01/03/2013

Um dia com os elefantes

 

O mahout explica pacientemente os comandos físicos e as instruções verbais: "Segure na parte de cima da orelha dela, dê um chutinho na pata dianteira e diga sum-sum . Quando ela levantar a pata, use como degrau para subir." Faço o que ele diz, mas meu pontapé na pata não surte efeito algum, quiçá faz uma cosquinha. O mahout chuta com mais determinação, ela dobra a pata e mantém, eu pego impulso e subo com esforço, puxando a orelha, não sem precisar de um empurrão extra do mahout. Como era pra andar pra frente mesmo? Pou-pou Pai-pai ? Se é verdade que os elefantes nunca esquecem, não dá pra dizer o mesmo dos humanos. 

Estamos no Elephant Village, a uma hora de Luang Prabang, centro-norte do Laos. Escolhemos este lugar entre quase uma dezena de opções após uma rápida caminhada pela rua principal de Luang Prabang. Algumas agências trabalham apenas com passeios-relâmpago de trinta ou quarenta minutos. Outras, como o Elephant Village e o All Lao Elephant Camp, organizam mini-aventuras que duram até 6 dias, onde você acampa no mato e aprende a andar de elefante, comandar o elefante, alimentar o elefante, dar banho no elefante. Os passeios que duram mais do que uma voltinha ligeira costumam ser chamados de "cursos de mahout". Na verdade, um mahout – o cara que conduz e trata dos bichões – costuma ficar com um mesmo elefante a vida inteira, e não é uma semana no mato que vai fazer de um turista um especialista; mas a experiência é certamente mais válida do que simplesmente sentar em uma cadeirinha nas costas do elefante, posar para umas fotos e ir embora. A palavra "mahout", aliás, tem equivalente em português: "cornaca". Acho que "mahout" impõe mais respeito. 

 

Chegamos às oito da manhã após uma hora de estradinha de terra, trazidos em uma van do próprio Elephant Village. As inúmeras Beerlao Dark tomadas na noite anterior fazem o corpo pedir clemência, mas não dá tempo de pensar na ressaca: o dia será longo e não é sempre que você vai parar no meio do Laos para aprender a ser um condutor de elefantes. Optamos pelo programa de um dia só, mas fica a curiosidade de fazer o curso de seis dias, num futuro distante onde tempo, dinheiro e disposição não forem problemas. A impressão é a de que estamos em um Jurassic Park. Há várias tendas espalhadas no meio das árvores, cada uma devidamente sinalizada: aqui é onde os elefantes são alimentados, ali fica o veterinário responsável, lá no meio é o centro de visitantes. Você aprende que todos os elefantes vivendo aqui são fêmeas, mais mansas e fáceis de lidar; são da espécie Elephas maximus, vulgo elefante asiático, menores que seus primos africanos; e a maioria foi resgatada da árdua indústria madeireira, que "emprega" centenas de elefantes no Laos. Aqui elas também têm que trabalhar em troca de hospedagem e comida, mas é carregando humanos nas costas duas ou três vezes por dia, não puxando árvores inteiras por quinze horas seguidas. 

 

Pai-pai ", diz o mahout, ensinando ao bando de estrangeiros como é que faz para o elefante andar pra frente. Como todo comando verbal, um pai-pai deve ser acompanhado por um gesto físico correspondente: neste caso, encostar os dois pés atrás das orelhas da elefanta. Todos os comandos são no idioma lao e não é mole decorar vários de uma vez: sai-sai para virar à esquerda, kuá-kuá para virar à direita, hao-hao para parar, map-map para descer, kop chai lai lai para ser gentil e agradecer ao bicho pelo passeio. 

Pai-pai ", digo eu, já montado no pescoço da elefanta, as duas mãos em sua cabeça, o corpo ainda meio duro, tentando descobrir se vou me equilibrar. Ela obedece e dá a partida. Caminha sem pressa, rebolando, balançando a tromba e abanando as orelhas. Um mahout vai atrás de mim, sentado sem cerimônia ou preocupação. Damos uma volta rápida onde ela obedece a todas as minhas instruções, ainda que eu tenha que repeti-las algumas vezes: hao-hao hao-hao hao-hao ! Desço – ou melhor, escorrego pra baixo – e agradeço à elefanta com uma carícia no rosto e um kop chai lai lai 

Enquanto os mahouts preparam várias elefantas para o primeiro passeio de verdade, nosso guia nos leva a uma pequena fábrica de papel dentro do próprio Elephant Village. Com o papel produzido aqui, eles fazem cartões, marcadores de livros e bloquinhos de anotações. E o que papel tem a ver com um acampamento de elefantes? Tudo: ele é fabricado a partir do cocô dos elefantes. 

