21/11/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 35


TEMPOS MODERNOS (Modern Times, EUA, 1936, dir. Charles Chaplin)
Do famoso plano inicial, que compara um rebanho de ovelhas com uma multidão saindo do metrô, ao final, que encerra a “carreira” de Carlitos de forma poética, Tempos Modernos é uma obra-prima. Semi-mudo por pura teimosia de Chaplin, os sons e vozes vêm apenas das máquinas na maior parte do filme – exceto pela cena em que Carlitos, pela primeira vez na história, abre a boca pra cantar e revela sua voz num idioma inventado que mistura francês, inglês e italiano. Tempos Modernos tem de tudo: crítica social, história de amor, pastelão em sua melhor forma (a genial “máquina de comer”) e piruetas mirabolantes (Chaplin se mostra um exímio patinador de olhos vendados!). A cereja do bolo é a música-tema, a triste e sensacional “Smile”. Composta, claro, por Charles Chaplin. Nota 5/5


TUDO O QUE VOCÊ SEMPRE QUIS SABER SOBRE SEXO * MAS TINHA MEDO DE PERGUNTAR (Every Thing You Always Wanted to Know About Sex * But Were Afraid to Ask, EUA, 1972, dir. Woody Allen)
Um coleção de esquetes surpreendentemente coesa, não por ser baseada em um livro (acho que só tomaram o título emprestado), mas por serem todas feitas por Woody Allen. Tem Woody como bobo da corte, Gene Wilder apaixonado por uma ovelha, um segmento que imita filmes italianos (com Woody falando um italiano bem sem-vergonha) e outro que parodia um programa de TV ("What's My Perversion?"). A única seqüência que não me cativou tanto é aquele envolvendo um seio gigante. Em compensação, ela é seguida pelo melhor segmento do filme, que mostra o que acontece dentro do corpo humano durante a hora do vamos-ver. Aquilo daria um longa genial. Nota 4/5


LOOPER - ASSASSINOS DO FUTURO (Looper, EUA/China, 2012, dir. Rian Johnson)
Uma das boas surpresas do ano, Looper tem um roteiro engenhoso que traz algumas novidades para o subgênero "viagens no tempo", como memórias que se atualizam instantaneamente e as cicatrizes que aparecem do nada. A química entre Joseph Gordon-Levitt e Bruce Willis sustenta o filme, principalmente se levarmos em conta que o protagonista Joe é um cara bastante repreensível. No entanto, Looper perde um pouco o foco quando se torna quase uma mistura de O Exterminador do Futuro (a personagem de Emily Blunt inclusive se chama Sarah!) e X-Men: eu preferiria se tivessem deixado os superpoderes de lado e se concentrado apenas no interessante conceito de viagem temporal. Nota 4/5


O PODEROSO CHEFÃO (The Godfather, EUA, 1972, dir. Francis Ford Coppola)
Já vi a trilogia em dias consecutivos várias vezes, mas esta foi a primeira em que assisti a todos em um único dia. Se pressionado para escolher um preferido, meu voto vai para o primeirão, que ainda tem toda a família "unida". É basicamente um filme perfeito, da cena do casamento cheia de pequenos detalhes (adoro o momento em que Johnny Fontante chega e Connie abre os braços dizendo "I love you!") à primorosa seqüência alternando o batizado e os assassinatos. Brando, Caan, Duvall, Cazale, estão todos absolutamente impecáveis, mas o filme é mesmo de Al Pacino e seu Michael Corleone, que passa de "civil" a Poderoso Chefão. "It's my family, Kay, not me", diz ele para Dianne Keaton logo no início. Será? Nota 5/5


O PODEROSO CHEFÃO - PARTE II (The Godfather – Part II, EUA, 1974, dir. Francis Ford Coppola)
As seqüências de prólogo, com Robert DeNiro fazendo um jovem Marlon Brando, são cinemão clássico, contadas com calma e primor. As cenas no presente são bem diferentes e igualmente ótimas, com uma fotografia sombria e muitos momentos memoráveis (o tapa de Michael em Kay; as conversas entre Michael e Fredo). A trama sempre me pareceu mais confusa do que deveria, cheia de novos personagens e desdobramentos, mas isso não diminui em nada a grandeza do filme. Nota 5/5

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 34


OS INCOMPREENDIDOS (Les Quatre Cents Coups, França, 1959, dir. François Truffaut)
Um estudo de personagem de um garoto que é detestado pelos professores e tem um relacionamento difícil com os pais; começa matando aula e termina na Febem francesa. A Nouvelle Vague nunca fez muita parte da minha formação de cinéfilo e, dos poucos que vi até hoje, gostei de todos, mas não colocaria nenhum na minha lista de favoritos. Truffaut me apatece mais que Godard, sem muitas invencionices estilísticas, filmando com uma mão mais leve. Preciso ver mais. Nota 4/5


