01/07/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 26

 

DURO DE MATAR 4.0 (Live Free or Die Hard / Die Hard 4.0, EUA/Reino Unido, 2007, dir. Len Wiseman) 
O quarto Duro de Matar elimina toda a aura de anos 80 da série e é claramente um produto dos anos 2000: a fotografia esverdeada pós-Matrix, a tecnologia capaz de controlar o mundo como na franquia Bourne. É bacana ver um Bruce Willis cinqüentão voltando à pele de John McClane e fazendo suas peripécias improváveis (o carro despencando no fosso do elevador que muito lembra Jurassic Park, o confronto entre um caça e o caminhão), há boas sacadas como a mensagem terrorista editada a partir de discursos de presidentes dos EUA (idéia chupada de vídeos do YouTube) e o elenco de apoio (o sidekick shialabeoufiano, a filha que entra pra compensar a ausência de sua mãe) não é muito memorável, mas não incomoda. Duro de Matar 4.0 pode não trazer nada de novo, mas não faz feio ante seus predecessores. Nota 3/5

 

PONTO FINAL - MATCH POINT (Match Point, Reino Unido/Luxemburgo, 2005, dir. Woody Allen)
Primeiro Woody que vi na vida (é, eu comecei tarde), cresceu muito na revisão. É um irmão mais novo de Crimes e Pecados, com Jonathan Rhys-Meyers fazendo uma versão jovem e mais calculista de Martin Landau (e Scarlett Johansson, uma contraparte bem mais sexy de Anjelica Huston). Allen considera este um dos melhores que ele já fez, e na minha lista também ocupa agora uma posição privilegiada. Nota 5/5


BATMAN BEGINS (EUA/Reino Unido, 2005, dir. Christopher Nolan)
Embora eu curta os filmes de Tim Burton (principalmente o tão malhado Batman – O Retorno), este foi o que mostrou ao mundo – acostumado com as galhofas da série de TV e alienado pelas trapalhadas de Joel Schumacher – o verdadeiro Batman dos quadrinhos. A opção pelo excesso de vilões (Joe Chill, Carmine Falcone, Espantalho e dois Ra's al Ghul) acaba ajudando a focar mais em Bruce Wayne e seu processo de tornar-se o Homem-Morcego. Um filme sólido, que ajudou tanto a apagar da memória o Batman dos anos 90 quanto a pavimentar o caminho para uma seqüência ainda melhor. Nota 4/5

 

BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS (The Dark Knight, EUA/Reino Unido, 2008, dir. Christopher Nolan) 
Taí um filme que não dá folga para o espectador. Da introdução com o assalto ao banco, que nos apresenta ao Coringa, até o confronto final com o Duas-Caras, são duas horas e meia sem pausa para respirar, e a trilha sonora só contribui para não deixar a tensão morrer. Todos os acertos de Batman Begins retornam aqui, com ótimas adições (Harvey Dent protagoniza o verdadeiro arco do filme, enquanto o Coringa de Heath Ledger já recebeu tantos elogios que nem vou falar mais nada) e substituições eficazes (Maggie Gyllenhaal é uma Rachel Dawes mais feia, mas com muito mais presença). Se nenhuma revisão em DVD conseguiu reproduzir com exatidão a experiência de ver O Cavaleiro das Trevas no cinema, ele permance um filmaço, e não só dentro do subgênero de super-heróis. Nota 5/5


MEMÓRIAS (Stardust Memories, EUA, 1980, dir. Woody Allen)
Ainda que seja um filme sério, Memórias funciona como uma grande piada de Woody Allen em relação a sua própria carreira – o cineasta tentando criar obras fellinianas, a platéia que prefere seus "filmes mais antigos, mais engraçados". O filme é uma colagem de trechos de filmes de Sandy Bates (o personagem de Woody), sonhos, alucinações e, claro, memórias. E com isso, por mais que tenha boas piadas ("Não sou narcisista. Narciso não é o personagem da mitologia com quem mais me identifico." "E quem é, então?" "Zeus."), reflexões interessantes sobre carreira e relacionamentos e uma bela fotografia em preto-e-branco que valoriza silhuetas e sombras, falta-lhe uma estrutura mais coesa para que a gente se envolve com a história e o protagonista. Ironicamente, é um filme que não fica na memória. Nota 3/5

19/06/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 25


 

O SEGREDO DO ABISMO (The Abyss, EUA, 1989, dir. James Cameron) 
A obsessão de James Cameron pelo fundo do mar parece ter começado aqui. Depois ele usaria Titanic como desculpa para visitar (várias vezes) os destroços do navio, faria diversos documentários sobre o tema e desceria sozinho ao ponto mais profundo do oceano. O Segredo do Abismo não está entre seus melhores (que pra mim é a trinca Terminator 2, Aliens e, sim, Titanic) mas, quando quer, se torna um filmaço. A primeira metade tem um roteiro mais confuso, que só se encontra mesmo quando a ficção científica dá as caras (a água que muda de forma é um prenúncio do que viria em T2). Dali em diante o filme vira um sci-fi de primeira, com momentos tensos (e vá lá, um pouco piegas) entre o casal de protagonistas e um final surreal, mas eficaz, que é descendente direto de O Dia em que a Terra Parou. Nota 4/5 