O processo é explicado tintim por tintim – só faltou uma animação do Mr. DNA, como havia no Parque dos Dinossauros. Os toloscões de cocô são coletados, lavados e fervidos para matar as bactérias. Segundo a explicação, cocô de elefante não fede – e eu prefiro acreditar nisso do que aproximar o nariz de um monte fresco e averiguar por conta própria. Eles adicionam um pouco de alvejante, amassam a massa em uma maquininha por algumas horas e enrolam bolinhas de 300 gramas cada. Cada bolinha é espalhada em uma tábua grande para virar uma folhona de papel. Aí é só deixar secar, tingir o papel de azul, vermelho ou o que você preferir e transformá-lo em belíssimos souvenirs. O dinheiro é usado para comprar mais comida para os elefantes, que por consegüinte fazem mais cocô – são cerca de 50 quilos por dia! – e mantêm o ciclo funcionando. 

 

 

As elefantas estão equipadas agora com uma howdah – aquela famosa cadeirinha de madeira, amarrada com cordas, que você vê nos filmes. Para chegar lá em cima não basta dizer sum-sum e esperar a elefanta levantar a perna. É preciso ir até o segundo andar de uma cabana de madeira, deixar a elefanta estacionar ao lado e subir. Vamos de dois em dois, mais um mahout no pescoço. As elefantas, que pesam cerca de duas toneladas cada, não parecem se importar muito com a carga extra. Seguimos em uma fila de seis ou sete paquidermes por uma trilha de terra com mato nos dois lados. O ritmo é lento e há tempo para admirar a natureza e tirar fotos. Alguns mahouts descem do elefante com as câmeras dos turistas nas mãos; enquanto os cornacas de primeira viagem têm que se virar com os sai-sais kuá-kuás , os mahouts experientes se divertem mais com os brinquedinhos fotográficos e tiram fotos de tudo e todos. 

 

 

 

 

No meio do passeio, uma senhorinha aparece com grandes caules e folhas de bananeira, que são devorados pelos elefantídeos em questão de minutos. Por um momento achei bonito o altruísmo da senhorinha, mas depois vi a logomarca do Elephant Village num carro estacionado ali perto e entendi que ela é paga para fazer isso. A trilha de terra dá em um rio enorme, mas esta parte do passeio ficará para depois do almoço. Vamos apenas até à margem – depois de descermos um barranco íngreme onde você tem a certeza de que vai se esborrachar no chão – para que as elefantas possam saciar a sede. Todos os mahouts agora já desceram e deixaram um dos turistas que estavam na cadeirinha comandando os bichos. Click, click, click: elefantes não são nenhuma novidade, mas as câmeras eles acham um barato. 

De volta à nossa base, chegou a hora de encher a pança. Mas primeiro vem a pança das elefantas: os caules de um metro que ganharam da senhorinha na ida na volta foram apenas aperitivo. Elas comem mais de duzentos quilos de vegetais por dia. Um de seus preferidos são folhas de abacaxi – sim, aquelas folhas duras e espinhudas que nós jogamos fora sem pestanejar. Na hora do almoço paquidérmico, elas recebem montes e montes de comida dos tratadores, mas os turistas também podem comprar cachos de banana – a preço de banana, ainda bem – e fazer um agrado às elefantas que acabaram de nos levar no lombo. Compramos um cacho. Precisa descascar?, perguntamos. Nada, é só tirar a banana do cacho e entregar à elefanta, que busca avidamente por comida com a ponta da tromba. Ela agarra a banana, manda pra boca e engole antes que possamos arrancar outra do cacho. Devora um, dois, três cachos inteiros de bananas como quem engole um pacotinho de M&Ms. 

