04/06/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 21



AS TARTARUGAS NINJA III (Teenage Mutant Ninja Turtles III, EUA/Hong Kong, 1993, dir. Stuart Gillard)
Um fim decepcionante para a franquia (que só seria retomada 14 anos depois, e em animação), já começa com japoneses falando inglês no ano de 1603 (!!) e não melhora muito. Os movimentos das Tartarugas são muito mais toscos que nos filmes anteriores, os traços de personalidade sumiram e praticamente a única maneira de diferenciá-las é pela cor da faixa. O Splinter mais parece um Muppet. A trama de viagem no tempo não convence e não há um só personagem no elenco japonês que seja memorável de alguma forma. Tem mais cara de episódio de seriado de TV, e daqueles pra encher lingüiça no meio da temporada. Nota 2/5


HOMENS DE PRETO 3 (Men in Black III, EUA, 2012, dir. Barry Sonnenfeld)
Bem melhor que o segundo filme, este terceiro Homens de Preto não rivaliza com o original mas também não macula sua reputação. A viagem no tempo (olha ela aqui de novo) não oferece nada muito diferente de outros tantos filmes sobre o tema, mas é divertida e bem executada (a forma de viajar, pelo menos, é nova e gera uma boa gag com o crash da Bolsa em 1929). Tommy Lee Jones acaba aparecendo pouco, mas Josh Brolin encarna K com bastante competência e é fácil ver o personagem ali. O roteiro tem furos (como J ainda é um Homem de Preto depois do sumiço de K se foi K quem o recrutou na cronologia original?), mas as risadas e os detalhes visuais (Lady Gaga, as referências ao pug falante) compensam. Nota 3/5


OS CAÇA-FANTASMAS (Ghostbusters, EUA, 1984, dir. Ivan Reitman)
Alguns efeitos especiais já estão caducos, mas o espírito (ops) de Os Caça-Fantasmas permanece o mesmo. A combinação do sarcasmo de Bill Murray, o pobre do Rick Moranis que começa loser e termina ainda pior, a camaradagem entre os Caça-Fantasmas e os vários ícones – o carro, a logomarca, a contagiante música-tema – continua funcionando muito bem, e a gente até releva o fato de que, com um semideus, um cachorro chifrudo, uma geleca verde e um homem-marshmallow, sobra pouco espaço para fantasmas de verdade em Os Caça-Fantasmas. Nota 4/5



ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA (Blindness, Brasil/Canadá/Japão, 2008, dir. Fernando Meirelles)
Malhado injustamente quando foi lançado, Ensaio Sobre a Cegueira é uma adaptação fiel não só ao conteúdo, mas à forma do livro de Saramago: o estilo sem parágrafo ou pontuação do escritor é traduzido para as telas em imagens “mal” enquadradas, superexpostas e fora de foco, contribuindo muito para nos colocar na pele dos que sofrem da cegueira branca. O elenco é eclético e competente (tem de Danny Glover a Alice Braga), mas o grande destaque é o casal principal, Mark Ruffalo e Julianne Moore. E esta versão que vi agora é diferente da que assisti no cinema em um detalhe crucial: a infame narração de Danny Glover, que sempre entrava desconjuntada, praticamente sumiu, e Ensaio Sobre a Cegueira melhorou ainda mais. Pra quem curtiu o filme ou se interessa por cinema, o Diário de Blindness, escrito pelo próprio Meirelles, é imprescindível. Nota 4/5