A CAÇADA AO OUTUBRO VERMELHO (The Hunt for Red October, EUA, 1990, dir. John McTiernan)
Estréia cinematográfica de Jack Ryan, que depois seria vivido por Harrison Ford e Ben Affleck, e aqui é um Alec Baldwin quase sempre calmo e compreendendo a situação. O fio principal da trama é intrigante, com o capitão russo que quer pedir asilo nos EUA. Mas sinceramente, achei o roteiro confuso, com muitos jargões navais e personagens parecidos. Não ajuda a opção por colocar os russos falando em inglês, mas como se na verdade estivessem falando russo – quando Jack Ryan finalmente encontra o capitão (Sean Connery, que sequer tenta fingir um sotaque diferente), já não sabemos que diabo de língua eles estão falando. É um bom filme, mas me deixou com pouca vontade de conferir outras adaptações de Tom Clancy. Nota 3/5

 

DURO DE MATAR 2 (Die Hard 2, EUA, 1990, dir. Renny Harlin) 
Seguindo a estrutura básica (alguns diriam "fórmula") do primeiro, Duro de Matar 2 transporta a ação para um aeroporto e não decepciona: há porradaria nas esteiras de bagagens, uma tragédia que McClane não consegue evitar e um clímax onde há muito mais em jogo que no filme original. Se os vilões não chegam a arranhar a lembrança de Hans Gruber (mal que também acometeria os filmes seguintes), o carisma de Bruce Willis, como o herói de ação que corre devagar porque é fumante e mantém o hábito de falar consigo mesmo ("John, que porra você tá fazendo em cima da asa desse avião?") continua o ponto alto e vale a conferida. Yippie ki ay, motherfucker. Nota 4/5


DURO DE MATAR - A VINGANÇA (Die Hard: With a Vengeance, EUA, 1995, dir. John McTiernan)
Agora a ação acontece em toda a Nova York, e não mais confinada em um só lugar. Se isso tira o que era uma marca registrada da série até então, a correria desenfreada de lá pra cá rende bons momentos, como o "atalho" pelo Central Park. A ausência da esposa, que nos outros era o motor que levava McClane a tomar atitude, é compensada de certa forma pela presença de Samuel Jackson como uma espécie de sidekick (e fazendo basicamente o mesmo papel que ele sempre repete, de Pulp Fiction a Serpentes a Bordo). O filme tem sua parcela de tropeços, como as conveniências de roteiro (um caminhoneiro especialista em história americana?) e a gagueira constrangedora de Jeremy Irons, mas nunca deixa a peteca cair. Nota 4/5


VALENTE (Brave, EUA, 2012, dir. Mark Andrews & Brenda Chapman)
O elenco é divertido: uma princesa não corresponde aos padrões Disney de beleza ou de subserviência a um príncipe encantado, um rei bonachão, trigêmeos peraltas e a rainha que tem seus melhores momentos quando se descobre "transmogrificada" (dica: o título original do projeto era The Bear and the Bow). Há gags muito boas, como a secretária eletrônica movida a bruxaria e os nomes-referências dos clãs (Macintosh, MacGuffin). O ponto fraco é mesmo o roteiro, que atira pra todo lado: a cada vinte minutos, um plot é abandonado para dar lugar a outro – os pretendentes da princesa, por exemplo, são muito pouco aproveitados. Se com isso o filme nunca fica chato, por outro lado falta coesão. Não que todo filme da Pixar tenha que ter o brilhantismo do final de Ratatouille ou do início de Up, mas, por mais que eu tenha achado Valente um bom entretenimento e deteste admitir, a Pixar pode fazer muito melhor. Nota 3/5

18/06/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 24


DURO DE MATAR (Die Hard, EUA, 1988, dir. John McTiernan)
Uma combinação feliz de vários elementos que deram certo. Temos o herói à la Indiana Jones, que se estrepa bastante antes de vencer; um antagonista classudo e cheio de autocontrole (Alan Rickman, que nasceu pra ser vilão); uma ação confinada a poucos cenários mas que sempre traz novidades a cada cena; e um roteiro bem amarrado, onde tudo – o Rolex, os pés descalços, a limusine, a entrevista invasiva com as crianças na TV – tem seu devido lugar. Nota 4/5


COM A BOLA TODA (Dodgeball: A True Underdog Story, EUA/Alemanha, 2004, dir. Rawson Marshall Thurber)
Um filme divertido, mas descartável, sobre queimada – não aquela que destrói florestas, mas o esporte (pelo visto é um esporte). A história é bem previsível e segue a fórmula dos filmes esportivos, às vezes com o intuito de parodiar, às vezes simplesmente imitando. A primeira metade é mais engraçada do que o campeonato em si, que acaba sendo meio nhé. Nota 3/5


OS DOZE CONDENADOS (The Dirty Dozen, Reino Unido/EUA, 1967, dir. Robert Aldrich)
Um major (Lee Marvin) é forçado a escolher 12 condenados à morte para uma missão quase suicida contra nazistas do alto escalão. O filme é dividido em três atos distintos. O primeiro apresenta cada um dos personagens – são muitos, mas a maioria é facilmente identificável, do carrancudo Wladislaw (Charles Bronson) ao insolente Franko (John Cassavetes). O segundo envolve o treinamento dos Condenados, e o terceiro é a missão propriamente dita, cujo plano tem 16 pontos, cada qual com sua rima mnemônica (“Thirteen – Franko goes up without beeing seen”). Da proposta até a chacina final, passando pelos disfarces usados pelos soldados e os improvisos que acabam surgindo, tudo é uma inspiração clara para o Bastardos Inglórios de Tarantino. Não tem lá muita profundidade, mas é divertido à beça. Nota 4/5


