30/01/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 5

Parágrafos sobre filmes vistos entre 26 e 28 de janeiro, inclusive dois vistos nos cinemas de Beijing que só colocam legenda em chinês e o espectador não-chinês que se vire pra entender inglês, francês, russo ou até Na'vi! (Só um desabafo.)


O TERCEIRO HOMEM (The Third Man, Reino Unido, 1949, dir. Carol Reed)
Noirzão clássico com todos os elementos do gênero: uma morte que é mais do que parece, um protagonista preocupado em investigar o que ninguém dá muita bola, uma mulher misteriosa, um vilão ambíguo, fotografia em preto-e-branco e cheia de sombras, composições que abusam dos ângulos tortos. Joseph Cotten está adequadamente confuso como o escritor de faroestes que chega a Viena a convite de um amigo e encontra o amigo morto, e Orson Welles, mesmo com pouco tempo de tela, compõe um personagem intrigante, variando sutilmente as expressões faciais e contribuindo com frases clássicas do cinema (eu nem sabia que vinha deste filme a citação que compara a Itália sanguinária que produziu o Renascimento e a Suíça pacífica que produziu o relógio cuco). Nota 5/5


SUPERMAN IV - EM BUSCA DA PAZ (Superman IV: The Quest for Peace, EUA/Reino Unido, 1987, dir. Sidney J. Furie)
Lembro vividamente de assistir Superman IV na tevê em Cabo Frio no reveillón de 1991 pra 1992. Eu tinha seis anos e adorei, claro. Vinte anos depois, só encarei de novo por ter assistido recentemente ao restante da série, já esperando aquela bomba – imagine um filme que tem 10% de aprovação no Rotten Tomatoes e nota 3.5/10 no IMDB. E é realmente bem ruim, mas não é um desastre monumental, no sentido de que Batman & Robin é um desastre monumental. É que o espectador ideal é o menino de seis anos que brinca de bonequinhos e não dá a mínima para as leis da física, que aqui são devidamente chutadas, mastigadas e cuspidas: tem a Mariel Hemingway respirando no espaço, tem o Superman movendo a Lua para provocar um eclipse e contando que aprendeu isso "na aula de física do ensino médio". Mas ei – a ciência não é o forte da série desde o primeiro filme, com a famigerada cena da Terra girada ao contrário. Em comparação com Superman III (que trazia Richard Pryor como gênio da computação!), o quarto episódio maneira no pastelão e no humor verbal, que quando aparecem não têm muito êxito – a tirada do Superman sobre a segurança no metrô não funciona nem como piada nem como referência ao filme original. Os efeitos especiais são tosquíssimos, com cromakeys dignos de Chapolin, e o roteiro continua com a tradição iniciada pelo "superbeijo do esquecimento" de inventar superpoderes para o herói que não existiam nos quadrinhos: aqui ele tem poderes eletromagnéticos, reconstrói a Muralha da China com uma supervisão-de-pedreiro e toca a campainha com a força do pensamento (além de aparecer falando russo e italiano, numa demonstração clara de supererudição). Gene Hackman volta como Lex Luthor, que desta vez inventa um novo supervilão chamado Homem-Nuclear, com mullets loiros de McGuyver, unhas prateadas gigantes e uniforme à la He-Man. Com tanto vilão bacana nos quadrinhos que nunca apareceu nas telonas (Darkseid, Brainiac, mesmo o Superman Bizarro), por que é que ficam inventando moda? Nota 2/5


SHERLOCK HOLMES - O JOGO DE SOMBRAS (Sherlock Holmes: A Game of Shadows, EUA, 2011, dir. Guy Ritchie)
O primeiro Sherlock Holmes de Guy Ritchie me surpreendeu porque, apesar de fugir completamente da caracterização habitual do personagem, o estilo narrativo de Ritchie e a química entre Robert Downey Jr. e Jude Law deram um novo gás ao velho detetive. A rigor, esta seqüência não acrescenta nada de novo, mas continua bem bolada e divertida. As brincadeiras visuais de Guy Ritchie no primeiro filme estão de volta, e algumas funcionam por subverter o conceito original (Holmes prevendo os golpes antes de uma luta), mas outras acabam cansativas (como a câmera leeeenta na cena da floresta). Downey Jr. se diverte com os inúmeros disfarces, enquanto os personagens clássicos Mycroft Holmes (Stephen Fry) e Professor Moriarty (Jared Harris) são adições muito bem-vindas, este último protagonizando o ótimo embate final com Sherlock, mais fiel ao conto O Problema Final do que eu imaginaria. Nota 4/5


DISQUE M PARA MATAR (Dial M for Murder, EUA, 1954, dir. Alfred Hitchcock)
Um marido planeja assassinar a esposa adúltera, mas o plano dá errado e ele tem que improvisar. A trama se passa quase inteiramente dentro de um apartamento; ao contrário de Festim Diabólico, é filmado de maneira mais convencional, mas ainda extremamente precisa, passeando pelos vários detalhes do roteiro – as diversas chaves sendo o maior destaque – sem confundir o espectador. Nota 4/5


MISSÃO: IMPOSSÍVEL - PROTOCOLO FANTASMA (Mission: Impossible – Ghost Protocol, EUA/EAU, 2011, dir. Brad Bird)
Brad Bird construiu uma carreira impecável na animação, com O Gigante de Ferro, Os Incríveis e Ratatouille – este último meu favorito dentre as várias obras-primas da Pixar. Sua estréia no live-action com o quarto episódio de Missão: Impossível não chega ao brilhantismo de suas animações, mas é um filme-pipoca de primeira, preferindo usar seu tempo com a ação desenfreada (e bem dirigida) do que em tentar ser "sublime". Ethan Hunt é um action hero com profundidade zero, e é melhor que seja assim – nas poucas vezes em que começa a esboçar os problemas mais emocionais de Hunt, o filme fica menos interessante. O que interessa aqui é a ação, e nisso Bird é impecável, usando humor na invasão ao Kremlin, provocando vertigem na cena do prédio mais alto do mundo, apresentando trocentos gadgets absurdos que são imediatamente invejados pela platéia. Tom Cruise já é quase cinqüentão mas ainda convence nos saltos e corridas; Simon Pegg não decepciona no seu papel habitual de nerd piadista – ele e Jeremy Renner são agentes secretos mais humanos, mostrando medo onde qualquer um de nós também o faria. Paula Patton, por outro lado, é uma "impossiblegirl" meio genérica, e Michael Nyqvist empalidece diante do vilão de Phillip Seymour Hoffman no Missão Impossível anterior. Protocolo Fantasma acaba sendo o pior filme de Brad Bird até agora – mas só porque ele estabeleceu um padrão alto demais. Nota 4/5

