29/07/2008

Os Personagens Mais Enfermos da Turma da Mônica

Esqueça a Mônica e seu estereótipo de baixinha, gorducha e dentuça. Baixinha ela nem é – pode medir, sua estatura é a mesma de Cascão, Cebolinha, Magali. A suposta obesidade infantil alardeada por seus detratores também não passa de exagero. E os dentões são mesmo salientes, mas nada que alguns anos de ortodontia não resolvam. Mônica é, portanto, uma criança normal e sadia; o mesmo já não pode ser dito de seus vários amiguinhos. Após uma exaustiva pesquisa nos anais da Medicina e das histórias em quadrinhos, o Biselho apresenta...

Os Personagens Mais Enfermos
da Turma da Mônica

#6 – Nimbus



O que ele tem:
tonitrofobia

É uma cena corriqueira. Raios e trovoadas anunciam uma precipitação, Nimbus e Cascão põem sebo nas canelas. Cascão se esconde sob uma marquise; Nimbus vai pra debaixo da cama. O motivo é simples. Enquanto Cascão, como é público e notório, tem pânico de água, o medo de Nimbus é do estrondo dos trovões.

A frescuragem tem nome: tonitrofobia. O dicionário define como um “medo mórbido, irracional, desproporcional, persistente e repugnante aos trovões”. Assim como existem pessoas que sofrem de cronomentrofobia (medo de relógios) ou triscaidecafobia (medo do número 13), os tonitrofóbicos, como o Nimbus, acham que os trovões, por serem fortes e altos, podem provocar algum distúrbio em seu corpo.

Distúrbio mesmo é uma criança com 6 anos nas costas e ainda borrando as calças por causa de trovoada. Será que ele também tem medo de eletrochoque?

#5 – Jeremias



O que ele tem:
calvície precoce

Carecas existem aos montes, e dizem que é deles que elas gostam mais. Mas quando você perde todos os pêlos da cabeça antes dos 10 anos de idade, é melhor se preocupar. Jeremias sabe disso - tanto que esconde sua calvície sob um boné que foi de seu avô. A turma finge que não sabe, ele finge que acredita, e a vida segue seu curso normal.

Será?

Já pararam pra pensar por que diabos o Jeremias é careca? Inércia - nasceu careca e esqueceu de crescer cabelo? Ou genes descabelados herdados de seu pai, quem sabe do avô, já que o boné pertenceu a ele? A coisa talvez seja mais grave do que isso. Jeremias pode ser um tricotilomaníaco - descrito no Aurélio como aquele que tem o "hábito mórbido de arrancar continuamente os cabelos", relativamente comum em crianças. Também é possível que ele sofra de uma alopécia areata - queda súbita de cabelo em uma determinada área -, decorrente de estresse, ansiedade ou um forte trauma emocional.



Há algo de podre no Bairro do Limoeiro quando um moleque que nem pré-adolescente é ainda padece de um problema tão sério que lhe faz cair os cabelos. Ou será que a situação é mais grave ainda e essa calvície precoce é só efeito colateral de uma pesada quimioterapia? Jeremias é coadjuvante o bastante para que o público em geral não se preocupe com essas questões, mas sempre é tempo de recomendar um tratamento pra esse menino. Quem sabe um transplante a partir dos pêlos do Floquinho?

Falando nele...

#4 – Floquinho



O que ele tem:
mutação genética

Caso número um. Em maio de 2001, um cãozinho vira-lata nasceu com o pêlo esverdeado em Nova Hamburgo, no Rio Grande do Sul. O caso não foi solucionado - a veterinária Maria de Lourdes Alexandre, da UFRGS, acredita em uma anomalia na pigmentação do animal -, mas o cachorro foi apropriadamente batizado de Hulk.

Caso número dois. Em maio de 2008, um cãozinho da raça Golden Retriever nasceu com o pêlo esverdeado em New Orleans, nos Estados Unidos. Segundo veterinários da cidade, a cor insólita tem a ver com a mistura do fluido amniótico com a placenta da mãe durante o parto, e tende a sumir com o tempo. Seus donos foram mais criativos e deram ao bicho o nome de Wasabi.


Hulk e Wasabi posando para a posteridade

O que nos leva ao caso do Floquinho. O cachorro do Cebolinha é um lhasa apso - tudo bem, um lhasa apso gigante, simétrico e peludo, mas ainda um lhasa apso. O que salta à vista, no entanto, é sua pouco ortodoxa cor verde-bandeira. Mistura do fluido amniótico com a placenta da mãe? Pouco provável, já que Floquinho é um cão adulto e já deveria ter desbotado, segundo os médicos de New Orleans. Nos resta, portanto, a mesma mutação genética que tingiu de esmeralda o simpático Hulk de Nova Hamburgo. Ou isso, ou o bicho é um alien. Sadio, sem chance.

#3 – Magali



O que ela tem: bulimia

Histórias da Magali não costumam tratar de muitos assuntos. Quando não é Mingau, seu mimado gato de estimação, quem protagoniza as confusões, a historinha invariavelmente versa sobre a gulodice da garota, capaz de rivalizar apenas com a fome colossal de Aureliano Segundo Buendía em Cem Anos de Solidão. Vez ou outra, aparecem as tramas que zombam da compleição mirrada da mocinha, como aquela em que ela é transformada em bicicleta por uma bruxa que confundiu os vários sentidos de "magrela".



Magrela e comilona? Qualquer nutricionista tem o veredito na doce ponta da língua: bulimia nervosa. O processo segue uma seqüência simples: comida demais > sentimento de culpa > dedo na garganta > peso normal. Como nos quadrinhos Magali sempre come demais em uma revista e na outra já volta exibindo o mesmo peso, é de se supor que, em algum ponto entre o "Fim" de uma história e o "Magali em..." que abre outra, ela batize a porcelana com o almoço devolvido, certo? Naturalmente, somos poupados de assistir a cenas tão fortes numa revista destinada ao público infantil. Mas quem sabe na versão adolescente da Turma?

#2 – Cascão



O que ele tem: hidrofobia, ombrofobia, urticária aquagênica

Se você riu da patética tonitrofobia do garoto Nimbus, saiba que aqui a coisa é um pouco mais séria. A notória hidrofobia de Cascão - medo mórbido de água e de líquidos em geral - é a característica mais famosa do personagem e é responsável até por batizá-lo. Excetuando-se algumas histórias recentes em que é insinuado que ele lava as mãos antes das refeições (o mal do século XXI é a praga do politicamente correto), Cascão foi bem-sucedido em todas as zilhares de vezes em que precisou escapar do monóxido de dihidrogênio. Tanto os parcos pingos de goteiras de algum teto mal-cuidado quanto os homéricos temporais que desabam do céu. A causa desse medo pode ser psiquiátrica ou virótica - aí, o medo bobo seria apenas sintoma de uma raiva daquelas que fazem babar.