ONZE HOMENS E UM SEGREDO (Ocean's Eleven, EUA, 2001, dir. Steven Soderbergh)
Primeiro exemplar de uma trilogia bem divertida (sim, gosto dos três), é um daqueles filmes ideais pra ser ver no sábado à noite, munido de cerveja e petiscos. O elenco interage como se fossem todos amigos de infância, o roteiro é cheio de idas e vindas sem nunca parecer confuso, torcemos pela vitória dos ladrões (pobre Andy Garcia, sua única maldade foi roubar a mulher do George Clooney) e saímos sorrindo, sabendo que um “mero” passatempo hollywoodiano não precisa ofender a inteligência. Nota 4/5


O BARCO - INFERNO EM ALTO-MAR (Das Boot, Alemanha Ocidental, 1981, dir. Wolfgang Petersen)
O subtítulo brasileiro é desnecessário como sempre, mas acaba traduzindo bem o espírito de Das Boot: passamos três horas e meia (!) enfurnados em um submarino da Segunda Guerra, em um filme em que o que mais importa não é o desenvolvimento da trama, mas o retrato de uma situação. Tenso, claustrofóbico, realista e trágico até o último instante. E um filmaço. Nota 5/5

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 23


O SENHOR DOS ANÉIS - A SOCIEDADE DO ANEL (The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring, Nova Zelândia/EUA, 2001, dir. Peter Jackson)
Assistindo às versões extendidas dos três filmes de uma sentada só (sim, eu fiz isso outro dia num domingo-preguiça), a gente vê como O Senhor dos Anéis é um imenso filme único de 11 horas de duração, cuja filmagem deve ter sido um pesadelo de logística, mas que valeu a pena. A adaptação do livro é muito bem feita, limando muitos elementos desnecessários (Tom Bombadil, musiquinhas a cada três páginas) e recriando um universo que muitos pensavam que seria intraduzível para as telas. A Sociedade do Anel funciona como um road-movie, episódico e às vezes um pouco lento, mas são tantas qualidades – uma direção de arte que dá vida às descrições enfadonhamente detalhadas de Tolkien, um elenco em que até Orlando Bloom funciona, uma trilha cheia de temas vigorosos e assobiáveis – que isso nem compromete. Nota 5/5

 

O SENHOR DOS ANÉIS - AS DUAS TORRES (The Lord of the Rings: The Two Towers, Nova Zelândia/EUA, 2002, dir. Peter Jackson) 
Os fãs costumam chiar quanto às mudanças no roteiro, mas a mim – que li apenas o primeiro livro, e penando – não incomoda em nada se Faramir teve a personalidade alterada ou se o "exorcismo" de Gandalf não condiz com o original, porque tudo isso funciona no filme. Acho que gosto até mais de As Duas Torres do que do primeiro: com três tramas acontecendo paralelamente, o ritmo episódico praticamente some. Aqui Gollum ganha destaque, e dez anos depois ele continua um dos personagens digitais mais convicentes do cinema (viu, sr. Hulk?). E ainda há a fantástica seqüência do Abismo de Helm, minha batalha favorita de toda a saga. Nota 5/5 

  

O SENHOR DOS ANÉIS - O RETORNO DO REI (The Lord of the Rings: The Return of the King, Nova Zelândia/EUA, 2003, dir. Peter Jackson) 
É o mais longo dos três (a versão extendida tem 4 horas!), mas não passa essa sensação: é tanta briga, batalha, luta com orc, com aranha, com olifante, que o filme não pára um minuto. Os múltiplos finais, que me incomodaram no cinema, agora me são bem mais aceitáveis – onze horas de tensão ininterrupta não podem terminar de repente, precisam desse respiro gradual. Nota 5/5


A ÚLTIMA NOITE DE BORIS GRUSHENKO (Love and Death, EUA/França, 1975, dir. Woody Allen)
Woody Allen é um russo medrosão obrigado a guerrear contra a vontade. Comédia cheia de boas sacadas, diálogos sarcásticos e referências à literatura russa (não que eu tenha captado muitas). E tem a curiosa participação de James Tolkan, que depois seria o Strickland de De Volta Para o Futuro, como Napoleão Bonaparte! Nota 4/5


PODER SEM LIMITES (Chronicle, EUA/África do Sul, 2012, dir. Josh Trank)
Mistura um gênero meio repetitivo (super-heróis) com um artifício narrativo (a filmagem “encontrada”) que vem se tornando cada vez mais batida. Mas consegue injetar um sopro de novidade no tema “super”, mostrando como adolescentes reagiriam ao descobrirem que têm poderes telecinéticos. Ajudar o próximo? Porra nenhuma – eles querem é se divertir, pregar peças, ganhar popularidade e ganhar no beer pong. Toda essa parte dos poderes é muito legal, mas os personagens não são lá muito críveis ou originais: um tem ares de playboy e fica citando Jung e Schopenhauer, enquanto é fácil prever que o loser que leva porrada de todo mundo vai ter a sua vingança. Já a opção pelo “found footage” é bem desnecessária: se pelo menos aqui os personagens estranham que alguém fique filmando o tempo inteiro (coisa que não se mencionava em Cloverfield, por exemplo), a qualidade da imagem e som é boa demais e é impossível, pelo roteiro, que essas imagens tenham sido realmente “encontradas” (erro que Apollo 18 também cometeu). Se fosse filmado de maneira mais “convencional”, Poder Sem Limites poderia ter sido bem melhor. Nota 3/5