26/01/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 4

Os filmes que vi entre 16 e 25 de janeiro (uma viagem no feriado arruinou minha média de 1 por dia, mas quem sou eu pra reclamar) incluem uma animação da DC Comics, o primeiro Planeta dos Macacos (decidi rever este original e assistir ao restante da série), um clássico do De Palma, um dos poucos Nolans que não tinha visto (acho que agora só falta o primeiro, Following) e um dos 9 candidatos a Melhor Filme no Oscar 2012 - como no ano passado, pretendo ver todos antes da cerimônia, e até agora só tinha assistido Meia-Noite em Paris.


BATMAN - ANO UM (Batman: Year One, EUA, 2011, dir. Sam Liu e Lauren Montgomery)
A DC vem lançando longas animados em vídeo com seus principais personagens nos últimos anos, e este, primeiro que vejo, adapta quadro a quadro a clássica Batman – Ano Um de Frank Miller e David Mazzucchelli. Estão lá todas as cenas, todas as falas, todos os detalhes, sem tirar nem pôr – e isso tem um lado bom e outro ruim. Bom porque a história é ótima e não há espaço para simplificações ou invencionices, e tudo o que não podia existir na mídia impressa (vozes, trilha, efeitos sonoros) é feito direitinho. Ruim porque o projeto não extrapola em nada a obra original, quando tanto a duração do filme (apenas 60 minutos) quanto da trama (que cobre um ano inteiro) seriam motivos bem justificados para aprofundar personagens e conceitos. Do jeito que ficou, e pela própria natureza pouco ambiciosa do projeto, feito para ser lançado direto em DVD, a impressão é de que Batman - Ano Um é uma animação competente, mas a maior parte dos seus méritos vem mesmo dos quadrinhos. Nota 3/5


O PLANETA DOS MACACOS (Planet of the Apes, EUA, 1968, dir. Franklin J. Schaffner)
Incomodam alguns exageros, como o excesso de zooms e o notório overacting de Charlton Heston. Mesmo assim, O Planeta dos Macacos original é ficção científica de primeira, com uma história contada com calma, trilha atonal nervosa, maquiagem que ainda convence após 44 anos e um final-surpresa hoje ultraconhecido (a capinha do DVD já solta o spoiler descaradamente), mas que é legal pra caramba. Também me agrada como todas as semelhanças entre macacos e humanos – eles falam inglês, andam a cavalo, usam armas de fogo – fazem sentido dentro da lógica do filme, ao contrário de tantos outros exemplares do gênero. Nota 5/5


SCARFACE (EUA, 1983, dir. Brian De Palma)
Filmão de gângster com Brian De Palma no auge (7 anos após Carrie, 4 antes de Os Intocáveis) e Al Pacino interpretando novamente um mafioso, depois de dois O Poderoso Chefão. Mas Tony Montana é um personagem bem diferente de Michael Corleone, ficando mais entre um Sonny (pelo temperamento explosivo) e um Vito (por ter construído do nada sua carreira no crime). Enquanto Michael falava baixo e usava os olhos para impor respeito, Tony é impulsivo, muda de humor em questão de segundos, grita com os cantos da boca virados pra baixo. O filme é longo mas jamais cansativo, repleto de falas clássicas ("Say hello to my little friend" é só a última delas) e cenas violentas, mas visualmente impecáveis – com destaque, claro, para os últimos instantes de Tony Montana. Nota 5/5


O GRANDE TRUQUE (The Prestige, EUA/Reino Unido, 2006, dir. Christopher Nolan)
Como em Amnésia e A Origem, a estrela é o roteiro engenhoso dos irmãos Nolan, que mescla com competência flashbacks, plot points e revelações que alteram, em retrospecto, nossa percepção da história. Christian Bale e Hugh Jackman estão ótimos como dois mágicos rivais que vivem num incessante jogo vingativo que lembra o Spy vs. Spy da revista Mad. Das duas grandes revelações da cena final, uma funciona muito bem e nos dá vontade de rever o filme todo, enquanto a outra decepciona por ser extremamente implausível e bandear para um estilo sci-fi (ou, neste caso, "steampunk") que infelizmente destoa de todo o resto. Nota 4/5


A ÁRVORE DA VIDA (The Tree of Life, EUA, 2011, dir. Terrence Malick)
É o 2001 de Malick. As semelhanças não estão no conteúdo – que focam na relação conflituosa entre pai e filho numa família americana dos anos 50 – mas na forma, no ritmo e até nas reações dos espectadores. Aqui também temos grandes saltos temporais, questões filosóficas e existenciais, um uso poético de efeitos especiais (meu preferido é quando Jessica Chastain dança no ar), uma visão da Terra pré-histórica e do espaço (até Júpiter reaparece aqui; não por acaso, os efeitos à moda antiga foram feitos pelo mesmo Douglas Trumbull de 2001), um roteiro que não se preocupa em se explicar, música clássica a rodo, belíssima fotografia, ritmo lento, muito simbolismo e um final onírico, meio malucão. Não me admira que o cara que entra no cinema esperando um típico blockbuster do Brad Pitt ache um saco, e que as opiniões do público se polarizem entre o ambicioso e o pretensioso. Eu gostei, minha seqüência favorita sendo a que vai do início da vida na Terra ao desenvolvimento da família de Pitt e Chastain – mas, assim como 2001, assistindo só uma vez não dá pra dizer que pude digerir tudo. Nota 4/5