AS TARTARUGAS NINJA - O RETORNO (TMNT, EUA, 2007, dir. Kevin Munroe)
Quem diria: ao migrar para a animação computadorizada, as Tartarugas se tornariam menos infantis e mais próximas às suas origens quadrinísticas sombrias. Nesta seqüência tardia, as Ninja Turtles não são mais Teenage: Donatello trabalha com suporte de informática, Michaelangelo é animador de festas infantis, Raphael se tornou um vigilante e Leonardo se escafedeu para um longo retiro na América Central. Os melhores momentos são os que focam nos conflitos entre as próprias Tartarugas, como a ótima luta na chuva entre Leonardo e Raphael. Infelizmente, a trama principal envolvendo monstros milenares e portais de outra dimensão soa como uma grande bobagem. Outro ponto negativo é a April, que de repórter de TV virou uma mistura de Lara Croft com a Noiva de Kill Bill (com direito a colant amarelo!); nem parece a mesma personagem. A animação em si, no entanto, compensa: o formato permite movimentos de câmera e das próprias Tartarugas que seriam impossível em live-action. Uma pena que o próximo filme, segundo os boatos, não seguirá o modelo estabelecido neste O Retorno e alterará totalmente a origem dos quelônios, transformando-os em alienígenas (!!!) e desvirtuando ainda mais o conceito: se aqui elas já não eram mais Teenage, no próximo não serão nem Mutant. Nota 3/5

28/05/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 20

E finalmente chego aos 100 filmes!


BASTARDOS INGLÓRIOS (Inglourious Basterds, EUA/Alemanha, 2009, dir. Quentin Tarantino)
O pano de fundo da Segunda Guerra é mera desculpa pra criar cenas de puro entretenimento, mostrar personagens absurdos e cativantes e homenagear o cinema. Para cada cena tensa (a que abre o filme em uma pacata fazenda francesa, ou a longa, mas sempre interessante, seqüência na taverna) há momentos impagáveis, como Brad Pitt falando italiano e todas as aparições do coronel Hans Landa. O respeito aos idiomas é raro de se ver no cinema americano e aqui desempenha um papel fundamental – é impossível imaginar este filme dublado. As referências cinematográficas às vezes são exageradas (todos os personagens, até os mais improváveis, parecem ser grandes conhecedores do assunto) mas não chegam a atrapalhar. E a catarse do final é a cereja do bolo, quando Tarantino mostra que está cagando pra História e que seu único compromisso é com o espectador. Nota 5/5


O ANJO EXTERMINADOR (El Ángel Exterminador, México, 1962, dir. Luis Buñuel)
​A proposta é surrealista, mas a execução é quase tradicional, tirando as pequenas voltas no tempo que ocorrem principalmente no início. Este é o clássico filme em que os convidados de uma festa não conseguem mais sair da casa – não que haja um impedimento físico de verdade, porque não há. Buñuel, obviamente, não oferece explicações, e você pode encaixar sua metáfora preferida. Particularmente não me agrada o final do tipo "vai começar tudo novamente...", mas não vou ficar catando pêlo em ovo. Nota 5/5


O DIA EM QUE A TERRA PAROU (The Day the Earth Stood Still, EUA, 1951, dir. Robert Wise)
Um alienígena vem para a Terra avisar que, se não pararmos de guerrear uns com os outros, sofreremos a ira da comunidade extra-terrestre. Uma ficção-científica que surpreende por levantar questões políticas em plenos anos 50, ainda gerou elementos icônicos como o design do robô Gort e a frase "Klaatu barada nikto". Nota 4/5


AS TARTARUGAS NINJA II - O SEGREDO DE OOZE (Teenage Mutant Ninja Turtles II: The Secret of the Ooze, EUA/Hong Kong, 1991, dir. Michael Pressman)
Talvez seja um dos filmes que mais vi na vida, rivalizando com Pânico e os três De Volta Para o Futuro. Eu tinha em VHS, gravado da Sessão da Tarde, e até hoje sei grande parte dos diálogos de cor, mas acho que esta é a primeira vez que vejo no idioma original. Não faz tanta diferença: a trama continua fraquinha, o Destruidor é um vilão incompetente (só recruta tapados para sua gangue, e até os monstros que cria viram tiros pela culatra), e nenhum bandido tem a idéia de dar um tiro nas Tartarugas – parece que na Nova York dos anos 90 tudo só se resolvia na base do chute. Por outro lado, o clima de galhofa torna o filme divertido (tem até participação do Vanilla Ice!), as Tartarugas têm vozes, feições e personalidades fáceis de diferenciar e eu ainda curto a trilha, da qual tenho o CD lá em casa até hoje. Tartarugas II definitivamente não é um grande filme, mas é um filme do coração. Nota 3/5


