14/03/2008

05/03/2008

A Velha Debaixo da Cama - Capítulo II - O mato



E continua o indefectível concurso a vinte mãos da piauí. Minha versão do capítulo II de A Velha Debaixo da Cama não foi escolhida como a oficial, mas como de costume publico neste blog.

Recapitulando:

O Capítulo I, do cearense Ciço Léo, encontra-se aqui.
O Capítulo II vencedor, do paulista Rodolfo Viana, pode ser lido aqui.
O meu Capítulo II, que permanecerá eternamente inacabado, está aqui ou logo abaixo:

A Velha Debaixo da Cama

Capítulo II - O mato

Ao longo das noites em claro que passava com a velha debaixo da cama, Antonio já havia arquitetado e abortado vários planos como aquele. O mais simples demandava apenas roupa do corpo e disposição para correr. O mais ambicioso envolvia um suicídio forjado e um subseqüente monumento em sua homenagem plantado ao lado do altar erguido para o Coronel Mergulhão.

A fuga que Antonio pretendia levar a cabo naquela manhã ficava no meio termo. Tinha deixado de lado a trabalhosa simulação da própria morte, mas também não queria encarar sem nada nas mãos os dois dias de caminhada ao vilarejo mais próximo. Apressado, vasculhou no sótão os apetrechos que julgava imprescindíveis: canivete, guarda-chuva, um cantil com água e outro com conhaque, a bússola defeituosa que apontava o noroeste, tesourinha de unha. Embrulhou o kit-fuga junto com uma muda de roupas e se mandou pela janela do sótão antes que Maria de Maria, que ainda o aguardava pacientemente para a famigerada caminhada matinal, aparecesse pra saber do amante.

Antonio equilibrou-se sobre o parapeito, desceu rezando pela calha podre e aterrissou no jardim dos fundos. Espiou o bangalô por uma última vez e começou a escapada sem remorso, esgueirando-se pelas vistosas pitangueiras que cercavam o casarão.

Nas primeiras horas caminhou depressa. Maria de Maria criava perdigueiros e era bem capaz de esfregar em seus focinhos uma das cuecas que ele deixara para trás. Depois que a mata estava densa o bastante, parou um pouco para respirar e finalmente festejou a liberdade. Fartou-se com jaboticabas, empanturrou-se de caquis, deleitou-se com as goiabas e amargou feliz a dor de barriga resultante, pois estava livre e aquilo não tinha preço.

Dormir no meio do mato, no entanto, não foi assim tão diferente das noites anteriores. O cimento gelado e as lamúrias da velha foram trocados pela grama que pinicava as costas e os intimidantes sons da natureza. Antes de cair no sono, Antonio se pegou lembrando a noite em que conheceu a viúva. Sentado ao piano, dedicara a ela um tango arcaico e, enquanto ela pensava “que gracinha”, ele refletia: essa velha deve ter dinheiro.

O dia amanheceu irônico – Antonio abandonara Maria, mas não se safara de uma andança matutina. Retomou a viagem com alguma culpa. Não precisava ter fugido assim, sem um tchau de gratidão à mulher que lhe dera teto para morar e chão para dormir. Velhas são velhas por definição, em poucos anos a viúva partiria para o encontro derradeiro com o saudoso Mergulhão e, afinal de contas, Antonio teria uma polpuda herança pela frente.

Quando retornou ao sítio, livre do peso na consciência e devidamente munido de um arsenal de explicações, notou um rebuliço: vizinhos, empregados e homens de terno aos cochichos ocupavam a porta do casarão. Aproximou-se apreensivo e quis saber o que era aquilo.

- O que aconteceu? Cadê Maria de Maria? – perguntou ao primeiro que encontrou. A resposta veio sem rodeios:

- Morreu, bicho besta, morreu!