04/06/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 22

 

A VIDA DOS OUTROS (Das Leben der Anderen, Alemanha, 2006, dir. Florian Henckel von Donnersmarck)
Irmão mais novo de A Conversação, este também tem como protagonista um especialista em escutas que sofre uma crise de consciência ao espionar suas vítimas mais recentes. A diferença é que o personagem de Ulrich Mühe (metódico, impassível e sósia de Kevin Spacey) trabalha para o governo da Alemanha Oriental, que almeja vigiar tudo e todos como um Big Brother – não por acaso, a trama se passa em 1984. O clima de paranóia é muito bem capturado e os vinte minutos finais, com seus súbitos saltos temporais, podem parecer anticlimáticos, mas encerram o filme de forma tocante: está longe ser um final "pra cima", mas podemos chamar de "realisticamente feliz". Nota 5/5 


CONTOS DE NOVA YORK (New York Stories, EUA, 1989, dir. Martin Scorsese, Francis Ford Coppola e Woody Allen)
Três média-metragens feitos por três diretores foda. O filme de Scorsese ("Lições de Vida") é meu preferido: boa direção, uso constante de músicas pop e um roteiro ancorado na atuação do casal principal (Nick Nolte e Rosanna Arquette), que nunca decepciona. O do Coppola ("Vida Sem Zoe") tem a fama de ser o piorzinho, e é mesmo: a protagonista (Heather McComb) é uma menina rica e chatinha e a trama dá voltas demais e termina pouco memorável. E o último ("Édipo Arrasado") é uma fantasia simpática em que a mãe de Woody Allen desaparece num show de mágica e reaparece no céu de Manhattan, contando para todos os nova-iorquinos como seu filho é isso, aquilo e aquilo mais. Como longa, Contos de Nova York acabou ficando irregular – acho que esse é o destino de 90% das antologias, não importa quem esteja envolvido. Nota 3/5


GL[ORIA FEITA DE SANGUE (Paths of Glory, EUA, 1957, dir. Stanley Kubrick)
Kubrick trabalhava com um gênero diferente quase a cada filme, mas o tema da guerra está presente em vários, geralmente demonstrando os perigos inerentes à hierarquia militar e ao abuso de poder. O desprezo pelas figuras do alto escalão está sempre lá: o sargento durão planta a semente de seu próprio fim em Nascido Para Matar, o general insano provoca a destruição da humanidade em Dr. Fantástico. Esse desprezo é claro em Glória Feita de Sangue, e tem o rosto e a voz de Kirk Douglas, que passa o filme tentando (em vão) buscar um pouco de justiça. Embora se passe na Primeira Guerra e tenha franceses como protagonistas, os vilões nunca são os alemães, mas os generais do próprio exército francês: o general que se diz responsável pela vida de cada um de seus soldados e depois ordena ao capitão que atire nas próprias tropas; outro que, bonachão e sorridente, comenta casualmente durante uma festa de gala que "é preciso atirar em alguém de vez em quando pra manter a disciplina". A resolução da trama passa longe do romantismo hollywoodiano e deixa um gosto amargo de impotência, injustiça e pessimismo em relação à humanidade. É só ler qualquer jornal para atestar: a trama de Glória Feita de Sangue se passa há quase 100 anos, mas poderia ter ocorrido hoje. Nota 5/5


OS CAÇA-FANTASMAS II (Ghostbusters II, EUA, 1989, dir. Ivan Reitman)
Tem umas boas sacadas, como o início melancólico com os Caça-Fantasmas animando festinhas infantis pra poder pagar as contas ("Who you gonna call?", perguntam eles, e as criancinhas: "He-Man!"). Bill Murray mantém o sarcasmo que fez de seu Peter Venkman o melhor personagem do original, e o filme traz uma boa dose de gosmas asquerosas e novos fantasmas (incluindo as vítimas do Titanic, chegando a Nova York com décadas de atraso). Por outro lado, a estrutura soa parecida demais com a do primeiro filme – Caça-Fantasmas começam fracassados, ganham prestígio após um exorcismo bem-sucedido, encontram uma ameaça terrível envolvendo a Sigourney Weaver (que azarada do caramba!) e terminam invocando a um ser gigante que caminha pela cidade (desta vez é a Estátua da Liberdade que ganha vida). Se é pra fazer a mesma coisa, não é de se admirar que Bill Murray não esteja a fim de voltar para um Caça-Fantasmas 3. Nota 3/5


AMOR, SUBLIME AMOR (West Side Story, EUA, 1961, dir. Jerome Robbins & Robert Wise)
Uma adaptação bem livre de Romeu e Julieta, transforma os Montecchios e Capuletos em gangues adolescentes rivais, cujos conflitos invariavelmente terminam em dança. O casal de protagonistas é bem fraco, ele principalmente; a maioria das cenas envolvendo apenas os dois é meio chatinha, com juras de amor juvenis e canções melosas. As cenas com as gangues são muito melhores, com seus confrontos cuidadosamente coreografados. Pena que se acovardaram no final do filme, "surpreendendo" ao se distanciarem do original de Shakespeare mas diminuindo imensamente o peso dramático – já viu Romeu e Julieta onde um deles sobrevive?! Nota 3/5