16/01/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 3

Filmes vistos entre 9 e 15 de janeiro:


PLANETA DOS MACACOS: A ORIGEM (Rise of the Planet of the Apes, EUA, 2011, dir. Rupert Wyatt)
Depois de ver o filme nos cinemas e rever em casa, não mudo minha percepção: apesar dos defeitos na caracterização unilateral da maioria dos personagens humanos (Tom Felton é mau por ser mau, Freida Pinto é boazinha e sem sal, John Lithgow some quando o roteiro não precisa mais dele), as estrelas são os macacos e são eles que fazem esse reboot de Planeta dos Macacos funcionar. No ano fraco em blockbusters que foi 2011, este sem dúvida foi um dos melhores. E pra quem está esperando pela seqüência, é só ver Contágio, também de 2011: não tem macaco, mas o resto encaixa como uma luva. Nota 4/5


A COSTELA DE ADÃO (Adam's Rib, EUA, 1949, dir. George Cukor)
Divertida comédia de "guerra dos sexos", quando a luta pelos direitos iguais entre homens e mulheres ainda podia render um filme inteiro em Hollywood e soar atual. Spencer Tracy e Katharine Hepburn são casados e ambos advogados, atuando em lados opostos de um mesmo caso: ela representando uma mulher traída que tentou matar o marido, ele na promotoria, defendendo o cara. Longos planos sem cortes evidenciam o ótimo timing cômico dos dois, e as cenas no tribunal têm inventividades que não eram batidas nos anos 40, como a transformação das testemunhas em indivíduos do sexo oposto. Nota 4/5


O PANACA (The Jerk, EUA, 1979, dir. Carl Reiner)
Um dos primeiros filmes de destaque de Steve Martin, O Panaca está no livro 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer e na lista dos 500 melhores da revista Empire, que o descreve como "sério candidato a filme mais engraçado de todos os tempos". Que decepção. Não só Martin exagera além da conta como o idiota que acaba ficando rico, como os outros personagens parecem igualmente boçais, o que torna a suspensão da descrença quase impossível. A estrutura é episódica demais e as motivações por trás dos personagens são tão avulsas e inverossímeis que não dá pra achar graça. Muita coisa me lembrou Débi & Lóide, de 15 anos depois, que é infinitamente melhor (e não é minha memória afetiva falando: revi o filme há pouco mais de um ano e continua ótimo). Mas no filme com Jim Carrey, os protagonistas eram idiotas mas os coadjuvantes não; se havia um assassino em seu encalço, ele tinha um motivo mais plausível do que simplesmente escolher um nome a esmo na lista telefônica; se a mocinha se mostrava apaixonada por um cabeça-de-vento, era porque precisava fingir, não porque ela também era imbecil. Salvo em duas ou três gags rápidas, O Panaca falha em todas as suas tentativas de provocar risadas. Como é que pode ser tão cultuado? Nota 1/5


GATA EM TETO DE ZINCO QUENTE (Cat on a Hot Tin Roof, EUA, 1958, dir. Richard Brooks)
Adaptado de uma peça de Tennessee Williams (que declarou ter odiado o resultado nas telas), tem os então jovens Paul Newman e Elizabeth Taylor lavando roupa suja durante a maior parte do filme. O elenco é certeiro (incluindo os personagens odiáveis, como a cunhada de Newman) assim como as cenas, calcadas nos diálogos e fluindo quase em tempo real. Destaque ainda para o "Big Daddy" interpretado por Burl Ives, um sujeito cansado da hipocrisia da família e que não hesita em dar patada na esposa chata, no filho sanguessuga, na cunhada megera ou nos netinhos capetas. Nota 4/5


A MENINA QUE BRINCAVA COM FOGO (Flickan Som Lekte Med Elden, Suécia/Dinamarca/Alemanha, 2009, dir. Daniel Alfredson)
Li umas 100 páginas de Os Homens que Não Amavam as Mulheres antes de abandoná-lo de vez, aborrecido com o estilo excessivamente expositivo de Stieg Larsson. O filme sofre desse mesmo problema, mas funciona melhor, apresentando-nos à personagem intrigante que é Lisbeth Salander. Mas esta segunda parte da trilogia Millenium decepciona: mais diálogos expositivos, mais clichês ultrabatidos (alguém troca de canal e começam a mostrar uma notícia importante) e pouco desenvolvimento dos protagonistas Lisbeth e Blomkvist. Falta tensão – seja pegando fogo, levando tiro ou enterrado vivo, você sabe que aquele personagem vai sobreviver. As "revelações" soam bem forçadas e a trama apela até para um vilão jamesbondiano com cara de russo e que não sente dor. Vamos ver como Hollywood vai se sair nessa. Nota 2/5

10/01/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 2

Filmes assistidos entre 6 e 9 de janeiro:



AS LUZES DE UM VERÃO (Mùa hè chiều thẳng đứng/À La Verticale de L'été, Vietnã/França/Alemanha, 2000, dir. Trần Anh Hùng)
Comprei este e outros filmes vietnamitas quando fui a Hanói há quase um ano, e só agora parei de enrolar para assisti-los. As Luzes de Um Verão se concentra em uma família de três irmãs e um irmão. Uma descobre que está grávida mas desconfia que o marido é infiel. Outra é infiel e descobre que o marido tem outra família. A mais nova mora com o irmão e aparentemente está apaixonada por ele. Muita coisa fica sem desfecho, mas isso não é necessariamente um defeito e combina com a proposta do filme. Alguns diriam que é bem paradão, mas eu curti e por isso usarei "contemplativo". Nota 4/5



PASSE LIVRE (Hall Pass, EUA, 2011, dir. Bobby & Peter Farrelly)
Passe Livre não é um filme ruim, mas simplesmente não é engraçado como se esperaria dos irmãos Farrelly. Os primeiros 30 minutos são gastos para estabelecer uma premissa que o próprio pôster já escancara – Owen Wilson e Jason Sudeikis recebem das esposas uma semana de "passe livre" para fazer o que quiserem, "no questions asked". Mas salvo uma ou outra cena mais inspirada, a tal semana decepciona pela falta de ousadia e o excesso de correção política. Onde foram parar os Farrelly criativos e despudorados que fizeram Débi & Lóide, uma das melhores comédias dos anos 90? Nota 2/5



