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20/04/2012

Coréia do Sul - a raspa do tacho

Trick Eye Museum, em Seul, é dedicado a ilusões de ótica. Não dá pra esquecer a câmera: grande parte da graça da visita está em tirar fotos engraçadinhas pra postar na internet, como também acontece no Madame Tussauds. A maioria das "obras" são pinturas na parede com as quais dá pra "interagir" - o que só funciona mesmo se você tirar foto ou pelo menos tapar um olho para o efeito 2D necessário.

Tem muita reprodução de quadro famoso com algum detalhe escapando pra fora do quadro:

  

 

 

Eu também tive a minha cota: 

 
 

 

 

Também visitamos um aquário no COEX Mall, o maior shopping subterrâneo de Seul. E da Coréia do Sul. E da Ásia. O troço é gigante e me admira que não colocaram trenzinhos pra ajudar você a se deslocar de lá pra cá, como fazem nos aeroportos. O aquário em questão mostrava a mesma peixaiada de sempre (como no aquário de Beijing ), mas com algumas novidades, como esse tanque onde você enfia a mão... 

 

... e um cardume de mini-peixes saboreia suas cutículas. 

 

Falando em saborear, parece que alguém teve sashimi na janta: 

 

Fecho a trilogia de posts sul-coreanos com um apanhado de coisas avulsas. Como este cartaz no meio da rua, que explicava de modo bem simples os princípios do Cristianismo: 

 

Ou essa estátua gigante de... pincel? 

 

Este pombo só está aqui porque gostei do penteado: 

 

Seul tem uns bares cujo estilo eu gostaria de ver mais em Beijing, ou mesmo no Brasil. Gostei principalmente de dois: um "mercado de cerveja", em que você tem à sua disposição uma geladeira com trocentas cervejas do mundo inteiro para escolher a seu bel-prazer... 

 

...e um bar repleto de discos de vinil onde você anota uma canção, eles se viram pra achar o LP correspondente e colocam na vitrola pra galera ouvir. 

 

Enquanto os banheiros chineses mal mal têm papel higiênico, os sul-coreanos curtem aquelas privadas multifuncionais, que vêm com um zilhão de comandos... 

 

...e até manual de instruções, com dicas do nível de " Press Cleansing to clean your posterior ". 

 

Mas o melhor mesmo foi ver um passo-a-passo ensinando você a... lavar a mão! 

 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

29/03/2012

Sob o solo de Seul

 

Vou de metrô, cê sabe... 

Que inveja do metrô de Seul. E olha que Beijing não faz feio, com suas 14 linhas (e mais um monte em construção) que te levam aos confins mais remotos por apenas R$ 0,50. Mas enquanto Seul tem um número parecido de linhas, a rede é muito mais entrelaçada e você escapa de enfrentar baldeações longuíssimas pra ir ali no bairro vizinho. Meu amigo coreano tem até um aplicativo para smartphone falando o número exato do vagão que você precisa pegar para transferir mais rápido. Isso é que é vontade de chegar logo. 

A título de comparação: o metrô de Seul atual... 
 

...e o de Belo Horizonte, incluindo as linhas que ainda não estão prontas. 
 

Pra te agarrar de volta ao subsolo, as estações estão cheias de lojinhas de bugigangas, barraquinhas de lanche e 7 Elevens. Algumas oferecem até entretenimento: telonas touchscreen com opções que vão do prosaico jogo-da-velha até programinhas que usam a câmera pra mudar sua roupa na tela. E todas as estações trazem plano de fuga, várias mascaras anti-gás e placas de abrigo subterrâneo – o que é compreensível, dada a presença de uns certos primos loucos ao norte da fronteira. 

  

 
Sem falar que os vagões têm braços e pernas e posam pras fotos à maneira asiática. 

A de amor, Bieup de baixinho... 