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 21



AS TARTARUGAS NINJA III (Teenage Mutant Ninja Turtles III, EUA/Hong Kong, 1993, dir. Stuart Gillard)
Um fim decepcionante para a franquia (que só seria retomada 14 anos depois, e em animação), já começa com japoneses falando inglês no ano de 1603 (!!) e não melhora muito. Os movimentos das Tartarugas são muito mais toscos que nos filmes anteriores, os traços de personalidade sumiram e praticamente a única maneira de diferenciá-las é pela cor da faixa. O Splinter mais parece um Muppet. A trama de viagem no tempo não convence e não há um só personagem no elenco japonês que seja memorável de alguma forma. Tem mais cara de episódio de seriado de TV, e daqueles pra encher lingüiça no meio da temporada. Nota 2/5


HOMENS DE PRETO 3 (Men in Black III, EUA, 2012, dir. Barry Sonnenfeld)
Bem melhor que o segundo filme, este terceiro Homens de Preto não rivaliza com o original mas também não macula sua reputação. A viagem no tempo (olha ela aqui de novo) não oferece nada muito diferente de outros tantos filmes sobre o tema, mas é divertida e bem executada (a forma de viajar, pelo menos, é nova e gera uma boa gag com o crash da Bolsa em 1929). Tommy Lee Jones acaba aparecendo pouco, mas Josh Brolin encarna K com bastante competência e é fácil ver o personagem ali. O roteiro tem furos (como J ainda é um Homem de Preto depois do sumiço de K se foi K quem o recrutou na cronologia original?), mas as risadas e os detalhes visuais (Lady Gaga, as referências ao pug falante) compensam. Nota 3/5


OS CAÇA-FANTASMAS (Ghostbusters, EUA, 1984, dir. Ivan Reitman)
Alguns efeitos especiais já estão caducos, mas o espírito (ops) de Os Caça-Fantasmas permanece o mesmo. A combinação do sarcasmo de Bill Murray, o pobre do Rick Moranis que começa loser e termina ainda pior, a camaradagem entre os Caça-Fantasmas e os vários ícones – o carro, a logomarca, a contagiante música-tema – continua funcionando muito bem, e a gente até releva o fato de que, com um semideus, um cachorro chifrudo, uma geleca verde e um homem-marshmallow, sobra pouco espaço para fantasmas de verdade em Os Caça-Fantasmas. Nota 4/5



ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA (Blindness, Brasil/Canadá/Japão, 2008, dir. Fernando Meirelles)
Malhado injustamente quando foi lançado, Ensaio Sobre a Cegueira é uma adaptação fiel não só ao conteúdo, mas à forma do livro de Saramago: o estilo sem parágrafo ou pontuação do escritor é traduzido para as telas em imagens “mal” enquadradas, superexpostas e fora de foco, contribuindo muito para nos colocar na pele dos que sofrem da cegueira branca. O elenco é eclético e competente (tem de Danny Glover a Alice Braga), mas o grande destaque é o casal principal, Mark Ruffalo e Julianne Moore. E esta versão que vi agora é diferente da que assisti no cinema em um detalhe crucial: a infame narração de Danny Glover, que sempre entrava desconjuntada, praticamente sumiu, e Ensaio Sobre a Cegueira melhorou ainda mais. Pra quem curtiu o filme ou se interessa por cinema, o Diário de Blindness, escrito pelo próprio Meirelles, é imprescindível. Nota 4/5


AS TARTARUGAS NINJA - O RETORNO (TMNT, EUA, 2007, dir. Kevin Munroe)
Quem diria: ao migrar para a animação computadorizada, as Tartarugas se tornariam menos infantis e mais próximas às suas origens quadrinísticas sombrias. Nesta seqüência tardia, as Ninja Turtles não são mais Teenage: Donatello trabalha com suporte de informática, Michaelangelo é animador de festas infantis, Raphael se tornou um vigilante e Leonardo se escafedeu para um longo retiro na América Central. Os melhores momentos são os que focam nos conflitos entre as próprias Tartarugas, como a ótima luta na chuva entre Leonardo e Raphael. Infelizmente, a trama principal envolvendo monstros milenares e portais de outra dimensão soa como uma grande bobagem. Outro ponto negativo é a April, que de repórter de TV virou uma mistura de Lara Croft com a Noiva de Kill Bill (com direito a colant amarelo!); nem parece a mesma personagem. A animação em si, no entanto, compensa: o formato permite movimentos de câmera e das próprias Tartarugas que seriam impossível em live-action. Uma pena que o próximo filme, segundo os boatos, não seguirá o modelo estabelecido neste O Retorno e alterará totalmente a origem dos quelônios, transformando-os em alienígenas (!!!) e desvirtuando ainda mais o conceito: se aqui elas já não eram mais Teenage, no próximo não serão nem Mutant. Nota 3/5

28/05/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 20

E finalmente chego aos 100 filmes!


