25/03/2007

Turismo de botas batidas



"O cara ainda tá limpando seu quarto, volta daqui a umas três horas", disse o recepcionista do albergue. Resolvi aproveitar o tempo pra dar um pulinho no cemitério Père-Lachaise, um dos pontos turísticos mórbidos da capital francesa. Uma espécie de revista People de tumbas. Ou um onde-está-Wally. Porque afinal de contas o lugar é um cemitério, e obviamente não há uma ala de celebridades com todo mundo reunido, esperando pelos turistas. Você que se esgueire no meio dos mortos pra achar os restos do seu ídolo.

Eles vendem na porta um mapinha com todas as lápides famosas, mas como custava 2 euros e logo na entrada havia uma placa grande mostrando o mesmo mapa, optei por uma solução mais econômica: fotografei a placa em alta resolução e toda hora dava uma olhada na telinha da câmera digital pra tentar descobrir onde estava. Lógico que me perdi inúmeras vezes e não consegui encontrar ícones como Balzac, Chopin, La Fontaine e Molière. Mas olha quem eu vi por lá:



James Douglas Morrison, 1943-1971. O notório vocalista d'Os Portas jaz tranqüilo num cantinho escondido do cemitério, o que não impede que todo dia apareçam novas flores de presente pro cara. Antigamente tinha um busto do Jim sobre a lápide, mas algum pig spirit encarou como souvenir e aí tchau homenagem.



Sarah Bernhardt, 1844-1923. A atriz francesa que rodou os teatros desse mundão de meu Deus e até apareceu no Xangô de Baker Street hoje mora no Père-Lachaise e recebe flores diariamente de gente que nunca a viu atuar. E se ela era uma porcaria e ninguém sabe?



Allan Kardec, 1804-1869. O codificador da doutrina espírita (ou "fondateur de la philosophie spirite", como diz a inscrição) tem uma tumba ajeitada, com um busto de bronze e uma grande estrutura de pedra erguida como os antigos dólmens druídicos. Na pedra lá do alto, a frase: "Naitre, Mourir, Renaitre Encore et Procresser Sans Cesse. Telle est La Loi" ("Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sempre. Tal é a lei").



Oscar Wilde, 1854-1900, não ganha tantas flores como seus companheiros de necrópole, mas em beijinhos ninguém supera o o irlandês. Beijinhos e recados pichados. Alguns que consegui identificar:

"L'importanza di essere, Oscar!"
"Gracias"
"Whatever u want!"
"Je t'aime"
"Dennis & Flavia was here from Brazil"
"So resistere a tuto tranne che alle tentazioni!"
"Ti amo"
"Desde Barcelona... 106 años después... ¡¡te queremos!! Adrian, Noemi, Javi"

Mais tumbas você encontra no site oficial do cemitério, onde é possível fazer uma visita virtual e dar uma olhada na morada eterna de um monte de gente. Quando eu morrer em Barcelona aos 99 anos tentando subir a escadaria da recém-inaugurada Sagrada Família (ela só fica pronta em 2084, é sério!), podem me levar pra Paris e me jogar num buraco qualquer no Père-Lachaise. Quero só ver como vão me definir no mapinha da entrada. "Vagabond"? "Vieillard inutile"?

Aipim & companhia

Outro dia alguém entrou neste blog procurando no Google por "sugestões de logomarcas para bolinhos de aipim", e certamente deu com os burros n'água. Como eu sei o quão desapontador é buscar alguma coisa importante na internet e não lograr sucesso, tentarei me redimir com um breve top 10 sugestões de logomarcas para bolinhos de aipim, destinadas aos mais variados públicos-alvo.

Para bolinhos feitos em casa, uma logo manuscrita e artesanal:


Para bolinhos sofisticados, um design neo-clássico e requintado:


Para atingir a rapaziada esperta, uma logo radical:


Mas se a intenção é conquistar a meninada pequena, que tal um visual elétrico e espevitado?