 

À primeira vista, o idioma coreano escrito parece um mundaréu de tracinhos impenetráveis e formas infinitas. Mas por baixo dessa casca hieroglífica há um simples alfabeto de poucas letras, como o nosso – a única diferença é que eles são agrupados por sílabas e não um atrás do outro, dando essa impressão de que são milhares como no chinês. É só na China mesmo que você precisa decorar 10 mil símbolos diferentes pra poder ler um jornal. 

Para escrever "saram" (pessoa), por exemplo, você faz assim: 
 
Se a gente usasse o mesmo sistema... 
 

​Segundo o dito popular, o alfabeto Hangeul é tão fácil que um homem sábio pode terminar de aprendê-lo antes do almoço e um idiota consegue o mesmo até a hora de dormir. Meu amigo fala que 30 minutos bastam, mas ele é coreano e aí não vale. Eu posso dizer por experiência própria que uma ou duas tardes ociosas no trabalho são suficientes pra você sacar o básico. ​Recomendo o site Korean Wiki Project , que ensina passo-a-passo como se alfabetizar em coreano. Em algumas horas você já consegue escrever soju, kimchi, makgeolli e Kim Jong-il usando os tracinhos do Hangeul. E visitar a Coréia sabendo pronunciar placas e cardápios, mesmo sem conhecimento algum do idioma, já dá um tchan diferente à sua viagem. 

Falar a língua é outra história, com suas palavras compridas e inúmeras flexões verbais. Eu só aprendi o básico: annyeonghaseyo ("oi"), gamsahamnida ("obrigado") e maekju ("cerveja"). Foi o suficiente. 

Tá na mesa, pessoal! 

Era tanto cartaz e resenhas nas revistas sobre o tal do Nanta que resolvemos conferir. E foi um barato. Nanta é um espetáculo sul-coreano apresentado ininterruptamente desde 1997 e que já foi até pra Broadway, onde recebeu o nomeCookin' . No Brasil, provavelmente viraria Uma Cozinha do Barulho . Imagine uma mistura do Stomp, grupo de percussão que usa objetos do cotidiano, com aqueles esquetes dos Trapalhões fazendo bolo. 

 

Quem vê o panfleto imagina que os pobres atores têm uma jornada de trabalho escravagista: são nove apresentações por dia em quatro teatros espalhados por Seul. Na verdade, há dez elencos diferentes, cada qual com seu Gerente mandão, o Sobrinho mala, o "Rapaz Sexy" em clima de azaração, a Garota aprontando altas confusões e o Chef de Cozinha tentando pôr ordem na casa. 

O fiapo de história – os cozinheiros precisam preparar um imenso banquete de casamento em apenas uma hora – serve como desculpa para os improvisos musicais e as situações pastelão. Eles usam colheres, garfos, facas e cutelos para batucar pratos, panelas, tábuas de madeira e latas d'água; despedaçam cebolas, repolhos, alfaces e pepinos, zoneando o palco sem perder o ritmo; batem uns nos outros, fazem acrobacias e caretas e botam gente da platéia pra cozinhar e fazer papel de bobo em público. 

Fui tentar tirar foto e uma mulher do teatro veio correndo dizer que não podia, mas este vídeo faz um trabalho melhor do que eu faria: 

28/02/2012

Bibimbap-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum!

 

Morando na China, é fácil dar um pulo na Coréia do Sul. O vôo de Beijing pra Seul dura coisa de uma hora e meia, e a maioria dos povos – brasucas inclusos – não precisa de visto. No último ano-novo chinês, feriadão que muda de data a cada ano e neste começou em 23 de janeiro, zarpamos para Seul. Só tínhamos três dias pra ficar lá, mas entre uma Beijing com clima de Beagá no carnaval e um novo carimbo no passaporte, bora viajar. 

Acontece que o ano-novo coreano também obedece ao calendário lunar e é celebrado no mesmo dia do chinês. O feriado não dura 15 longos dias de restaurantes fechados e fogos de artifício barulhentos e ininterruptos, como na China – não ouvi um foguete sequer em Seul, aleluia saravá! – mas, por três dias, a maior parte das lojas fecha as portas. Justamente os três dias em que estivemos por lá. 

