The long way home: Roger Hodgson em Berlim
Eu tinha sete anos e era supertrampmaníaco havia meses, desde que assistira a um show da Companhia Supertramp no aniversário de um amigo do meu pai. Em pouco tempo já havia decorado uma porção de letras dos discos que tínhamos em casa, lendo os encartes e tentando associar a grafia estranha daquele idioma aos sons que saíam dos LPs. Lembro de achar que o "AM" do rádio era a mesma palavra contida em "The Logical Song", no verso "Please tell me who I am". Toda vez que Roger Hodgson cantava "Who I aaaam? Who I aaaam?", eu apertava o "AM" do rádio, numa cândida tentativa de interagir com a canção.
Meses depois, a Companhia Supertramp estava no palco de algum bar em BH e eu lá com meus pais, curtindo o show e tendo provavelmente minha primeira experiência num boteco. A essa altura, os caras da banda sabiam que o saxofonista tinha um sobrinho pirralho que memorizara boa parte do repertório. Lá pelas tantas, acharam divertido me chamar ao palco e eu fui, muito mais desinibido do que nos primeiros shows da minha banda ABUNN dez anos depois. Marcos Temponi, vocalista e baixista, cochichou-me as coordenadas:
- Você espera a introdução, eu conto até quatro e você começa. Vamos lá, um, dois…
Eu ignorei as instruções rítmicas e comecei a cantar na hora que quis — provavelmente no tempo certo, já que conhecia aquelas músicas como se fossem "Atirei o Pau no Gato". Mas fico imaginando o sotaque com o qual não devo ter cantado "The Logical Song":
- Uen auas iangue, itsims dê láifuassou uânderfou…
Vinte e três anos se passaram desde então, mas nunca deixei de curtir Supertramp. Crime of the Century, Breakfast in America e Even in the Quietest Moments permanecem entre alguns dos meus discos favoritos dos anos 70, vira e mexe toco "Give a Little Bit" no violão por aí e dia desses até comprei o DVD do Supertramp Paris, icônico show gravado em 1979 ao qual ouvi por muitos anos numa fitinha dupla presenteada por meu tio Kiko no meu aniversário de oito anos — ele até mesmo redesenhou a capa do álbum com lápis de cor na caixinha do cassete.
Foi um barato assistir ao DVD, não só porque as músicas são foda, mas por raramente ter visto material visual do Supertramp nesses anos todos em que sou fã da banda. Dar caras às vozes, sabe cumé? Ver Roger Hodgson caprichando nos agudos, Rick Davies se esmerando no piano e nas caretas, John Helliwell saxofonando, palhaçando e comandando o falatório entre-canções. Deu uma baita vontade de ver esses caras ao vivo, juntos, com a química que tinham nessa gloriosa fase áurea dos anos setenta.
O que não vai acontecer. Roger Hodgson, voz e mente por trás de alguns dos maiores hits supertrâmpicos ("The Logical Song", "Dreamer", "Breakfast in America", "Give a Little Bit"), se mandou do grupo em 1983. Rick Davies — igualmente talentoso e criador de "Rudy", "Crime of the Century", "Bloody Well Right", "Asylum" e outras pérolas — continuou liderando o resto da patota e está aí até hoje, gravando e fazendo turnês de vez em quando, ainda carregando a marca Supertramp. Mas assim como Mutantes sem Rita, Barão Vermelho sem Cazuza, Raimundos sem Rodolfo e Bucheca sem Claudinho, o Supertramp não é a mesma coisa sem Roger Hodgson.
Hodgson também permanece por aí, rodando o mundo com as canções que o consagraram há tantos anos, e embora vê-lo num show solo também não equivala (palavra estranha) à improvável experiência de ver um dia o Supertramp original ao vivo, não titubeei quando soube que ele vinha a Berlim e comprei o ingresso no ato — assim como, anos atrás, tampouco hesitei em ver os Mutantes duas vezes, mesmo sem Rita, e certamente assistiria a Rick Davies com o Supertramp atual (eles também viriam à Europa agora no segundo semestre, mas infelizmente tiveram que cancelar a turnê enquanto Davies se recupera de um câncer).
O cenário: Tempodrom, uma casa de shows no centro de Berlim que, ano passado, recebeu o grande Steven Demetre Georgiou — conhecido hoje em dia como Yusuf Islam, e bem mais famoso sob "Cat Stevens" — em seu retorno triunfal às turnês mundiais. E assim como na apresentação de Cat Stevens, eu, que já não tenho mais sete anos de idade, era provavelmente o mais novo na plateia inteira.
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