21/02/2008

Red side of the moon



O eclipse lunar que obnubilará o céu esta noite me fez lembrar do fenômeno semelhante que ocorreu em 1996. Na ocasião, eu e meus primos Bruno e Paula nos alojamos no quarto desta última, que tinha uma vista melhor da janela, e realizamos um invejável estudo sobre o fugaz desaparecimento da Lua. Na verdade, o Bruno ficou olhando do binóculo, a Paula procurando pilha pra lanterna e eu registrando aquela coisa toda. Os pedaços manuscritos de papel não se perderam no tempo, e com isso vocês podem ler, na íntegra, o que a minha contraparte de 11 anos de idade escreveu sobre o eclipse lunar do dia (se meus cálculos estiverem corretos) 4 de abril de 1996:

O Diário do Eclipse

7:19
Não começou. O Bruno olhou um vermelhinho, mas parece efeito do binóculo. Será?

7:20
Parece que não é efeito do binóculo. Será? Continua a mesma coisa.

7:21
O Bruno viu uma bolinha pequenininha (ele olhou do lado errado).

7:22
Mesma coisa.

7:23
A borracha que a Paula botou na lâmpada queimou. O Bruno falou: “Apaga essa luz aí, ou! Que bosta!”

7:24
O Bruno viu um pedaço azul do lado da Lua. A Paula trouxe uma lanterna e o Bruno pensou que era outro binóculo.

7:25
O Bruno deu chilique porque viu um pedaço da Lua comido. E tá mesmo. Comido embaixo. A Lua tá virando interseção.

7:27
O Bruno falou: quantas horas?

7:29
A Tia Marilu foi ao “Observatório dos Dal”.

7:31
Em cima do pedaço comido da Lua tá vermelhinho. A lâmpada queimou de novo! Paula Dal! O Bruno falou: “Já volto!”

7:32
O Bruno tá arrumando o cronômetro. Tem mais um pedaço da Lua comido. A Paula foi renovar as pilhas.

7:33
A Lua tá mais vermelha e o comido tá quase-quase-quase-chegando na metade.

7:34
A Paula tá testando a pilha no testador errado.

7:35
A Pilha Everedy tá boa. Mema coisa.

7:36
A cordinha do binóculo tá atrapalhando a observação. Tem um tiquitinho da Lua comido. A Paula chega coçando.

7:37
O binóculo deu defeito. Desdefeitou. Mesma coisa. A Paula tá cantando “Xô Satanás”. O Bruno tá cantando “Pelados em Santos, Chopis Centis, Lá vem o alemão!”

7:38
Mais um pedaço da Lua comido. A Paula fala: “Quê que fudeu nesse trem”?

7:39
Um milímetro de Lua comido. O Bruno disse: “Que bucexinha”!

7:40
A Paula foi resolver o probrema da lanterna. Tem uma família jantando no prédio em frente.

7:41
Tem um disco voador!

7:48
A Lua tá comida mais um pedaço. Tá parecendo um pedaço de queijo ou meia bunda.

O diário terminava aí, com a adição apenas de um epílogo ("KBÔ! Paramos por aqui. Cansei de escrever. O Bruno peidou.") que não esclarecia se a lanterna foi consertada, que horas o eclipse atingiu seu apogeu ou a real natureza do disco voador avistado. Será que a verdade está lá fora?

18/02/2008

Habemos logom



A interminável Saga de Tião agora tem uma logomarca e um compromisso: aos sábados um capítulo par, às terças um capítulo ímpar, escritos respectivamente por Daniel de Pinho (atualmente cumprindo exílio na Pennsylvania) e eu. É assim mesmo: se não anunciar publicamente o trato, é grande a tentação de não cumpri-lo.

09/02/2008

Elementar



Continuam encontrando este blog através de estrambóticas buscas no Google. Esses dias chegaram aqui procurando por "tan taran tan tropa de elite", "resultados de todos os amistosos de ontem" e "o que o espaço geográfico tem a ver com a musica aquarela de toquinho". Mas o prêmio de melhor busca no Google de todos os tempos vai para o gênio que procurou:

"proximo shows no cred crawl raul"

Gastei uns bons neurônios pra entender que ele estava atrás disto.