AS TARTARUGAS NINJA (Teenage Mutant Ninja Turtles, EUA/Hong Kong, 1990, dir. Steve Barron)
Superior às seqüências, é uma história introdutória divertida e tem a vantagem de inserir na comédia a pitada emocional da relação entre as Tartarugas e o Mestre Splinter. Só uma observação: é difícil reivindicar verossimilhança num filme com tartarugas adolescentes mutantes, mas o Splinter aprender ninjutsu ANTES de ter contato com o ooze é meio demais, não? Nota 3/5

25/05/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 19

Um post atrasado já que meu VPN não andava funcionando direito, mas aqui estão os filmes vistos entre 5 e 14 de maio:


OS VINGADORES (The Avengers, EUA, 2012, dir. Joss Whedon)
Melhor filme de super-heróis de todos os tempos? Calma lá, pessoal. É divertido, sim – ver a interação entre os heróis é a realização de um sonho nerd e há muitas cenas de ação absurdas e empolgantes. É engraçado – eu gargalhei de verdade em vários momentos (a maioria envolvendo o Hulk). É bem-sucedido em traduzir para o cinema a convergência de tramas e personagens que os quadrinhos já fazem há tantas décadas, algo que a DC bem que podia aprender e empreender antes de soltar um filme da Liga da Justiça. Por outro lado, não consigo engolir essa trama cósmica que é justamente a base de Os Vingadores (e que é derivada direta do filme pré-Vingadores mais fraco, Thor); se Loki é um vilão interessante principalmente pela atuação cínica de Tom Hiddleston, o Thor e o Capitão América dos dois Chris (Hemsworth e Evans) permanecem heróis deslocados e sem sal; e por mais que seja supimpa ver Nova York ser destruída por um gigantesco peixe-robô, fica sempre a impressão de que estamos assistindo a um cartum com atores e não a uma tragédia afetando milhares de seres humanos. Depois de tantos filmes mais ou menos parecidos apresentando seu panteão de heróis, sabe no que a Marvel podia investir? Numa adaptação de Marvels! Nota 3/5

O FRANCO-ATIRADOR (The Deer Hunter, EUA/Reino Unido, 1978, dir. Michael Cimino)
Filme de guerra longo mas nunca cansativo, focando na amizade entre três caras de uma cidadezinha americana e em como ela se transforma depois de uma temporada no Vietnã. O elenco é espetacular (DeNiro, Christopher Walken, John Savage e Meryl Streep, além de John Cazale em seu último filme), as cenas de roleta russa no Vietnã são tensas pra cacete e as nos Estados Unidos, que entram intercaladas com as sequências na guerra, são melancólicas e belas. Nota 5/5


BUDAPESTE (Brasil/Hungria/Portugal, 2009, dir. Walter Carvalho)
Esta adaptação do livro de Chico Buarque não fez muito sucesso de público ou crítica, mas eu curti bastante. Walter Carvalho usa no visual do filme toda sua (extensa) experiência como diretor de fotografia, o elenco é consistente e há muitas referências bacanas pra quem gosta do Chico – a capa de O Ginógrafo imitando a do livro Budapeste, uma versão de "Feijoada Completa" em húngaro e a participação do próprio Chico arranhando o idioma. E a metalinguagem no final, embora quebre totalmente a quarta parede e tire o espectador do filme antes do "recomendado", é uma tradução criativa para o que o Chico faz no livro. Nota 4/5


SHAME (Reino Unido, 2011, dir. Steve McQueen)
Um estudo de personagem que não se preocupa muito em explicar – o que é uma qualidade –, prova que Michael Fassbender consegue carregar um filme assim nas costas sem que precisemos de exposições ou flashbacks. Carey Mulligan está adequadamente irritante como a irmã instável do protagonista (só não precisava daquela versão arrastadíssima de "New York, New York") e as cenas de sexo não chegam a chocar, mas também não tornam Shame um daqueles filmes pra você ver com sua mãe. Nota 4/5