O EXTERMINADOR DO FUTURO: A SALVAÇÃO (Terminator Salvation, EUA/Alemanha/Reino Unido/Itália, 2009, dir. McG)
Se vai ser impossível para a série atingir o nível de O Exterminador do Futuro 2, o quarto episódio ao menos não faz feio na ação. Depois de três filmes adiando o inevitável, chegamos finalmente a um futuro pós-apocalíptico dominado pelas máquinas, e aqui não há Matrix mantendo os humanos felizões e alienados. O John Connor da vez é Christian Bale – interpretado por um ator diferente a cada filme, é difícil que o personagem mantenha uma caracterização consistente, mas o que é apresentado aqui não compromete. As homenagens aos filmes originais divertem, embora não acrescentam muito, e a trama envolvendo um Connor adulto e um Kyle Reese jovem transforma o roteiro numa curiosa mistura de prequel e continuação. Pelo menos escapamos de ver um robô sendo enviado ao passado pela quarta vez pra fracassar em suas tentativas de exterminar a família Connor. Nota 3/5



MISSÃO MADRINHA DE CASAMENTO (Bridesmaids, EUA, 2011, dir. Paul Feig)
O último filme sobre madrinhas de casamento que assisti foi a porcaria Vestida Para Casar, e nunca em sã consciência assistiria a um chamado Missão Madrinha de Casamento não fosse tanto falatório da crítica. E não é que o filme é bom mesmo? A primeira produção de Judd Apatow a fugir dos "bromances" e focar em protagonistas femininas faz a conversão de forma inspirada, mostrando que a versão de saias da camaradagem entre amigos não é o companheirismo entre amigas, mas a inveja e o ciúme. As melhores cenas são aquelas de constrangimento, como o duelo de microfones, a seqüência no avião e o chilique na festa com tema parisiense. Nota 4/5



NA MIRA DO CHEFE (In Bruges, Reino Unido/EUA, 2008, dir. Martin McDonagh)
Pô, que surpresa agradável. Um filme despretensioso, mistura de thriller e comédia, valorizando muito mais os personagens do que a ação, cheio de diálogos genuinamente engraçados e sem medo de serem politicamente incorretos. A dupla de assassinos (Brendan Gleeson e Colin Farrell, finalmente aparecendo com seu sotaque irlandês natal) tem alma, o roteiro (original) encaixa as pontas soltas sem soar forçado e Ralph Fiennes, mesmo aparecendo pouco, convence perfeitamente como um chefão do crime que não abandona seus princípios. E olha que foi o filme de estréia do diretor. Excelente começo. Nota 5/5

04/01/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 1

Depois de bater meu recorde pessoal e assistir a 265 filmes em 2011, decidi que vou escrever pelo menos um parágrafo raso sobre cada filme visto em 2012. Na falta de lugar melhor pra publicar (no Cinema de Buteco só posto textos completos), tiro a poeira do Biselho. A cada cinco filmes, colocarei aqui um pacotão de comentários.

Os primeiros cinco filmes que eu vi em 2012:


LIGEIRAMENTE GRÁVIDOS (Knocked Up, EUA, 2007, dir. Judd Apatow)
Uma espécie de primo do Superbad, compartilhando o mesmo produtor (que aqui também dirige), vários dos mesmos atores e os mesmos diálogos espertos. A diferença é que enquanto Superbad tratava de questões adolescentes (comprar bebidas, perder a virgindade), Ligeiramente Grávidos tem um tema mais "gente grande", a gravidez. Seth Rogen e Katherine Heigl formam um casal improvável, que ganha credibilidade pela boa química entre eles. Apesar da duração um pouco excessiva (mais de 2h) e da presença constante da personagem da irmã da protagonista (Leslie Mann), que é uma chata de galochas sem ser engraçada, é uma comédia bem simpática e uma boa pedida pra começar meu 2012. Nota 4/5


SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE (Sex, Lies, and Videotape, EUA, 1989, dir. Steven Soderbergh)
Primeiro filme do versátil Steven Soderbergh, que escreveu o roteiro em 8 dias e tinha 26 anos na época (e eu aqui a 1 dia de completar 27...). O elenco é enxuto e bem escolhido: Peter Gallagher como o marido canalha, Andie MacDowell como a esposa recatada, Laura San Giacomo como a cunhada safada e James Spader como o sujeito meio andrógino que filma entrevistas com mulheres falando sobre sexo. A direção e o texto privilegiam as atuações e, exceto por um ou outro momento mais lento, sempre funcionam. A única sensação estranha é a de não conseguir me envolver muito com nenhum personagem, como se fosse Spader assistindo atento a uma de suas fitas, voyeuristicamente, mas sem participar. Nota 4/5


PAGE ONE: INSIDE THE NEW YORK TIMES (EUA, 2011, dir. Andrew Rossi)
A equipe do documentário passou um ano na redação do New York Times, registrando bastidores e entrevistando figuras proeminentes do jornal. A linha geral é o conflito entre a velha mídia e a era da internet, coisa que já dura pelo menos uma década e não oferece uma perspectiva lá muito boa para a mídia impressa. Há várias cenas interessantes do dia-a-dia do jornal, como a que mostra a decisão de se publicar ou não uma história não confirmada sobre o fim da guerra do Iraque, além de reuniões de pauta e entrevistas com repórteres no meio de um artigo ou de um telefonema com possíveis fontes. Mas a estrutura do documentário é confusa, saltando de um tema a outro sem muita ligação – de WikiLeaks e Twitter a assuntos que não são familiares para não-americanos. E as opiniões/previsões sobre o futuro do jornalismo tradicional, que permeiam o filme todo, soam às vezes como conversa de boteco – mesmo quando sagazes e divertidas, ou talvez justamente por isso – porque ninguém tem certeza completa do que está falando, e não têm mesmo como ter. O filme tenta terminar com um tom otimista, mas logo em seguida põe um letreiro dizendo que "leitores e editores ainda estão debatendo sobre como o jornalismo pode se sustentar". A impressão é de que, sem poder oferecer respostas às questões que propõe, Page One será um documentário datado em pouquíssimo tempo. Nota 3/5