Para um público urbano e cosmopolita, uma estética que evoca a contemporânea sociedade de consumo:


Já um público mais tradicional pede um ar medieval:


Este aqui, além de tudo, atua no subconsciente e ajuda a aumentar a venda de refrigerantes:


Um toque oriental sempre cai bem no miscigenado mundo de hoje em dia:


Se você faz os melhores bolinhos do oeste, uma marca à altura para atrair os forasteiros:


E este é pra quem se sente sozinho, sem direção, como um completo desconhecido, uma pedra rolante:


Espero que tenha ajudado.

17/03/2007

13/03/2007

Fabuleux destins

Alguns cenários cinematográficos nas esquinas parisienses.



"Cafe des 2 moulins", onde Amélie Poulain trabalhava de garçonete antes da fama mundial. Fica no bairro de Montmartre, entre o Moulin Rouge e o Moulin de la Galette, daí o "2 moulins" ("dois moinhos") do nome. O lugar mudou de dono há pouco tempo e o novo proprietáro, sem o menor tino de marketing, mudou completamente o interior do café, posição do balcão, das cadeiras, tudo. E botou um cartazão com a Amélie lá dentro, rindo à toa, coisa que obviamente não tinha no filme, senão as outras garçonetes ficariam com cíumes.



"Shakespeare and Company", a livraria onde o protagonista de Antes do Pôr-do-Sol lança seu livro logo no comecim do filme. Eu tinha visto em algum lugar que ela ficava ali perto de Notre Dame - o que não ajuda muito, a região é enorme. Fui margeando a catedral até achar. O interior logo me pareceu familiar, mas resolvi confirmar com a atendente.

- É aqui onde gravaram aquele filme do...
- Yeah, yeah, Before Sunset - (ela deve estar com saco cheio de todo mundo perguntar isso)

A equipe de filmagens merece palmas por conseguir filmar lá dentro, o lugar é minúsculo e com livro empilhado até no teto. Ainda tinha uma plaquinha anunciando uma sessão de autógrafos com um escritor, sob o título "Meet the author", exatamente como faz o personagem de Ethan Hawke na película.



- Você vai ter que tirar uma foto na porta do Moulin Rouge pra mim!! - pediu minha avó, fã dos grandes clássicos do cinema. Taí, vovó. Fico devendo as fotos do interior porque a apresentação de can-can mais barata custava 140 euros. Fica pra próxima, beleza?



O Moulin Rouge à luz do dia não tem o mesmo charme.



Amsterdam também tem seu Moulin Rouge, que exibe suas moçoilas numa das ruas principais do Red Light District. Aqui as Nicoles Kidmans certamente fazem mais do que dançar can-can. Será que vovó aprovaria?

10/03/2007

E o prêmio de pior refrigerante do mundo vai paraaaaaaaaaa...



Fanta Chinotto.

Fui fazer um lanchinho em Roma e me deparei com a inusitada garrafa olhando pra mim na geladeira. Era uma Fanta preta. 500ml de Fanta preta. Algo me dizia que aquilo não tinha nada a ver com coca-cola. Talvez café. O nome não ajudava: chinotto. Comprei. Experimentar é preciso, certo? O primeiro gole não forneceu pistas sobre o sabor. Jiló? Berinjela? Na segunda golada, a única certeza era o alto grau de terribilidade que a coisa gasosa era capaz atingir. Resisti por mais alguns goles e o amargo só piorava. 500ml de Fanta sabor bílis. Não consegui terminar e ainda tive que comprar uma coca-cola pra tirar o gosto.

Depois, resolvi pesquisar. Chinotto: qual o mistério por trás da palavra? Que mente maligna se esconde atrás dessa criação? O Wikipedia me esclareceu. Chinotto é uma pequena fruta cítrica, amarga, muito encontrada na Itália. É o ingrediente que dá sabor à maioria dos licores digestivos italianos, e também ao popular Campari, o que explica tudo.

Pior: descobri que existem vários e vários refrigerantes de chinotto sendo vendidos nos armazéns da Itália. Se a versão da Coca-Cola conseguiu ser assim, imaginem um "Chinotto Del Rey"?