 

Saímos do hotel e encontramos aquelas avenidonas desertas, com pouquíssimos transeuntes – o que é especialmente incomum para uma metrópole de 10 milhões de habitantes. A barriga roncava e não havia nem uma carrocinha de cachorro-quente pra salvar o dia. Um mercado aberto compridão oferecia peixes, camarões, lulas, algas marinhas, raízes, pimentas, temperos e até sacões enormes de pipoquinhas estilo Aritana (!), mas nada que pudesse saciar o bucho de um visitante ali,in loco 

 

 

 

 

 

 

A essa altura já tínhamos desistido de encontrar um restaurante: os únicos estabelecimentos abertos, por alguma razão que me foge à compreensão, pareciam ser as lojas de lâmpadas e abajures (mentira: também vi uma vendendo serras elétricas). Qualquer misto quente, méquidônalde ou espetinho de gato estava valendo. E finalmente, depois de muito caminhar, cantar e seguir a canção, deparamo-nos com o impensável: um restaurante! De comida coreana! Aberto! 

A comida coreana é popular aqui em Beijing, onde vivem dezenas de milhares de sul-coreanos (e também não é tão difícil encontrar norte-coreanos). Minha predileta é o churrasco, que até já ganhou um post aqui no Boca. Mas nunca fui viciadão na comida da península, minha maior ressalva sendo o sabor assaz apimentado quase onipresente nos pratos. Minha primeira providência antes de sair nas ruas de Seul, aliás, foi pedir para o camarada do hotel anotar num papelzinho como é que se diz "not spicy, please" no idioma local. 

Mas todas as minhas experiências gastronômicas na Coréia foram jóia, a começar por esse primeiro almoço. Pedi um prato famoso com nome que lembra groove de bateria: bibimbap. É basicamente um mexidão tudoaomesmotempoagora, com arroz no fundo, uma espessa camada de vegetais sortidos e quiçá uma carninha, além de um ovo de gema mole por cima. Você mistura tudo com afinco e manda pra dentro. Também pedimos uma panqueca de frutos do mar que foi uma boa pedida, embora carinha que só. 

 


Garçonete-mãos-de-tesoura 

Todos os pratos, não importa se fossem bibimbap, churrasco, panqueca ou macarrão, vinham sempre acompanhados de diversos pratinhos complementares, geralmente apimentados e incluindo o indefectível kimchi. O repolho picante é praticamente um símbolo do país e Seul abriga até um Museu do Kimchi, que segundo o site exibe mais de 80 variedades diferentes do troço. Não, obrigado – se fizessem um museu sobre soju ou makkeoli, as bebidas tradicionais da Coréia, eu até pensava em visitar. 

 
Quem me falar o que exatamente tinha nesses 6 pratinhos ganha um brinde do blog. 

 
Makkeoli, vinho de arroz que se bebe nessa cumbuquinha de metal. 

 
Deliciosos espetinhos de batata frita em espiral. 

Já com a pança cheia, continuamos nossas andanças e descobrimos que aquele clima de "Eu Sou a Lenda" não se espalhava por toda a cidade: nós é que demos o azar de escolher hotel numa região onde todo mundo saiu de férias. Felizmente, havia muitos mercados, cafés, bares e atrações abertas, bastava só se aventurar por outras bandas. A noite de ano-novo (lunar), por exemplo, passamos em uma ruazinha repleta de bares, na companhia de alguns amigos que também fugiram de Beijing por uns dias. Perto da meia-noite brindamos soju e fizemos contagem regressiva, mas os coreanos nas outras mesas nem tchum. É que ao contrário do nosso reveillón, em que o momento fugaz entre as 23h59min50s e a meia-noite é o ponto alto da comemoração, no ano-novo lunar você não fica com a sensação de ter perdido a festa se por acaso estiver no banheiro ou dormindo na hora da virada. 

