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01/09/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 29


BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE (The Dark Knight Rises, EUA/Reino Unido, 2012, dir. Christopher Nolan)
É um filme de super-herói tão atípico que nem dá pra inclui-lo nesse, digamos, subgênero. O próprio Batman faz poucas aparições antes do final épico. A paleta de cores segue o clima soturno: é tudo preto, cinza, pardo, sem deixar espaço para cores mais vivas como o verde do cabelo do Coringa. Dá pra contar nos dedos os momentos de humor – uma piadinha de Lucius Fox aqui, outra do Batman com a Mulher-Gato acolá. Definitivamente não é um filme que você vai pra se divertir, mergulhar num mundo de fantasia e esquecer da vida por algumas horas. É pesado, sombrio, pra baixo, que vai deixar poucas crianças com vontade de ser o Batman. Isso está longe de ser um problema, é só uma característica. Ressurge continua sendo um filme muito bom e consistente e um final extremamente digno para a trilogia. Nota 4/5
(Resenha completa no Cinema de Buteco)


BATMAN ETERNAMENTE (Batman Forever, EUA, 1995, dir. Joel Schumacher)
Bastam dois minutos de falsa seriedade para que o primeiro diálogo (Alfred: "Não quer levar um sanduíche, senhor?" Batman: "Eu passo num drive-thru") mostre que o tom será bem diferente dos filmes de Tim Burton. As tentativas de humor estão por toda parte e quase sempre falham vergonhosamente. Schumacher abusa das cores, dos ângulos tortos (sempre que há uma ameaça ou vilão, à la série dos anos 60) e da boa vontade do espectador. Em sua primeira aparição, Batman não está nas sombras, escondido da população – está no meio da rua, sendo apresentado a uma Nicole Kidman que passa o filme inteiro migrando suas paixonites de um lado pro outro como se estivesse em Malhação: "Eu gosto do Bruce!" "Agora gosto do Batman!". Se a escalação do Robin como um marmanjão é bem duvidosa (Val Kilmer tinha 35 anos, Chris O'Donnell tinha 25! Precisava mesmo ir morar na Mansão Wayne?), ainda piores são as desculpas para ele encontrar a Batcaverna e se tornar um super-herói (descuidado e desobediente, Alfred deve ser o pior mordomo do mundo). O subtexto gay não atinge apenas a dupla dinâmica, mas a bandidagem também: Charada e Duas-Caras parecem um casal, um cheio de trejeitos, outro com metade do rosto cor-de-rosa e soltando risadinhas calcadas em Cesar Romero, os dois abraçadinhos planejando o próximo crime. Das poucas coisas que se salvam, o novo tema musical de Elliot Goldenthal é até bacana. Mas o de Danny Elfman ainda era melhor. Nota 2/5


OS BONS COMPANHEIROS (Goodfellas, EUA, 1990, dir. Martin Scorsese)
"De Niro, Pesci, rock dos bons e comida italiana: este é o Scorsese mais scorsesiano", escrevi no Twitter há mais de um ano. É óbvio que o diretor passeia brilhantemente por outros universos (do boxe a Jesus Cristo), mas o crime organizado nas telonas é um território que ele domina, e Goodfellas, que apresenta o submundo da máfia de forma estilizada e quase didática, cheia de cenas marcantes ("Funny how?") e pequenas histórias ligadas pelo tema central, é o filme do tio Marty mais representativo desse seu subgênero particular. Nota 5/5