06/03/2007

O ladrãozinho da Fontana di Trevi



Cheguei na Fontana di Trevi à noite, vagando a esmo por Roma, sem saber direito o que esperar. A capital européia do trânsito maluco tem fontes e estátuas por todo canto, e acho que eu imaginava da tal Fontana mais um mix água-com-estátua, com o adendo de ser o tradicional local onde turistas jogam suas moedinhas para pedir um desejo e garantir sua volta a Roma no futuro.

Nada, o troço é enorme (26 metros de altura por 20 de largura), cheio de esculturas diferentes de Netuno e seus asseclas, especialmente bonita com a iluminação noturna e, claro, repleta de turistas a qualquer hora. Com o excesso de turistas, proliferam-se também os inumeráveis vendedores de bugigangas. Por algum motivo que me foge à compreensão, os vendedores ao redor da Fontana têm uma peculiar predileção pelas pedras que zumbem: duas pedrinhas que eles jogam pra cima e que produzem um irritativo bzzzzz ao se encostarem. E não vi ninguém comprar aquilo, todo mundo recusando, fazendo aquela cara de pelamordedeus, pra quê eu vou querer esse troço chato? Mas se tem oferta, deve haver demanda. Senão algumas senhoritas no Red Light District, em Amsterdam, que parecem filhas de um orc com a Princesa Fiona versão ogra, não continuariam lá, ganhando sua graninha diária.





Entre um gelato e outro à beira da fonte, também joguei minha moedinha, um krona que tinha sobrado da minha ida à Suécia. E funcionou, tanto pro desejo quanto pra garantir meu retorno a Rome Sweet Rome: continuei sem pegar catapora até o final da viagem e, no domingo seguinte, após alguns dias rodando entre Veneza e Florença, lá estava eu de volta a Roma, já que de lá que sairia meu avião de volta pro Brasil. Conclusão: gastei meu retorno garantido na mesma semana... Devia era ter jogado outro krona, que vale coisa de 10 eurocents, uma prova de que a fonte dos desejos não liga muito para o valor monetário das rodelas de metal ali jogadas.

Mas tem gente que liga. Eu estava mesmo pensando: será que ninguém vem aqui de madrugada, na surdina como Anita Ekberg em La Dolce Vita, e cata essa dinheirama toda?

A resposta veio na figura de um sujeito de jaqueta de couro e boné, andando silenciosamente com as mãos nos bolsos enquanto olhava para as águas. Calmamente ele pára, pega uma haste retrátil, estica e começa a passar no fundo da fonte. Meu ingênuo pensamento inicial: será que tá medindo a profundidade? Ele tira a haste lá de dentro, dobra de novo e coloca no bolso. Anda mais uns passos e repete o procedimento. Só na terceira vez fui reparar que ele passava a mão na ponta da haste antes de guardá-la. Sim, havia um ímã na ponta e a cada vez que o safado ia lá "medir a profundidade", as moedinhas colavam no artefato ao melhor estilo Bandidos Grudentos. E na calada da noite? Coisa nenhuma. Debaixo do sol rachando, com todo mundo lá, fazendo seus pedidos e tirando fotos ao seu redor.

Ignorando todos os riscos de ser descoberto pelo meliante, fingi que fotograva os turistas e consegui registrar algumas imagens de cinegrafista amador. Observe a malícia, o sangue frio do gatuno, e aprenda a lição que tive na Fontana di Trevi: se a esmola não vai até você...

28/02/2007

Biseuro

Optei pela desordem e os relatos da viagem não virão de uma forma cronologicamente linear, mas acho interessante abrir com umas breves explanações pra situar o leitor no continuum espaço-tempo.



Legenda:

Bolinhas vermelhas mostram as cidades visitadas.
Linhas brancas foram os trajetos de trem.
A linha verde indica o vôo Ryanair de Estocolmo pra Roma.