 

Estamos de volta em cima das elefantas, depois de um almoço bem servido e uma meia horinha de descanso. É a última parte do passeio e o ponto alto do dia. Cada turista – digo, aprendiz de mahout – está sentado agora em sua própria elefanta, sem cadeirinhas ou confortos. O lance agora é roots: você vai descalço, montado no pescoço da elefanta, as mãos nos pêlos espetados do cocoruto dela. Seguimos a mesma trilha de antes. A perna dói de vez em quando, tensa na mesma posição. Não faz mal, logo chegamos ao nosso destino: o rio onde antes elas beberam água. Só que agora, instruídas pelos mahouts experientes, elas continuam seguindo sem cerimônia, pata ante pata, entrando no rio até cobrirem as pernas, a tromba e a boca. Chegou a hora de dar banho nas elefantas. 

 

 

O mahout, sentado nas costas do bicho, me entrega uma escovona dessas de lavar roupa no tanque. Esfrego a testa da elefanta, o cocoruto, o pescoço, atrás das orelhas. Ela fecha os olhos, toda folgada, achando ótimo. O mahout usa um balde para despejar água nas partes que ainda estão secas: eu, obviamente, também fico encharcado em dois minutos. Ao meu lado, os outros aprendizes também se divertem com suas respectivas elefantas, e elas parecem adorar. Um dos mahouts diz uma palavra no idioma lao: a elefanta levanta a tromba sobre sua cabeça e dispara um jato no americano que está sobre ela. Minha elefanta não é tão bem treinada, para meu alívio: o americano ficou não apenas encharcado, mas com resquícios de meleca de elefante na cara. Nada que um mergulho rápido do rio não resolva. Eu, mesmo sem meleca, aproveito para fazer o mesmo. 

Nosso pacote ainda inclui um passeio de barco, uma visita a um acampamento vizinho e uma cachoeira com ares de artificial. Mas o que fica marcado é mesmo o contato com aquelas garotas de nariz comprido, orelhas de abano e corpo troncudo – não posso garantir que, como no dito popular, elas jamais esquecerão, mas nós certamente não vamos. Não é todo dia que você fica amigo de alguém com duas toneladas. 


FIM! 

(da série Laos)


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

22/02/2013

Sabaidee, Luang Prabang!


Uma viagem de ônibus de Vientiane a Luang Prabang , centro-norte do Laos, leva 11 horas de estradas tortuosas e esburacadas – já vi a pavimentação descrita como uma "paisagem lunar". Navegando pelas águas barrentas do rio Mekong, leva-se 8 horas em um barco ligeiro e três dias inteiros numa embacação menos apressada. Já um vôo da Lao Airlines que dura apenas meia hora, em um avião novinho que tem até entrada USB nas poltronas para você recarregar seu celular. Não é a opção mais barata ou a que permite a melhor visão dos belos cenários silvestres do Laos, mas com certeza é a mais prática e segura. 

Se o aeroporto de Vientiane mais parece uma rodoviária do interior, o de Luang Prabang te lembra de cara que você pousou em um destino turístico, cheio de cartazes anunciando trilhas, viagens de barco, passeios de elefante. A cidadezinha de 50 mil pessoas já foi capital do Laos em mais de uma ocasião, sendo a última até 1975, quando os comunistas arrancaram o rei do trono e mudaram a capital para Vientiane. Enquanto a importância política diminuiu, o apelo da cidade só cresceu: Luang Prabang é hoje patrimônio mundial da Unesco e um dos lugares mais visitados no Laos. Sabaidee Luang Prabang, primeiro longa-metragem produzido no país (em 2008!), faz a cidade de cenário e título. Há vôos que a ligam a Bancoc, Hanói e outros destinos internacionais, dispensando o uso de Vientiane como conexão: na verdade, quem está sem tempo para peregrinar pelo Laos pode ir direto pra Luang Prabang e não vai se arrepender. 

Ensanduichada entre dois rios, o Mekong e o Nam Khan, a cidade tem aquele clima meio praiano, onde ninguém parece ter muita pressa, água de coco e peixe são fáceis de achar e o sol rachando é mais que adequado para uma cervejinha à beira d'água. É algo assim como uma Paraty sem ruas de pedra, casarões coloniais ou mar – mas tão charmosa quanto. 

