
Assistam
Arthur. Não, não me refiro ao filme do carinha que virou rei só por conseguir tirar uma espada dum pedaço de pedra. Falo da comédia de 1981 que ganhou o Oscar de melhor canção e o de melhor ator coadjuvante, e que no Brasil recebeu o dispensável subtítulo (estou sendo redundante: todos os subtítulos brasileiros são dispensáveis) de
Um Milionário Sedutor.
Viciei no filme. Devo ter visto umas cinco ou seis vezes neste mês de julho, a ponto de utilizar boa parte de seus diálogos no dia-a-dia, exclamando
"Peanuts!" ao ver uma tirinha do Snoopy, ou gritando
"I hate that when it happens!" com voz de bêbado se algo não ocorreu de acordo com o esperado.
Arthur reúne algumas das características imprescindíveis para que um filme se torne marcante: bons atores, diálogos memoráveis, trilha sonora que gruda na cabeça. Não que seja uma trilha extensa: além da canção premiada (
Best That You Can Do, ou, como é muito apropriadamente conhecida,
Arthur´s Theme), só ouvimos mais uns três temas instrumentais de Burt Bacharach e o protagonista no piano executando clássicos como a papainoélica
Santa Claus Is Coming To Town e a lunática
Blue Moon. Mas assista cinco vezes igual eu e com certeza se pegará cantarolando até os improvisos de Arthur:
"If you knew Susan, like I know Susan... I... I... I need a drink".
No elenco, temos Dudley Moore como Arthur Bach, o tal milionário sedutor (e bêbado, vale frisar); Liza Minnelli como Linda, nome que, se não contraditório, ao menos um pouco exagerado; John Gielgud como o mordomo de Arthur, no papel que lhe rendeu o Oscar (existe frase mais clichê em textos sobre cinema do que "o papel que lhe rendeu o Oscar?); e mais um bando de menos-famosos cujas carreiras resolvi investigar no movie database mais potente do mundo, o
IMDB.
Pra quê. A cada nome que eu olhava, mais espanto. Tirando a Liza Minnelli e a noiva do Arthur no filme,
todos os integrantes principais do elenco morreram. Pior: grande parte deles nos últimos anos. Pior ainda: muitos em 2005. Estaria eu diante de uma conspiração para eliminar os realizadores do filme? Senão vejamos:
John Gielgud, o mordomo, morreu em 2000. Dudley Moore, o protagonista bêbado, foi-se em 2002. Ted Ross, seu motorista, partiu desse mundo alguns meses depois, ainda em 2002. O diretor e roteirista, Steve Gordon, bateu as botas em 1982, apenas um ano após o lançamento de seu
único filme. Sim, primeiro e único. E a lista dos finados de 2005? Barney Martin, que faz o pai da Linda. Stephen Elliott, o pai da Susan. Geraldine Fitzgerald, avó de Arthur, que morreu em 17 de julho de 2005. Dezessete de julho: exatamente o dia em que assisti
Arthur pela primeira vez. Liza Minnelli, minha filha, toma cuidado.
Ainda na Austrália vi pra vender o DVD de
Arthur 2: On The Rocks, de 1988. Recusei-me a sequer dar uma olhada, ainda mais depois de saber que o diretor-roteirista não participava, por impossibilidades óbvias. E nem com o cara morto deixaram o filme dele em paz. I hate that when it happens.