Números:

32 dias de viagem
6 países visitados
7, se contarmos o Vaticano
9, se incluirmos também a Bélgica, que observei de sul a norte pela janela do trem, e a Dinamarca, onde gelei por 10 minutos na estação antes de atravessar a ponte pra Suécia
11 cidades visitadas de verdade, sem truques geográficos pra aumentar a contagem

Itinerário:

21/01 (domingo): Confins – Congonhas – Guarulhos – Madrid
22/01 (segunda): Madrid
23/01 (terça): Madrid
24/01 (quarta): Madrid – Barcelona
25/01 (quinta): Barcelona
26/01 (sexta): Barcelona
27/01 (sábado): Paris
28/01 (domingo): Paris
29/01 (segunda): Paris
30/01 (terça): Paris
31/01 (quarta): Paris – Amsterdam
01/02 (quinta): Amsterdam
02/02 (sexta): Amsterdam
03/02 (sábado): Amsterdam – Berlim
04/02 (domingo): Berlim
05/02 (segunda): Berlim
06/02 (terça): Berlim – Hamburg – Neumünster (Alemanha)
07/02 (quarta): Neumünster – Copenhagen (Dinamarca) – Malmö (Suécia) – Estocolmo
08/02 (quinta): Estocolmo
09/02 (sexta): Estocolmo – Uppsala
10/02 (sábado): Uppsala
11/02 (domingo): Uppsala – Estocolmo
12/02 (segunda): Estocolmo – Roma
13/02 (terça): Roma
14/02 (quarta): Roma e Vaticano
15/02 (quinta): Roma – Veneza
16/02 (sexta): Veneza – Florença
17/02 (sábado): Florença
18/02 (domingo): Florença – Roma
19/02 (segunda): Roma – Pompéia – Roma
20/02 (terça): Roma – Madrid – Guarulhos
21/02 (quarta): Guarulhos – Belo Horizonte

Fotos e causos vêm na seqüência.

21/01/2007

Aotearoa



A idéia era ter escrito e publicado este texto coisa de um ano atrás, mas minha veia de procrastinador ordenou que eu fosse adiando, adiando, aí já viu, não pude desobedecer. Apesar disso, aos pouquíssimos o texto foi tomando forma, com base em anotações providencialmente registradas em tempos de outrora. Em resumo: mais ou menos como quem vai pra Sabará, em 2006 estive na Nova Zelândia por um dia. E com um ano de atraso, deixo aqui o relato da viagem.

O matadouro

Com a papelada na mão, a gorda do guichê olhou pra gente e perguntou mais uma vez:

- Não entendi direito. Vocês tão entrando na Nova Zelândia hoje... pra ir embora amanhã?

Ê lelê. Sim, immigration girl. Estamos aqui de passagem, vindos da Austrália, o próximo vôo só sai amanhã à noite, daqui a quase vinte e quatro horas, e por isso pretendíamos passar o dia conhecendo Auckland antes de zarpar pra Buenos Aires... Pode olhar, tá aqui nossa passagem de volta, a reserva do hotel... ou quer que desenhe?

- Hm. Tá. Ahan.

Ela olha pra gente, olha o bilhete, checa os passaportes, conversa com os colegas, folheia a papelada mais uma vez e então sentencia:

- Ok, tenham uma boa estadia.

Em todos os aeroportos por onde tínhamos passado na Austrália, todos mesmo, Bruno e eu fomos abordados por funcionários que chegavam sempre com a mesma conversa:

- Oi, tudo bem? Você foi selecionado aleatoriamente para um rápido teste anti-bombas. Alguma objeção quanto a isso?

O que ele esperava que falássemos? “Pô, e se você me tirar as cinco garrafinhas de coquetel molotov que eu tô guardando pra hora da decolagem?” Não demonstrávamos objeção, ele passava uns detectores pelas nossas roupas e tava tudo bem.

O mais engraçado era a expressão “você foi selecionado aleatoriamente”. Aleatoriamente eu, com essa minha cara de árabe? Curioso foi que, das primeiras vezes, só eu era “aleatoriamente selecionado”. Depois passaram a escolher o Bruno, talvez com o raciocínio de que o árabe poderia entregar a bomba pro amigo esconder, pra disfarçar.