LUMIÈRE E COMPANHIA (Lumière et Compagnie, França/Dinamarca/Espanha/Suécia, 1995, dir. vários)
Cem anos depois que os irmãos Lumière inventaram o cinematógrafo e, de lambuja, o cinema, 41 diretores foram convidados a fazer curtas de 50 segundos usando a câmera-relíquia. O time inclui nomes famosos como David Lynch, Wim Wenders, Zhang Yimou e Spike Lee. Alguns deixam a câmera parada como faziam os Lumière, outros usam dollies, gruas, cadeiras de rodas e outros truques para incrementar o plano. Tem de tudo, de um remake de A Chegada do Trem à Estação a uma bebezinha sendo pressionada a falar as primeiras palavras; um divertido contraponto entre a música na China nos séculos 19 e 20, um casal se beijando cercado por câmeras de todas as gerações e uma dançarina cujo vestido vai mudando de cor de acordo com seus movimentos (o que, muito provavelmente, foi feito de forma manual, frame a frame, como se colorizava antigamente). Qualquer um interessado nos primórdios do cinema tem que conferir. Nota 4/5

05/05/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 18



DRAGÃO VERMELHO (Red Dragon, EUA/Alemanha, 2002, dir. Brett Ratner)
Mais do que um remake do Dragão Vermelho de Michael Mann, é um filme feito para encerrar a trilogia do Hannibal de Anthony Hopkins, e com isso dá muito mais destaque ao canibal do que fazia a versão de 1986: temos um flashback estabelecendo sua relação prévia com William Graham, cenários diferentes para suas conversas (além da cela tornada famosa em O Silêncio dos Inocentes, há uma divertida “caminhada” em círculos)... Mas o mais impressionante é que, quando o vilão Tooth Fairy ganha destaque, até esquecemos que Hannibal também está no filme, tamanha a presença de Ralph Fiennes. O restante do elenco – Edward Norton, Harvey Keitel, Phillip Seymour Hoffman – também é irrepreensível, o final (diferente de 86) funciona muito mais e mesmo as cenas que seguem à risca o roteiro do filme de Mann são geralmente mais tensas e bem acabadas. Nota 4/5

OLDBOY (Oldeuboi, Coréia do Sul, 2003, dir. Park Chan-wook)
Filmaço de vingança, já era excelente quando vi a primeira vez e ainda se beneficia de uma releitura, por suas diversas rimas visuais e temáticas (analisadas com detalhes no ótimo livro O Olhar do Cineasta, de Gustavo Mercado). Anotação mental: criar vergonha e assistir aos dois outros filmes que completam a trilogia da vingança de Park Chan-wook. Nota 5/5

QUEBRA DE SIGILO (Sneakers, EUA, 1992, dir. Phil Alden Robinson)
Traz um elenco de rostos conhecidos (Robert Redford, Dan Aykroyd, River Phoenix, Ben Kingsley) como um bando de hackers envolvidos em uma trama de espionagem. Não tem grandes pretensões e carrega sua cota de clichês e inverossimilhanças, mas o clima sessão-tardino e os planos mirabolantes de invasão (eletrônica ou não) valem a conferida. Nota 3/5

HOMEM DE FERRO (Iron Man, EUA, 2008, dir. Jon Favreau)
O maior trunfo é mesmo Robert Downey Jr., que compensa todas as falhas de caráter de seu personagem com uma presença marcante e um tino cômico sempre afiado. Como em dúzias de outros filmes de super-heróis, a metade "origem" funciona melhor que a do "combate ao vilão", mesmo porque a galeria de vilões do Homem de Ferro é bem xinfrim e quase sempre se resume a homens malvados vestindo armaduras. Mesmo assim, este continua sendo meu filme favorito da Marvel da safra pré-Vingadores. Nota 4/5