E não é só isso. Ele tem também tem ombrofobia, que não é o medo mórbido de levar uma ombrada durante uma partida de futebol, mas uma aversão tremenda às chuvas. Quer dizer, não basta que ele esteja seco e safo: o céu lá fora tem que estar azul, senão o garoto não sossega.

Não bastasse viver nesse constante estado de nervos, há uma crescente suspeita de que Cascão também sofra de urticária aquagênica. Trata-se de uma alergia extremamente rara em que o contato da água com a pele causa coceiras, feridas e mau-cheiro, e que não tem cura (veja, por exemplo, o caso desta pobre garota australiana). Seria o caso de imaginarmos que o menino Cascão também nasceu com essa doença e, ao ser submetido a terríveis banhos e limpezas, ficou traumatizado de forma irreversível? Isso explicaria a hidrofobia, a ombrofobia e a sujeira que ele foi obrigado a acolher, para disfarçar a enfermidade - sabemos como crianças são cruéis e que às vezes é melhor ser sujo por convicção do que cheio de perebas.
Lucas Paio http://biselho.blogspot.com
Mas se o caso de Cascão já inspira pena, o que dizer de seu melhor amigo?

#1 – Cebolinha



O que ele tem: dislalia, calvície precoce e distúrbios mentais acentuados

Chegamos, enfim, ao personagem mais dançado da Turma da Mônica. Ele mesmo, o principal detrator da suposta dona da rua, geniozinho dos planos infalíveis, todo confiante e cheio de si. Afinal, o que há de errado com esse garoto?

Em primeiro lugar, o óbvio: cinco fios na cabeça. Cinco fios solitários e espetados, e só. Ou seja: além de sofrer de estresse ou coisa que o valha, como seu colega Jeremias, ao invés de imitar o penteado de Geraldo Alckmin, que remanejava estrategicamente seus escassos fios sobre o cocuruto para preencher melhor o espaço, Cebola Filho prefere fazer de seus fios uma rosa-dos-ventos pela metade. Alguém diga pra esse cara maneirar no gel.

Em segundo lugar, temos a dislalia. Se você tem seis anos de idade e ainda fala "Lenato Lusso" e "toca Laul!", passou da hora de procurar um fonoaudiólogo. A dislalia é um distúrbio da fala caracterizado pela dificuldade em articular as palavras, e Cebolinha, ao que parece, sofre da dislalia funcional: aquela em que não há alteração física que justifique a troca de letras, e se começa a pensar em outros fatores, como alterações emocionais ou hereditariedade. De fato, uma revista antiga mostra um tataravô de Cebolinha que morreu de velho e tinha o mesmo problema. Pelo visto, seu tataraneto também vai ficar assim pla semple.

Para completar a trinca, é inevitável afirmar: o menino é pinel. É só lembrar das numerosas histórias em que Cebolinha contracena com o Louco. Você se lembra de alguma em que também aparece o Cascão, a Magali, o Jeremias? Aposto que não: o sujeito amalucado de calças rosas e cabelo loiro desgrenhado surge única e exclusivamente para o careca troca-letras. Não é preciso uma tomografia computadorizada para perceber que a figura é fruto da fértil imaginação do garoto. Distúrbios mentais acentuados? Excesso de coelhadas na cabeça? Ou será que nosso amigo anda tomando ácido e a gente não sabe?


Mas louco é quem me diz...

Mais Turma da Mônica no Biselho:

Depois da Última Coelhada - A Turma da Mônica aos 40

Desenhos exclusivos do Mauricio de Sousa

01/07/2008

Soneto sem a nona letra

Depois de um texto bem diferente
e mais um conto atípico...


Soneto sem a nona letra


Um fato patente: promessa é dever
Portanto, encaro de novo o papel
Com nova tarefa, árdua e cruel:
Apagar totalmente uma letra ao escrever

Na Roma de outrora, era número um
No alfabeto de hoje, é tão magra e delgada
Que pede em seu topo um ponto, a danada
Adorno supérfluo e bem pouco comum

Mas mesmo que ela não esteja presente
Não quero ofendê-la prematuramente
Melhor um poema que não a desmereça

Porque, se entre tantas esconde-se bem
Basta outro ângulo pra que seja também
Uma exclamação de ponta-cabeça

30/06/2008

To infinity – and beyond



Quando fui ver Toy Story nos cinemas, o primeiro longa totalmente animado em computador era só o novo filme da Disney. Claro, era totalmente animado em computador e, com exceção dos personagens humanos ainda rudimentares, tinha um visual impecável. Mas para um moleque de 11 anos acostumado a assistir todas as férias a um novo desenho da Disney, pouco importava se a aventura de Woody e Buzz fora realizada por um outro estúdio, já que seguia a bem-sucedida seqüência de sucessos da empresa do tio Walt nos anos 90.

Alguns anos depois, ignorei solenemente a estréia de Vida de Inseto nos cinemas, bem como a de seu rival temático Formiguinhaz. Os insetos que brigassem pra lá, que eu não tinha nada com aquilo. Toy Story 2 também não me interessou, gato escaldado que eu estava de seqüências oportunistas, e os seguintes Monstros S.A. e Procurando Nemo só fui conferir tardiamente em DVD.

Fui assistir Os Incríveis atraído mais pelo tema do que pelo estúdio que o produzia. Afinal, a melhor animação da década ainda era obra da Dreamworks, que colocou no mundo um ogro verde mal-educado interagindo com singelos contos de fadas. Não é à toa que Shrek tirou da Disney o primeiro Oscar de longa-metragem animado da História, batendo o igualmente monstrengo Monstros S.A. Mas a história de super-heróis com problemas humanos conquistou seu posto na minha lista de melhores de 2004, e a partir daí passei a prestar uma atenção especial ao nome Pixar, vendo ou revendo suas produções e admirando até o modo de trabalhar da empresa.

Afinal, não é qualquer escritório que preza a diversão como peça fundamental para um trabalho de primeira. Que tem salas de jogos, piscinas, quadras de vôlei e futebol de areia e promove campeonatos internos de aviões de papel. Como costuma dizer John Lasseter, um dos fundadores da empresa, quanto mais divertido para a equipe é produzir um filme, mais divertido será para o público ao assisti-lo. Tem muita gente por aí – não só na indústria cinematográfica – que devia botar isso na cabeça.


O que faz um filme da Pixar ser um filme da Pixar?