POR UM PUNHADO DE DÓLARES (Per un Pugno di Dollari, Itália/Espanha/Alemanha Ocidental, 1964, dir. Sergio Leone)
Primeiro filme da Trilogia dos Dólares, traz Clint Eastwood com seus icônicos chapéu e poncho muito confortável no papel de bad-ass de ar tranqüilo. As cenas de tiroteio estão entre as mais cool dos faroestes: numa, Clint diz ao coveiro: “Prepare três caixões”, mata mais do que previa e retorna mostrando quatro dedos (“Me enganei.”); noutra, ele se torna à prova de balas da mesma maneira como Marty McFly faria décadas depois em De Volta Para o Futuro III. Tudo isso tem a assinatura inconfudível de Sergio Leone, que usa com primor todo o vocabulário cinematográfico de planos abertos, médios, closes; sem falar na trilha de Ennio Morricone (bizarramente creditado aqui como “Dan Savio”), que sempre cria temas-chiclete. Nota 4/5


O HOMEM DO FUTURO (Brasil, 2011, dir. Cláudio Torres)
Wagner Moura mata a pau interpretando não uma nem duas, mas três versões de seu personagem (“Papai?”). Seu João Zero é Marty, George McFly e Biff – arrasa no palco no baile da escola, é zoado em público, altera a linha temporal a seu próprio favor e até mesmo usa uma fantasia de astronauta que lembra muito a roupa anti-radiação usada por Michael J. Fox. A trilha é bem escolhida, brincando sempre com os temas do filme (“Tempo Perdido”, “Creep”, “It's the End of the World as We Know It”), os efeitos visuais são competentes e, principalmente, nós nos importamos com os personagens e aprendemos a gostar de cada um deles. O Brasil não tem muita tradição em filmes de gênero e é uma grata surpresa ver uma ficção científica-comédia-romântica tão divertida e bem bolada. Nota 4/5


MOONWALKER (EUA, 1988, dir. Jerry Kramer, Will Vinton, Jim Blashfield & Colin Chilvers)
É basicamente uma coleção de videoclipes, que individualmente são ótimos mas juntos não formam um filme nem a pau. Tem de tudo: versões ao vivo de “Man in the Mirror” e “Come Together”; uma retrospectiva da carreira de Michael desde os tempos de “ABC”; uma paródia do clipe de “Bad” só com crianças; uma historinha que se passa num mundo roger-rabbitiano cheio de bonecos cabeçudos em stop-motion (e que culmina na transformação de Michael num coelho e na subseqüente divisão das duas “entidades”); e o clipe-curta de “Smooth Criminal” que, apesar da participação de Joe Pesci como vilão, acaba se tornando um Pequenos Espiões meio chatinho. Como ator, aliás, Michael era um ótimo qualquer-outra-coisa. Nos créditos finais, a imagem da capa do álbum Bad (do ano anterior) não nos deixa enganar: Moonwalker é um comercial em longa-metragem. Nota 2/5


GATTACA - EXPERIÊNCIA GENÉTICA (Gattaca, EUA, 1997, dir. Andrew Niccol)
A premissa – num futuro onde a biogenética é extremamente desenvolvida, as pessoas escolhem as características de seus filhos antes do nascimento – é bem interessante e levanta diversas questões sobre a sociedade, o futuro da ciência, preconceito, predisposição genética e destino. O conceito da troca de identidade entre Ethan Hawke e Jude Law é bem explorado e é onde o filme mais acerta. Já a trama policial e o romance de Hawke com Uma Thurman decepcionam um pouco por tomarem mais tempo do que precisavam, quando o filme poderia se ocupar de questões mais audaciosas. De qualquer forma, Gattaca é um sci-fi intrigante e bem dirigido, e uma boa estréia para Andrew Niccol. Nota 3/5

11/11/2012

O Laos, esse desconhecido

 

Muitas pessoas sequer sabem que o Laos é um país. Não é de se admirar: ele raramente surge nos noticiários, nunca participou de uma Copa do Mundo nem ganhou uma medalha olímpica; você não ouve falar de gente que sai do Brasil só pra conhecer o Laos. Uma pena, porque é um lugar que merecia mais atenção e certamente vale uma visita – ou várias. Pra ninguém ficar boiando, vamos começar a série de posts sobre esse país injustamente desconhecido com quatro fatos rápidos: 

 

1. O Laos fica no Sudeste Asiático, não tem saída para o mar e está espremido no meio de vizinhos mais famosos e influentes: China em cima, Camboja embaixo, Tailândia de um lado, Vietnã do outro; 
2. Já foi reino, protetorado francês e é comunista desde 1975; 
3. É um país tropical, abençoado por Buda (70% da população é budista, apesar do governo comunista) e bonito por natureza – rios, florestas, montanhas e cachoeiras ocupam a maior parte do território; 
4. É o país mais bombardeado de todos os tempos: quando partes do Laos foram ocupadas por norte-vietnamitas durante a Guerra do Vietnã, choveu bomba dos Estados Unidos. 