   
Placa da nossa pousada: achei que o nome fosse "That's a phone", dado por entusiastas da invenção de Graham Bell, mas é "Thatsaphone" mesmo, o sobrenome do dono do lugar 

O budismo é muito forte no Laos e mais ainda em Luang Prabang. Um dos programas favoritos dos turistas, aliás, é testemunhar a tak bat , cerimônia matutina de doação de alimentos aos monges. Eles ficam nas ruas ao nascer do sol, coletando arroz, frutas e outros alimentos de moradores locais e visitantes. É uma tradição antiquíssima que, pra variar, anda sofrendo com o excesso de turismo. O cardápio de um restaurante onde jantamos (Lao Lao Garden, excelente) trazia até uns conselhos sobre o assunto, começando com: " não trate os monges como se fossem macacos no zoológico ". Porque é isso que muitos fazem: chegam para o ritual matinal, dão ali umas contribuições compradas na hora de um camelô e ficam tirando fotos na cara dos monges. " NÃO compre nada dos vendedores de rua ", dizia o cardápio. " Logo haverá mais pessoas do Laos vendendo arroz grudento pros turistas do que doando elas mesmas para os monges. " O artigo sobre Luang Prabang no Wikitravel diz ainda que muitos ambulantes vendem comidas velhas e estragadas para a turistada, deixando muitos monges doentes e pouco dispostos a continuar a tradição. Pior: o governo do Laos mandou avisar que, se os monges não quiserem participar mais do teatrinho, serão substituídos por gente comum vestida com os típicos roupões de cor laranja. Seria uma lástima para o budismo e para a tradição, mas bem que alguns turistas mereciam. 

 
Acordar às seis da manhã pra presenciar comportamento escroto de turista é brabo. 
(Foto do Wikitravel, porque a essa hora eu tava dormindo) 

Muitos dos inúmeros templos espalhados por Luang Prabang, por outro lado, estão abertos ao público e agradecem sua visita. As regras de respeito continuam, claro: não entre de bermuda ou camiseta, tire os sapatos antes de pisar nas áreas internas e, pelo amor de Buda, não fique falando aos berros um com o outro como certos grupos de turistas adoram fazer (cof cof chineses cof cof). Um dos templos mais legais fica no monte Phu Si, onde, ao final de 100 metros de subida, você é recompensado com uma bela vista da cidade. Há várias estátuas e pequenos adornos no caminho, Budas gordos e magros, deitadões, espichados, meditando. A atração mais curiosa não é uma estátua, mas uma casinha marcada com a placa "pegada de Buda". Tá mais para um Budasaurus rex, porque o pezão gravado na pedra mede pelo menos 1 metro de comprimento. 


Compare meu pé com os dedões no canto inferior direito. Buda gue bariu! 

 
Ofidiofóbicos, tremei: olha quem encontramos ao passear no Phu Si. 

 
 
Sem sapato e com blusa, faça-me o favor! 

 

 

 
 
Essa aí tá mais pro Buda de domingo. 

Várias outras atrações merecem uma visita em Luang Prabang. O Wat Xieng Thong ("Templo da Cidade Dourada") remonta ao século 16, quando o Brasil ainda era neném. É o mosteiro mais antigo da cidade, continua sendo usado normalmente por jovens e velhos monges – como todos os outros no Laos – e é cheio de detalhes interessantes, como as paredes com figuras de vidro representando a vida cotidiana nos tempos de outrora. 

 

 

 

 

O Haw Kham é o antigo palácio real, hoje museu nacional. Mais recente – tem "apenas" cento e poucos anos –, foi o lar do rei Sisavang Vong (1885-1959) e sua família: podemos ver seus aposentos, objetos pessoais e uma suntuosa coleção de carros, com fotos de todos os sorridentes motoristas que levaram o rei para passear por aí. É também o local onde guardam a Prabang, uma imagem de Buda de 83 centímetros feita no Sri Lanka em algum momento entre os séculos I e IX (é, faz tempo). Todo ano, no terceiro dia do ano-novo lao, a Prabang é levada em procissão pela cidade até o Wat Mai, o maior templo da cidade. Há rumores – que só descobri depois, pesquisando na internet – de que a Prabang exposta no museu é uma cópia, e que a original está trancada em um cofre em Vientiane por questões de segurança; outros sugerem que a imagem verdadeira foi presenteada aos soviéticos nos anos 1970 em troca de ajuda durante a Guerra Fria. Vai saber. 

