sentado. 

Nas horas seguintes, por mais que se esforçasse para acompanhar o seriado ou passar de fase no God of War, Joaquim mal conseguiu se concentrar. Será que alguma coisa realmente ocorreria às cinco e quinze? Alternativas lhe vinham à mente. Uma festa surpresa. Seus amigos irrompendo pela porta, munidos de confetes e línguas de sogra. Mas que amigos, cara? Um carro de som na rua, inundando o apartamento com uma canção romântica e a voz da Débora gritando parabéns, eu te amo, volta pra mim. Ridículo. A Débora estava casada, contente e morando em Roraima. E de onde vinha aquele raio de aplicativo? Seria propaganda? Uma marca nova chamada 57 se aproveitando da geolocalização pra lhe vender alguma porqueira inútil?

Às 17:14, Joaquim se viu sentado no sofá azul-marinho, de banho tomado e numa roupa apresentável: pelo sim, pelo não, se chegasse visita, era melhor não estar trajando o pijama mulambento no qual passara o dia todo. Tinha um ouvido na campainha, outro na porta e nada acontecia. Ninguém chegando de supetão; nenhuma publicidade indesejada; nada de Débora. 

Nisso, começou a sentir um troço estranho – uma tontura, o quarto rodando, o corpo tremendo. O celular caiu de sua mão, a vista empreteceu e quando voltou a dar por si, continuava sentado no sofá. Só que o sofá era outro, elegante, novo em folha.

Joaquim levantou a cabeça devagarzinho, enquanto acostumava a vista ao novo ambiente. Estava num lugar cheio de gente: ouvia barulhos de conversa, talheres, uma música no fundo. Havia balões coloridos nas paredes e algumas pessoas usavam chapeuzinhos cônicos. Dois velhinhos semicalvos batiam papo. Meninos corriam pela sala. Sua vista ainda estava turva, mas parecia que não havia mulheres entre os presentes.

– Trinta e quatro, boa tarde! – veio a voz feliz e algo familiar de alguém que lhe estendia a mão. Era um homem de meia-idade, camisa polo espremendo a pança e um adesivo com o número 57 colado no peito. 

Quando olhou o rosto do sujeito, Joaquim quase teve um treco. Era como se olhasse no espelho, mas um espelho distorcido. Lembrava seu pai, só que um pouco diferente. Um tio perdido? Apesar do bigode grisalho, das rugas na testa e, sobretudo, da imensa improbabilidade da situação, não restavam dúvidas: aquele homem era ele mesmo, só que mais de duas décadas mais velho.

– Parabéns, trinta e quatro! Bem-vindo ao futuro – disse o anfitrião, puxando o estupefato Joaquim do sofá e colando-lhe no peito um adesivo com o número 34. – Desculpa, mas tô meio atarefado agora. Ainda faltam alguns pra chegar. Dá uma volta aí, tem um monte de gente que você conhece, e outros que... bem, ainda vai conhecer. Na geladeira tem aquela IPA que você adora. Fica à vontade, a casa é sua. Literalmente.

Enquanto se afastava, cambaleante, Joaquim o ouviu cumprimentar um outro sujeito que acabava de se materializar no mesmo sofá, bigodudo e barrigudo como o anfitrião, e com as mesmas feições. 

– Graaaande cinquenta e seis! Parece que foi ontem!

Começou a analisar o ambiente. Estava numa sala de estar ampla e aconchegante, do tipo que sempre sonhara em ter para si. Na prateleira, reconheceu alguns livros – ali estava a volumosa coleção de Asimov que comprara com seu primeiro salário – e viu outros dos quais nunca ouvira falar, mas que pareciam um tanto interessantes. Uma caixa de som tocava seu disco favorito do Rush. Sobre a porta, uma faixa enorme: “FELIZES ANIVERSÁRIOS, JOAQUINS!” Pois de fato: dos pirralhos aos idosos, dos balzacos aos cinquentões, todos os convidados da festa eram também aniversariantes – e eram todos o mesmo cara. 

Lá estavam os Joaquins de 12, 13 e 14 anos jogando Magic numa rodinha no chão. O Joaquim de 40 tentando resumir ao de 30 tudo o que havia aprendido sobre cerveja artesanal na última década. O de 29 anos contando a um deslumbrado Joaquim de 11 que um dia Star Wars ganharia não uma, mas duas novas trilogias. 

– Aposto que você não imaginava isso quando acordou hoje, hein, meu velho? – disse a Joaquim um Joaquim grisalho, mas ainda jovial, com o número 43 no peito. Era estranho ouvir sua própria voz saindo de outra boca, mas um alento ver que tanto esse quanto o 57 e os outros mais velhos podiam estar grisalhos, mas ainda tinham algum cabelo. 