INTERLÚDIO (Notorious, EUA, 1946, dir. Alfred Hitchcock)
Um Hitchcock que se passa no Rio de Janeiro! (A maioria das externas é feita com o elenco em estúdio e imagens do Rio projetadas atrás, mas tudo bem.) A trama é de espionagem, mas diferentemente de Intriga Internacional, aqui Cary Grant e Ingrid Bergman sabem muito bem no que estão se metendo ao planejarem a infiltração dela na casa de um colaborador nazista. O triângulo amoroso entre o casal e Claude Rains é o grande destaque, mas o habitual de Hitch – intrigas, traições, envenamentos – também é de primeira. Nota 5/5

26/04/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 17


DE OLHOS BEM FECHADOS
(Eyes Wide Shut, Reino Unido/EUA, 1999, dir. Stanley Kubrick) Curioso: pra mim, a subtrama de suspense funcionou muito mais do que a trama principal do relacionamento entre Tom Cruise e Nicole Kidman. Quando o casal contracena, há bons diálogos mordazes e trocas de insultos, mas é nas cenas envolvendo a festa secreta que Tom Cruise vai de penetra e todas as suas conseqüências inquietantes que o último filme de Kubrick realmente faz jus à sua carreira primorosa. Nota 4/5


OS MUPPETS
(The Muppets, EUA, 2011, dir. James Bobin)
A volta dos Muppets às telonas é boa, mas tinha potencial pra ser bem melhor. As músicas cansam rápido: nunca são lá muito engraçadas e muito menos avançam a história, limitando-se a repetir coisas que acabamos de ver. (Por outro lado, a vencedora do Oscar "Man or Muppet" ganha pontos pela genial participação-surpresa de um certo comediante.) A trama de "reunião de velhos amigos" também fica previsível rápido, e o filme só ganha fôlego mesmo quando começa o show dos Muppets no teatro, depois de mais de 1 hora de projeção. Aí melhora substancialmente, talvez porque as canções passam a fazer muito mais sentido e cada Muppet ganha seu momento solo. (Senti falta de uma presença mais ativa do cachorro pianista, um dos meus preferidos no desenho dos Muppet Babies.) Mas a impressão é que há dois filmes competindo por atenção em Os Muppets: um cheio de idéias bacanas e feitas para agradar um público que já conhece a linguagem cinematógraficas ("Let's travel by map!" e outras piadas metalingüísticas estão por toda parte), e outro bobinho e infantil. Nota 3/5


DRAGÃO VERMELHO
(Manhunter, EUA, 1986, dir. Michael Mann)
Muita gente não sabe, mas foi esta a estréia de Hannibal Lecter (aqui, "Lecktor") no cinema. A trama principal, envolvendo o serial killer "Fada dos Dentes", é eficaz mas menos interessante que as cenas com o famoso canibal; o protagonista William Graham tem a mania chata de falar sozinho (como se "conversasse" com o assassino) e a trilha oitentista, cheia de sintetizadores, não contribui muito com o suspense. Brian Cox, por outro lado, faz um Hannibal bem competente, e é uma pena que apareça tão pouco. Nota 3/5


O SILÊNCIO DOS INOCENTES
(The Silence of the Lambs, EUA, 1991, dir. Jonathan Demme)
Vendo o Dragão Vermelho original e revendo O Silêncio dos Inocentes logo na seqüência, é inevitável comparar. Este aqui é superior em todos os sentidos. Já começa com uma protagonista bem mais interessante e complexa, uma jovem investigadora tentando se auto-afirmar em um mundinho masculino que certamente deve ter influenciado a Debra Morgan de Dexter. Anthony Hopkins foi o responsável por colocar Hannibal no topo da lista dos maiores vilões do cinema do American Film Institute, mas o mais interessante é que seu personagem é um anti-vilão, com regras morais bem particulares. (Sabe quem mais é assim? O Dexter de Dexter!) E o filme ainda vai muito mais além, com o vilão de verdade (Ted Levine) assustando tanto quanto seu colega dr. Lecter e a direção de Jonathan Demme dando aula de como se faz um thriller. Nota 5/5