O DITADOR (The Dictator, EUA, 2012, dir. Larry Charles)
Depois de Brüno não convencer como mockumentary da forma como Borat fez com primor, Sacha Baron Cohen e Larry Charles migram para uma comédia de estética "normal", sem pretensões de enganar ninguém (mesmo que a abertura seja bem similar à de Borat). Assim, O Ditador acaba virando um filme mais comum, com atores conhecidos (John C. Reilly, Ben Kingsley) representando papéis que não são versões de si mesmos (embora bom mesmo seja ver as pontas nada gloriosas de Megan Fox e Edward Norton). Cohen entrega uma performance impecável como sempre: é o único comediante de verdade no filme e todas as piadas que funcionam são suas. As mais hilariantes são justamente aqueles que têm uma triste conexão com a realidade ("Where is the trash can?") e com a política – não sobra pra ninguém, de déspostas e terroristas a democratas e vegans. Já as situações que não têm nada a ver com o tema (como a masturbação) não provocam tanta graça, assim como quase sempre falham as tentativas de humor dos personagens coadjuvantes. Cohen se sai bem melhor quando é a única figura bizarra e fora de lugar, compartilhando a piada somente com o espectador. Nota 3/5


A ERA DO RÁDIO (Radio Days, EUA, 1987, dir. Woody Allen)
Uma coleção de pequenas anedotas compiladas por Woody Allen com base em suas próprias memórias, A Era do Rádio pode não ser estritamente autobiográfico no sentido de aquelas histórias terem ocorrido de verdade, mas evocam com carinho e nostalgia o espírito de uma época que já se foi. Woody narra o filme mas se coloca na história não em sua própria pele, mas na de um garoto (Seth Green, ainda moleque). As anedotas têm o rádio como pano de fundo, usando uma seleção certeira de músicas (tem até Carmen Miranda e "Tico-Tico no Fubá"!) e fatos reais, como a famosa transmissão de A Guerra dos Mundos por Orson Welles. Os personagens provocam tanta empatia que rapidamente nos familiarizamos com eles; é como se morássemos naquela casa onde todos passam o dia metendo o bedelho na vida do outro e cutucando o próximo com tiradas mordazes, mas nunca ofensivas. A gente sabe quando um filme é bom quando só se passaram 20 minutos e já não queremos que acabe. Nota 5/5

04/06/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 22

 

A VIDA DOS OUTROS (Das Leben der Anderen, Alemanha, 2006, dir. Florian Henckel von Donnersmarck)
Irmão mais novo de A Conversação, este também tem como protagonista um especialista em escutas que sofre uma crise de consciência ao espionar suas vítimas mais recentes. A diferença é que o personagem de Ulrich Mühe (metódico, impassível e sósia de Kevin Spacey) trabalha para o governo da Alemanha Oriental, que almeja vigiar tudo e todos como um Big Brother – não por acaso, a trama se passa em 1984. O clima de paranóia é muito bem capturado e os vinte minutos finais, com seus súbitos saltos temporais, podem parecer anticlimáticos, mas encerram o filme de forma tocante: está longe ser um final "pra cima", mas podemos chamar de "realisticamente feliz". Nota 5/5 


CONTOS DE NOVA YORK (New York Stories, EUA, 1989, dir. Martin Scorsese, Francis Ford Coppola e Woody Allen)
Três média-metragens feitos por três diretores foda. O filme de Scorsese ("Lições de Vida") é meu preferido: boa direção, uso constante de músicas pop e um roteiro ancorado na atuação do casal principal (Nick Nolte e Rosanna Arquette), que nunca decepciona. O do Coppola ("Vida Sem Zoe") tem a fama de ser o piorzinho, e é mesmo: a protagonista (Heather McComb) é uma menina rica e chatinha e a trama dá voltas demais e termina pouco memorável. E o último ("Édipo Arrasado") é uma fantasia simpática em que a mãe de Woody Allen desaparece num show de mágica e reaparece no céu de Manhattan, contando para todos os nova-iorquinos como seu filho é isso, aquilo e aquilo mais. Como longa, Contos de Nova York acabou ficando irregular – acho que esse é o destino de 90% das antologias, não importa quem esteja envolvido. Nota 3/5