Então estávamos lá, aliviados por termos entrado na Nova Zelândia e sem teste anti-bombas, quando cruzamos com uma simpática velhinha, também funcionária. Explicamos tudo de novo, é um dia só, conexão só amanhã, ela viu a papelada rapidamente e disse:

- Ah, tudo bem. É só seguirem essa linha azul do chão aqui e virarem à direita, por favor.

Fizemos o que ela pediu, obedientes. E achando estranho que ninguém fazia o mesmo: a maioria de nossos colegas de fila, ao invés de seguir o traçado indicado pra gente, já tinha tomado a esquerda e se via em liberdade, fora das enclausurantes portas de vidro da alfândega. Tudo bem, somos estrangeiros e precisamos olhar mais uma burocraciazinha qualquer.

Só que a burocracia não era nada zinha. A velhinha, tão simpática, tinha era nos mandado direto pro matadouro. Uma sala ampla com algumas mesas e funcionários nada simpáticos abrindo e fuçando sem dó as mochilas de duas jovens loiras que deviam ser norueguesas. Ao dar de cara com a cena, um outro cara à nossa frente, talvez americano, soltou uma risada típica que quer dizer, em qualquer idioma, “agora é que fudeu de vez”.

Amaldiçoamos a alfândega, a velhinha simpática e esperamos. Dava pena das duas loiras: deviam ter levado tanto tempo pra arrumar a mochila, colocando as roupas de um jeito que coubesse tudo, dobrando roupas e embrulhando objetos quebrantes, e o alfandegueiro espalhava tudo pela mesa sem cerimônia, ao mesmo tempo em que fazia mil perguntas. E elas levando bronca.

Depois do americano, Bruno e eu fomos chamados. Cada um pra uma mesa diferente, de um jeito que um nem via o outro direito durante o interrogatório. Pus a mala sobre a mesa e já ia começar a abrir quando o sujeito me impediu com um gesto de mão.

- Senta aí, deixa que eu mexo.

E foi tirando camisas, calças, papéis, mapas, folhetos, DVDs, bumerangues. Depois começou a perguntação: “você tá trazendo algum tipo de droga na mala? você usa drogas? conhece alguém que usa? não é possível, você é estudante, com certeza conhece!” As perguntas são tão engraçadas quanto aquela do teste anti-bombas. Sabendo que qualquer “yes” vai ferrar sua vida, até um Zé Pequeno negaria tudo.

Do outro lado da sala, o Bruno passava por maus bocados. Tinham feito um teste antidrogas na mochila dele e detectado vestígios de heroína. Fala sério: heroína? Não sei como são feitos esses testes, mas devem procurar por substâncias que normalmente são encontradas nas drogas mais famosas. Será que pêlo de canguru tem elementos em comum com heroína?

Aí é assim: eles ficam lá, jogando verde, talvez na esperança de encontrar uma quadrilha muito pirada querendo aprontar altas contravenções. E você vai negando, vai negando, até que o cara cansa de perguntar e fala: beleza, pode guardar suas coisas.

Claro, eles tiveram tanto trabalho pra tirar tudo dali de dentro, quê que custa você perder um tempinho tentando encaixar esse casaco que agora não quer entrar nem com reza?

- Welcome to New Zealand! – eles dizem, sorrindo, antes de partirem para a próxima inquisição.

Uga uga

Uma coisa que chama atenção quando a gente chega na Nova Zelândia, em comparação com a terra dos ornitorrincos, é que a maioria dos letreiros no aeroporto traz a frase em inglês e seu correspondente em maori, a língua dos habitantes nativos de lá. Nova Zelândia em maori, por exemplo, é “Aotearoa”. Tudo bem, os aborígenes não eram uma tribo única, mas uns 300 grupos diferentes vivendo num país imenso e com idiomas sem nenhuma relação entre si, e encaixar trezentas frases por letreiro daria um trabalhão do cão pro estagiário que fosse layoutar o troço.