BASTARDOS INGLÓRIOS (Inglourious Basterds, EUA/Alemanha, 2009, dir. Quentin Tarantino)
O pano de fundo da Segunda Guerra é mera desculpa pra criar cenas de puro entretenimento, mostrar personagens absurdos e cativantes e homenagear o cinema. Para cada cena tensa (a que abre o filme em uma pacata fazenda francesa, ou a longa, mas sempre interessante, seqüência na taverna) há momentos impagáveis, como Brad Pitt falando italiano e todas as aparições do coronel Hans Landa. O respeito aos idiomas é raro de se ver no cinema americano e aqui desempenha um papel fundamental – é impossível imaginar este filme dublado. As referências cinematográficas às vezes são exageradas (todos os personagens, até os mais improváveis, parecem ser grandes conhecedores do assunto) mas não chegam a atrapalhar. E a catarse do final é a cereja do bolo, quando Tarantino mostra que está cagando pra História e que seu único compromisso é com o espectador. Nota 5/5


O ANJO EXTERMINADOR (El Ángel Exterminador, México, 1962, dir. Luis Buñuel)
​A proposta é surrealista, mas a execução é quase tradicional, tirando as pequenas voltas no tempo que ocorrem principalmente no início. Este é o clássico filme em que os convidados de uma festa não conseguem mais sair da casa – não que haja um impedimento físico de verdade, porque não há. Buñuel, obviamente, não oferece explicações, e você pode encaixar sua metáfora preferida. Particularmente não me agrada o final do tipo "vai começar tudo novamente...", mas não vou ficar catando pêlo em ovo. Nota 5/5


O DIA EM QUE A TERRA PAROU (The Day the Earth Stood Still, EUA, 1951, dir. Robert Wise)
Um alienígena vem para a Terra avisar que, se não pararmos de guerrear uns com os outros, sofreremos a ira da comunidade extra-terrestre. Uma ficção-científica que surpreende por levantar questões políticas em plenos anos 50, ainda gerou elementos icônicos como o design do robô Gort e a frase "Klaatu barada nikto". Nota 4/5


AS TARTARUGAS NINJA II - O SEGREDO DE OOZE (Teenage Mutant Ninja Turtles II: The Secret of the Ooze, EUA/Hong Kong, 1991, dir. Michael Pressman)
Talvez seja um dos filmes que mais vi na vida, rivalizando com Pânico e os três De Volta Para o Futuro. Eu tinha em VHS, gravado da Sessão da Tarde, e até hoje sei grande parte dos diálogos de cor, mas acho que esta é a primeira vez que vejo no idioma original. Não faz tanta diferença: a trama continua fraquinha, o Destruidor é um vilão incompetente (só recruta tapados para sua gangue, e até os monstros que cria viram tiros pela culatra), e nenhum bandido tem a idéia de dar um tiro nas Tartarugas – parece que na Nova York dos anos 90 tudo só se resolvia na base do chute. Por outro lado, o clima de galhofa torna o filme divertido (tem até participação do Vanilla Ice!), as Tartarugas têm vozes, feições e personalidades fáceis de diferenciar e eu ainda curto a trilha, da qual tenho o CD lá em casa até hoje. Tartarugas II definitivamente não é um grande filme, mas é um filme do coração. Nota 3/5


AS TARTARUGAS NINJA (Teenage Mutant Ninja Turtles, EUA/Hong Kong, 1990, dir. Steve Barron)
Superior às seqüências, é uma história introdutória divertida e tem a vantagem de inserir na comédia a pitada emocional da relação entre as Tartarugas e o Mestre Splinter. Só uma observação: é difícil reivindicar verossimilhança num filme com tartarugas adolescentes mutantes, mas o Splinter aprender ninjutsu ANTES de ter contato com o ooze é meio demais, não? Nota 3/5

25/05/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 19

Um post atrasado já que meu VPN não andava funcionando direito, mas aqui estão os filmes vistos entre 5 e 14 de maio:


OS VINGADORES (The Avengers, EUA, 2012, dir. Joss Whedon)
Melhor filme de super-heróis de todos os tempos? Calma lá, pessoal. É divertido, sim – ver a interação entre os heróis é a realização de um sonho nerd e há muitas cenas de ação absurdas e empolgantes. É engraçado – eu gargalhei de verdade em vários momentos (a maioria envolvendo o Hulk). É bem-sucedido em traduzir para o cinema a convergência de tramas e personagens que os quadrinhos já fazem há tantas décadas, algo que a DC bem que podia aprender e empreender antes de soltar um filme da Liga da Justiça. Por outro lado, não consigo engolir essa trama cósmica que é justamente a base de Os Vingadores (e que é derivada direta do filme pré-Vingadores mais fraco, Thor); se Loki é um vilão interessante principalmente pela atuação cínica de Tom Hiddleston, o Thor e o Capitão América dos dois Chris (Hemsworth e Evans) permanecem heróis deslocados e sem sal; e por mais que seja supimpa ver Nova York ser destruída por um gigantesco peixe-robô, fica sempre a impressão de que estamos assistindo a um cartum com atores e não a uma tragédia afetando milhares de seres humanos. Depois de tantos filmes mais ou menos parecidos apresentando seu panteão de heróis, sabe no que a Marvel podia investir? Numa adaptação de Marvels! Nota 3/5