GL[ORIA FEITA DE SANGUE (Paths of Glory, EUA, 1957, dir. Stanley Kubrick)
Kubrick trabalhava com um gênero diferente quase a cada filme, mas o tema da guerra está presente em vários, geralmente demonstrando os perigos inerentes à hierarquia militar e ao abuso de poder. O desprezo pelas figuras do alto escalão está sempre lá: o sargento durão planta a semente de seu próprio fim em Nascido Para Matar, o general insano provoca a destruição da humanidade em Dr. Fantástico. Esse desprezo é claro em Glória Feita de Sangue, e tem o rosto e a voz de Kirk Douglas, que passa o filme tentando (em vão) buscar um pouco de justiça. Embora se passe na Primeira Guerra e tenha franceses como protagonistas, os vilões nunca são os alemães, mas os generais do próprio exército francês: o general que se diz responsável pela vida de cada um de seus soldados e depois ordena ao capitão que atire nas próprias tropas; outro que, bonachão e sorridente, comenta casualmente durante uma festa de gala que "é preciso atirar em alguém de vez em quando pra manter a disciplina". A resolução da trama passa longe do romantismo hollywoodiano e deixa um gosto amargo de impotência, injustiça e pessimismo em relação à humanidade. É só ler qualquer jornal para atestar: a trama de Glória Feita de Sangue se passa há quase 100 anos, mas poderia ter ocorrido hoje. Nota 5/5


OS CAÇA-FANTASMAS II (Ghostbusters II, EUA, 1989, dir. Ivan Reitman)
Tem umas boas sacadas, como o início melancólico com os Caça-Fantasmas animando festinhas infantis pra poder pagar as contas ("Who you gonna call?", perguntam eles, e as criancinhas: "He-Man!"). Bill Murray mantém o sarcasmo que fez de seu Peter Venkman o melhor personagem do original, e o filme traz uma boa dose de gosmas asquerosas e novos fantasmas (incluindo as vítimas do Titanic, chegando a Nova York com décadas de atraso). Por outro lado, a estrutura soa parecida demais com a do primeiro filme – Caça-Fantasmas começam fracassados, ganham prestígio após um exorcismo bem-sucedido, encontram uma ameaça terrível envolvendo a Sigourney Weaver (que azarada do caramba!) e terminam invocando a um ser gigante que caminha pela cidade (desta vez é a Estátua da Liberdade que ganha vida). Se é pra fazer a mesma coisa, não é de se admirar que Bill Murray não esteja a fim de voltar para um Caça-Fantasmas 3. Nota 3/5


AMOR, SUBLIME AMOR (West Side Story, EUA, 1961, dir. Jerome Robbins & Robert Wise)
Uma adaptação bem livre de Romeu e Julieta, transforma os Montecchios e Capuletos em gangues adolescentes rivais, cujos conflitos invariavelmente terminam em dança. O casal de protagonistas é bem fraco, ele principalmente; a maioria das cenas envolvendo apenas os dois é meio chatinha, com juras de amor juvenis e canções melosas. As cenas com as gangues são muito melhores, com seus confrontos cuidadosamente coreografados. Pena que se acovardaram no final do filme, "surpreendendo" ao se distanciarem do original de Shakespeare mas diminuindo imensamente o peso dramático – já viu Romeu e Julieta onde um deles sobrevive?! Nota 3/5

03/04/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 14


RASHOMON (Rashômon, Japão, 1950, dir. Akira Kurosawa)
Um homem é assassinado e a versão de cada testemunha – incluindo um notório bandido, a esposa da vítima e o próprio morto – difere entre si. Belissimamente filmado e sem oferecer uma solução propriamente dita para o crime, este clássico de Kurosawa é tão influente que gerou vários filmes com estrutura parecida (como Herói) e deu origem até a uma expressão, "efeito Rashomon", que se refere à subjetividade de diferentes pontos de vista ao se recontar um fato. Nota 5/5