De qualquer forma, os maoris me pareceram bem mais integrados à Nova Zelândia do que os aborígenes à Austrália. Enquanto em Sydney o máximo que se via era um ou outro tentando descolar um trocado tocando didjeridoo perto dos pontos turísticos, em Auckland tinha maoris trabalhando em lojas, aeroportos, shoppings, McDonald’s. Quem quiser pode até fazer uso de um glossário básico maori:

Kia Ora – Oi!
Kei te pehea koe – Coméquitá?
Ka kite ano – Tchau, hein?
Tena koe – Valeu aí, fi!

Um portal maori para uma feira hippie.

Auckland

O despertador tocou às 7 em ponto na manhã de 10 de fevereiro. O que já seria um sacrifício em horário normal era ainda pior pro nosso organismo, acostumado ao horário australiano de 3 horas a menos. Sete da manhã na Nova Zelândia equivaliam às quatro da matina pra gente. Mas se madrugar era o único jeito de aproveitar as escassas horas que tínhamos na terra dos kiwis, vambora! Tomamos um café que não ficou na memória, atravessamos a rua do hotel e pegamos o primeiro ônibus que ia pro centro, passando por bairros que lembravam os cenários do grande clássico neozelandês Fome Animal.

Auckland nos pareceu um lugar bem agradável de se viver. Cidade grande sem aquele jeitão cosmopolita e opressor das metrópoles, sabe cumé? Claro que, na condição de maior cidade da Nova Zelândia, ela não é a melhor tradução do país em geral. Os esportes radicais, as paisagens estonteantes, a própria cultura maori, se fazem bem mais presentes nas cidades menores. Embora em Auckland não seja difícil dar de cara com um punhado de vulcões ali ou um bungee-jump no meio da rua acolá.

Também não é difícil, especialmente pra quem vem da Austrália, notar alguns paralelos entre Auckland e Sydney. As duas são as principais cidades de seus respectivos países mas não são as capitais; por causa da colonização britânica e a babação de ovo em cima da rainha, compartilham muitos nomes de ruas (Queen Street, Victoria Street, Albert Street); ambas são litorâneas e por isso nota-se nelas uma forte cultura marítima, com ferry boats usados como transporte público, museus marítimos e a ponte que se chama Harbour Bridge. As duas cidades também têm suas torres enormes que aparecem de penetra em todos os cartões postais panorâmicos, mas nesse quesito Auckland leva vantagem: sua Sky Tower é o maior edifício do hemisfério sul. Pô, e eu achava que era a torre de Nova Lima...

Então essa coisinha aqui é a torrezona que o povo tanto fala?

Kiwi pra todo lado

Assim como na Austrália as lojas de souvenir exploram exaustivamente as espécies endêmicas do país, dos cangurus e koalas aos ornitorrincos e águas-vivas ultra venenosas que matam em trinta segundos, nas lojinhas da Nova Zelândia só se vê ovelhas e kiwis.

As ovelhas estão presentes por uma simples questão de estatística: tem ovelha pra caramba no país. Os dados que eu ouvi falavam de 44 milhões de ovelhas, contra 4 milhões de habitantes, garantindo horas de diversão para os insones que contam carneirinhos.

Já os kiwis são pequenos pássaros que não voam e que só existem na Nova Zelândia. De tão estranho, acabou virando símbolo. E sinônimo pra tudo: gente, fruta, dinheiro. A fruta é conhecida por lá como kiwifruit. O dinheiro é chamado de “dólar kiwi”. O banco tem o nome de Kiwibank. E os próprios neozelandeses usam kiwi como apelidos para eles mesmos, não se importando com os que propagam por aí a história de que tem pêlo mas é fruta.

No aeroporto, quase na hora de ir embora, fui na kiwionda e comprei um chocolate sabor kiwi. Pura enganação: mal se sentia o gosto de outra coisa que não o próprio chocolate, e me parece distante o grau de parentesco entre o kiwi e o cacau. Ou o recheio era de kiwi-pássaro e eu não tava sabendo?

Monumento ao kiwi monstro

Para os admiradores da inusitada ave, vale assistir a esta animação bacana, em cartaz no YouTube.