Em primeiro lugar, a história vem antes da técnica. E olha que a técnica é sempre espetacular, dos pêlos azuis no corpanzil de Sulley à textura dos pratos de Remy. Mas é a trama que justifica o filme. Se Formiguinhaz, da Dreamworls, se vangloriava dos insetos que eram a cara de seus dubladores, uma década depois isso não faz tanta diferença. Tanto que Toy Story, mesmo ostentando o título de precursor das animações 3D, é lembrado pelos personagens, não pela textura do Senhor Cabeça de Batata.

Outro ponto principal: seqüência, só se o roteiro valer a pena. Toy Story 2 é tão bom quanto o original, enquanto Shrek 3, só pra citar um exemplo, não tem metade da graça do primeiro. A Pixar também é esperta em não calcar seus filmes em paródias de outras produções (o que, convenhamos, já encheu o saco) ou em canções (coisa que a Disney faz muito bem, como em O Rei Leão, mas às vezes erra a mão sem piedade). As tradições da Pixar são muito mais interessantes, como sempre preceder um longa com um curta-metragem: uma oportunidade para revelar os novos talentos do estúdio e um aperitivo saboroso para o público antes do prato principal.

É engraçado, mas a empresa que trouxe ao mundo a animação em 3D nem mesmo usa essa técnica todas as vezes. O curta que acompanha o DVD de Ratatouille, “Your Friend The Rat”, mistura 3D com 2D e até com imagens de arquivo, enquanto WALL•E tem a ousadia de utilizar atores em carne e osso. E é inegável: enquanto os concorrentes (incluindo a Dreamworks e a Disney propriamente dita) produzem coisas excelentes, como Shrek, mas também muita porcaria (Madagascar, O Galinho Chicken Little), a filmografia da Pixar é incrivelmente mais coesa.

A saber:


Toy Story (1995), direção de John Lasseter

E se os brinquedos ganhassem vida quando ninguém estivesse olhando? A premissa simples põe na tela o cowboy Woody e o astronauta Buzz Lightyear, este último responsável pelo clássico bordão “Ao infinito... e além!” – que poderia fácil ser o lema da Pixar.

Coisas que você não sabia: cada frame do filme levou de 4 a 13 horas pra renderizar; Buzz foi batizado em homenagem a Buzz Aldrin, segundo homem a pisar na Lua.

Vida de Inseto (1998), direção de John Lasseter, co-direção de Andrew Stanton

“Um épico de minúsculas proporções”, diz o slogan do filme. Narrando a saga da formiga Flick e sua missão de salvar a colônia da opressão dos gafanhotos, Vida de Inseto traz ainda um excelente elenco de apoio que não fica só na formigaiada – pulgas, bichos-paus e até um “joaninho” macho também dão as caras e as patas.

Coisas que você não sabia: o “trem” do circo de insetos é feito de caixas de biscoitos da marca Casey Jr., o mesmo nome do trem do circo de Dumbo; o carro do Pizza Planet, de Toy Story, aparece neste filme e em todos os outros feitos pela Pixar depois.

Toy Story 2 (1999), direção de John Lasseter, co-direção de Ash Brannon e Lee Unkrich

Os papéis do primeiro filme se invertem quando Woody é roubado por um colecionador e Buzz lidera uma operação de resgate. Tão bom quanto o primeiro, ainda tem a vantagem de quatro anos de evolução técnica a mais.

Coisas que você não sabia: foi feito pra ser lançado direto em vídeo, mas as primeiras cenas ficaram tão legais que decidiram exibir no cinema; o pingüim Wheezy é um tributo ao mascote do Linux.

Monstros S.A. (2001), direção de Pete Docter, co-direção de David Silverman e Lee Unkrich

Se antes mostraram a vida secreta dos brinquedos e dos insetos, desta vez são os monstros de armário que têm o cotidiano escancarado. Ficamos sabendo, assim, que é o grito das crianças ao serem assustadas pelas criaturas que garante a energia de Monstrópolis. Um pouco subestimado por ter sido lançado na mesma época que Shrek, é, no entanto, igualmente criativo e divertido.

Coisas que você não sabia: a dubladora da menina Boo era tão pequena que era praticamente impossível que ela ficasse quieta pra gravar suas falas. Ao invés disso, eles simplesmente a seguiam com um microfone enquanto ela brincava e depois selecionavam os melhores trechos.

Procurando Nemo (2003), direção de Andrew Stanton, co-direção de Lee Unkrich

Um road-movie no mar. Procurando Nemo se passa na Grande Barreira de Corais australiana, onde um pai parte em busca de seu filho perdido; o detalhe é que os dois são peixes-palhaços. Embora não seja tão bem amarrado quanto os anteriores, o filme capricha nos coadjuvantes, como a desmemoriada Dory e as baleias que falam baleiês. Acho que esse desenho é mais preferido por mulheres, mas pode ser impressão minha.

Coisas que você não sabia: todos os peixes mostrados existem de verdade, e há uma ala especial no aquário de Sydney só com espécimes do filme; a equipe criou uma textura aquática tão realista que tiveram de piorá-la um pouco, pra que ninguém pensasse que tinha sido filmado no fundo do mar; em latim, “nemo” significa “ninguém”.

Os Incríveis (2004), direção de Brad Bird

Brad Bird, responsável pela desconhecida e excelente animação (2D) O Gigante de Ferro, faz sua estréia na direção de um longa da Pixar. E que estréia: misturando Watchmen com o Quarteto Fantástico, Bird traz os super-heróis ao mundo real em grande estilo, contando até com uma trilha de jazz à la James Bond.

Coisas que você não sabia: o vilão Síndrome originalmente ia se chamar Xerek; o nome do filme seria “Os Invencíveis”; o próprio Brad Bird dublou a estilista Edna Mode e inspirou as feições do Síndrome.

Carros (2006), direção de John Lasseter, co-direção de Joe Ranft

O mais fraco dos nove filmes da Pixar é, ainda assim, um excelente entretenimento. John Lasseter leva à animação o mundo automobilístico e a Rota 66, seguindo a linha seres-não-humanos-vivendo-em-sociedade. Se os personagens não têm tanto carisma quanto um Woody ou um Sr. Incrível, as piadas compensam, principalmente as gags visuais.

Coisas que você não sabia: Michael Schumacher faz uma ponta dublando uma Ferrari; os animadores desenharam mais de 43 mil esboços de carros; o nome do filme seria “Rota 66”, mas foi modificado para evitar confusões com a série dos anos 60 de mesmo nome.