 

Dada sua proximidade com outros destinos mais populares (é só atravessar o rio Mekong que você já está na Tailândia), é quase pecado passear pelo Sudeste Asiático e não dar um pulo no Laos. E, ao contrário do que o turista mais medroso possa pensar, é bem fácil se virar por lá. As cidades são pequenas – a maior é tão populosa quanto Palmas, no Tocantins – e você se locomove a pé, de bicicleta ou de tuk-tuk, aqueles triciclos motorizados onipresentes nessa parte do planeta. Monge e tuk-tuk é o que não falta no Laos. 

 
Como queríamos demonstrar. 

Você não precisa saber uma palavra da língua local – chamada "lao" –, mas não custa nada aprender duas para ser simpático: " sabaidee ", que serve para oi, bom dia, boa noite e tchau, e " kop chai ", que significa obrigado. Para um "muito obrigado" mais efusivo, diga " kop chai lai lai ", abrindo aquele sorriso e juntando as palmas das mãos. De resto, um inglês de quinta série resolve a maioria das situações – e mesmo assim ainda tem gente que abusa da falta de noção, como a alemã que estava com o marido em uma mesa próxima à nossa e perguntou ao pobre garçom: " Und in Euro? ". Ela não só queria pagar a conta em euro, como queria que o garçom soubesse alemão. 

 
Custava ter trocado dinheiro no aeroporto, minha filha? 
(A nota mais alta do Laos é de 50 mil kip e vale R$ 12. Como no Vietnã, é fácil ser multimilionário.) 

O Laos é um país que dorme cedo. E não exatamente porque faz bem pra pele: há um toque de recolher oficial, imposto pelo governo, que obriga todo mundo a voltar pra casa até a meia-noite. A grande maioria dos bares e restaurantes fecha às onze e meia, e quem desobedecer corre o risco de desembolsar uma nota preta como multa. Para os viajantes, é mais jogo passar num mercadinho, encher a sacola de Beerlao e beber no próprio hotel. Viajar pro Laos atrás de balada é como ir à Índia pra comer churrasco. 

Mas você se acostuma. Tudo faz parte do clima relax do lugar, que constrasta bastante com o fuzuê encontrado nos países vizinhos. Sair da China e ir pro Laos, então, é um alívio para os sentidos: não tem buzina, empurra-empurra, gente gritando em tudo que é lugar. Os laocianos sorriem e cumprimentam – não só aqueles que dependem dos turistas, nos hotéis e restaurantes, mas gente que tinha tudo pra ser carrancuda, como guardinhas vigiando a embaixada dos EUA e os fiscais que inspecionam os tuk-tuks na entrada do aeroporto. A simpatia do povo e a filosofia "no stress" estão entre os principais atrativos do Laos, mas estão longe de ser os únicos. Só que você vai ter que esperar os próximos posts. 

 
Sabaidee!


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

15/10/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 33


ERASERHEAD (EUA, 1977, dir. David Lynch)
Filme de estréia de David Lynch, já é um perfeito representante do que se convencionou chamar de “lynchiano”. Há sim uma narrativa básica, envolvendo o protagonista de cabelo maluco, um bebê-dinossaurinho e o medo da paternidade, mas a história é contada de maneira bem livre e nunca sabemos o que é alucinação e o que é “verdade”. É um filme de estilo único, cheio de cenas nojentas, sons perturbadores, poucos diálogos e momentos surreais (as mini-galinhas são minhas favoritas). Eu gostei bastante, mas não me peça pra explicar. Acho que curtirei ainda mais quando assistir uma segunda vez. Nota 4/5


O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN (Brokeback Mountain, EUA/Canadá, 2005, dir. Ang Lee)
Várias escolhas me surpreenderam em Brokeback Mountain, e todas positivamente. O momento em que o relacionamento entre Ledger e Gyllenhaal começa foi uma delas – surge quase sem aviso, mesmo que todos já saibamos de antemão o que vai acontecer. Outra foi o longo período que escolheram para contar a história: são duas décadas, tornando o difícil romance entre os dois protagonistas não apenas um episódio com final aberto, mas uma história longa com início, meio e fim. Calhou de ser um filme sobre “cowboys gays”, mas poderia ser sobre qualquer relacionamento difícil. Nota 5/5