NA CHINA COMEM CÃES (I Kina Spiser de Hunde, Dinamarca, 1999, dir. Lasse Spang Olsen)
O título passa a impressão errada, já que não tem nada a ver com a China nem com cachorros. Este filme dinamarquês é uma comédia de humor negro misturada com filme de ação: há uma boa dose de tiros, perseguições e sangue, entremeados por diálogos mórbidos e sarcásticos. A premissa é altamente improvável – um bancário bonzinho entra na vida do crime para ajudar a família de um bandido que ele ajudou a prender. Se é difícil acreditar nas motivações do protagonista Dejan Cukic, Kim Bodnia convence bastante como seu irmão "do mal" que tem todo o know-how necessário para a empreitada fora-da-lei. As cenas de ação funcionam bem, provavelmente devido à experiência do diretor na área – o IMDB lista 60 participações suas como dublê. Mas o destaque é mesmo o humor negro, tanto nos diálogos ("Ela está na sala... e também na cozinha") quanto na sequência de situações que dão errado. Nota 4/5


PETER PAN (EUA, 1953, dir. Clyde Geronimi, Wilfred Jackson & Hamilton Luske)
Se alguns reclamam que o Peter Pan da Disney omite muitas das passagens sombrias do original de J.M. Barrie (nunca li, mas não duvido), por outro lado não lhe falta o que hoje chamam de politicamente incorreto: há crianças fumando cachimbo da paz, gente levando tiro por motivo besta, índios retratados quase como uma raça inferior. De qualquer forma, é uma animação bacana, muito mais coesa do que o filme anterior da Disney (e também adaptação de uma obra inglesa), Alice no País das Maravilhas – que pra mim é mais uma salada de situações nonsense e canções chatinhas. Nota 4/5


VAMPIROS DE ALMAS (Invasion of the Body Snatchers, EUA, 1956, dir. Don Siegel)
Outro título enganador: não é um filme de vampiros, mas de invasão alienígena. Clássico da ficção científica dos anos 50, também pode ser lido como uma crítica à conformidade. Há alguns pontos mal contados no roteiro (nunca entendi o que acontece com os corpos humanos quando os aliens assumem sua forma) e um pouco de overacting aqui e ali ("You're next, you're next!" – imaginem se em vez do Kevin McCarthy fosse o Charlton Heston), mas em geral é um suspense sci-fi bastante eficiente. Nota 4/5


CAMINHOS PERIGOSOS (Mean Streets, EUA, 1973, dir. Martin Scorsese)
Um dos primeiros filmes de Scorsese, tem muita coisa que viria a se tornar sua marca registrada, ao menos no imaginário coletivo – o submundo de Nova York, quase-gângsters que ainda têm muito o que aprender, a culpa católica, trilha rock'n'roll, Robert De Niro, Harvey Keitel. O que a maioria lembra de filmes posteriores e mais famosos como Taxi Driver e Os Bons Companheiros já estava ali, no Martin de 30 anos. Nota 5/5

24/03/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 12

Filmes de 17 a 23 de março:


SUMMER PALACE (Yihe Yuan, China/França, 2006, dir. Ye Lou)
A capinha do DVD estampa orgulhosamente a frase: "banido pelo governo chinês". Mas acho que a censura teve mais a ver com as inúmeras cenas de sexo do que com o contexto político, presente o filme inteiro mas usado apenas como pano de fundo para as histórias dos personagens. Se a "heroína" (Hao Lei) às vezes surge antipática e confusa demais, os dois coadjuvantes principais (Guo Xiaodong e Hu Lingling) protagonizam momentos intensos, como o destino dessa última. O filme termina com aqueles letreiros típicos de histórias reais, deixando no ar se aquelas pessoas existiram mesmo ou não (suspeito que não). Nota 4/5