Ratatouille (2007), direção de Brad Bird, co-direção de Jan Pinkava

Quando vi o trailer não me animei (“ah não, mais um filme de rato”), e pensei que a Pixar fosse finalmente errar a mão, depois da ligeira decepção com Carros. Graças a Deus, estava enganado. Ratatouille não é só o melhor filme da Pixar: é uma das melhores animações de todos os tempos, uma ode à arte, impecável do início ao fim, principalmente no fim. O monólogo do crítico gastronômico Anton Ego ainda me arrepia, mesmo revendo exaustivamente em DVD.

Coisas que você não sabia: centenas de pratos foram cuidadosamente preparados e fotografados para servir de referência; Linguini mora no bairro parisiense de Montmartre, o mesmo de Amélie Poulain; o ratatouille preparado por Remy é a variante conhecida como confit byaldi, caso você queira pedir ao maître num restaurante francês.

Pixar Short Films (1984-2007)

Este DVD, lançado ano passado, reúne todos os curtas produzidos pelo estúdio até 2007. O grande destaque é mesmo Luxo Jr.: a história da luminária-pai e a luminária-filho foi feita nos longínquos anos 80 e ainda impressiona, utilizando limitações (como o fundo preto) a seu favor. Alguns curtas lá do início não têm tanta graça, bem como Mater and the Ghostlight, que usa os personagens de Carros. Mas tem muita coisa boa: Red’s Dream e sua atmosfera noir, For The Birds, One Man Band... Sem falar no excelente documentário sobre a história da Pixar.


Foi com grande expectativa, portanto, que acompanhei a pré-produção de WALL•E pela internet. O primeiro teaser já era instigante: contava a história do almoço em que os fundadores da Pixar se reuniram após Toy Story para discutir os próximos filmes da empresa. Desse almoço nasceram as idéias de Vida de Inseto, Monstros S.A., Procurando Nemo e este WALL•E. Uma refeição deveras produtiva, há que se dizer.

Foi batata: o robozinho que limpava o lixo da humanidade no ano 2700 ao som de “Aquarela do Brasil” conquistou público e crítica já nos trailers. A expressão profunda que ele conseguia só no olhar, sem boca ou falas, fez chover gente que o comparava ao E.T. de Spielberg ou ao Carlitos de Charles Chaplin. Eleito o quarto lugar da minha lista de filmes mais esperados de 2008 (atrás apenas de Indiana Jones, que decepcionou, Blindness e o novo Batman, de quem espero muito), WALL•E já tinha cheiro de sucesso – e quando digo sucesso, não falo de bilheteria, mas de um filme digno de suceder Ratatouille.

Resumindo a história: assisti WALL•E duas vezes este fim-de-semana, e não me arrependo nem um pouco. É uma lição de como uma trama não precisa ser complexa para ser boa; de como um roteiro não precisa ser verborrágico para divertir ou emocionar. A ausência de diálogos na primeira metade do filme é coisa que pouco diretor hoje em dia tem coragem de fazer. Certas cenas já nascem antológicas, como a dança de WALL•E e EVA no espaço, e até os créditos finais (ao som de uma belíssima canção de Peter Gabriel, “Down to Earth”) servem à narrativa tanto quanto à arte.

Hungry for more

Depois de nove empreitadas de sucesso, o que esperar da Pixar nos próximos anos?

Muito. A Disney e a Pixar divulgaram recentemente uma lista com seus projetos até 2012, entre eles versões recauchutadas em 3D de Toy Story 1 e 2, para 2009 e 2010.

Up, direção de Pete Docter e Bob Peterson, estréia em maio de 2009

Daqui a menos de um ano veremos a história de Carl Fredricksen, que aos 78 anos decide explorar o mundo ao lado de um jovem guarda-florestal. Comparações com Dom Quixote não são totalmente infundadas.

Toy Story 3, direção de Lee Unkrich, estréia em junho de 2010

A história ainda é um mistério, mas já andam falando num Andy que vai pra faculdade e resolve doar os seus brinquedos. Partes 3 costumam ser a pior da trilogia (Homem-Aranha 3, Shrek 3, Piratas do Caribe 3, você entendeu), mas o roteiro está sendo escrito pelo roteirista de Pequena Miss Sunshine, o que é sempre um bom sinal.

Newt, direção de Gary Rydstrom, estréia na metade de 2011

O último lagartixa-de-pé-azul macho e a última lagartixa-de-pé-azul fêmea se odeiam, mas são obrigados a se reproduzir para salvar a espécie. Se precisarem de idéias para coisas para se fazer com uma colher e uma lagartixa-de-pé-azul, posso ajudar.

The Bear and the Bow, direção de Brenda Chapman, estréia no Natal de 2011

A Pixar se aventura nos contos de fada num cenário na Escócia medieval, quando a geniosa Merida, filha da nobreza, prefere se tornar arqueira a conviver com os chatos de sangue azul.

Carros 2, direção de Brad Lewis, estréia na metade de 2012

Lightning McQueen e seu parceiro Mate participam de uma nova competição, aprontando altas confusões com uma turminha de carros da pesada. De todos os projetos anunciados, é o que menos me empolga, mas mantenho a fé, que a fé não costuma falhar.

O brilhante monólogo de Anton Ego no final de Ratatouille termina com uma promessa do velho crítico: “I will be returning to Gusteau’s soon, hungry for more”. Felizmente é assim que me sinto sempre, ao me preparar para assistir um filme feito por quem é apaixonado pelo cinema. Sempre ávido por mais.

Pra você que leu até o final:

Referências de filmes da Pixar em outros filmes da Pixar

Conheça o ambiente de trabalho da Pixar

Uma entrevista com Andrew Stanton

E outra entrevista com o cara

15/06/2008

14/06/2008

08/06/2008

Univitelinos

De Pinho diz:
c viu a capa da veja dessa semana?

Lucas Paio:
nao, qual eh?

De Pinho diz:
a cara do Obama.. sempre q eu olho pra foto, eu lembro da capa daquele filme: Os Deuses devem estar loucos



Outros blogs também notaram a semelhança, mas certas verdades têm que ser divulgadas.

02/06/2008

A Velha Debaixo da Cama - Capítulo V - O porão



Chegou a minha vez de contribuir com a insólita trama de "A Velha Debaixo da Cama", obra escrita aos pedaços e publicada mensalmente na revista piauí, e que, dizem, será reunida em toda sua plenitude na edição natalina do periódico.

A edição 21 da piauí já está nas bancas e conta com o capítulo 5 de minha autoria, "O Porão". Antes, um resumo da ópera até agora. O capítulo em questão você confere logo abaixo e aqui também.

