04/05/2010

Onde o Gêngis Khan perdeu as botas

 
Dia 1 – Sábado, primeiro de maio de 2010 

 

Para ler ouvindo: 
Hanggai – "Drinking Song" 


05:10 A.M. 
Enquanto o sol começa a dar as caras e os bêbados retornam de mais uma longa jornada de esbórnia, já estamos na porta do McDonald's de Wudaokou, em Beijing, esperando o ônibus da excursão para a Mongólia Interior. 

Peraí, que cazzo é Mongólia Interior?, você deve estar se perguntando. Resposta simples: é uma província da China situada no norte do país, fazendo fronteira com a Mongólia "Exterior", conhecida internacionalmente apenas como Mongólia. Nesses vaivéns históricos de conquistar um pedaço aqui, ceder um território ali, a China acabou ganhando parte da terra de Gêngis Khan. Hoje, a população da Mongólia Interior é majoritariamente chinesa (80% são da etnia Han, os famosos "chineses com cara de chinês"), mas a região ainda compartilha muito da cultura, a língua e a paisagem do país vizinho. 


Pintada de laranja, a Mongólia Interior. Beijing fica no ponto amarelo um pouco abaixo. 

Eu já cogitara viajar à Mongólia Interior lá na época do feriadão de outubro , mas todo mundo foi pulando fora e o passeio melou. Veio o inverno e a viagem tornou-se impraticável - se o frio já pegava em Beijing, imagine mais ao norte. Com a chegada da primavera - sol raiando, flores desabrochando, pássaros gorjeando, sabe cumé - a idéia voltou à tona, reforçada pelos inúmeros livretos promocionais que as agências de viagem nos entregam todo dia na porta da universidade. 

Recomendaram-me evitar as tais agências, famosas por enganar os viajantes levando-os a conhecer "fábricas de cerâmica" e baboseiras afins só para arrancar uma graninha nas lojas de souvenir. Mas quando comecei a pesquisar quanto sairia ir por conta própria, só a passagem de trem já saía mais cara que o pacote completo das agências. Sem falar que o quente da Mongólia Interior é justamente o interior, e a não ser que você tenha carro, moto ou cavalo, ou curta pedir carona nas estradas chinesas, inevitavelmente vai ter que depender de outras excursões pra chegar às estepes e desertos. 

Um albergue em Hohhot me mandou por e-mail os passeios que eles mesmos organizavam. Na lista de atividades, tiveram a cara-de-pau de incluir "have a quiet and leisure time" e "stay with many Chinese tourists". Assim, acabamos cedendo aos livretinhos de porta de faculdade e escolhemos a agência que parecia menos engana-trouxa. 

05:45 
O ônibus parte de Wudaokou rumo à Mongólia. Previsão de chegada: uma hora da tarde. Do grupo que se encontra no ônibus, italianos e coreanos são a grande maioria. 
  
08:50 
Depois de passarmos a Grande Muralha, fazemos a primeira parada. Quinze minutinhos pra aliviar a bexiga e depois bora pro busão, que tem muito chão pela frente e o trânsito não tá mole não. No nosso ônibus, dois motoristas se revezam. Ambos são adeptos ardorosos da direção ofensiva, buzinando ostensivamente e arriscando ultrapassagens que eu não tento nem no GTA. 

09:17 
O trânsito é tão intenso que os motoristas, inclusive o nosso, são obrigados a desligar o motor e esperar. 


Agarrado na Rio Grande do Norte com Contorno? Sorria: feriado na China é bem pior. 

12:32 
Segunda parada. Agora já saímos da província de Hebei e chegamos à Mongólia Interior. É fácil identificar a mudança: de uma hora pra outra, todas as placas que tinham mandarim e inglês agora têm mandarim e mongol, idioma com alfabeto próprio e curiosamente escrito de cima pra baixo. 

13:08 
Ainda distantes do destino final de hoje - culpa dos engarrafamentos no caminho -, paramos para almoçar na cidadezinha de Jining (em mandarim: 集宁 ou Jínìng; em mongol eu vou ficar devendo). Não sei se foi porque não entramos realmente na cidade, mas minha impressão foi de um lugar pobre, que raramente vê turistas, quanto mais ocidentais: motoristas e ciclistas preferiam olhar para nós do que para a rua por onde andavam. 

 
Óia pra frente, fia! 

Na porta do restaurante já podíamos ouvir uma cantora se esgoelando, acompanhada por um tecladinho cafona. Ao entrarmos, descobrimos que invadíamos uma festa de casamento. Balões dourados e cor-de-rosa enfeitavam o ambiente, enquanto os familiares tiravam fotos e a noiva - vestindo vermelho, como é tradição na China - aparentemente cumpria um importante ritual: dar uma voltinha carregando o noivo nas costas (?!). 

 
"Com quem serááááá?..." Ao fundo, a foto do casal bunito, agora unidos na alegria e na tristeza. 

O almoço é aquele tradicional esquema chinês: mesa redonda com vidro rotatório no centro, facilitando a vida dos comensais, e pratos variados que vão de batatas e pepinos a carnes e melancias no palito. Todas as refeições daqui pra frente seguiriam o mesmo padrão: nada muito típico da Mongólia (famosa pelos churrascos e pelo hot pot), mas suficientemente satisfatório. 

 
Tem comida de sobra, mas os dois ali no canto superior esquerdo querem atacar o mesmo pedaço. 

13:57 
A paisagem mongol-interiorana (acertei no gentílico?), pelo menos nesse trecho inicial, não é exatamente belíssima. A cor predominante é um marrom esverdeado meio morto, as plantações são inúmeras e as ovelhas às vezes se camuflam no cenário, de tão sujas. Montanhas, moinhos e descampados enormes completam a vista. 