Quanto a mim, volto logo após o carnaval, com um estoque renovado de relatos de viagens. Inté!

11/01/2007

Perspectivas 2007



Doismileseis já é parte do passado, e como o passado não existe, passo por cima das tradicionais retrospectivas de filmes, discos, acontecimentos insólitos, as personalidades do ano, as mais sórdidas tramóias e maracutais, os planetas mais rebaixados, e pulo direto para algumas perspectivas para este sétimo ano do vigésimo primeiro século pós-JC.

>> 10 filmes

10. Rocky Balboa (fevereiro)
09. Grindhouse (abril)
08. Piratas do Caribe - No Fim do Mundo (maio)
07. Homem-Aranha 3 (maio)
06. Borat (fevereiro)
05. Sin City 2 (outubro)
04. The Simpsons Movie (agosto)
03. 300 (março)
02. Babel (janeiro)
01. Shrek Terceiro (junho)

>> 10 discos

10. Offspring
09. Artic Monkeys
08. Aerosmith
07. Smashing Pumpkins
06. Queens of the Stone Age
05. Supergrass
04. Radiohead
03. Los Hermanos
02. Silverchair
01. Foo Fighters

>> Categoria "a esperança é a última que morre":

Um show do Paul McCartney no Brasil.

>> Categoria "Minority Report":



(Do G1, uns dias atrás. Achei intrigante publicarem uma notícia com 10 meses de antecedência, mas tudo fez sentido depois que vi qual é o novo slogan deles: "Saiba antes". Nada mais adequado.)

27/12/2006

Make your own kind of music



Seguindo a tradição, fechei hoje o tracklist da minha trilha sonora oficial do ano.

Não é lá uma tradição muito antiga, pra falar a verdade: o primeiro volume da série surgiu só em 2005. Mas a idéia era velha, e parte do princípio de que todo mundo tem canções que remetem a uma determinada época da vida. "Ripcord" (Radiohead) sempre me lembra 2002. "Sweetest Thing" (U2) tem a maior cara de 1998. "Hello" (Oasis) é puro 2001.

A seleção deste ano não traz necessariamente as melhores canções lançadas em 2006 (embora "You Only Live Once", dos Strokes, não pudesse faltar) nem obrigatoriamente elas pertencem às bandas que mais aprecio (mesmo que Mutantes, Led Zeppelin e George Harrison marquem presença). Melhor deixar isso bem claro pra ninguém achar que eu sou fã de carteirinha d'O Surto.

Algumas estarão incontestavelmente em minha memória nos anos que virão: afinal, que música melhor que "Night Flight" (do Led) pra me fazer lembrar do meu último semestre de faculdade?

Também houve casos em que acabei juntando duas cousas diferentes numa só canção. A imagem do australiano bêbado cantando AC/DC em Sydney e o clima rural do Rancho do Vaz estão devidamente reunidos na versão ranchesca do Hayseed Dixie para "You Shook Me All Night Long".

Enfim. A seleção que gravarei em cd assim que tiver paciência pra brigar com o Nero, que ultimamente anda bem desaforado, será a seguinte:

01. Strokes - You Only Live Once
02. Led Zeppelin - Night Flight
03. George Harrison - Give Me Love
04. Hayseed Dixie - You Shook Me All Night Long
05. Mutantes - Baby (versão Tecnicolor)
06. Chico Buarque - Deixe a Menina
07. Tuatha de Dannan - The Last Words
08. O Surto - Io-Iô
09. Dave Matthews Band - Stay
10. Arctic Monkeys - When The Sun Goes Down
11. Supergrass - Pumping On Your Stereo
12. Vinicius & Baden - Canto de Ossanha
13. Tom, Vinicius, Toquinho e Miúcha - Carta ao Tom
14. Premeditando o Breque - Sempre
15. Amaranto - O Ornitorrinco
16. U2 - Window in the Skies
17. Aerolineas Argentinas Medley (Billie Jean / People Are Strange / Space Cowboy)

Para casa: faça uma forcinha mental e indique sua trilha sonora particular do ano de 2006. Justificar as escolhas não é obrigatório mas é mais legal. Mínimo de 3 músicas. Valor 10 pontos.