TAXI DRIVER (EUA, 1976, dir. Martin Scorsese)
Um grande estudo de personagem. Vejo muita influência de Travis Bickle no Rorschach de Watchmen, como o desejo por uma "chuva" que "lave a escória de Nova York" – Watchmen abre com o diário de Rorschach fazendo declarações muito parecidas. Mas enquanto os esforços de vigilantismo de Rorschach só o tornam mais detestados pela sociedade, o desajustado e desconectado Bickle ironicamente vira herói ao promover um massacre. Todas as escolhas do filme são boas, inclusive alguns movimentos de câmera mais enigmáticos (como o enquadramento que se afasta lateralmente de De Niro enquanto ele faz um telefonema constrangedor). Clássico obrigatório e que melhora a cada revisão – gostei muito mais hoje do que sete anos atrás. Nota 5/5


QUIZ SHOW (EUA, 1994, dir. Robert Redford)
Dá pra pegar este Quiz Show e o igualmente ótimo Rede de Intrigas e fazer uma sessão dupla sobre os bastidores sórdidos da televisão. Baseado em um escândalo real nos anos 50 e com ótimas atuações de John Turturro e Ralph Fiennes (além de uma ampla gama de coadjuvantes, incluindo até o Scorsese), o filme ilustra bem como quase tudo na TV é uma bela de uma farsa, muitas das quais seriam consideradas crimes no "mundo real" mas que ali são relevadas porque "não passam de entretenimento". Nota 5/5


FUGA DE NOVA YORK (Escape from New York, EUA/Reino Unido, 1981, dir. John Carpenter)
Transcorre que nem videogame: o background da trama futurista é mostrado logo no início, em diagramas; o herói é chamado para uma missão suicida de resgate; recebe equipamentos e deadline, e começa a enfrentar vilões bizarros com um crescente grau de dificuldade. O grande trunfo é o anti-herói Snake Plissken (talvez o papel mais icônico de Kurt Russell), mas falta ao filme a diversão de outras parcerias John Carpenter/Russell, como Os Aventureiros do Bairro Proibido. Nota 3/5


BROADWAY DANNY ROSE (EUA, 1984, dir. Woody Allen)
Uma grande conversa de bar entre velhos comediantes dá início a esta história sobre um empresário artístico (Woody Allen) que só agencia sub-talentos (um xilofonista cego, um ventríloquo gago, um papagaio) e acaba se metendo em altas confusões com a máfia, à la Quanto Mais Quente Melhor. Há um tom melancólico, ajudado pela fotografia em preto-e-branco e a trilha às vezes triste, que convive bem com os momentos de comédia escrachada, principalmente o tiroteio em uma fábrica de gás hélio que deixa todos os personagens falando fininho. Nota 4/5

15/03/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 11

Uma seleção eclética:


STAR WARS UNCUT - DIRECTOR'S CUT (EUA, 2012, dir. Casey Pugh)
Uma recriação do Episódio IV feita por centenas de fãs entusiásticos e costurada pelo idealizador do projeto. A maior diversão não é quando as recriações das cenas são fiéis, e sim quando se tornam imprevisíveis: gente que filma na mesa da sala, usa a avó como a Princesa Léia, corre com toalha na cabeça pra fingir que é a Millennium Falcon, transforma espremedores de alho em dróides e cria animações rupestres no Paintbrush. Mal posso esperar para participar de um The Empire Strikes Back Uncut. Nota 4/5
(Resenha completa no Cinema de Buteco)


A VOLTA AO MUNDO EM 80 DIAS (Around the World in Eighty Days, EUA, 1956, dir. Michael Anderson)
Não acho que ninguém vá adquirir uma vontade louca de conhecer o mundo depois de assistir a este filme. Os países parecem atrações do Epcot Center de tão estereotipados – a Espanha é só flamenco e tourada, a Índia é um grande culto a deuses bizarros e os ingleses interrompem uma investigação importante só porque é hora do chá. Sem falar que o protagonista (David Niven) contraria quase todos os mandamentos do viajante, recusando-se até a provar a comida local. Também não me agrada que inúmeras cenas sejam indiscriminadamente filmadas com uma grande-angular que distorce formas e rostos. Apesar de tudo, o filme tem seus momentos divertidos (como Cantinflas tentando tourear na Índia ou uma ponta de Sinatra) e suas quase 3h fluem sem aborrecer. Nota 3/5