Já o Centro de Artes Tradicionais e Etnologia é um museu pequeno, mas bem interessante pra quem quer conhecer um pouco mais da cultura do Laos. Seu foco são as várias etnias que habitam o país e como elas diferem entre si: estimativas apontam 160 grupos étnicos no Laos, falando um total de 82 idiomas. Uma sala exibe roupas usadas em cerimônias tradicionais, cheias de cores e tecidos. Outra mostra objetos rurais de uso cotidiano, como uma armadilha para ratos. A exibição mais interessante relata causos de casamentos, que deram certo ou não. Há o relato de uma mulher: " Como eu ficava dizendo não, ele achou que precisava me roubar. Disse que ia me levar de moto até a casa da minha mãe, mas quando passamos pelo campo e ele continuou seguindo em direção à vila Khua Thee Neung, eu sabia o que ele tinha planejado. Joguei um sapato na estrada e mandei ele parar para que eu pudesse pegar. Aí desci da moto e disse: tchau tchau! ". Outra conta o primeiro encontro com seu futuro marido: " Eu não sabia o que dizer pra ele, e era muito tímida. Então ficamos só olhando um pra cara do outro. Além disso, meus pais eram muito protetores. Não tínhamos a chance de conversar um com o outro como as pessoas fazem hoje... Nos primeiros três meses de casamento, sequer comíamos juntos, porque eu era tão tímida ". 

Para levar uns souvenirs pra casa, o ideal é dar uma passada no mercado noturno que ocupa vários quarteirões da rua principal ao entardecer. Nada de eletrônicos, produtos falsificados de marcas famosas ou artefatos modernos: o lance aqui é só produto artesanal, das obrigatórias camisetas estilo fui-ao-Laos-e-lembrei-de-você (eu tive que comprar uma camisa da Beerlao) e muitas bolsas de pano, cachecóis coloridos e badulaques, até elefantinhos e macaquinhos de todos os formatos e tamanhos e garrafas de Lao Lao – a fortíssima aguardante do Laos – com cobras (mortas) em seu interior. Vai encarar? 

 
Além de vestir de maneira bem discreta, o gringo ainda queria pagar em euro! 

 
Quer pagar quanto? 

Mas o programa mais legal que fizemos em Luang Prabang não estava descrito em nenhum guia turístico: simplesmente alugamos bicicletas e saímos por aí, desbravando a área rural da cidade. O aluguel é barato – o equivalente a R$ 2,50 por um dia inteiro –, embora não dê pra dizer que sejam as bikes mais bem conservadas do mundo: eu precisava começar a frear a trinta metros de onde queria parar, senão já era. Estava um sol de rachar e as garrafinhas d'água e o protetor solar só ajudavam o suficiente para não desidratarmos. Seguimos a rua principal até sairmos do tranqüilo miolo turístico e chegarmos a uma estrada asfaltada e barulhenta, cheia de carros, motos, tuk-tuks. Mais um pouco e toda a fumaça e o barulho dos veículos já tinha sumido. Dezenas de crianças saíam da escola, todas de bicicleta: fomos atrás, escolhendo os caminhos menos movimentados, as estradinhas de terra mais precárias, para ver onde aquilo ia dar. 





 

Logo estávamos no meio do nada, cercados por árvores, montanhas e mato, percorrendo trilhas de terra e atravessando pontes bambas de madeira. De vez em quando surgia uma vendinha caseira, onde podíamos reabastecer o estoque de água. Aqui e ali, patos, galinhas e cães conviviam naquele clima sossegado de roça. As crianças que encontrávamos pelo caminho, voltando da escola de uniforme em direção a suas casinhas de bambu, não saíam correndo aos risos nem viravam a cara quando dizíamos " Sabaidee! ", a simpática expressão-curinga que serve para oi, bom dia, como vai: cumprimentavam de volta, sorriam com sinceridade, às vezes até tomavam a iniciativa e eram os primeiros a mandar um sabaidee . A mesma coisa com seus pais, mães e avós com quem topávamos pelo caminho, vivendo em um mundo onde praticamente tudo – língua, cultura, governo, condições econômicas, condições de vida – era bem diferente do nosso: não éramos tratados como hóspedes honorários, estrangeiros intrometidos ou seres exóticos de outro planeta, mas simplesmente pessoas. Às vezes, isso basta. Sabaidee, Luang Prabang! 