Resumo da obra: Antônio, o ex-garoto de cabaré que vive sob o jugo insaciável da viúva Maria de Maria Mergulhão, recebe uma carta que põe a pique seus planos de fuga para a liberdade. A carta parece ser do coronel Mergulhão – portanto não defunto como se pensava –, que propõe a Antônio uma fortuna em troca de sua permanência ao lado da viúva. Condição: fazê-la sofrer o quanto possível. Em busca de uma explicação para missiva tão misteriosa, Antônio vai fuçar num baú o passado de Maria de Maria e encontra a foto de um homem. Guarda-a e vai se olhar no espelho. Estremece.

Capítulo V - O porão

Antônio analisa a porta de madeira carcomida. Está ali parado há dez minutos, estranhando a casa, juntando coragem. Faz que vai bater, desiste no meio do caminho, desiste de desistir. Três toques breves bastam para que, ao colar o ouvido no mogno, já escute o ruído dos chinelos.

Havia andado o dia todo pra chegar até ali. Atravessara fazendas, cruzara riachos e por duas vezes quebrara a cara: a primeira quando entrou na casa de um senhor, proseou e tomou café, xingou e abraçou, e descobriu que não era ele o procurado; a segunda quando invadiu as propriedades de uma mansão, achando errado, e foi posto pra correr por perdigueiros pouco amistosos.

Mas agora tem certeza, e é essa certeza que tanto o incomoda. Pois é simplesmente inconcebível que essa casa velha seja o “lar, doce lar” do ilustre e ex-finado coronel Mergulhão.

– Pois não – diz o velho, cortês. Bate os olhos no rapaz e troca de feição. – Ah. Entra.

Antônio segue o velho – que mais podia fazer? Observa como ele anda: curvado, as pernas arqueadas, os passos descompassados de um pingüim. Mesmo corcunda, é mais alto que ele; ainda que trôpego, traz no rosto uma firmeza que o imberbe Antônio sequer já vira pessoalmente. Sem falar, é claro, na serenidade imponente do bigodão grisalho.

– Senta – manda o velho, sentando-se também. Depois dá um sorriso, como quem se diverte com a ansiedade alheia. Intimidado pelo olhar, é Antônio quem fala.

– Recebi sua carta.
– Eu sei. Você não estaria aqui por outro motivo.
– Na verdade, eu vim mesmo foi por outro motivo.
– Você veio porque duvida de um velho que já morreu. Não tiro sua razão.
– Olha, eu só queria...
– Deixa eu te mostrar um negócio.

O velho tem dessas. Levanta e vai, os outros que andem atrás.

Se por fora a casa é triste, por dentro é só inexpressiva. Nenhum quadro nas paredes, nada de adornos, pintura chocha. O quarto onde entram deve ser o dele. O colchão não está no chão, nem faltam as cobertas; mas aquilo está longe de ser a vida boa alardeada na correspondência.

O velho abre o guarda-roupa e puxa no piso uma tábua solta. Antônio esfrega os olhos – são degraus que vejo ali? – e acaba indo atrás do homem escada abaixo.

Leva um choque. O porão oculto sob o casebre esconde tanta coisa que Antônio não sabe onde prender o olhar: nas espingardas na parede dividindo o espaço com obras de arte, nas prateleiras acomodando livros antigos, na poltrona convidativa no meio da sala, na caixa de uísques chamando pro abraço. Vê o cofre metálico num canto e não duvida que ele possa abrigar os dez prometidos milhões. Nem precisa que o velho explique. Sabe que é ali o seu refúgio, seu canto escolhido para morrer sorrindo.

– Belo esconderijo – diz Antônio sincero, sem a ironia que a frase aparenta. – Mas olha, realmente eu vim pra outra coisa.

Tira do bolso a foto amarelada e o velho ri.

– Achei que ela guardasse essas coisas com mais cuidado.

– Ela guarda, eu é que sou atrevido. – Mostra o verso com o recado manuscrito, “De quem não consegue mais viver sem teu perdão”, e emenda: – Que quer dizer isso?

O velho é seco.

– Usou a palavra certa: atrevido.

– Coronel – Antônio o chama pela patente, pela primeira vez. – Tenho motivos para acreditar que o senhor manteve um relacionamento extraconjugal durante seu casamento e que eu...

A campainha interrompe o discurso, mas o velho vê com naturalidade.

– Faça um favor e abra lá pra mim. Deve ser o rapaz que pago pra ficar de olho em você.

Antônio sobe com raiva. Sente-se frustrado; “esnobado” definiria até melhor. Encara a porta de mogno e decide espiar pela greta antes de abrir.

Estremece, então: é Maria de Maria.

13/05/2008

Transitolândia



Saiu no Estado de Minas de hoje: ônibus é a solução para caos no trânsito. Segundo a reportagem, se 420 mil pessoas que trafegam hoje dentro de seus aconchegantes automóveis migrassem para o transporte coletivo, os engarrafamentos diminuiriam em 53%. Os especialistas calculam que, no ritmo que está, em cinco anos São Paulo vai travar. As estimativas para BH, Rio e Porto Alegre variam de 10 a 15 anos. Eu acho que é muito otimismo.

No início do ano resolvi experimentar um retorno aos balaios. Foi uma liberdade boa: não precisava me estressar no trânsito, não perdia tempo procurando vaga, não gastava uma nota em estacionamentos e gasolina, nem ficava preocupado se o carro estava em segurança. No caminho de volta, porém, o paraíso sumia. Pegar ônibus na Savassi às seis horas da tarde rumo a um bairro que abriga três faculdades é uma provação. Você muda seus parâmetros, de repente ter um lugar para repousar ambos os pés já é um alívio grande. Não teve jeito: acabei voltando ao mundo automotivo.

A matemática dos engenheiros de trânsito é simples. Um ônibus equivale a 36 carros de passeio, em número de pessoas. O problema é que a situação toda é um grande impasse: quem anda de carro não quer mudar para um ônibus lento e superlotado; e os ônibus só deixarão de ser lentos e superlotados se os carros saírem das ruas e cederem lugar a mais ônibus. A conclusão é evidente: não vai dar em nada. Hoje em dia dá pra financiar um carro em até sete ou oito anos. Ou proíbem o tráfego, ou proíbem logo a venda, ou então partamos para outras soluções:

Smart a preços populares. Guarde sua Hilux para as estradas. No centro da cidade o que vale é ter carro pequeno, tipo o Gurgel (lembra do Gurgel?), ou o Smart - que só comporta duas pessoas e é uma beleza pra fazer baliza. Passou da hora de popularizarem esse troço no Brasil.

Metrô decente em Belo Horizonte. O metrô daqui é muito engraçado, sai do nada e vai pra porra nenhuma. Já passou da hora de um metrô competente, com quarenta linhas interligadas, conectando a Savassi ao Centro, o Buritis ao BH Shopping, os bares da Pium-í aos botecos de Santa Tereza. Só não quero imaginar a zona que fariam as obras de um negócio desses.