O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA (The Texas Chain Saw Massacre, EUA, 1974, dir. Tobe Hooper)
Tem um início intrigante quando um grupo de jovens dá carona para um sujeito bizarro, mas o “grosso” do filme – os ataques de Leatherface com a ferramenta-título – já foi tão repetido nas décadas seguintes que não soa tão interessante hoje em dia. A última meia hora, que envolve uma família definitivamente disfuncional, impressiona mais e melhora substancialmente o conjunto final. Nota 3/5


MEGA SHARK VS CROCOSAURUS (EUA, 2010, dir. Christopher Ray)
Peca principalmente não por ser um filminho safado claramente feito em poucas semanas, mas por carecer de mais humor. O mais divertido é mesmo observar a tosquice dos efeitos especiais – a barbatana gigante recortada que sequer faz ondas nas águas ao seu redor (seria mais barato e convincente filmar numa piscina com uma barbatana de plástico), as explosões feitas com plug-ins do After Effects, a sensação nula de profundidade, o tubarão mais tosco que aquele holograma em De Volta Para o Futuro II, os ovos gigantes que parecem batatas, as pegadas do crocodilo feitas digitalmente, as cenas de pessoas correndo na rua que eles repetem invertidas para parecer que são outras, as cenas debaixo d'água que parecem os infográficos animados mostrados por Bill Paxton em Titanic... a lista é imensa. De resto, é um caça-níqueis propositalmente ruim cujo personagem mais marcante é um Indiana Jones genérico, as cenas de ação são tão escuras e malfeitas que você não entende o que está acontecendo e até o slogan do pôster (“Whoever wins, we lose”) é plagiado – de Aliens vs Predador! Nota 1/5


JUVENTUDE TRANSVIADA (Rebel Without a Cause, EUA, 1955, dir. Nicholas Ray)
O personagem de James Dean é um rebelde “sem causa” exatamente como na música do Ultraje a Rigor: seus pais estão sempre do seu lado, seja quando está bêbado na delegacia, seja quando acabou de participar de um pega fatal. Os conflitos com os pais permissivos e a chegada de Dean na escola, como um novato outsider, funcionam melhor que o romance entre ele e Natalie Wood (que acontece muito rápido após uma tragédia) e que a mudança de foco no final, que muda de Jim para o psicopatinha Plato. Nota 4/5

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 32

Filmes vistos de 8 a 15 de setembro:


OS MERCENÁRIOS 2 (The Expendables 2, EUA, 2012, dir. Simon West)
A nova reunião de bad-asses da terceira idade corrige muitos dos problemas de Os Mercenários e com isso se torna um filme bem mais divertido, ainda que essencialmente tosco. Entre os acertos estão a inclusão de Van Damme como o vilão Villain (distribuindo pontapés, sua especialidade, ao lutar contra Stallone, este como sua notória preferência por socos), a participação de Chuck Norris fazendo piada com os Chuck Norris Facts e o trio Stallone-Schwarzenegger-Bruce Willis finalmente contracenando de verdade, após o fiasco do chroma-key no primeiro filme (rola até um intercâmbio de bordões, como “I'll be back” e “Yippie-ki-ay”). Os clichezões continuam – a cena da morte do Mercenário mais jovem é um grande exemplo – mas pelo menos as piadas funcionam mais (“Rest in pieces!”). Será que no próximo finalmente teremos o Steven Seagal? Nota 3/5


PROMETHEUS (EUA/Reino Unido, 2012, dir. Ridley Scott)
É e não é um prelúdio de Alien. O universo da história é o mesmo e as tramas estão intimamente ligadas, mas o estilo do filme está muito mais Star Trek e sua filosofia de “descobrir novas vidas, novas civilizações”. O andróide David (Michael Fassbender), aliás, é o personagem mais interessante e lembra bastante o Data de A Nova Geração. Muitos reclamaram que as grandes questões da Vida, o Universo e Tudo Mais não são respondidas, mas não me importo em ter que esperar um Prometheus 2 pra ver como isso vai se resolver. Outros problemas do roteiro – os cientistas que logo tiram o capacete em um planeta estranho, a tripulação que embarcou sem saber a natureza da missão – são mais difíceis de justificar. O 3D – aleluia! – é bem utilizado, da belíssima cena inicial aos apetrechos tecnológicos (hologramas, os “pops” procurando vida) que nos passam exatamente a sensação de utilizá-los. Prometheus tinha potencial para ser bem mais ousado, mas a aura de deslumbramento e a atmosfera de tensão já me deixaram satisfeito. Nota 4/5