​FRANKENSTEIN (EUA, 1931, dir. James Whale)
A imagem clássica do monstro de Frankenstein – cabeça chata, parafusos no pescoço – foi instituída neste clássico do terror, em que a criatura ganha a interpretação marcante de Boris Karloff (que não era russo como o nome sugere, mas um britânico chamado William Pratt), acompanhado por um não menos expressivo Doutor Frankenstein (Colin Clive) em um cenário expressionista. Algumas cenas parecem teatrais demais e bem que uma trilhazinha ajudaria no suspense, mas era o início do cinema falada, demos um desconto. Nota 4/5


CABO DO MEDO (Cape Fear, EUA, 1991, dir. Martin Scorsese)
Caramba, que filme tenso. Mesmo quando a situação toda fica bem inverossímil, nas sequências finais, eu já estava tão grudado que nem me importava. De Niro rivaliza com o Javier Bardem de Onde os Fracos Não Têm Vez como o "ultimate badass", mas talvez o mais angustiante seja a tendência da esposa e a filha de Nick Nolte (Jessica Lange e Juliette Lewis) de bandear pro lado do vilão. Nota 5/5


AS AVENTURAS DE BUCKAROO BANZAI (The Adventures of Buckaroo Banzai Across the 8th Dimension, EUA, 1984, dir. W. D. Richter)
Eu achei que fosse nerd o bastante pra curtir esta maluquice, mas pelo visto não passei no teste. São algumas boas sacadas (como a referência à transmissão de Guerra dos Mundos por Orson Welles) que se perdem em uma história nonsense demais para engajar o espectador e uma mistureba de estilos e referências que parecem implorar pra virar cult. Outro problema é que o herói Buckaroo Banzai (Peter Weller) é tratado como fodão por todo mundo mas nunca consegue transmitir essa imagem pra nós, em parte devido à sua falta de carisma – não é à toa que o papel mais famoso de Weller foi como Robocop, de quem só se via o queixo. Se é pra ver comédia com aliens disfarçados de humanos, prefira Homens de Preto; se o lance é uma ficção científica divertida dos anos 80 com um protagonista guitarrista e a participação de Christopher Lloyd, fique com De Volta Para o Futuro. Nota 2/5

26/02/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 9

Praticamente um especial do Oscar:


DRIVE (EUA, 2011, dir. Nicolas Winding Refn)
Tem muita violência, perseguições e batidas de carro, com um protagonista que é dublê por profissão e motorista de bandido nas horas vagas. Mas Drive não é um filme de ação: há muitos momentos silenciosos e coisas mais importantes para os personagens do que ganhar a mocinha no final. O filme acerta ao manter a aura de mistério do "Driver", que não tem nome nem passado e permanece calmo quase o filme inteiro. O elenco coadjuvante também está ótimo, incluindo Carey Mulligan (a garota de Educação, que aqui já tem até filho) e um fragilizado Bryan Cranston (o Walt de Breaking Bad). Nota 4/5