– Não mesmo – respondeu com a mais pura verdade. 

– Eu fui um dos primeiros a chegar hoje – continuou o 43. – É engraçado ver a reação de cada um. Os mais novos aceitam a realidade da viagem no tempo muito mais fácil. Acho que depois da faculdade a gente ficou mais cético. Você já é o terceiro na faixa dos trinta que eu vejo com a mesma cara confusa. 

– É porque eu tô confuso mesmo. Isso aqui é sonho, é Black Mirror ou existe mesmo tecnologia capaz de uma coisa dessas? 

– Por incrível que pareça, existe – disse o outro. – Aparentemente, a coisa progrediu rápido depois que a Google-Tesla começou a investir em tornar os buracos de minhoca comercialmente acessíveis. Sei lá, o 57 não deu muitos detalhes. Só disse que juntar a galera foi o de menos. Difícil mesmo foi encomendar petiscos que agradassem a todos. Por exemplo: eu sou vegano, mas você ainda não é. Do 51 pra cima eles já comem carne sintética – tirando o 54, que está numa fase de reeducação alimentar em que só se alimenta de amêndoas. O 7 e o 8, como você deve lembrar, só querem saber de chocolate, mas os doces aqui de 2042 não são lá uma maravilha depois que a ONU baniu a sacarose. E por aí vai.

Para Joaquim, surreal mesmo foi perceber a rapidez com que se acostumou à surreal situação. Todos aqueles anos assistindo ficção científica ajudaram, e a cerveja mais ainda, e logo ele se percebeu confortável em meio aos seus: uma hora, abismado com os games do futuro descritos pelo Joaquim 45; outra hora, oferecendo um ombro amigo ao Joaquim 25, amuado após o pé na bunda que recém-levara da Débora. Ficou feliz em saber que no futuro continuaria gamer, moraria numa casa bacana e teria no mínimo uma seis décadas pela frente: o mais idoso ali trazia o número 93 na camisa e, pelo visto, seu fígado ainda aceitava uma cervejinha (talvez fosse um cyberfígado, mas Joaquim preferiu não perguntar).

No final do dia, cantaram “Parabéns para nós”, sopraram velinhas virtuais sobre um bolo holográfico – seria um pesadelo assar um bolo que comportasse as idiossincrasias dietárias de cada um – e tiraram uma selfie histórica com a multidão de convidados, organizados por ordem de nascimento, que o 57 prometeu enviar por ChronoLetter para o pessoal. Após tantos anos de aniversários solitários, era bom compartilhar aquela data com os outros, ainda que fossem todos um só. 

Em certo ponto da noite, porém, Joaquim passou a interagir menos e a observar mais. Fitava principalmente o bigodudo anfitrião, que papeava e contava causos a outros Joaquins. Tentava imaginar sua trajetória, suas motivações para organizar aquele encontro. Analisava o jeito que ele falava e sorria: queria enxergar satisfação e plenitude, mas algo lhe dizia solidão. 

Resolveu se aproximar de outro Joaquim, quieto num canto com um uísque na mão, o adesivo com o número 48 já descolando da camisa. 

– Festa boa, né – ele não sabia direito como puxar papo com si mesmo. 

O outro tirou os olhos do copo e encarou sua versão mais jovem. 

– Festa ok. Uísque merda. Acho que peguei da garrafa que o 57 comprou pro pessoal dos vinte e poucos, que ficava satisfeita com qualquer porcaria. 

– Bom, eu tô feliz com essa IPA que ele arranjou – disse Joaquim. – Mas me diz aí. Tô curioso. Como vão as coisas lá em… – fez uma matemática rápida – ...em 2033? Rolou a Terceira Guerra Mundial? Já descobriram vida em outro planeta? O América deu uma melhorada? 

O outro entornou mais um gole do uísque e deu uma risada debochada que respondia às três perguntas.

Para a próxima, Joaquim titubeou um pouco. 

– Imagino que a resposta também vai ser a mesma, mas… e a Débora? Vocês... nunca mais voltaram, né? 

– Débora? – o outro demorou para puxar da memória. – Ah! Aquela primeira. Nunca mais vi. Foi morar em Rondônia, Roraima, sei lá. Se você não falasse, eu nem ia lembrar. 

Joaquim sentiu um misto de decepção e alívio: um dia, quem diria, a Débora finalmente seria passado. Mas quem seria futuro? Olhou a mão que segurava o uísque e não viu aliança. 