THE CUTTING EDGE - THE MAGIC OF MOVIE EDITING (EUA/Japão/Reino Unido, 2004, dir. Wendy Apple)
Um documentário sobre a montagem cinematográfica que é uma boa aula sobre o assunto. Os entrevistados vão desde diretores renomados – Scorsese, James Cameron, Tarantino, Spielberg (que explica a diferença que 36 e 38 frames podem fazer) – até seus respectivos montadores, como Sally Menke, Thelma Schoonmaker e Michael Kahn, além de várias cenas com Walter Munch editando Cold Mountain em pé (!). The Cutting Edge analisa a montagem de filmes de ação, de suspense, os jump cuts de Acossado, as transições inovadoras de Easy Rider, a tendência atual de se editar rápido demais e como a montagem pode melhorar a performance dos atores. Recomendado pra qualquer um com um mínimo interesse na arte de se fazer cinema. Nota 4/5


DESYAT NEGRITYAT (União Soviética, 1987, dir. Stanislav Govorukhin)
O Caso dos Dez Negrinhos é meu livro preferido da Agatha Christie e já foi adaptado várias vezes para o cinema. Eu já tinha visto a versão americana de 1989 e achado uma porcaria, com sua ambientação em um safári na África e sua infeliz escolha por um final feliz. Foi uma surpresa encontrar recentemente uma versão absolutamente fiel ao livro, dos nomes dos personagens ao destino trágico de cada um deles, e feita na mesma época. Detalhe: é um filme soviético, falado em russo. O elenco é bem escolhido, a direção de arte reflete muito bem a época e muitas das cenas são iguaizinhas ao que eu imaginava. Se falta tensão, talvez seja devido ao próprio estilo de Christie, mais “quebra-cabeça” do que suspense. Nota 4/5


PACTO DE SANGUE (Double Indemnity, EUA, 1944, dir. Billy Wilder)
O personagem de Fred MacMurray narra toda a história logo no começo – como ele ajudou uma mulher a matar o marido para conseguir o dinheiro do seguro, e como perdeu a mulher e perdeu o dinheiro – mas continuamos querendo saber como tudo aconteceu. Billy Wilder não nos decepciona: os personagens são dúbios e ainda assim cativantes, os diálogos são sempre ótimos e os desdobramentos da trama mantêm nossa atenção até a icônica fala final, sempre marcante nos filmes de Wilder (“Nobody's perfect”, “Shut up and deal”, “All right, Mr. DeMile, I'm ready for my close-up”). Aqui, ele consegue fazer milagre com a batida “I love you too”. Nota 5/5

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 31

Estou atrasadaço com meus comentários filmísticos (não que alguém leia, mas foi uma promessa de ano-novo...). Cá estão os filmes vistos entre 1 e 6 de setembro:


BAMBI (EUA, 1942, dir. David Hand)
Muitas características de Bambi seriam recicladas meio século depois em O Rei Leão: o nascimento de um “príncipe”, os animais da floresta se reunindo pra ver, a trágica morte da mãe (ou pai, no caso de Simba), o amadurecimento do personagem-título. As cenas são bem dirigidas e a fotografia traz cores e sombras que contrapõem com eficácia as diversas estações do ano/fases da vida. Bambi tem menos humor do que Branca de Neve, Pinóquio ou Dumbo, e sua primeira metade é bem mais infantil: só quando os personagens estão crescidos é que se brinca mais com gags visuais. O filme é curto, mas os conflitos são pontuais – a ameaça do Homem, o confronto com outro veado (opa), o incêndio na floresta –, fazendo com que o roteiro não seja tão bem amarrado. Mas embora hoje seja pouco visto e seu nome mais usado pra fazer piada, Bambi vale uma redescoberta. Nota 4/5




A MARCA DA MALDADE (Touch of Evil, EUA, 1958, dir. Orson Welles)
Mais um filme de Orson Welles que sofreu nas mãos dos estúdios, com trocentas remontagens e alterações, A Marca da Maldade foi finalmente montado nos anos 90 como seu diretor queria. Talvez seja um dos últimos noirs da “era clássica”, trazendo Charlton Heston como um investigador mexicano (!) metido em uma conspiração e Welles, gordaço, como o antagonista. A célebre cena inicial, um plano-seqüência primoroso, dá início ao plot intrincado envolvendo o assassinato de um figurão. Mas a trama principal é mesmo o confronto que se desenrola entre Heston e Welles, ambos policiais, que culmina em um final bastante irônico para o personagem de Welles. Nota 5/5