A INVENÇÃO DE HUGO CABRET (Hugo, EUA, 2011, dir. Martin Scorsese)
Taí um filme que eu queria muito ver no cinema, mas não está na lista de estréias próximas ou futuras aqui na China. E não dá pra entender: filme em 3D pra toda a família, sem temas "sensíveis" ou cenas "reprováveis", seria um prato cheio para a chinesada; em vez disso preferiram exibir Happy Feet 2. A coincidência em ser lançado na mesma época que O Artista é curiosa, pois são duas obras que homenageiam o cinema mudo de formas diametralmente opostas: enquanto o filme francês se passa em Hollywood e emula as técnicas cinematográficas de quase um século atrás, Hugo – um filme americano que se passa em Paris – usa o que há de mais moderno, incluindo 3D, computação gráfica, câmeras "voadoras" que atravessam vidros e estações de trem. Também vejo um paralelo com Bastardos Inglórios: um diretor se aventurando em um terreno bem diferente do seu habitual (Tarantino na Segunda Guerra, Scorsese no "filme-família") movido principalmente por sua paixão pelo cinema. O Hugo do título fica quase em segundo plano quando percebemos que tio Martin fez seu filme para homenagear e resgatar Georges Meliès, um cara que merece todo tipo de resgate e homenagem. (Recomendo também o último episódio da ótima minissérie Da Terra à Lua, que aborda Meliès.) Quando tenta ser engraçadinho, Hugo escorrega – as cenas com os coadjuvantes na estação encabeçados por Sasha Baron Cohen não funcionam muito, e um conflito no final (quando Hugo vai buscar o automaton) soa particularmente como encheção de lingüiça. Mas a inventividade visual de Scorsese e sua paixão pelo cinema, que transparece na tela (ele se permite até uma rara ponta como um fotógrafo), compensam e muito. Nota 4/5


CAVALO DE GUERRA (War Horse, EUA, 2011, dir. Steven Spielberg)
Tinha um livro quando eu era criança chamado Brim Azul: A História de Uma Calça. Do pouco que eu lembro, era um relato episódico de uma calça jeans que ia passando de mão em mão (ou perna em perna) e acumulando um dono atrás do outro. Cavalo de Guerra é praticamente a mesma coisa, mas com um cavalo no lugar. A cada meia hora há uma reviravolta e o bicho se vê em um novo ambiente. Primeiro, é criado em uma fazenda pelo filho de um agricultor; o filme leva 50 minutos pra estabelecer a melosa relação entre o garoto e o eqüino, tirando o primeiro da jogada assim que a guerra começa. Em seguida o cavalo vai para as mãos de um capitão inglês, depois para dois irmãos alemães, para uma família francesa, para soldados de novo, e aí parei de contar. Irrita essa mania de todo mundo falar inglês – pra que contratar atores alemães, fazer o exército alemão gritar ordens em alemão e botá-los conversando entre si em inglês com sotaque carregado? O filme tem seus momentos inspirados, como o ataque-surpresa a um acampamento alemão, o fuzilamento de dois garotos e a cena em que o cavalo corre sozinho pelas trincheiras. Mas do Spielberg a gente sempre espera mais. Ou será que, nesse caso, seria menos? Menos trilha sonora sentimental, menos personagens, menos diálogos expositivos, menos coincidências no roteiro... O pior momento é quando um personagem diz: “Quando ouvi falar do cavalo milagroso, viajei 3 dias pra chegar aqui”. Milagroso? O lazarento só traz desgraça pra todo mundo que se afeiçoa a ele! Sou fã do Spielberg e acho ruim quando alguém desdenha do cara que fez Indiana Jones, E.T., Tubarão, Jurassic Park, O Resgate do Soldado Ryan e tantos outros; mas se eu precisasse escolher 5 ou 10 ou mesmo 15 obras de sua filmografia, Cavalo de Guerra não estaria entre elas. Nota 2/5


HISTÓRIAS CRUZADAS (The Help, EUA, 2011, dir. Tate Taylor)
Não é nada assim memorável, mas também não achei execrável como estão falando por aí. O elenco é irregular e as interpretações variam do sutil (Viola Davis) ao exagerado (Octavia Spencer). E traz umas participações curiosas, como Sissy Spacek (Carrie, a Estranha) e Mary Steenburgen (a namorada do Doc Brown em De Volta Para o Futuro III). Quanto às acusações de racismo, é complicado: as intenções do filme são boas, mas não ajuda que a heroína seja uma garotinha branca e que a personagem de Octavia Spencer seja responsável por uma vingancinha escrota e deplorável, situação que é tratada como piada pelo filme e seus personagens. Histórias Cruzadas patina de vez a partir do momento da revelação do "ingrediente secreto" da tal torta, quando investe em motivações artificiais e injustificáveis – como o flashback da mãe de Skeeter ou a mesa de comida preparada pela patroa, que "dá forças a Minny para abandonar o marido" (o que é explicado em uma simples frase narrada). Mais injustificável ainda é toda o prestígio que esse filme tem recebido nas premiações desta temporada. Nota 3/5