O FRANCO-ATIRADOR (The Deer Hunter, EUA/Reino Unido, 1978, dir. Michael Cimino)
Filme de guerra longo mas nunca cansativo, focando na amizade entre três caras de uma cidadezinha americana e em como ela se transforma depois de uma temporada no Vietnã. O elenco é espetacular (DeNiro, Christopher Walken, John Savage e Meryl Streep, além de John Cazale em seu último filme), as cenas de roleta russa no Vietnã são tensas pra cacete e as nos Estados Unidos, que entram intercaladas com as sequências na guerra, são melancólicas e belas. Nota 5/5


BUDAPESTE (Brasil/Hungria/Portugal, 2009, dir. Walter Carvalho)
Esta adaptação do livro de Chico Buarque não fez muito sucesso de público ou crítica, mas eu curti bastante. Walter Carvalho usa no visual do filme toda sua (extensa) experiência como diretor de fotografia, o elenco é consistente e há muitas referências bacanas pra quem gosta do Chico – a capa de O Ginógrafo imitando a do livro Budapeste, uma versão de "Feijoada Completa" em húngaro e a participação do próprio Chico arranhando o idioma. E a metalinguagem no final, embora quebre totalmente a quarta parede e tire o espectador do filme antes do "recomendado", é uma tradução criativa para o que o Chico faz no livro. Nota 4/5


SHAME (Reino Unido, 2011, dir. Steve McQueen)
Um estudo de personagem que não se preocupa muito em explicar – o que é uma qualidade –, prova que Michael Fassbender consegue carregar um filme assim nas costas sem que precisemos de exposições ou flashbacks. Carey Mulligan está adequadamente irritante como a irmã instável do protagonista (só não precisava daquela versão arrastadíssima de "New York, New York") e as cenas de sexo não chegam a chocar, mas também não tornam Shame um daqueles filmes pra você ver com sua mãe. Nota 4/5


LUMIÈRE E COMPANHIA (Lumière et Compagnie, França/Dinamarca/Espanha/Suécia, 1995, dir. vários)
Cem anos depois que os irmãos Lumière inventaram o cinematógrafo e, de lambuja, o cinema, 41 diretores foram convidados a fazer curtas de 50 segundos usando a câmera-relíquia. O time inclui nomes famosos como David Lynch, Wim Wenders, Zhang Yimou e Spike Lee. Alguns deixam a câmera parada como faziam os Lumière, outros usam dollies, gruas, cadeiras de rodas e outros truques para incrementar o plano. Tem de tudo, de um remake de A Chegada do Trem à Estação a uma bebezinha sendo pressionada a falar as primeiras palavras; um divertido contraponto entre a música na China nos séculos 19 e 20, um casal se beijando cercado por câmeras de todas as gerações e uma dançarina cujo vestido vai mudando de cor de acordo com seus movimentos (o que, muito provavelmente, foi feito de forma manual, frame a frame, como se colorizava antigamente). Qualquer um interessado nos primórdios do cinema tem que conferir. Nota 4/5

05/05/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 18



DRAGÃO VERMELHO (Red Dragon, EUA/Alemanha, 2002, dir. Brett Ratner)
Mais do que um remake do Dragão Vermelho de Michael Mann, é um filme feito para encerrar a trilogia do Hannibal de Anthony Hopkins, e com isso dá muito mais destaque ao canibal do que fazia a versão de 1986: temos um flashback estabelecendo sua relação prévia com William Graham, cenários diferentes para suas conversas (além da cela tornada famosa em O Silêncio dos Inocentes, há uma divertida “caminhada” em círculos)... Mas o mais impressionante é que, quando o vilão Tooth Fairy ganha destaque, até esquecemos que Hannibal também está no filme, tamanha a presença de Ralph Fiennes. O restante do elenco – Edward Norton, Harvey Keitel, Phillip Seymour Hoffman – também é irrepreensível, o final (diferente de 86) funciona muito mais e mesmo as cenas que seguem à risca o roteiro do filme de Mann são geralmente mais tensas e bem acabadas. Nota 4/5

OLDBOY (Oldeuboi, Coréia do Sul, 2003, dir. Park Chan-wook)
Filmaço de vingança, já era excelente quando vi a primeira vez e ainda se beneficia de uma releitura, por suas diversas rimas visuais e temáticas (analisadas com detalhes no ótimo livro O Olhar do Cineasta, de Gustavo Mercado). Anotação mental: criar vergonha e assistir aos dois outros filmes que completam a trilogia da vingança de Park Chan-wook. Nota 5/5

QUEBRA DE SIGILO (Sneakers, EUA, 1992, dir. Phil Alden Robinson)
Traz um elenco de rostos conhecidos (Robert Redford, Dan Aykroyd, River Phoenix, Ben Kingsley) como um bando de hackers envolvidos em uma trama de espionagem. Não tem grandes pretensões e carrega sua cota de clichês e inverossimilhanças, mas o clima sessão-tardino e os planos mirabolantes de invasão (eletrônica ou não) valem a conferida. Nota 3/5

HOMEM DE FERRO (Iron Man, EUA, 2008, dir. Jon Favreau)
O maior trunfo é mesmo Robert Downey Jr., que compensa todas as falhas de caráter de seu personagem com uma presença marcante e um tino cômico sempre afiado. Como em dúzias de outros filmes de super-heróis, a metade "origem" funciona melhor que a do "combate ao vilão", mesmo porque a galeria de vilões do Homem de Ferro é bem xinfrim e quase sempre se resume a homens malvados vestindo armaduras. Mesmo assim, este continua sendo meu filme favorito da Marvel da safra pré-Vingadores. Nota 4/5