– Você… continua solteiro? 

O outro revirou os olhos. 

– Cara. Você tá perguntando umas coisas que não quer muito saber a resposta. Quer ouvir o quê, que no futuro você vai estar pegando todas e vivendo que nem o Hugh Hefner? Ou que vai encontrar o amor da sua vida, passar lua de mel nas Bahamas e viver feliz por toda a porra da eternidade? 

– Nenhuma das duas opções me desagrada... – Joaquim tentava manter o bom-humor, mas o outro nitidamente perdera a paciência. 

– Olha ao seu redor, Joaquim. Você é um cara esperto. Acha mesmo que tem um futuro felizão te esperando na esquina? Olha o 57 ali, tentando fazer o social como se fosse o cara mais social do mundo. Se fosse, não teria chegado ao cúmulo de dobrar a merda do continuum espaço-tempo só pra reunir trocentos eus na falta de amigos de verdade nessa tristeza de festa que a gente topou participar. E o que é pior: vamos ter que participar todo santo ano, até chegar a minha vez de organizar esta pinoia e a sua de estar aqui no meu lugar, cuspindo rancor pro Joaquim de 34 que ainda é meio poliana e tem esperança de ser feliz. Dá licença, que eu preciso pegar mais uísque. 

E foi embora resmungando e deixando Joaquim em choque, tentando processar o desabafo do amargo quase-cinquentão que um dia – um dia logo ali, pois quatorze anos passam rápido – estava fadado a se tornar. 

Ao seu lado, um encurvado Joaquim de 82 anos ralhava com o de 54 por achar que comer só amêndoa o dia todo ia compensar o fato de que bebia pra burro. 

No sofá, seu eu de 25 choramingava com o de 26 por causa da Débora, ambos enfurnados na mesma fossa. 

Espalhados pela sala, os pré-adolescentes que antes jogavam Magic agora estavam separados, cada qual em seu mundinho. 

Foi aí que Joaquim, 34, solteiro e sim, ainda um otimista, criou para si um mantra: às favas com esse tal de destino. 

Aquele futuro azedo não estava talhado em pedra, e a prova era ele mesmo nesta festa: se não se lembrava de estar ali nos trinta anos anteriores enquanto suas versões mais jovens obviamente estavam, era porque o anfitrião da festa alterara a linha temporal, não mais predestinando todos aqueles Joaquins a terem aniversários solitários. Se dava pra mudar o que já tinha sido, ele mudaria o que ainda seria. Nem a pau que voltaria aqui no ano seguinte, e no próximo, e no outro, até a amarga velhice. Porque faria para si um futuro muito melhor do que o que vira com os próprios olhos. Bastasse essa vida de bicho do mato, de perder contato com os outros por inércia, de comer em frente ao laptop enquanto os colegas o chamavam para almoçar fora. Faria o mochilão pelo Leste Europeu que sempre tivera medo de realizar. Voltaria para a aula de bateria e montaria sua sonhada banda de rock progressivo. E aos 57, quem sabe, estaria numa sala como aquela mas rodeado de amigos de verdade, se pá esposa e filhos, não organizando uma verdadeira egotrip como a que testemunhara hoje. 

No fim da noite, quando os convidados começaram a retornar a suas respectivas épocas, Joaquim embarcou de volta para 2019 no refinado sofá-porto onde chegara horas atrás, com destino ao surrado sofá azul-marinho de onde partira. Apesar da vertigem e da vista turva que marcavam a jornada, estava cheio de energia para começar um novo futuro. 

Sua determinação poderia até ter funcionado se não fosse por outro Joaquim, o garoto de 11 anos de idade, que voltou empolgadão para 1996 e saiu contando aos quatro ventos que tinha viajado no tempo e conversado com um monte de si mesmos sobre Star Wars e o escambau. Primeiro veio o bullying dos coleguinhas, depois a irritação dos pais e finalmente a preocupação dos professores, uma vez que, por meses a fio, o moleque insistia na história com convicção. Acabou no consultório de um psiquiatra que o diagnosticou com transtorno delirante persistente e prescreveu um tratamento que lhe fez mais mal do que bem. Hoje, aos 34 – após largar os estudos, afundar-se no alcoolismo e nunca sequer ter conhecido a Débora –, Joaquim mora no mesmo lugar onde passou a última década, o Hospital Psiquiátrico Bom Jesus, em companhia de centenas de outros pacientes afligidos por alucinações e devaneios incompreendidos. Pelo menos, nunca mais passou um aniversário sozinho.

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Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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