PLATOON (EUA/Reino Unido, 1986, dir. Oliver Stone)
No mesmo ano em que viveu um de seus primeiros papéis no cinema como o drogadito que pega a irmã de Ferris Bueller em Curtindo a Vida Adoidado, Charlie Sheen estrelou este filme baseado nas experiências do diretor Oliver Stone na Guerra do Vietnã. Outros rostos famosos também integram o elenco em suas versões 25 anos mais novas – Willem Dafoe, Forest Whitaker, Johnny Depp. Sheen é um jovem que se voluntaria para a guerra e percebe já nos primeiros dias a cagada que fez. O clima de camaradagem do início do filme, quando os soldados jogam, cantam e fumam maconha juntos, logo dá lugar a abusos e conflitos internos. O embate entre Willem Dafoe e um cicatrizado Tom Berenger polariza os membros do pelotão e têm conseqüências imprevisíveis. Gosto principalmente da falta de um heroísmo explícito, tão batido nesse tipo de produção, e da sensação de desnorteio passada pela maioria dos jovens soldados – ninguém ali é herói de filme de ação e tampouco finge ser. Nota 4/5


RED – APOSENTADOS E PERIGOSOS (RED, EUA, 2010, dir. Robert Schwentke)
Apesar das similaridades com a série Bourne – perseguição a ex-agentes da CIA, uma mulher inocente que acaba envolvida –, RED pende muito mais pro lado da comédia do que para um thriller realista. O grupo de "velhinhos" tem um elenco de peso encabeçado por Bruce Willis e que também inclui Morgan Freeman, um John Malkovich mais malucão do que precisava e uma Helen Mirren que não convence muito como assassina profissional. Se as cenas mais "sérias" parecem recicladas de dezenas de outros filmes do gênero, as cômicas e absurdas – como Willis descendo de um carro em movimento (não é pulando: é descendo!) – fazem jus ao status de "adaptação de HQ" e são as que mais entretêm. Nota 3/5

04/11/2011

Trem de doido: Festa a fantasia no metrô de Beijing

Sábado à noite topei com um saci-pererê no metrô de Beijing.

Contextualizar é preciso. Pelo segundo Halloween consecutivo, um bando de malucos organizou um flashmob chamado Subway Loop Party. A proposta era todo mundo aparecer numa determinada estação de metrô, fantasiado de qualquer coisa, subir no primeiro trem que aparecesse após as 21h e fazer uma festa improvisada de 50 minutos, duração de uma volta completa da linha 2.

Fiquei sabendo da festa no metrô algumas horas antes, a convite de um amigo, e como era perto de casa resolvi encarar. Cheguei à estação de Dongzhimen às 20h40 e tudo parecia razoavelmente normal, trens atravessando, transeuntes transitando. Perto de uma pilastra, uma enfermeira ensangüentada de peruca branca observava o movimento. Do outro lado da estação havia um cavaleiro medieval de armadura de plástico, que veio falar com ela. Em dois minutos se juntaram ao grupo uma bruxa, uma policial e um Zorro. Os chineses achavam graça e pediam pra tirar foto.

 

Eu fui sem nenhuma fantasia e logo me arrependi. Em dez minutos, Dongzhimen estava tomada por uma horda de criaturas saídas de filmes, livros, histórias infantis e contos de terror. Muitos cowboys, vikings, piratas, zumbis, bruxas, soldados, vampiros. Um lutador de luta livre, um Fantasma da Ópera, um Super-Homem, um leprechaun. Gente de peruca prateada, cocar indígena, orelha de coelho, roupa de oncinha. Um pendurou cabides pelo corpo e foi de homem-varal. Outro prendeu cartolina amarela na frente e atrás e virou um post-it gigante, que a galera logo encheu de recadinhos, corações, insultos e desenhos pornográficos. Havia ainda Ultraman, Marty McFly, Noiva Cadáver, Papai Noel, Super Mario, Ryu e Guile do Street Fighter, Angry Birds, um Power Ranger amarelo (logo o amarelo!) e um Homem-Aranha com cueca por cima da calça – com o símbolo do Batman! 

  

Às 21h em ponto estavam todos a postos, prontos para invadir o metrô, e devidamente munidos de material etílico. Eu tinha uma garrafinha de chá que enchi de saquê. O trem chegou e já estava bem cheio – ao que parece, qualquer hora é hora do rush em Beijing. Ao contrário do BH Music Station, festival de música que acontece no metrô de Belo Horizonte após o horário de fechamento da linha, o esquema em Beijing era justamente surpreender os pobres passageiros usuais do transporte público. E funcionou: tinha dona saindo do trem com expressão de horror e desgosto, e com razão. A turba entrou aos empurrões, gritando êêêêêê, ocupando cada milímetro cúbico dos vagões e espremendo uns aos outros. Eu não conseguia beber meu saquê, sacar minha câmera ou mesmo manter os dois pés no chão, e já não dava pra voltar atrás. As portas se fecharam e o trem de doidos seguiu caminho. 

 

Duas estações depois, parte da galera havia escoado para os cantos menos populosos, mas continuava impossível se movimentar. Meu amigo se comunicava pelo celular com outro amigo que estava no mesmo trem, mas a três portas de distância, e combinou de ir até lá encontrá-lo. E fomos, pedindo licença, esgueirando-nos pelas poucas brechas, pisando em pés. O tal amigo estava em uma área menos superpovoada do vagão, mas ainda insatisfatória. Resolvemos descer na estação seguinte e pegar o próximo trem, que continha as criaturas que não conseguiram adentrar o primeiro comboio. Bem menos gente, mas ainda com clima de festa. Eu conseguia tomar meu arroz fermentado e até respirar. 