A EXPERIÊNCIA (Das Experiment, Alemanha, 2001, dir. Oliver Hirschbiegel)
Das Experiment foi baseado em um experimento psicológico real que tinha tudo pra dar errado, e deu: homens comuns são divididos em dois grupos, guardas e prisioneiros, e precisam agir como se esses papéis fossem de verdade. Já prevemos desde o início que os participantes vão começar a levar aquilo tudo a sério demais, mas ainda é interessante acompanhar o desenvolvimento da trama e das questões que ela propõe: por exemplo, o sadismo é inerente ao homem? Quando o filme peca, é principalmente no roteiro, ao optar pelo maniqueísmo de prisioneiros-mocinhos versus guardas-bandidos, ausentar o professor-chefe em um período crítico do experimento apenas para servir à história e investir na subtrama da namorada do protagonista, que é dispensável e faz o filme perder o ritmo sempre que foca nela. Nota 4/5


O DISCRETO CHARME DA BURGUESIA (Le Charme Discret de la Bourgeoisie, França/Itália/Espanha, 1972, dir. Luis Buñuel)
Mais uma excelente história surrealista de Buñuel. Se em O Anjo Exterminador os burgueses jantavam e não conseguiam ir embora, aqui eles vêm e vão à vontade, mas não conseguem iniciar a refeição, interrompidos a cada hora por um incidente mais absurdo: o restaurante está realizando um velório; os anfitriões fugiram pra trepar no jardim; a sala de jantar se revela o palco de um teatro. É mais uma coleção de minicausos do que uma narrativa coesa, e Buñuel se esbalda com flashbacks e sonhos dentro de sonhos dentro de sonhos, décadas antes de Inception. Os personagens insólitos (o bispo que faz bico como jardineiro, os diplomatas que também são traficantes) completam o retrato irônico que o diretor adora fazer desse mundinho burguês. Nota 5/5


UM BALDE DE SANGUE (A Bucket of Blood, EUA, 1959, dir. Roger Corman)
Roger Corman teve apenas cinco dias e 50 mil dólares pra fazer este filme, mas saiu com uma pequena pérola do humor negro. Dick Miller é um garçom aspirante a artista (“Seja um nariz!”, ele diz a um monte de argila, incapaz de dar forma ao troço) que ganha sua grande chance a partir de um incidente bizarro envolvendo um gato preso na parede (!). Embora o desdobramento da história seja meio previsível desde o início, a sátira ao mundo das artes e o humor negro que atravessa o filme, do balde-título à cena final, valem desenterrar Um Balde de Sangue. Nota 4/5

01/09/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 30

Chegando aos 150 filmes...


JOGOS VORAZES (The Hunger Games, EUA, 2012, dir. Gary Ross)
Jogos Vorazes veste uma roupagem de distopia futurista disposta a discutir questões políticas, mas na verdade é uma aventura estilo "A Jornada do Herói" bem comum e cheia de problemas. Pra começar, a própria idéia dos jogos não faz muito sentido: nem as regras, nem o propósito, muito menos a reação da opinião pública ou a desculpa furadíssima que usam para realizá-los há 74 anos. Até o Mortal Kombat e os Jogos Mortais eram mais convincentes. A estética steampunk é bacana, mesclando designs tecnológicos com roupas ultracoloridas e quase vitorianas. Jennifer Lawrence entrega um trabalho competente, mas o mesmo não se pode dizer de Josh Hutcherson, seu insosso parzinho romântico. Os outros competidores são apresentados de maneira bem rasa e ficam basicamente divididos entre os malvados e os coitadinhos, nunca indo além do arquétipo. A morte de uma das personagens, previsível pela própria lógica do filme, tem um impacto emocional muito pequeno e não há chororô e musiquinha melosa que salvem. Pior é ver o distrito se revoltando só quando a menina morre, e não quando ela e outras tantas crianças foram forçadas a participar de um comblate de gladiadores. Completam o pacote um amontado de situações-clichê, como o vilão que fica enrolando pra matar a vítima só pra dar tempo de um terceiro personagem vir evitar, e a montagem feita para espectadores com déficit de atenção, cheia de cortes em excesso e muitos sem continuidade alguma. Nota 2/5