TÃO FORTE E TÃO PERTO (Extremely Loud & Incredibly Close, EUA, 2011, dir. Stephen Daldry)
O mais malhado dos indicados ao Oscar de Melhor Filme este ano (tem inclusive um atestado de "podre" no tomatômetro), Tão Forte e Tão Perto merece as críticas. Quando o protagonista de um filme dramático é um moleque chato e malcriado e o principal recurso narrativo é uma narração em off redundante e repetitiva, temos problemas. Até o compositor Alexandre Desplat, que fez a bela trilha de A Árvore da Vida, entrega aqui um trabalho burocrático e meloso – todas as vezes que alguém menciona a expressão "11 de setembro", sobe o som da orquestra implorando pro espectador chorar. O pentelho Thomas Horn lembra uma versão infantil do Sheldon de Big Bang Theory, mas sem o tino cômico que torna o personagem do seriado suportável. As raras cenas em que o pirralho não aparece (como o telefonema entre Tom Hanks e Sandra Bullock) saem beneficiadas. A narração é outro pé no saco, repetindo pela enésima vez tudo o que acabamos de ver ("Se havia uma chave, também havia uma fechadura. Se havia um nome, também havia uma pessoa. Tinha que haver uma fechadura." Vontade de socar o moleque). Tão Forte e Tão Perto tem uma história parecida com A Invenção de Hugo Cabret e uma execução xinfrim como Os Descendentes – mas eu queria mesmo é que fosse mudo como O Artista. Nota 2/5

Bonus track - minha lista dos candidatos a Melhor Filme em ordem de preferência:

1. O Artista
2. O Homem que Mudou o Jogo
3. A Invenção de Hugo Cabret
4. A Árvore da Vida
5. Meia-Noite em Paris
6. Os Descendentes
7. Histórias Cruzadas
8. Cavalo de Guerra
9. Tão Forte e Tão Perto

Bonus track 2 - meus palpites para os vencedores da noite. (Update pós-Oscar: acertei 16 das 24 categorias, até que não fui mal. Os chutes em curtas e documentários foram todos pra fora. Categorias como Montagem, Fotografia e Efeitos Visuais foram surpresas pra quase todo mundo; e Atriz estava bem dividido de qualquer forma.)

Filme – O Artista
Diretor – Michel Hazanavicious (O Artista)
Ator – Jean Dujardin (O Artista)
Atriz – Viola Davis (Histórias Cruzadas)
Ator Coadjuvante – Christopher Plummer (Toda Forma de Amor)
Atriz Coadjuvante – Octavia Spencer (Histórias Cruzadas)
Roteiro Adaptado – Os Descendentes
Roteiro Original – Meia-Noite em Paris
Animação – Rango
Filme Estrangeiro – A Separação
Fotografia – A Árvore da Vida
Direção de Arte – Hugo
Figurino – O Artista
Documentário – Paradise Lost 3
Curta Documentário – Incident in New Baghdad
Montagem – O Artista
Maquiagem – A Dama de Ferro
Trilha Sonora Original – O Artista
Canção Original – Os Muppets
Curta Animação – La Luna
Curta – Pentecost
Edição de Som – Hugo
Mixagem de Som – Hugo
Efeitos Visuais – Planeta dos Macacos

Quem

Lucas Paio já publicou contos em revistas e antologias, já dirigiu curtas-metragens e compôs canções, já ganhou um campeonato de aviões de papel, tocou teclado numa banda cover de Bon Jovi, morou na China e hoje vive em Berlim. É autor do romance de fantasia cômica MACADÂMIA, lançado em 2025.

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