Descemos em Dongzhimen, a estação inicial, depois de uma volta completa pelas 18 estações da linha 2. Mais uns vinte ou trinta minutos de confraternização, fotos, perfomances improvisadas (como um Peter Pan sendo perseguido por um Capitão Gancho sendo perseguido por um crocodilo de relógio na mão), e a tropa se debandou. Fim da festa. Ano que vem eu vejo se me programo melhor e vou a caráter. E direto no segundo trem. 

O momento mais avulso da noite, no entanto, não foi festejar no metrô cercado de seres bizarros. Foi o saci-pererê que citei lá no início do texto. Quando vi o saci albino pulando fui imediatamente falar com ele, porque é óbvio que era brasileiro. Até aí, nada de anormal. Mas ele me parecia bem familiar, e não era amigo meu ou conhecido. Quem iria imaginar: era o Cazé da MTV. 

 

Lá estava ele pulando de uma perna só, fazendo macaquices e entrevistando a moçada fantasiada, os passageiros comuns e até o segurança da estação. Disse que havia chegado à China naquele mesmo dia e ficaria uma semana, gravando programas para a MTV brazuca - uma das pautas escolhidas foi o tal do Dia das Bruxas metroviário. Batemos um papo rápido e me pareceu bem gente boa. Quando fui embora, ele estava roubando a espada do Capitão Gancho pra matar o Peter Pan. 

Beijing é uma cidade insólita e atrás de cada dia mais monótono pode se esconder uma surpresa bizarra. Mas um Cazé-Pererê no metrô? Essa bateu recorde. 

 
 

27/10/2011

Pérolas do Google

 

Tem muito tempo que não faço um post com as buscas mais insólitas do Google e foi difícil selecionar só umas poucas pra colocar aqui. Dá de tudo. Gente que chega a este blog procurando por “ corpos em poço de elevador ”, “ como retrucar um xingamento de chineisinho ”, “ como se escreve a frase beijinho na boca em alemão ”, “ kung-fu catinguento ”, “distorcedor de voz para por na boca para assustar a galera ” ou “ batata chips sabor pepino azedo ”. Gente que acha que o Google é o dono do boteco da esquina e digita coisas como “ que horas sai o onibus 917? ” ou “ onde consigo comprar bottons aqui em salvador? ”. Muito mais gente procurando por “ bolas catinguentas na boca ”, “ crio bolinhas amarelas na garganta,devido a resto de alimentos,oque devo fazer? ” e similares do que seria mentalmente saudável imaginar. 

Aqui vão outras: 

colecao,mundo,animal,sexo,animal,decabo,arabo,egua,cavalo 
“Decabo”, “arabo”. Genial. 

como fazer um porta avioes você mesmo 
Definitivamente, com muito mais paus do que se usa pra fazer uma canoa. 

mequidonalde 
Prefiro queiefissí. 

por que eles fazem errado o chinglish 
O chinglish eles fazem perfeito. O que fazem errado é o english. 

@deathwishes nunca mais vou olhar com os mesmos olhos pra uma garrafinha de água a panela tem o miolo estragado. passa na inspecção? 
Em primeiro lugar, Google não é Twitter. Em segundo lugar... hein?!! 

a relação dos números primos com os gafanhotos 
Se você descobrir, vai ganhar o IgNobel de Matemática. 

eijing fica onde em qual continente 
Atlântida. 

nunca escreva isso e cola em estou com sorte 
Se o estou com sorte tivesse lugar pra copiar e colar, você tava ferrado. 

çomo vive na çhina 
Çei lá. 

como chama o nome da plaquinha com nomes e especies de animais no zoologico 
Er... “plaquinha”? 

filme porno blasileilinha 
Cebolinha, seu tarado! 

achei um gafanhoto verde e amarelo o que eu faço 
Guarda pra 2014 e vende pros turistas gringos. 

minha boca esta fedendo a coco 
Coco fruto do coqueiro, né? Né? Diz que sim, pelo amor de deus. 

filme polar a cerca 
"A Esquimó Safada"? 

gafanhoto e mosquito tem algo em comum sim ou nao 
Talvez. 

grafia de raças de cães em itálico 
Poodle labrador dálmata pastor alemão ... É isso mesmo que cê quer? 

redação pronta imagine que voce presenciou uma cena muito engra\z\ 
Pior que aluno preguiçoso... 

uma frase com 125 caracteres que incentive revendedores 
...é publicitário cara-de-pau. 

canal 5 que esta passando agora 
Você tem que apontar a webcam pra televisão, que aí o Google te responde. 

xexo no fenque 
Xó tem no xou de roquenrou. 

japonesa coreana chinesa inglesa portuguesa francesa italiana africana sexo gratis 
É isso aí, diga não ao preconceito. 

comunidade mulher gostosa e temos dentes podres 
Putz, que sexy. 

monstro fodendo panda 
Mais sexy ainda. 

homen fasendo zexo con porca animal 
Não zerve porca vegetal? 

www.filmes de mulheres trasando como cavalos .com.br 
Você esqueceu o http://. 

O alô desta vez vai para os internautas que tentam, mas não acertam o nome do blog. Se não fosse o Google e o “você quis dizer”... 

blog boca de cafanhoto 
boca de gafonhoto 
boca de gaganhoto 
boca de garfanhoto 
blog cabeca de gafanhoto sobre pequim 
glog gafanhoto 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

21/10/2011

Como não fazer um festival de cinema

 

O organizador do festival, um americano, assumiu o microfone e se dirigiu ao público que aguardava diante do telão: 

- E aí, galera. Como já deu a hora e o cara da bilheteria ainda não chegou, vamos começar a passar os filmes e depois a gente cobra o ingresso. 

Deu o play no laptop e apresentou o primeiro curta. Era uma produção sobre alienígenas azuis que caem acidentalmente em Beijing. Ah, e a espaçonave é um vibrador gigante. Efeitos especiais de quinta, atuações duvidosas e o idioma extraterrestre, um mimimimimi agudo traduzido por legendas em inglês e mandarim, completam o pacote. Não chega a ser engraçado, mas vale pela bizarrice. 