Teletransporte. Já tão conseguindo teletransportar fótons; disso pra humanos é um pulo, não é? Ok, não é, mas pensa como vai ser bom o dia em que as estações de teletransporte estiverem em cada esquina, levando gente de um lugar pra outro como numa mensagem de MSN. De vez em quando alguém vai chegar faltando pedaço, ou com os membros trocados, ou com cabeça de mosca. Mas ei, acidentes também acontecem no trânsito convencional.

Uma praga para dizimar a maioria da população. Essa é infalível. É fato: exceto por uns dois ou três leopardos, o Will Smith não tinha dificuldades em se locomover pela Nova York de Eu Sou a Lenda. Quem sabe não implantam o modelo por aqui?

12/05/2008

Mistérios do mundo moderno



Por que o Faustão, que já está caminhando para o milésimo Domingão, até hoje não aprendeu a falar inglês?

Por que, mesmo com essa tecnologia avançada e efeitos especiais tão realistas, ainda não conseguiram criar um Hulk convincente?

Por que, em todas as inúmeras notícias sobre o caso Isabella, ninguém se lembrou de descrever o crime com a palavra "defenestração"?

Best in Texas



"Vai levar esse mesmo? É tipo Sin City..."

Funcionários de vídeo-locadora são criaturas estranhas. Geralmente têm péssimo gosto cinematográfico, insistem em sugerir justamente aquilo que você não quer assistir, e ainda vem a moça do balcão tentando me fazer desistir de levar o DVD que tinha em mãos. Sim, moça, eu sei exatamente o que estou levando. E não, não é tipo Sin City. Embora na superfície as bizarrices do quase-noir xerocado dos quadrinhos possam suscitar esse tipo de comparação (vide o Frodo canibal ou o Assassino Amarelo), Planeta Terror é simplesmente um filme trash. Mas um trash da melhor qualidade.

Vocês estão cansados de saber: Planeta Terror é a metade de Grindhouse, parceria de Robert Rodriguez e Quentin Tarantino homenageando os toscos filmes que eram exibidos em sessões duplas nos anos 70. Fora dos Estados Unidos, resolveram separar os siameses. Resultado: Planeta Terror já chegou nas locadoras e À Prova da Morte, do Tarantino (justo ele, que engana tanta gente nos pôsters com o crédito "Tarantino apresenta") nem estreou nos cinemas. Depois a culpa é da pirataria.

Planeta Terror se assume trash desde o primeiro minuto. Defeitos na imagem, cortes deselegantes e até um rolo de filme convenientemente perdido no meio da projeção são, obviamente, intencionais, assim como os diálogos de humor negro e a sanguinolência exacerbada. Não chega a ser um Fome Animal - com o qual guarda semelhanças, uma Paquita lá, uma Palomita cá -, mas tem nojeira suficiente para não ser recomendável almoçar durante a exibição. Tem zumbis, tem militares, tem doença altamente contagiosa: tudo aquilo que Extermínio tratava como sério é diversão pura nas mãos de Rodriguez. O elenco é afiado e traz Josh Brolin, Bruce Willis, Naveen Andrews (o Sayid de Lost), uma Rose McGowan perneta e Freddy Rodríguez no papel de El Wray, garoto malandro que acaba liderando a cambada contra a horda de zumbis. Assista longe da comida, das crianças e dos politicamente corretos.

Agora fica a questão: se no filme é claramente a perna direita que a gostosona da Cherry Darling perde e substitui por uma metralhadora, por que no material de divulgação ela manca da esquerda? Acho que é mais uma pra coleção do Photoshop Disasters.

>> Também publicado no Cinema de Buteco

11/05/2008

Seu garçom, faça o favor



Nada contra Cidade de Deus ou Tropa de Elite. Nada mesmo: Cidade de Deus ainda é meu filme brasileiro preferido e Tropa de Elite conseguiu a proeza de tornar bordões e personagens mais conhecidos do povão que uma novela das oito. Mas é sempre bom quando o cinema tupiniquim consegue sair um pouco do eixo favela-sertão e explorar outros temas, como em O Homem Que Copiava, O Cheiro do Ralo ou esta bizarra experiência gastronômica chamada Estômago.

Estômago é uma espécie de Ratatouille brasileiro. No lugar do rato, entra Raimundo Nonato (atuação inspirada de João Miguel), imigrante nordestino que chega à cidade sem lenço nem documento e arranja um emprego num boteco de quinta. Suas coxinhas e carnes de panela chamam a atenção de um dono de restaurante e é na cozinha repleta de italianos que Nonato vai aprender as artimanhas da culinária, os truques obscuros da gastronomia e, claro, alguns impropérios em língua estrangeira.

Dirigido pelo estreante Marcos Jorge, o filme alterna as cenas do aprendizado de Nonato com sua vida na cadeia - não se explica muito bem porque ele está ali, nem quando está ali. Encarcerado numa cela com hierarquia bem definida, Nonato precisa provar o seu valor e para isso faz de tudo, até serve formiga frita como tira-gosto. Como o Remy da animação da Pixar, ele não tem preconceitos culinários - sabe que uma gororoba bem preparada muda de cara e melhora o gosto. Curiosamente ele também compartilha outras características com o rato, como a predileção pelo alecrim e a capacidade de comandar com êxito uma equipe de ignorantes culinários. A eloqüente fala de Anton Ego no final da animação ganha ainda mais força quando vemos reconhecidos os esforços de Nonato: "Nem todo mundo pode se tornar um grande artista, mas um grande artista pode vir de qualquer lugar". Mas fica o conselho: grotesco e sem muito pudor, Estômago não é pros pirralhos nem pros frescalhões - é só pra quem tem... ah, você entendeu.

>> Também publicado no Cinema de Buteco

02/05/2008

A Velha Debaixo da Cama - Capítulo IV - Nove círculos



Vocês devem ter percebido que o rocambólico concurso a 100 dedos da piauí é o principal responsável pela presença de novos textos por aqui. De fato, ando relapso - como sempre fui - em relação à escrita de posts sem prazos ou incentivos financeiros. Se alguém se dispuser a depositar uma quantia periódica em minha conta bancária, prometo pensar em abandonar a preguiça. Enquanto isso, contentem-se com os deslocados capítulos de um folhetim imprevisível. Está aí a minha quarta tentativa:

A Velha Debaixo da Cama
Capítulo IV - Nove círculos

Pela primeira vez desde o primeiro dos passeios matinais, Maria viu Antonio sorrir. Achou que fosse pelos seus relatos nostálgicos, pelas peripécias do falecido coronel Mergulhão narradas com tanto brilho e dramaticidade, ó como ele era garboso, ó como era gentil. Tolice: o sorriso lento nada tinha a ver com suas palavras, que ele ignorava sem pudor, mas com o plano deliciosamente diabólico que acabara de elaborar. Pois se de morto Mergulhão passara a ex-finado, Antonio seria ex-fujão só pra papar os dez milhões que o coronel lhe tinha prometido, com a única e exclusiva condição de fazer a danada da velha sofrer. Ela não apenas sofreria: sofreria com estilo. Afinal, refletia Antonio, que mal havia em se divertir um pouco?