No próximo post: um dia com os elefantes 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

15/02/2013

Comendo com a mão

Talvez a revelação mais surpreendente sobre a culinária do Laos seja que, ao contrário de praticamente todos os países ao seu redor, eles não usam pauzinhos pra comer. Onipresentes na China, no Japão, nas Coréias, no Vietnã, na Tailândia e onde mais você pensar, no Laos eles são encontrados apenas em restaurantes de comida chinesa ou japonesa. Garfos e facas são bem mais comuns, e foram oferecidos em quase todos os restaurantes em que comemos. Mas a maioria dos pratos tipicamente laocianos não exigem do comensal nenhum utensílio específico para serem ingeridos: come-se com a mão e ponto final.

O arroz é um item básico e a forma como é preparado é fundamental para que a comilança manual funcione. Nada do arroz soltinho e bem temperado como fazemos no Brasil: o arroz do Laos é grudento e seco, ideal para você pegar com uma pinça formada pelo polegar, o indicador e o dedo médio, amassar em montinhos que caibam na sua boca, mergulhar em molhinhos dos mais variados tipos e mandar pra dentro. Os molhos mais populares incluem um de tomate, que gostei bastante, e um de berinjela, que definitivamente não curti – mas é que nunca fui fã do legume; os pró-berinjelistas certamente vão apreciar.

 

 

Quem não mantém bom relacionamento com a pimenta deve ter certo cuidado no Laos, porque muitos pratos aparentemente inofensivos vêm carregado no ardor. Um dos mais famosos é a salada de mamão verde, que mistura fatias finas de papaia com uma boa dose de red hot chili peppers. A picância também está presente em muitos dos suculentos peixes servidos nos restaurantes à beira do Mekong, mas se meu estômago reclamou depois, meu paladar apreciou bastante. 

 

Na categoria "aperitivos insólitos para a mesa de bar", entram as algas secas com gergelim e a pele de búfalo seca. As algas desceram bem com goladas de Beerlao Dark, mas a pele borrachuda não me apeteceu: a carne de búfalo, basicamente uma carne de boi com gosto mais forte, saiu-se bem melhor. Mas bom mesmo foram o peixe com ervas embrulhado em folha de bananeira e o capim-limão recheado com frango, ambos degustados no restaurante Tamarind, em Luang Prabang – que também servia, como parte da mesma refeição, a abóbora com gengibre, a lingüiça de Luang Prabang e uma sobremesa de arroz grudento com leite de coco e molho de tamarindo. O Tamarind também oferece cursos rápidos sobre como preparar as iguarias laocianas. Se estiver com tempo em Luang Prabang, dê uma olhada. 

 
Frango no capim-limão: excelente. 

 
Alga seca com gergelim: até que passa. 

 
Pele de búfalo: melhor evitar. 

A influência francesa na Indochina pode ser sentida nas várias barraquinhas que vendem sanduíches em baguetes, e são sempre uma boa opção para o café da manhã. Também são bem comuns os estandes de vitaminas feitas na hora, com ingredientes tão diversos quanto maçã, melancia, limão, abacate, fruta-dragão e... biscoito recheado! 

 

E se a ubíqua Beerlao, já descrita em um post anterior, não for forte o bastante para seu paladar – ou seu fígado –, experimente o Lao Lao, uma aguardante local feita de arroz grudento e que tem pelo menos 50% de álcool. Mas é melhor não marcar nenhuma trilha ou passeio de elefante para o dia seguinte. 

  
Eu não podia deixar de experimentar sabores bizarros e altamente industrializados de refrigerantes famosos. Esta Fanta Laranja-Banana-Abacaxi tem gosto de pasta de dente, enquanto a Fanta Blueberry, claro, causa um efeito colateral que não podia ser outro: 



No próximo post: Sabaidee, Luang Prabang! 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

31/12/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 47 (e final!)

Ufa! Foram 235 filmes comentados em 47 posts, mas cumpri minha promessa de escrever breves comentários sobre todos os longas vistos em 2012. O público-alvo sou basicamente eu mesmo daqui a um tempo, quando quiser relembrar o que achei de determinado filme; tanto que divulguei pouquíssimo nos Facebooks da vida e nem sei se alguém leu. Agora chega: o que eu escrever sobre cinema em 2013 será publicado em textos maiores no Cinema de Buteco, sem esse meu compromisso de comentar absolutamente todos.