Daí, antes de começarem propriamente o programa da noite – o curta da nave peniana era só uma zoeira de abertura – anunciaram no microfone que o moço da bilheteria havia chegado e que infelizmente todos deveriam deixar a sala, comprar o ingresso e entrar novamente. O que se resolveria simplesmente com um sujeito indo de cadeira em cadeira, como faria um trocador de ônibus, virou um rebanho de dezenas formando um fila desencontrada na porta, atrasando a exibição e fazendo fuzuê. 

O nome do evento era Beijing International Movie Festival , que se autoproclama "o mais antigo festival de cinema internacional" da capital chinesa – estão na quinta edição. Pelo visto, longevidade não necessariamente se traduz em competência. Agora há eventos do tipo pipocando aos borbotões: um quase homônimo Beijing International Film Festival, patrocinado e organizado pelo governo, um festival de cinema europeu que rola no início de novembro e o 2o Festival de Cinema Brasileiro, que começa em meados de novembro (brazucas em Beijing, táqui o site oficial). Decidi encarar o International Movie Festival, que seria realizado a uma distância caminhável da minha casa, o que é um alento para esta cidade gigante. Os primeiros dias seriam no Yugong Yishan, um bar/pub/casa de shows transformado em microcinema quando necessário. 

Meia hora depois, ingressos comprados, povo sentado, veio um curta japonês. Chama-se "Script" e mostra um grupo de quatro pessoas em uma sala quase escura que estão ali para um certo "experimento". Ninguém se conhece e nem sabe o que fazer, não há instruções ou esclarecimentos. Sobre a mesa, encontram quatro envelopes de conteúdos diversos, incluindo um cronômetro, algumas fotos reveladoras e um enigmático script de cinema narrando com detalhes cada ação que eles haviam acabado de fazer e cada palavra que pronunciaram segundos atrás. Com direção tensa e roteiro bem amarrado, estava indo muito bem até que puf: o cara do laptop fechou sem querer a janela do player. Ao retomar o filme, não soube encontrar o ponto certo onde a história parou, mesmo com todas aquelas vozes da platéia berrando "é antes, é mais pra trás!". Colocou o filme uns dois ou três minutos depois do ponto onde fora interrompido e virou as costas, e que a audiência se virasse pra entender. Parece aquela hora no "Planeta Terror" do Robert Rodriguez que há um suposto rolo de filme faltando. A diferença é que ali era opção do diretor, e não burrice. 

O resto da exibição, aleluia, transcorreu sem problemas, e a qualidade do material me surpreendeu bastante. Havia um curta dinamarquês sobre bullying, uma mini-comédia francesa sobre um fazendeiro que cria parisienses em sua granja (!) para vender ao mercado chinês (!!), uma história de amor entre um palhaço de rua e uma ex-violinista rechonchuda, e um curta excepcional chamado "Piano Fingers", história de um casal já com décadas de casamento, um passado famoso como cantores de rádio e um futuro pouco promissor obnubilado pelo Alzheimer. 

Voltei ao festival dois dias depois, numa terça preguiçosa, para ver dois longas. Dessa vez a seleção foi bem mais fraca. Havia um filme suíço-canadense, "Neutral Territory", dirigido (mal) pelo mesmo sujeito que intepreta (pior ainda) o protagonista. E em seguida "My Blind Uncle", produção taiwanesa estrelada por um ator que é cego de verdade. Começa bem, mas depois descamba para o melodrama e dana tudo. Além disso, a menina choramingosa que faz a sua sobrinha é uma das criaturinhas mais irritantes que vi ultimamente nos cinemas. 

 
O nome do filme é "Meu Tio Cego". Se fosse "Minha Sobrinha Muda" seria bem melhor. 

Pior do que ver filme ruim foi aguentar a trapalhada da vez da organização: o diretor mandou a cópia errada do DVD, uma versão que tinha a palavra SAMPLE em letras gigantes tampando metade da tela, e os organizadores do festival sequer checaram com antecedência se estava tudo nos trinques. Descobriram o problema junto com o público, quando apertaram play. 

 
Muito agradável de assistir. 

O último dia do festival tinha o nome de "Budgetless Bombs" e prometia um apanhado dos piores filmes já recebidos pelos organizadores. Eu devia ter aprendido a lição e ficado em casa, mas a curiosidade mórbida falou mais alto: a entrada era franca, e se tinham escolhido o curta do dildo espacial como parte dos "bons", a seleção das bombas prometia momentos estrambóticos e divertidos. Dessa vez o local não foi um cineminha improvisado, mas um restaurante com mesas, hambúrgueres e cerveja barata. Como não fecharam o lugar especialmente para o evento, vários clientes estavam ali só pra comer e não faziam idéia de que haveria uma exibição de porcarias audiovisuais dali a pouco. 

De repente soltaram umas imagens sem som, projetadas na parede, de uma mulher que mora no meio do nada e passa o dia pintando soldados e criando cabras. Imaginei que estivessem apenas testando o datashow e que fossem repetir tudo depois. Ligaram o áudio no finalzinho do filme, veio o título – "Kaziah, the Goat Woman" – e os créditos finais, e ficou por isso mesmo. Aí, sem que anunciassem o que viria em seguida ou mesmo explicassem aos desinformados que tinha um evento acontecendo, eles deram início ao filme seguinte, um longa chamado "Heavy Metal Picnic". O áudio estava baixo, os comensais continuaram a tagarelar sem cerimônia e não dava pra entender porra nenhuma. Uma pena, porque parecia até interessante: era um documentário – dos mesmos realizadores de um certo "Heavy Metal Parking Lot" – que contrapunha imagens amadoras feitas em 1985 durante um festival de rock com registros recentes, vinte e cinco anos depois, de vários metaleiros e ex-cabeludos que participaram desse festival, hoje carecas e pais de família. 

 
Very Crazy Jeremiah. 