HANNIBAL
(Reino Unido/EUA, 2001, dir. Ridley Scott)
Sim, é repleto de absurdos, a grande maioria em sua meia hora final – vi pela primeira vez há mais de 10 anos e ainda lembrava bem da refeição cerebral. Sim, o filme desvirtua a personagem de Clarice Starling e é muito difícil conectar a Julianne Moore daqui com a Jodie Foster de lá. Mesmo assim, é um entrenenimento dos bãos. Anthony Hopkins continua muito à vontade como o canibal-título e é bem legal vê-lo em sua “natureza selvagem”. Se não faz jus como seqüência de um dos melhores thrillers dos anos 90, como filme isolado Hannibal funciona bastante. Nota 4/5

20/04/2012

Coréia do Sul - a raspa do tacho

Trick Eye Museum, em Seul, é dedicado a ilusões de ótica. Não dá pra esquecer a câmera: grande parte da graça da visita está em tirar fotos engraçadinhas pra postar na internet, como também acontece no Madame Tussauds. A maioria das "obras" são pinturas na parede com as quais dá pra "interagir" - o que só funciona mesmo se você tirar foto ou pelo menos tapar um olho para o efeito 2D necessário.

Tem muita reprodução de quadro famoso com algum detalhe escapando pra fora do quadro:

  

 

 

Eu também tive a minha cota: 

 
 

 

 

Também visitamos um aquário no COEX Mall, o maior shopping subterrâneo de Seul. E da Coréia do Sul. E da Ásia. O troço é gigante e me admira que não colocaram trenzinhos pra ajudar você a se deslocar de lá pra cá, como fazem nos aeroportos. O aquário em questão mostrava a mesma peixaiada de sempre (como no aquário de Beijing ), mas com algumas novidades, como esse tanque onde você enfia a mão... 

 

... e um cardume de mini-peixes saboreia suas cutículas. 

 

Falando em saborear, parece que alguém teve sashimi na janta: 

 

Fecho a trilogia de posts sul-coreanos com um apanhado de coisas avulsas. Como este cartaz no meio da rua, que explicava de modo bem simples os princípios do Cristianismo: 

 

Ou essa estátua gigante de... pincel? 

 

Este pombo só está aqui porque gostei do penteado: 

 

Seul tem uns bares cujo estilo eu gostaria de ver mais em Beijing, ou mesmo no Brasil. Gostei principalmente de dois: um "mercado de cerveja", em que você tem à sua disposição uma geladeira com trocentas cervejas do mundo inteiro para escolher a seu bel-prazer... 

 

...e um bar repleto de discos de vinil onde você anota uma canção, eles se viram pra achar o LP correspondente e colocam na vitrola pra galera ouvir. 

 

Enquanto os banheiros chineses mal mal têm papel higiênico, os sul-coreanos curtem aquelas privadas multifuncionais, que vêm com um zilhão de comandos... 

 

...e até manual de instruções, com dicas do nível de " Press Cleansing to clean your posterior ". 

 

Mas o melhor mesmo foi ver um passo-a-passo ensinando você a... lavar a mão! 

 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

16/04/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 16


NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA (Annie Hall, EUA, 1977, dir. Woody Allen)
Além dos diálogos espertos e do fato de ser uma comédia romântica sem final feliz ("Vocês queriam o quê? Era minha primeira peça."), o barato de Annie Hall é sua inventividade: há crianças na sala agindo como os adultos que ela se tornarão, Woody Allen tirando um filósofo detrás de um bimbo, falando para a câmera, interagindo com flashbacks, desenho animado, Diane Keaton saindo do corpo, legendas com o que os personagens estão realmente pensando. Não foi o primeiro nem o último filme a fazer coisas assim – Morangos Silvestres do Bergman já tinha personagens revisitando cenas do passado, e 500 Dias com Ela foi saudado como super original por gente que provavelmente nunca viu Annie Hall. Pois vejam! Nota 5/5