11/12/2006

O brilho cego de paixão e fé



Estou quase decifrando a letra completa da musiquinha do amolador. Ele me amola todos os dias de manhã. Antes era só aos domingos, mas a proximidade do Natal fez com que ele intensificasse a gritaria matinal, devidamente munido de apito e gorro de Papai Noel. Ele sobe a rua a passos lentos, despertando os adormecidos e incentivando o ladrar dos cães com sua melodia:

"Amoladoooooor passando naaaaa sua ruaaaa!
Amola alicaaaaaa tesooooooura facaa
Amola na hoooooooora, experimenta na horaa!
Conserta tambéeeem a panela de pressão e o fogão!"

Notem a beleza do jogo de palavras no segundo verso: em "alicatesoura", o autor faz uma conexão silábica entre os vocábulos "alicate e tesoura", realizando uma junção fonética à maneira de Marcelo Camelo em Cadê Teu Suín? e Chico Buarque em Pelas Tabelas.

No entanto, ainda acredito que ele possa cantar algo diferente: "Amola alicate, doura faca". Dourar, diz o Aurélio, é "realçar, enaltecer, dar brilho a". Dessa forma ele excluiria a tesoura da letra, sacrificando talvez um importante universo de clientes, mas enriqueceria o verso com o garboso verbo "dourar", agregando valor ao serviço.

Outra fonte de divergências está na quarta linha da estrofe: "Conserta também a panela de pressão e o fogão!". Há uma corrente que defende a presença da palavra "chuveiro" no lugar de "também" (transformando o verso em "Conserta chuveiro, a panela de pressão e o fogão!"), tornando ainda mais multifuncional o competentíssimo amolador. Nesse caso, porém, defendo a inexistência de um chuveiro.

E agora você também pode dar a sua opinião. Hoje de manhã, graças a um moderno equipamento de áudio, consegui gravar o famoso brado para compartilhar com o leitor/ouvinte deste blog. Confira:



Aproveitando a oportunidade, disponibilizo aqui um vídeo do antigo amolador que passava naaaa minha ruaaaa uns dois anos atrás. Seu grito de guerra não trazia a mesma poesia que o de seu sucessor, mas é inegável o charme de sua flautapito e do agudo glissando ascendente que ela desempenha no final.



Mais amoladores no YouTube aqui e aqui. E ainda: o jeito árabe de amolar facas.

10/12/2006

Imagina

Meu setlist ideal para hoje à noite:

01. A Volta do Malandro
02. Até o Fim
03. Olê Olá
04. Acorda, Amor
05. Samba do Grande Amor
06. Construção
07. Deixe a Menina
08. Partido Alto
09. Feijoada Completa
10. Meu Caro Amigo
11. Vai Trabalhar, Vagabundo
12. Noite dos Mascarados
13. Quem Te Viu, Quem Te Vê
14. Pelas Tabelas
15. Pivete
16. João e Maria
17. Passaredo
18. Roda Viva
19. Homenagem ao Malandro
20. Geni e o Zepelim
21. Mulheres de Atenas
22. Vai Passar
23. Vai Levando
24. Almanaque
25. Bye Bye Brasil
26. Flor da Idade
27. Fantasia

Bis:

28. O Meu Guri
29. Samba de Orly
30. A Banda
31. Todos Juntos

Ô Chiquim, se quiser usar fica à vontade!

Quem

Lucas Paio já publicou contos em revistas e antologias, já dirigiu curtas-metragens e compôs canções, já ganhou um campeonato de aviões de papel, tocou teclado numa banda cover de Bon Jovi, morou na China e hoje vive em Berlim. É autor do romance de fantasia cômica MACADÂMIA, lançado em 2025.

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Cinema por quem entende mais de mesa de bar

Crônicas de um mineiro na China


Uma história parcialmente non-sense escrita por Lucas Paio e Daniel de Pinho

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