  

16:18 
Adentramos a capital da Mongólia Interior. Hohhot (em mandarim: 呼和浩特 ou Hūhéhàotè; em mongol é "Hohhot" mesmo, que significa Cidade Azul) foi fundada no século XVI por Altan Khan - tatatatatataraneto do Gêngis - e hoje é o lar de 1,14 milhão de pessoas. Não descemos no centro, mas da janela do ônibus eu curto o que vejo. Me parece uma cidade com as conveniências de uma capital, mas sem a loucura metropolitana de Beijing. Chama a atenção o estilo dos prédios, pintados e adornados em dourado, branco e azul. 

  

 
Tecnologia de ponta: os táxis verdes de Hohhot trazem no topo um moderníssimo painel eletrônico. 

 
Achei um barato esses carros que vi muito em Hohhot: duas rodas atrás, mas uma só na frente, como um frankenstein automobilístico mesclando carro e triciclo. 

16:52 
Bem que me avisaram antes: "eles vão te levar pra lojinhas mil e te obrigar a comprar uma porção de inutilidades". De fato, perdemos um tempo nesse aglomerado de lojas de souvenir - que eles chamavam de "produtos das minorias étnicas" - que poderíamos aproveitar conhecendo melhor Hohhot, por exemplo. Mas não nos fazem comprar nada: só temos que seguir o guia num caminho estrategicamente escolhido, enquanto vendedores oferecem chaveiros, chapéus, espadas, estátuas de cavalos, laticínios, roupas típicas e tudo o mais que a imaginação mongol permitir. 

 
Variedade pra Jiraya nenhum botar defeito. 

 
A coreana da nossa excursão gostou de empunhar a espadona. 

17:47 
De volta ao ônibus. Nosso objetivo agora é chegar às grasslands. (Eu nunca soube muito bem como traduzir essa palavra. Na viagem só ouvia "grassland" pra cá e pra lá. Os chineses chamam de "cǎoyuán", que literalmente significa planície de grama. Acho que a versão mais aceita em português é "estepe", que me lembra mais pneu do que gramado. Mas enfim.) Lentamente, a paisagem montanhosa vai se aplainando, aplainando até dar lugar à imensidão verde-chocho das estepes. Não sei se é o lusco-fusco que se aproxima ou a primavera que não chegou direito, mas eu esperava um verde mais vivo e abundante, estilo wallpaper do Windows. Aqui elas parecem muito mais "lands" do que "grass". 

  

19:34 
Assim como a Grande Muralha tem trechos inóspitos e outros preparados para receber a turistada, nas estepes não é diferente. Entramos na área de Xilamuren (em mongol, "Água Amarela", não me pergunte o porquê), que traz a cada centena de metros um acampamento dedicado a receber os viajantes no tradicional estilo mongol, ou quase isso. Logo quando descemos do ônibus, um grupo local - vestido naqueles trajes coloridos que ninguém é doido de usar no dia-a-dia - recepciona nosso grupo cantando canções folclóricas e oferecendo uma bebida forte (42% de álcool) em uma pequena bacia de metal. Não sei se era só pra bicar, mas acabei virando a baciinha toda numa sentada. O mais legal foi perceber que a música cantada por eles era a mesma "Drinking Song" que apresentei no primeiro podcast do Boca de Gafanhoto (e que repeti no início deste post), provavelmente uma daquelas canções etílicas de domínio público. Se bobear, os versos querem dizer: "Primeira bateria, vira vira vira, vira vira vira..."

19:47 
Somos levados à nossa acomodação: um yurt. Aqui novamente temos uma mistureba de nomes: "yurt" é o nome em inglês, que na verdade veio do turco. "Ger" é a palavra mongol. Para os chineses, o nome é 蒙古包 ou měnɡɡǔbāo (leia-se mangubáu). Tudo para designar a mesma coisa: as tendas tipicamente mongóis de paredes verticais e teto cônico, às vezes permanentes, às vezes construídas e desmontadas em um curto período de tempo. Nosso acampamento tem um yurt grandão, que serve de restaurante, e dezenas de outros pequenos para o pessoal dormir. Alguns são tendas de pano, outros têm a estrutura mais firme. Não posso reclamar do meu: banheiro e televisão são luxos que eu não esperava mesmo de uma acomodação nômade. 

 
O yurt visto de fora: até janela de vidro com cortina! 

  
Chuveiro, privada e TV: as tropas de Gêngis Khan jamais sonhariam com isso. 

20:59 
Depois do jantar no yurt-restaurante, começa o showzinho do lado de fora. Acendem uma fogueira, fazem uma roda e lá vem a mulherada mongol dançando e dando piruetas ao som de uma trilha que lembra muito as musiquinhas do Street Fighter. Depois vem uma apresentação de música instrumental. O instrumento em questão é um matouqin, de apenas duas cordas e uma mão em forma de cabeça de cavalo. Diz a internet que uma corda é composta de 40 fios de rabo de cavalo e a outra 60, mas eu não parei pra contar. Ao final, volta a cantoria e a música eletrônica, as dançarinas convidam o público a entrar na festa e a coisa descamba para uma inesperada rave mongol carnavalesca. 

 
O matouqin, ou "violino cabeça-de-cavalo". 
  
  

 
Festa mongol tem direito até a trenzinho da alegria. 

No próximo post: descubra quão selvagens são os cavalos mongóis, aprenda a lutar como um herdeiro de Gêngis Khan e dê uma volta no quarteirão da maior cidade da Mongólia Interior. 

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Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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