A ONDA (Die Welle, Alemanha, 2008, dir. Dennis Gansel)
A idéia, baseada em um experimento sociológico verídico, é bacana: um professor decide demonstrar aos alunos como um movimento fascista pode surgir facilmente mesmo numa sociedade democrática. Já a execução sofre com alguns problemas, quase todos de roteiro: há personagens demais, e me parece um tanto improvável que nenhum aluno de uma turma de 40 tenha percebido que aquilo era um experimento e que o professor estava mesmo era tirando onda. Nota 3/5


O GRANDE LEBOWSKI (The Big Lebowski, EUA/Reino Unido, 1998, dir. Joel & Ethan Coen)
Comédia cult que gerou sua própria convenção anual e até uma pseudo-religião, O Grande Lebowski é irmãos Coen puro, mas mesmo vendo de novo (e esse é daqueles que melhoram a cada revisão, à medida que falas que nem são tão engraçadas viram piadas internas), ainda não o considero um filme excelente. Quase chega lá, mas as seqüências de sonho, por mais que sejam criativas, acabam se tornando barrigas, como em 90% dos filmes que exploram o recurso; o roteiro malucão não consegue dar um fechamento lá muito satisfatório (como bem apontam os Coen no making-of, cadê o tapete no final?) e o personagem de John Goodman poderia ser o pai de Zach Galifianakis em Se Beber Não Case: é de se admirar que um sujeito tão imprevisível ainda possa ter amigos. Nota 4/5


ATRAÇÃO FATAL (Fatal Attraction, EUA, 1987, dir. Adrian Lyne)
Embora aqui e ali o roteiro possa ser previsível, e a coisa fique um tanto maniqueísta no final (com direito até a rapto de criança e o "susto final" zoado no primeiro Pânico), é um thriller bem eficiente. Glenn Close é a ultimate crazy bitch, e dá até dó do Michael Douglas ser perseguido por uma mulher daquelas, mesmo com culpa no cartório. Nota 4/5


TITANIC (EUA, 1997, dir. James Cameron)
Titanic tem seus detratores, mas me inclua fora dessa. Reconheço vários probleminhas, principalmente a caracterização vilanesca de Billy Zane e seu capanga, mas as qualidades compensam de longe. É um filme de 3h15 em que me peguei olhando o relógio uma só vez (em John Carter, que também vi no cinema, foram umas quinze); uma história de amor melosa, com uma trilha mais melosa ainda, que consegue me manipular mesmo na sexta ou sétima revisão. É interessante ver Leonardo Di Caprio e Kate Winslet ainda "verdes", segurando o filme com competência mesmo sem serem os atores que são hoje (curiosamente, o resto do elenco praticamente sumiu das telas). As transições entre a carcaça do Titanic cheia de lodo no fundo do oceano e o luxuoso interior pré-iceberg continuam espetaculares – os efeitos especiais, aliás, são quase todos bem orgânicos e não envelheceram. O 3D, no entanto, varia entre o competente e o prejudicial. É competente nas cenas que envolvem multidões e várias camadas de detalhes, especialmente no interior do navio; mas prejudicial quando há personagens em primeiro e segundo plano e aqueles em primeiro plano estão desfocados: ver um borrão saltando na sua frente é justamente o contrário da intenção original de desfocar aquele personagem para direcionar nossa visão ao outro. Não adianta: pode até ser divertido rever no cinema um filme que você curte (eu adoraria ver De Volta Para o Futuro na telona), mas se ele não foi pensado em 3D, nem James Cameron que é James Cameron consegue fazer milagre. Nota 5/5 para o filme, mas o 3D vale uns 3/5.

Quem

Lucas Paio já publicou contos em revistas e antologias, já dirigiu curtas-metragens e compôs canções, já ganhou um campeonato de aviões de papel, tocou teclado numa banda cover de Bon Jovi, morou na China e hoje vive em Berlim. É autor do romance de fantasia cômica MACADÂMIA, lançado em 2025.

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