Um dia com os elefantes
O mahout explica pacientemente os comandos físicos e as instruções verbais: "Segure na parte de cima da orelha dela, dê um chutinho na pata dianteira e diga sum-sum . Quando ela levantar a pata, use como degrau para subir." Faço o que ele diz, mas meu pontapé na pata não surte efeito algum, quiçá faz uma cosquinha. O mahout chuta com mais determinação, ela dobra a pata e mantém, eu pego impulso e subo com esforço, puxando a orelha, não sem precisar de um empurrão extra do mahout. Como era pra andar pra frente mesmo? Pou-pou ? Pai-pai ? Se é verdade que os elefantes nunca esquecem, não dá pra dizer o mesmo dos humanos.
Estamos no Elephant Village, a uma hora de Luang Prabang, centro-norte do Laos. Escolhemos este lugar entre quase uma dezena de opções após uma rápida caminhada pela rua principal de Luang Prabang. Algumas agências trabalham apenas com passeios-relâmpago de trinta ou quarenta minutos. Outras, como o Elephant Village e o All Lao Elephant Camp, organizam mini-aventuras que duram até 6 dias, onde você acampa no mato e aprende a andar de elefante, comandar o elefante, alimentar o elefante, dar banho no elefante. Os passeios que duram mais do que uma voltinha ligeira costumam ser chamados de "cursos de mahout". Na verdade, um mahout – o cara que conduz e trata dos bichões – costuma ficar com um mesmo elefante a vida inteira, e não é uma semana no mato que vai fazer de um turista um especialista; mas a experiência é certamente mais válida do que simplesmente sentar em uma cadeirinha nas costas do elefante, posar para umas fotos e ir embora. A palavra "mahout", aliás, tem equivalente em português: "cornaca". Acho que "mahout" impõe mais respeito.
" Pai-pai ", digo eu, já montado no pescoço da elefanta, as duas mãos em sua cabeça, o corpo ainda meio duro, tentando descobrir se vou me equilibrar. Ela obedece e dá a partida. Caminha sem pressa, rebolando, balançando a tromba e abanando as orelhas. Um mahout vai atrás de mim, sentado sem cerimônia ou preocupação. Damos uma volta rápida onde ela obedece a todas as minhas instruções, ainda que eu tenha que repeti-las algumas vezes: hao-hao , hao-hao , hao-hao ! Desço – ou melhor, escorrego pra baixo – e agradeço à elefanta com uma carícia no rosto e um kop chai lai lai .
Enquanto os mahouts preparam várias elefantas para o primeiro passeio de verdade, nosso guia nos leva a uma pequena fábrica de papel dentro do próprio Elephant Village. Com o papel produzido aqui, eles fazem cartões, marcadores de livros e bloquinhos de anotações. E o que papel tem a ver com um acampamento de elefantes? Tudo: ele é fabricado a partir do cocô dos elefantes.
O processo é explicado tintim por tintim – só faltou uma animação do Mr. DNA, como havia no Parque dos Dinossauros. Os toloscões de cocô são coletados, lavados e fervidos para matar as bactérias. Segundo a explicação, cocô de elefante não fede – e eu prefiro acreditar nisso do que aproximar o nariz de um monte fresco e averiguar por conta própria. Eles adicionam um pouco de alvejante, amassam a massa em uma maquininha por algumas horas e enrolam bolinhas de 300 gramas cada. Cada bolinha é espalhada em uma tábua grande para virar uma folhona de papel. Aí é só deixar secar, tingir o papel de azul, vermelho ou o que você preferir e transformá-lo em belíssimos souvenirs. O dinheiro é usado para comprar mais comida para os elefantes, que por consegüinte fazem mais cocô – são cerca de 50 quilos por dia! – e mantêm o ciclo funcionando.
De volta à nossa base, chegou a hora de encher a pança. Mas primeiro vem a pança das elefantas: os caules de um metro que ganharam da senhorinha na ida e na volta foram apenas aperitivo. Elas comem mais de duzentos quilos de vegetais por dia. Um de seus preferidos são folhas de abacaxi – sim, aquelas folhas duras e espinhudas que nós jogamos fora sem pestanejar. Na hora do almoço paquidérmico, elas recebem montes e montes de comida dos tratadores, mas os turistas também podem comprar cachos de banana – a preço de banana, ainda bem – e fazer um agrado às elefantas que acabaram de nos levar no lombo. Compramos um cacho. Precisa descascar?, perguntamos. Nada, é só tirar a banana do cacho e entregar à elefanta, que busca avidamente por comida com a ponta da tromba. Ela agarra a banana, manda pra boca e engole antes que possamos arrancar outra do cacho. Devora um, dois, três cachos inteiros de bananas como quem engole um pacotinho de M&Ms.
Nosso pacote ainda inclui um passeio de barco, uma visita a um acampamento vizinho e uma cachoeira com ares de artificial. Mas o que fica marcado é mesmo o contato com aquelas garotas de nariz comprido, orelhas de abano e corpo troncudo – não posso garantir que, como no dito popular, elas jamais esquecerão, mas nós certamente não vamos. Não é todo dia que você fica amigo de alguém com duas toneladas.
Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

