O SEGREDO DA CABANA (The Cabin in the Woods, EUA, 2011, dir. Drew Goddard)
Há vários filmes convivendo dentro de The Cabin in the Woods, cada um de um gênero diferente, cada um provocando em mim um sentimento conflitante em relação aos outros. O primeiro é um terror bacaninha mas absolutamente convencional (e propositalmente, é preciso deixar claro). O segundo, bem mais interessante, se passa em um ambiente corporativo e é uma grande piada metalinguística, brincando com os clichês dos filmes de horror de forma original e intrigante. O problema é que esse "segundo filme" levanta muitas questões que acabam resolvidas por um "terceiro", que começa parecendo ficção científica (lembrando Cubo e trazendo a ponta de uma célebre estrela do sci-fi) e se revela uma fantasia, um deux ex machina surpreendentemente literal. Talvez o problema seja meu, tentando encontrar explicações racionais demais, mas pra mim o desfecho se mostrou insatisfatório e frustrante, prejudicando o resto do filme em retrospecto. Nota 3/5


ANJOS DA LEI (21 Jump Street, EUA, 2012, dir. Phil Lord & Chris Miller)
Comédia de ação bem simpática baseada em uma antiga série de TV protagonizada pelo jovem Johnny Depp, Anjos da Lei coloca Jonah Hill (na pele, quem diria, de um policial) voltando à escola para participar de uma operação à paisana. É boa sua química com Channing Tatum, um personagem que tinha tudo pra ser antipático – a dupla tem carisma e até clichês envolvendo a infame "prom night" descem redondo. O humor é consistente e investe em piadas recorrentes sobre os efeitos de uma certa droga e o conflito entre expectativa/realidade de jovens policiais que cresceram vendo filmes do gênero (os carros batem e não explodem, por exemplo). Boa surpresa. Nota 4/5


O BEBÊ DE ROSEMARY (Rosemary's Baby, EUA, 1968, dir. Roman Polanski)
O filme já abre com uma cantiga de ninar com ares tétricos, prenunciando o clima tenso que acompanhará a protagonista em sua sinistra gravidez. Mia Farrow faz um ótimo trabalho em um de seus primeiros papéis, enquanto John Cassavettes inspira confiança, o que é fundamental para seu personagem. O Bebê de Rosemary não é um horror que choca, não há nada explícito, o máximo nesse sentido são algumas sequências de pesadelo. O próprio bebê-título só é descrito verbalmente, nunca mostrado. E por isso mesmo o filme funciona tanto: é um suspense construído com calma e cuidado, envolvendo o espectador na paranóia da coitada da Rosemary. Ela pode parecer maluca para os outros personagens, mas estamos sempre do seu lado, compartilhando de suas suspeitas. Nota 5/5


BONNIE E CLYDE - UMA RAJADA DE BALAS (Bonnie and Clyde, EUA, 1967, dir. Arthur Penn)
A violência de Bonnie e Clyde pode ter chocado na época, mas o público de hoje é capaz de estranhar mais os jump cuts pós-Nouvelle Vague. Tirando isso, o filme não envelheceu nada e continua supreendendo por muitas escolhas ousadas, como a “paixão sem tesão” entre o casal de protagonistas. Bonnie e Clyde são gângsters “gente boa” e encaram a vida de fora-da-lei como uma grande diversão, papeando com as vítimas, mandando poemas para os jornais. É só quando o cerco aperta que a realidade desmorona sobre eles, culminando nas cenas mais violentas do filme e em um final seco, sem espaço para esperanças ou recomeços. Nota 5/5

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 29


BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE (The Dark Knight Rises, EUA/Reino Unido, 2012, dir. Christopher Nolan)
É um filme de super-herói tão atípico que nem dá pra inclui-lo nesse, digamos, subgênero. O próprio Batman faz poucas aparições antes do final épico. A paleta de cores segue o clima soturno: é tudo preto, cinza, pardo, sem deixar espaço para cores mais vivas como o verde do cabelo do Coringa. Dá pra contar nos dedos os momentos de humor – uma piadinha de Lucius Fox aqui, outra do Batman com a Mulher-Gato acolá. Definitivamente não é um filme que você vai pra se divertir, mergulhar num mundo de fantasia e esquecer da vida por algumas horas. É pesado, sombrio, pra baixo, que vai deixar poucas crianças com vontade de ser o Batman. Isso está longe de ser um problema, é só uma característica. Ressurge continua sendo um filme muito bom e consistente e um final extremamente digno para a trilogia. Nota 4/5
(Resenha completa no Cinema de Buteco)