No próximo post: como se alfabetizar em coreano, um espetáculo cômico-culinário e que inveja do metrô de Seul. 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

24/11/2010

Churrasquinho coreano

Enquanto a tensão entre as duas Coréias volta aos noticiários e preocupa o mundo, aproveite para conhecer uma especialidade da gastronomia da península: o churrasco coreano.

Só em Beijing moram dezenas de milhares de sul-coreanos, que costumam se aglomerar nas mesmas regiões e criar suas próprias "Koreatowns" em plena capital da China. Assim, é muito fácil encontrar estabelecimentos coreanos por aqui - a própria escola onde estudo mandarim atualmente tem donos coreanos. Restaurantes, claro, também existem aos montes.

Ao contrário das churrascarias rodízio que temos no Brasil, com o garçom trazendo e fatiando a carne pronta no seu prato, o churrasco coreano utiliza a mão-de-obra da clientela. Os próprios comensais se encarregam de cortar e grelhar a carne que comem, numa experiência meio fonduesca (ou hotpotiana). Confira como se prepara um churrasquinho à maneira coreana:

Eles começam servindo os acompanhamentos. Cebola, nabo, kimchi (prato de vegetais levemente picante, tipicamente coreano), molhinhos diversos e salada de folhas fazem parte do pacote. 

  

Parece uma pia com torneira, mas é um bojo com exaustor em cima. Todas as mesas têm um desses no centro.

 
 

Dentro do bojo, coloca-se um balde de ferro com brasa ardendo quá fogueira de São João... 


 

...e uma grelha por cima. 


 

Há carnes de boi, porco e outros bichos (mas não vi cachorro no cardápio). Algumas já vêm picadas, outras você mesmo precisa cortar, a tesouradas. 


 

Coloque os pedaços sobre a grelha e deixe o calor fazer o serviço. Também dá pra sapecar umas batatas e outros legumes. 


 

Para degustar o churrasco, pegue uma folhona de alface e o molhinho de sua preferência... 


  

...faça uma trouxinha com a alface, e mande pra dentro. 


 

Churrasco sem bebida não é churrasco, e os coreanos sabem disso. A garrafa verde da foto traz um líquido esbranquiçado chamadomakkoli , um vinho de arroz com sabor adocicado e 6,5-7% de álcool. A bebida transparente no copinho é a soju , um destilado que lembra vodca mas tem graduação alcóolica menor (20%). 


 

Melhor ainda é a propaganda da Bek Se Ju , uma bebida fermentada também conhecida como "vinho de cem anos". O anúncio no cardápio traz o desenho abaixo... 


 

...e uma "parábola" explicando: 

A Lenda de Bek Se Ju 

Certa vez, um nobre cavalgava por um vilarejo, quando testemunhou uma cena incomum. Um jovem surrava um homem velho que parecia ser seu pai! 
O nobre parou seu cavalo para xingar o jovem. 
"Por que você está batendo em um velho tão frágil?" 
O jovem virou-se e disse: "Na verdade, este é meu filho, que nasceu quando eu tinha 80 anos. Por várias vezes mandei que ele bebesse Bek Se Ju para não envelhecer. Mas ele nunca me ouviu, por isso agora parece muito mais velho do que eu." 
O nobre ficou bastante surpreso e imediatamente mostrou seu respeito ao homem que parecia jovem. Então perguntou o que era Bek Se Ju. E o sujeito explicou: 
"Bek Se Ju é um vinho de arroz cultivado junto com 12 tipos de ervas orientais diferentes, incluindo ginseng coreano e gengibre. Quem bebe Bek Se Ju se mantém jovem e saudável". 


Já pensou um anúncio assim passando na TV? 

Quem

Lucas Paio já publicou contos em revistas e antologias, já dirigiu curtas-metragens e compôs canções, já ganhou um campeonato de aviões de papel, tocou teclado numa banda cover de Bon Jovi, morou na China e hoje vive em Berlim. É autor do romance de fantasia cômica MACADÂMIA, lançado em 2025.

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