Aqui vão os cinco últimos filmes que vi em dois mil e dôuze:


2010: O ANO EM QUE FAREMOS CONTATO (2010, EUA, 1984, dir. Peter Hyams)
A galera que reclama dessa onde de remakes e seqüências não precisa se preocupar: eles sempre existiram, são lembrados quando bons e sumariamente esquecidos quando não prestam. Enquanto 2001: Uma Odisséia no Espaço é top 10 da Sight & Sound, quem é que se lembra hoje em dia de 2010: O Ano em que Faremos Contato? Pra ser justo, 2010 é uma ficção científica que tem bons momentos (o engenheiro obrigado a virar astronauta, a tensão de uma manobra espacial jamais tentada) e é muito mais fácil de entender do que 2001. Mas essa última característica é justamente a sua ruína: é um filme que não sabe quando calar a boca. Tudo é explicado tintim por tintim através de diálogos, narrações em off, mensagens escritas em telas de computador. Cenas que se beneficiariam da "mudez" do original, como o interessante (embora absurdo) final, são estragados pelo falatório, e os mistérios de 2001 são mastigados e explicados como um guia de estudo: descobrimos até porque HAL 9000 ficou doidão. (Sugestão para um terceiro filme: um improvável romance entre HAL e SAL 9000, a "computadora" que aparece aqui.) E enquanto 2001 era um filme à frente de seu tempo e continua à frente até do nosso, 2010 tem uma cara datada de anos 80, com toda aquela história de Guerra Fria e Roy Scheider como protagonista. Nota 2/5


STANLEY KUBRICK A LIFE IN PICTURES (EUA, 2001, dir. Jan Harlan)
Documentário narrado por Tom Cruise e lançado dois anos após a morte de Kubrick, A Life in Pictures exalta todas as genialidades do diretor no que diz respeito à sua obra, mas não o glorifica como pessoa: está lá a Shelley Duvall dizendo o quanto sofreu durante O Iluminado, Malcom McDowell contando que ele nunca mais o telefonou e até a própria filha de Kubrick falando que o pai era uma pessoa difícil. É uma pena que haja tão pouco material em vídeo com o próprio Stanley Kubrick – e seria complicado para os documentaristas arranjarem isso com ele morto –, mas A Life in Pictures faz um ótimo trabalho em retratar o diretor a partir de todos os fragmentos pessoais e cinematográficos que ele deixou. Nota 4/5


REBECCA, A MULHER INESQUECÍVEL (Rebecca, EUA, 1940, dir. Alfred Hitchcock)
Um dos raros filmes de Hitchcock que (durante sua maior parte) não envolve uma trama policial, Rebecca tem mesmo assim uma morta assombrando os vivos, embora não no sentido literal: é a memória da personagem-título, tão forte entre os que se lembram dela, que oprime a nova Mrs. de Winter (Joan Fontaine, com um adequado ar ingênuo). Algumas opções estilísticas não envelheceram muito bem, com a trilha melodramática sempre presente e algumas atuações meio teatrais, mas é um ótimo Hitchcock onde o suspense demora um pouco pra aparecer e segredos surgem nas figuras de quem você menos espera. Nota 4/5


DONNIE DARKO (EUA, 2001, dir. Richard Kelly)
Não é difícil entender por que Donnie Darko virou cult: misterioso, onírico, cheio de conceitos intrigantes que dão margem a diversas teorias e um protagonista que personifica muitos sentimentos de outsider compartilhados pelos jovens. A trama de viagem no tempo não é assim tão difícil de entender, mas a sensação é de que o então estreante Richard Kelly tinha uma porção de idéias e quis usar tudo-ao-mesmo-tempo-agora, ignorando as pontas soltas. Não estou cobrando uma explicação de mão beijada sobre certos detalhes do filme, mas – já que Kelly aparentemente explica bastante nos comentários do DVD e na versão do diretor (a que eu vi é a do cinema) –, seria bacana se pudéssemos montar o quebra-cabeça sozinhos, sem precisar de um manual. Nota 3/5


A.I. INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL (A.I. Artificial Intelligence, EUA, 2001, dir. Steven Spielberg)
O polêmico filme de Spielberg é daqueles que pode não agradar da primeira vez, mas vale revisitar. As idéias que propõe sobre inteligência artificial, amor, desejo e livre arbítrio são bem interessantes, Haley Joel Osment está excelente como o pequeno robô e Spielberg não economiza em imaginação (e orçamento) na hora de criar seu mundo futurista: tem uma infinidade de modelos robóticos, Nova York submersa, Mechas superavançados – não, eles não eram aliens, e já faziam parte da versão original proposta pelo Kubrick (essa história de que há "o final do Kubrick" e o "final do Spielberg" é uma injustiça que o próprio Spielberg já se encarregou de esclarecer). Não é um filme perfeito, mas está longe de ser a porcaria que pintam por aí. Nota 4/5

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 46

Especial Kubrick...