Arquitetou o inferno com uma cadência quase musical. Primeiro os movimentos lentos: adagio, andante, uma tampa do vaso levantada aqui, uma cueca abandonada ali. Se um dia acordava amável e carinhoso, no outro arrotava na cara das visitas. Aprendeu a roncar. Desenvolveu manias – expressões faciais, vícios verbais, obsessões pouco ortodoxas, hábitos sujos. Tudo bem dosado, tudo insuportavelmente calculado. Deu asas, rabo e chifres à imaginação e até ele se surpreendeu com a quantidade de aborrecimentos que era capaz de infligir, da culpa ao arrependimento, da vergonha à irritação.

Não era o bastante. Se seguisse bancando o chato de galochas, Antonio acabaria sendo posto pra correr, e não há nada mais patético que uma bunda jovem levar um pé da terceira idade. Maria de Maria não tinha que sofrer por ter escolhido o amante errado; precisava se sentir como o que era, uma senhora desgastada, uma velha obsoleta. Ele tratou de estimular a amarga sensação. Mexia os lábios sem falar, instigando uma surdez que ainda não existia. Sabotava seus guisados, errando a mão às escondidas e a matando de vergonha perante a vizinhança. Arregalava os olhos quando ela servia a janta (“Mas nós acabamos de jantar!”) e plantava a dúvida: distração ou Alzheimer? Maria cismava e Antonio adorava: para ele, dia após dia era primeiro de abril.

Não era o bastante. Maria ainda não se tornara a miséria humana que ele intencionava, o trapo triste e abatido a um passo do suicídio. Vez ou outra até sorria, o que, convenhamos, era um atrevimento. Ele, orgulhoso, só aumentava o repertório: ofensas, sarcasmos, carrapatos no travesseiro, assombrações simuladas, convulsões fingidas, piadas fracas, tudo era matéria-prima para abaixar o astral da velha. Só evitava ataques físicos porque, se por ventura ela quebrasse a bacia e precisasse ficar de molho por dois meses ou três, seria ele o incumbido de servir papinha naquela boca murcha.

Até que uma noite, irritado com a paz de espírito que Maria ainda aparentava, Antonio viu se farto e decidiu jogar a última cartada. Foi só no dia seguinte, um sábado calmo, clima ameno, poucas nuvens, que ele abriu os olhos e compreendeu, pelo cheiro, que talvez tivesse exagerado.

06/04/2008

Vapt-Vupt



Ainda que o padrão radiofônico estrofe-estrofe-refrão tenha convencionado os 3 minutos como a duração ideal, a música pop também passeia por dois extremos opostos. De um lado, as imensas narrativas que se estendem por dez minutos, os intermináveis solos de guitarra e as experiências progressivas responsáveis por discos inteiros de uma faixa só. Do outro, está o inegável charme das pequenas canções.

Pensando nisso, elaborei um top 10. Estabeleci alguns critérios. Primeiro, menos de 1 minuto de duração. Quebrei a regra para acomodar uma música do Queen que tinha um minuto e sete, mas foi só essa. Deixei de lado os temas instrumentais, os jingles e as as cançonetas de Phoebe Buffay, que merecem outros top 10 em tempos futuros. Portanto, em áudio e texto, aí estão as dez melhores menores músicas segundo o Biselho. A classificação, como uma boa fila de recreio do pré-primário, é por ordem de tamanho.



10 – Queen – Lazy on a Sunday Afternoon (1:07)

A segunda faixa do formidável “A Night at the Opera” é uma opereta de época com arranjo bem trabalhado e cheia de efeitos sonoros. Ideal para as tardes preguiçosas de domingo, como esta em que me encontro agora.

09 – Secos & Molhados – El Rey (00:58)

Os dois álbuns do Secos & Molhados só têm músicas curtas. Clássicos como “Rosa de Hiroshima” e “Sangue Latino” mal ultrapassam os dois minutos, e algumas, como esta “El Rey”, nem chegam a um.

08 – George Harrison – It’s Johnny’s Birthday (00:49)

Integrante do álbum triplo “All Things Must Pass”, obra-prima solo do George, “It’s Johnny’s Birthday” é uma homenagem ao antigo parceiro de banda do rapaz, um tal de John.

07 - Mamonas Assassinas – Sabão Crá-Crá (00:42)

Célebre musiquinha de colégio, precursora do “Jererê” e outros clássicos, foi ressuscitada pelos Mamonas em seu primeiro e único disco. A biografia mamônica “Blá, Blá, Blá”, escrita por Eduardo Bueno, conta uma história interessante envolvendo a música e o produtor Rick Bonadio: “Nessa vinheta, a única coisa que eu cortei foi o ‘cu’ do Dinho”, conta Rick. “Tivemos uma discussão por causa disso. Dinho achava que a melhor idéia era cantar o último verso incompleto. Ele diria: ‘Sabão cru-cru, não deixa os cabelo do saco enrolar com os do...’ e, só depois da música seguinte, que é Uma Arlinda Mulher, surgiria o ‘cuuuuuu’”. Rick foi contra a idéia e não apenas por questões técnicas. “Eu achava que um cu assim solto ia ficar muito forte”. A partir daí, Dinho começou a apresentar Rick para os amigos como “o cara que tirou meu cu do disco”.

06 – Dave Matthews Band – Pantala Naga Pampa (00:40)

A canção que abre o fabuloso “Before These Crowded Streets” tem no exótico título uma frase num idioma indiano, que significa nada menos que “tem uma cobra nas minhas calças”.

05 – Baba Cósmica – Braboleta (00:35)

Sim, eu comprei o disco do Baba Cósmica. Tratados como sucessores dos Mamonas, embarcaram no vácuo da fama sem que merecessem, mas o álbum não é de todo terrível. A mais divertida é esta música secreta, que entra vários minutos depois da última faixa. Eu sempre estranhava que o disco terminava e continuava rolando, até que percebi a musiqueta escondida.