BATMAN ETERNAMENTE (Batman Forever, EUA, 1995, dir. Joel Schumacher)
Bastam dois minutos de falsa seriedade para que o primeiro diálogo (Alfred: "Não quer levar um sanduíche, senhor?" Batman: "Eu passo num drive-thru") mostre que o tom será bem diferente dos filmes de Tim Burton. As tentativas de humor estão por toda parte e quase sempre falham vergonhosamente. Schumacher abusa das cores, dos ângulos tortos (sempre que há uma ameaça ou vilão, à la série dos anos 60) e da boa vontade do espectador. Em sua primeira aparição, Batman não está nas sombras, escondido da população – está no meio da rua, sendo apresentado a uma Nicole Kidman que passa o filme inteiro migrando suas paixonites de um lado pro outro como se estivesse em Malhação: "Eu gosto do Bruce!" "Agora gosto do Batman!". Se a escalação do Robin como um marmanjão é bem duvidosa (Val Kilmer tinha 35 anos, Chris O'Donnell tinha 25! Precisava mesmo ir morar na Mansão Wayne?), ainda piores são as desculpas para ele encontrar a Batcaverna e se tornar um super-herói (descuidado e desobediente, Alfred deve ser o pior mordomo do mundo). O subtexto gay não atinge apenas a dupla dinâmica, mas a bandidagem também: Charada e Duas-Caras parecem um casal, um cheio de trejeitos, outro com metade do rosto cor-de-rosa e soltando risadinhas calcadas em Cesar Romero, os dois abraçadinhos planejando o próximo crime. Das poucas coisas que se salvam, o novo tema musical de Elliot Goldenthal é até bacana. Mas o de Danny Elfman ainda era melhor. Nota 2/5


OS BONS COMPANHEIROS (Goodfellas, EUA, 1990, dir. Martin Scorsese)
"De Niro, Pesci, rock dos bons e comida italiana: este é o Scorsese mais scorsesiano", escrevi no Twitter há mais de um ano. É óbvio que o diretor passeia brilhantemente por outros universos (do boxe a Jesus Cristo), mas o crime organizado nas telonas é um território que ele domina, e Goodfellas, que apresenta o submundo da máfia de forma estilizada e quase didática, cheia de cenas marcantes ("Funny how?") e pequenas histórias ligadas pelo tema central, é o filme do tio Marty mais representativo desse seu subgênero particular. Nota 5/5


O DITADOR (The Dictator, EUA, 2012, dir. Larry Charles)
Depois de Brüno não convencer como mockumentary da forma como Borat fez com primor, Sacha Baron Cohen e Larry Charles migram para uma comédia de estética "normal", sem pretensões de enganar ninguém (mesmo que a abertura seja bem similar à de Borat). Assim, O Ditador acaba virando um filme mais comum, com atores conhecidos (John C. Reilly, Ben Kingsley) representando papéis que não são versões de si mesmos (embora bom mesmo seja ver as pontas nada gloriosas de Megan Fox e Edward Norton). Cohen entrega uma performance impecável como sempre: é o único comediante de verdade no filme e todas as piadas que funcionam são suas. As mais hilariantes são justamente aqueles que têm uma triste conexão com a realidade ("Where is the trash can?") e com a política – não sobra pra ninguém, de déspostas e terroristas a democratas e vegans. Já as situações que não têm nada a ver com o tema (como a masturbação) não provocam tanta graça, assim como quase sempre falham as tentativas de humor dos personagens coadjuvantes. Cohen se sai bem melhor quando é a única figura bizarra e fora de lugar, compartilhando a piada somente com o espectador. Nota 3/5


A ERA DO RÁDIO (Radio Days, EUA, 1987, dir. Woody Allen)
Uma coleção de pequenas anedotas compiladas por Woody Allen com base em suas próprias memórias, A Era do Rádio pode não ser estritamente autobiográfico no sentido de aquelas histórias terem ocorrido de verdade, mas evocam com carinho e nostalgia o espírito de uma época que já se foi. Woody narra o filme mas se coloca na história não em sua própria pele, mas na de um garoto (Seth Green, ainda moleque). As anedotas têm o rádio como pano de fundo, usando uma seleção certeira de músicas (tem até Carmen Miranda e "Tico-Tico no Fubá"!) e fatos reais, como a famosa transmissão de A Guerra dos Mundos por Orson Welles. Os personagens provocam tanta empatia que rapidamente nos familiarizamos com eles; é como se morássemos naquela casa onde todos passam o dia metendo o bedelho na vida do outro e cutucando o próximo com tiradas mordazes, mas nunca ofensivas. A gente sabe quando um filme é bom quando só se passaram 20 minutos e já não queremos que acabe. Nota 5/5

Quem

Lucas Paio já publicou contos em revistas e antologias, já dirigiu curtas-metragens e compôs canções, já ganhou um campeonato de aviões de papel, tocou teclado numa banda cover de Bon Jovi, morou na China e hoje vive em Berlim. É autor do romance de fantasia cômica MACADÂMIA, lançado em 2025.

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