A MORTE PASSOU POR PERTO (Killer's Kiss, EUA, 1955, dir. Stanley Kubrick)
Kubrick retorna ao universo do boxe depois de seu primeiro curta, o documentário Day of the Fight. Este segundo longa tem uma estrutura estranha, com flashbacks dentro de flashbacks; o romance entre o boxeador e a garota acontece rápido demais e a história só engrena no final. Mas também tem seus momentos interessantes, como a desajeitada luta final em um depósito de manequins, e uma seqüência de sonho pelas ruas de Nova York que lembra bastante a viagem bizarra do astronauta no final de 2001. Nota 3/5


O GRANDE GOLPE (The Killing, EUA, 1956, dir. Stanley Kubrick)
Após dois longas medianos, este é o primeiro filme realmente ótimo de Kubrick. É um filme de assalto em que é fácil entender quem é quem, qual é o plano e o que acontece a cada momento, apesar das inúmeras reviravoltas e saltos temporais. Bom, a narração explicativa ajuda bastante, ainda que seja um recurso "fácil" demais (que já tinha sido usado nos filmes anteriores de Kubrick e também apareceria em vários outros no futuro). O assalto pode até dar certo, mas o que acontece depois disso com os bandidos é quase de partir o coração... Nota 5/5


SPARTACUS (EUA, 1960, dir. Stanley Kubrick)
Muito mais um filme de Kirk Douglas do que de Stanley Kubrick, Spartacus é, não obstante, um épico de primeira, com a trajetória trágica de seu protagonista, várias cenas memoráveis (gosto particularmente daquelas na escola de gladiadores, como os exercícios e as tintas usadas pelo "professor" para mostrar onde acertar – vermelho, mata na hora; azul, aleija; amarelo, mata lentamente...) e uma cena de batalha que impressiona ainda hoje. A música não precisava estar presente o tempo inteiro e o tom às vezes fica meio meloso nas cenas entre Spartacus e sua amada Virinia, mas isso faz parte do gênero e vou até relevar. Nota 5/5


BARRY LYNDON (Reino Unido/EUA, 1975, dir. Stanley Kubrick)
Um filme pouco visto de Kubrick, feito entre os ultraconhecidos Laranja Mecânica e O Iluminado, Barry Lyndon é geralmente elogiado pela bela fotografia que utiliza apenas luz natural e criticado pela falta de emoção. O que é estranho, já que as obras de Kubrick sempre foram conhecidas por serem muito mais cerebrais, e nem por isso deixam de ser grandes filmes. Em defesa de Barry Lyndon, há sim vários momentos humanos, como a cena em que o protagonista conta uma história para seu filho (e o narrador, que dá spoiler o tempo inteiro sobre o que vai acontecer, não atrapalha a história, que não depende do suspense para funcionar). Longo (três horas), mas nunca monótono como dizem os detratores, Barry Lyndon narra com calma a ascensão e queda de seu personagem-título, contando com o estilo particular do diretor (que enche de zoom-outs um filme de época), duelos absurdos e um epílogo ótimo de apenas uma frase. Nota 5/5


LARANJA MECÂNICA (A Clockwork Orange, Reino Unido/EUA, 1971, dir. Stanley Kubrick)
Um dos melhores de Kubrick (de uma filmografia excepcional), Laranja Mecânica pode não ter agradado o autor do livro, mas é quase unanimemente um filmaço. Alguns podem se assustar com a "dose de ultraviolência", mas é curioso que odiemos Alex DeLarge na primeira metade do filme e fiquemos quase com pena na segunda. A trilha beethoviana, a direção de arte detalhista e o vocabulário muito particular de DeLarge e seus amigos (ou "droogs") completam o pacote. Nota 5/5

Quem

Lucas Paio já publicou contos em revistas e antologias, já dirigiu curtas-metragens e compôs canções, já ganhou um campeonato de aviões de papel, tocou teclado numa banda cover de Bon Jovi, morou na China e hoje vive em Berlim. É autor do romance de fantasia cômica MACADÂMIA, lançado em 2025.

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