Ainda haveria a exibição de outras pérolas, mas pra ver daquele jeito, como um CDF na primeira fileira tentando prestar atenção na aula de geografia enquanto a turma do fundão toca o terror na sala, preferia não ver. Na saída aproveitei pra perguntar pro organizador do festival por que é que eles fizeram o troço num restaurante e nem se dignaram a avisar a clientela. E ele: 

- A gente achou que os clientes do restaurante fossem ficar nas mesas lá fora e aqui dentro ficariam só quem veio pra ver os filmes ruins. Mas aí esfriou, e todo mundo veio pra dentro. 

Outubro é outono em Beijing, a temperatura à noite oscila em torno dos 10 graus – todo santo ano – e não raro cai uma neve na segunda quinzena, como aconteceu em 2009. Tem que botar muita fé no aquecimento global pra taxar isso de imprevisto e soltar um "aí esfriou". 

Problemas técnicos acontecem. Filme ruim até que passa. Evento com organizador tapado, aí não tem perdão. 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

05/07/2011

Tudo azul no Mar Amarelo

 

Minhas expectativas para uma praia chinesa passeavam por dois extremos: ou ela seria impossivelmente lotada, ou pós-apocalipticamente vazia. A primeira hipótese se justifica por matemática simples. Se os brasileiros já tornam tantas praias tão insuportáveis nos feriados, imagine um povo sete vezes mais numeroso. Eu me lembrava do meu último reveillón em Cabo Frio, quando precisava enfrentar quatro grandes camadas de pessoas pra poder entrar no mar, e mesclava às minhas aventuras diárias no metrô de Beijing. O prognóstico era pouco otimista. 

Por outro lado, eram grandes as possibilidades de não haver viv'alma à beira-mar. Afinal, já basta um solzinho mirrado para que as moçoilas chinesas empunhem suas sombrinhas, num receio de queimar a pele – nem que seja apenas um bronzeado – que parece beirar a fobia. A imagem de uma multidão em trajes de banho estirada na areia recebendo sol na cara me parecia improvável em território chinês. 

Minha primeira experiência praiana na China acabou acontecendo no Mar Amarelo. Que, como o Mar Vermelho e o Mar Negro, grazadeus, não reflete nas águas a cor que lhe dá nome. Foi em Qingdao, que além de terra da cerveja e de inúmeros bons restaurantes de frutos do mar, também oferece sol e praia pra galera. Fui parar lá porque o Laurens, amigo belga que estudou mandarim comigo em Beijing, agora mora e trabalha em uma cidadezinha perto de Qingdao, e além da companhia e da hospedagem grátis, ele tem carro e se ofereceu para nos levar pra cá e pra lá durante o feriado. Difícil achar proposta melhor. 

Depois de passarmos horas perdidos em busca de um hotel e depois nos empanturrarmos com peixes, camarões, caranguejos e cerveja preta, pisamos na areia da praia já num horário pouco propício para um banho de mar ixperto, por causa do vento aborrecido e da água semi-glacial. Na areia, nada de futevôlei, vendedor de água de coco ou catador de latinhas, apenas uns esparsos gatos pingados. Chamava a atenção a noiva que escolheu a praia deserta como cenário para seu álbum de casamento (na China, os noivos geralmente fazem um book antes da cerimônia pra poder mostrar pra todo mundo na festa). 


Só chove na noiva? Pô, São Pedro. 

 
"Amarelo deserto e seus temores..." 

O mergulho no Mar Amarelo só aconteceu quando fomos a Rizhao, a cidade onde meu amigo mora. Pouco populosa – tem a mesma população de Salvador, o que é quase uma aldeia para os padrões chineses –, Rizhao recebe pouquíssimos turistas estrangeiros e andar por suas ruas largas e vazias é um alívio. A praia, porém, surpreendeu: estava longe de ter gente pipocando por todo canto mas tampouco era erma. O que mais divergia da concepção tupiniquim de praia era que noventa por cento dos "banhistas" continuavam vestidos, do casal esticado na toalha ao molequinho cavando buraco no chão. O máximo a que se permitiam era levantar a barra da calça e caminhar com os pés descalços. Uns poucos marmanjos tiravam a camisa para um rápido tibum e só topei com uma garota que trajava biquíni – não chegava a ser um maiô de vovó, mas era tão ou mais bem-comportado, incluindo uma sainha na parte de baixo impensável numa praia carioca. 


Pra não falar na bóia. 

 
Com que roupa eu vou... pra praia que você me convidou? 

 

No quesito entretenimento, pelo menos para a criançada, nada a reclamar: um parque de diversões montado na orla tinha carrossel, touro mecânico, carrinho bate-bate e todos aqueles brinquedos estilo Playcenter que causam vômito fácil. Uma dupla (de adultos) empinava duas pipas gigantes, fazendo acrobacias ousadas e divertindo os espectadores. E no mar, uma série de "bicicletas aquáticas" (ou seja lá como se chama esse troço) eram pedaladas com gosto pelos, digamos, aquaciclistas. Chinês gosta tanto duma bicicleta que pedala até no mar. 

 

 

 


É pra divertir ou pra assustar? 

Na hora em que eu e o belga fomos pra água, os únicos que estavam efetivamente nadando eram dois chineses um pouco ao longe, que logo começaram a acenar e gritar: "laowai! laowai!" ("gringos! gringos!"). O mar estava limpo e refrescante, ainda que carecesse de ondas. Terminado o mergulho, voltamos à beira-mar e foi aí que notamos que tínhamos virado atração: dezenas de olhos virados para nós e pelo menos três câmeras fotografando e filmando. Unicamente por sermos branquelos saindo do Mar Amarelo. Nunca pensei que, tão longe da costa brasileira, iria um dia me sentir como se estivesse na Ilha de Caras. 

Quem

Lucas Paio já publicou contos em revistas e antologias, já dirigiu curtas-metragens e compôs canções, já ganhou um campeonato de aviões de papel, tocou teclado numa banda cover de Bon Jovi, morou na China e hoje vive em Berlim. É autor do romance de fantasia cômica MACADÂMIA, lançado em 2025.

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