04 – The Rutles – Lullaby (00:27)

Competentíssima banda-paródia dos Beatles, os Rutles lançaram um disco nos anos 70 e outro nos anos 90, na esteira do “Anthology”. Esta é do segundo disco e, obviamente, satiriza “Her Majesty”.

03 - Beatles – Her Majesty (00:23)

A pequena faixa aparentemente incompleta é a última música do último disco dos Beatles, “Abbey Road”, entrando até mesmo depois da emblemática “The End”. A banda inglesa Chumbawamba fez um inusitado cover “completando” a canção e adicionando estrofes e refrões, mas nem ficou tão ruim assim.

02 – Titãs – Natureza Morta (00:17)

Os Titãs já tinham vomitado a agressiva “A Face do Destruidor” no clássico “Cabeça Dinossauro” em apenas 34 segundos, mas resolveram bater o recorde com “Natureza Morta”. O curioso é que, apesar de seus 3 versos espremidos em 17 segundos, é assinada por inacreditáveis 6 co-autores: Arnaldo Antunes, Branco Mello, Marcelo Fromer, Paulo Miklos, Sérgio Britto e Liminha.

01 - The Who – Miracle Cure (00:11)

A ópera-rock “Tommy” alterna músicas longas com pequenas canções de ligação. “Do You Think It’s Alright” tem 24 segundos, “There’s a Doctor” tem 23, mas a grande vencedora é esta “Miracle Cure”, que anuncia a cura milagrosa do garoto Tommy, que era cego, surdo, mudo e exímio jogador de pinball.

05/04/2008

02/04/2008

A Velha Debaixo da Cama - Capítulo III - Sinuca de bico



O pundonoroso concurso a vinte mãos da piauí continua de vento em popa, revelando desta vez o terceiro capítulo vencedor. O gancho desta vez era mais ardiloso e resolvi escrever bobagem mesmo. O resultado está logo aí embaixo.

Recapitulando:

Capítulo I - O rato (Ciço Léo)
Capítulo II - Quase volta à ilha (Rodolfo Viana)
O Capítulo III vencedor - A proposta (Cláudio Parreira)

Um resumo da coisa pra quem tiver preguiça de ler tudo:

No eletrocinético capítulo I, Antônio, o ex-garoto de cabaré, acorda cansado da vida ao lado da viúva Maria de Maria Mergulhão. Ela o suga, exige dedicação constante e é dada a esquisitices como obrigar o mancebo a dormir a seu lado sob a cama, outrora ocupada pelo defunto marido, um coronel tão ciumento quanto violento. Decidido a fugir, Antônio sobe ao sótão para recuperar a sunga e a camisa furta-cor de seus tempos de go go boy. No langoroso capítulo II, Maria de Maria flagra Antônio no momento da fuga e lhe entrega um maço de cartas encontrado na soleira da porta. Após folhear o conjunto com desinteresse, ele se detém no quinto envelope. Lê o nome do remetente e, como nos bons folhetins d’antanho, empalidece... Tan-tan-ran-tan...

E finalmente, a minha versão:

A Velha Debaixo da Cama

Capítulo III - Sinuca de bico


Antonio poderia ter ignorado qualquer correspondência que chegasse às suas mãos e continuado firme o nobre intuito de pôr sebo nas canelas, fosse ela o que fosse, um aviso do Exército alertando para a guerra iminente e pedindo que todos construíssem um abrigo nuclear de pau-a-pique seguindo o passo-a-passo em anexo, um telegrama do Laboratório Família Feliz informando que parabéns, ele era semi-pai de uma criança gerada por fertilização in vitro a partir do óvulo obsoleto de Maria de Maria, o esperma coletado enquanto ele dormia e o sêmen congelado do Coronel Mergulhão, ou mesmo uma carta escrita por si mesmo no passado recordando sua contraparte futura de que a vida na boate não era assim um jardim de borboletas e que devia dar graças à velha pela oportunidade de sair da perdição. Tudo isso teria feito Antonio repensar sua decisão por um minuto ou dois, até que a bocarra asquerosa de Maria o trouxesse de volta à desgostosa vida de marido. Tudo, menos o que o envelope pardo realmente aconchegava no interior: a edição semanal de sua assinatura da revista Fuxicos & Fofocas.

Não houve o que ponderar. Como poderia Antonio dar no pé e privar-se do deleite que era ler as baixarias perpetradas por artistas, as travessuras dos cantores quando atrás dos holofotes, as safadezas que pareciam ensaiadas e lançavam a incerteza: meretriz ou mera atriz? Não podia, e Maria sabia, a danada. Ela encorajara a assinatura, ela espanava o pó da coleção que ele estocava sob a pia do banheiro, ela via o vício dele como bênção e disso não podia reclamar.

Enquanto andava pelos pomares, ombro a ombro com a esposa, ouvindo o orvalho das romãzeiras gargalhando da sua cara, Antonio avaliou alternativas. Podia escapulir como queria e voltar semanalmente pra resgatar seu exemplar. Claro, claro. No mínimo encontraria a revista ruminada pelos perdigueiros malcriados de Maria. Morar no cabaré e solicitar à editora uma mudança de endereço era viável, mas Antonio agüentaria a chacota dos colegas ao perceberem que só saía na rua após consultar o horóscopo e saber se era dia de transcender o individualismo e ou se o momento era para repensar a primazia da matéria sobre a espiritualidade?

Ao chegar da caminhada, Antonio era um homem em crise de abstinência. Fugir já não tinha tanta urgência: precisava inebriar-se com o aroma da tinta impressa, contemplar os palmeirais que adornam as casas das celebridades, alimentar-se de informação em sua forma mais vã. Foi o que fez com avidez durante as horas que se seguiram, esquecendo o café, o almoço, o chá das cinco regado a biscoitinhos de limão. Ao emergir da leitura, porém, sentia-se vazio novamente, e não era só o buraco negro estomacal. Percorreu o bangalô estranhando o silêncio, notou a mesa da sala parcialmente posta para o jantar e, ao entrar na cozinha, deparou-se com uma cena tão disparatada que nem os sórdidos roteiristas da fotonovela da Fuxicos & Fofocas seriam capazes de inventar.

*****

Em tempo: A Saga de Tião está chegando ao fim da temporada e o capítulo XXIV, o penúltimo, está aguardando a sua leitura.

Quem

Lucas Paio já publicou contos em revistas e antologias, já dirigiu curtas-metragens e compôs canções, já ganhou um campeonato de aviões de papel, tocou teclado numa banda cover de Bon Jovi, morou na China e hoje vive em Berlim. É autor do romance de fantasia cômica MACADÂMIA, lançado em 2025.

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