INTERLÚDIO (Notorious, EUA, 1946, dir. Alfred Hitchcock)
Um Hitchcock que se passa no Rio de Janeiro! (A maioria das externas é feita com o elenco em estúdio e imagens do Rio projetadas atrás, mas tudo bem.) A trama é de espionagem, mas diferentemente de Intriga Internacional, aqui Cary Grant e Ingrid Bergman sabem muito bem no que estão se metendo ao planejarem a infiltração dela na casa de um colaborador nazista. O triângulo amoroso entre o casal e Claude Rains é o grande destaque, mas o habitual de Hitch – intrigas, traições, envenamentos – também é de primeira. Nota 5/5

26/04/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 17


DE OLHOS BEM FECHADOS
(Eyes Wide Shut, Reino Unido/EUA, 1999, dir. Stanley Kubrick) Curioso: pra mim, a subtrama de suspense funcionou muito mais do que a trama principal do relacionamento entre Tom Cruise e Nicole Kidman. Quando o casal contracena, há bons diálogos mordazes e trocas de insultos, mas é nas cenas envolvendo a festa secreta que Tom Cruise vai de penetra e todas as suas conseqüências inquietantes que o último filme de Kubrick realmente faz jus à sua carreira primorosa. Nota 4/5


OS MUPPETS
(The Muppets, EUA, 2011, dir. James Bobin)
A volta dos Muppets às telonas é boa, mas tinha potencial pra ser bem melhor. As músicas cansam rápido: nunca são lá muito engraçadas e muito menos avançam a história, limitando-se a repetir coisas que acabamos de ver. (Por outro lado, a vencedora do Oscar "Man or Muppet" ganha pontos pela genial participação-surpresa de um certo comediante.) A trama de "reunião de velhos amigos" também fica previsível rápido, e o filme só ganha fôlego mesmo quando começa o show dos Muppets no teatro, depois de mais de 1 hora de projeção. Aí melhora substancialmente, talvez porque as canções passam a fazer muito mais sentido e cada Muppet ganha seu momento solo. (Senti falta de uma presença mais ativa do cachorro pianista, um dos meus preferidos no desenho dos Muppet Babies.) Mas a impressão é que há dois filmes competindo por atenção em Os Muppets: um cheio de idéias bacanas e feitas para agradar um público que já conhece a linguagem cinematógraficas ("Let's travel by map!" e outras piadas metalingüísticas estão por toda parte), e outro bobinho e infantil. Nota 3/5


DRAGÃO VERMELHO
(Manhunter, EUA, 1986, dir. Michael Mann)
Muita gente não sabe, mas foi esta a estréia de Hannibal Lecter (aqui, "Lecktor") no cinema. A trama principal, envolvendo o serial killer "Fada dos Dentes", é eficaz mas menos interessante que as cenas com o famoso canibal; o protagonista William Graham tem a mania chata de falar sozinho (como se "conversasse" com o assassino) e a trilha oitentista, cheia de sintetizadores, não contribui muito com o suspense. Brian Cox, por outro lado, faz um Hannibal bem competente, e é uma pena que apareça tão pouco. Nota 3/5


O SILÊNCIO DOS INOCENTES
(The Silence of the Lambs, EUA, 1991, dir. Jonathan Demme)
Vendo o Dragão Vermelho original e revendo O Silêncio dos Inocentes logo na seqüência, é inevitável comparar. Este aqui é superior em todos os sentidos. Já começa com uma protagonista bem mais interessante e complexa, uma jovem investigadora tentando se auto-afirmar em um mundinho masculino que certamente deve ter influenciado a Debra Morgan de Dexter. Anthony Hopkins foi o responsável por colocar Hannibal no topo da lista dos maiores vilões do cinema do American Film Institute, mas o mais interessante é que seu personagem é um anti-vilão, com regras morais bem particulares. (Sabe quem mais é assim? O Dexter de Dexter!) E o filme ainda vai muito mais além, com o vilão de verdade (Ted Levine) assustando tanto quanto seu colega dr. Lecter e a direção de Jonathan Demme dando aula de como se faz um thriller. Nota 5/5


HANNIBAL
(Reino Unido/EUA, 2001, dir. Ridley Scott)
Sim, é repleto de absurdos, a grande maioria em sua meia hora final – vi pela primeira vez há mais de 10 anos e ainda lembrava bem da refeição cerebral. Sim, o filme desvirtua a personagem de Clarice Starling e é muito difícil conectar a Julianne Moore daqui com a Jodie Foster de lá. Mesmo assim, é um entrenenimento dos bãos. Anthony Hopkins continua muito à vontade como o canibal-título e é bem legal vê-lo em sua “natureza selvagem”. Se não faz jus como seqüência de um dos melhores thrillers dos anos 90, como filme isolado Hannibal funciona bastante. Nota 4/5

Quem

Lucas Paio já publicou contos em revistas e antologias, já dirigiu curtas-metragens e compôs canções, já ganhou um campeonato de aviões de papel, tocou teclado numa banda cover de Bon Jovi, morou na China e hoje vive em Berlim. É autor do romance de fantasia cômica MACADÂMIA, lançado em 2025.

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