04/02/2008

A Velha Debaixo da Cama - Capítulo 1



A revista piauí inaugurou um novo concurso literário, uma história seriada cujos 10 capítulos serão escritos pelos vencedores do ano passado. O pontapé inicial era uma frase prosaica: "Antonio levantou-se, abriu a janela, e viu Maria lá embaixo, à espera". Fiz meu texto baseado num argumento de André Paio, meu pai, que viu na frase uma possibilidade de narrar a chegada de Augusto Paio, meu bisavô, ao Brasil. Não foi dessa vez, mas ainda tenho nove chances ao longo dos próximos meses. O texto vencedor está aqui. Já a minha versão, que ficará para sempre inacabada, vem a seguir:

Antonio e Maria - Capítulo 1

Antonio levantou-se, abriu a janela, e viu Maria lá embaixo, à espera. Engolindo a surpresa, gritou que subisse. Tirou do guarda-roupa uma cara bem lavada, pôs no bolso um punhado de desculpas e andou até a sala tentando incorporar um papel apropriado. Quando ela apareceu, carregando uma trouxa de panos, ele acabara de descartar o de amante ressentido e vestir-se de amigo com saudades.

- Maria, Maria! Faz o quê, uns oito meses?
- Doze meses, disgraziato. Precisamente doze meses.
- É que pra mim parece que foi ontem...
- Parece, né? E uma coisa dessas brota assim, do dia pra noite.

A coisa dessas não era um saco de roupas como ele supunha, mas um ser vivo de olhos grandes e tranqüilos, embrulhado em cobertores.

- Este é o Augusto. Não é a minha cara?

Não era. O nariz pomposo, a sobrancelha modesta e o queixo furado, quase dividido, não se repetiam na face dócil de Maria, embora estranhamente abundassem na de Antonio. Tinha três meses de vida e o encarava com uma naturalidade quase incômoda.

Em seguida, ela mostrou a carta.

- Pra mim?
- Pra mim. Do meu irmão. Chegou semana passada.

Antonio correu os olhos, ignorando os garranchos mais safados. Depois perguntou, preocupado, se ela estava mesmo disposta a abandonar uma vida serena pra tentar a sorte num continente incerto e hostil, à mercê das intempéries. Ela ouviu com pena o palavrório e disse apenas: estou indo embora na sexta.

- É um convite? – ele sorriu amarelo.
- É um comunicado. Só vim aqui pro Augusto ver você uma vez na vida.

Quatro dias depois, Antonio zarpava com ela e o menino num navio para a América, respirando pela última vez o ar do Vêneto e ouvindo o século dezenove agonizar. Tinha aparecido no porto de supetão, sugerindo que ela pegasse uma embarcação alternativa, mais vazia e mais barata. Precisou levá-la pelo braço até o comandante para que ouvisse que sim, este navio está indo pra América, não, você não terá que remar, até que ela cedeu e subiu com Augusto a escadinha do navio. Só não entendeu quando Antonio deixou no ar um boa-sorte-em-sua-nova-vida e fez que ia voltar.

- Como assim, você não vai?
- Não, não. Vou ficar. Minha vida é aqui.
- E trouxe essas malas só pra elas conhecerem o mar?
Antonio até olhou nos bolsos, mas não encontrou desculpas sobrando.

A viagem transcorreu em paz. Fã declarado da terra firme, Antonio acabou se acostumando à dança louca do mar e só uma ou duas vezes batizou o convés com o almoço ruminado. Maria, que passava os dias tricotando cachecoizinhos sem dizer palavra, com o tempo se dispôs até a papear.

Ao final de várias semanas, estranhando o clima quente incompatível com o inverno que esperavam, Maria resolveu saber de um tripulante se tinham previsão de chegada. Voltou à cabine um pouco intrigada: Nova Iorque ele diz que não sabe, mas no Rio de Janeiro a gente aporta amanhã.

Antonio, sossegado, nem se perturbou em abrir os olhos.
- Esquenta não, deve ser perto, de lá a gente aluga uma carroça – e voltou a atenção à soneca.

28/01/2008

Be kind, rewind



Minha meta cinematográfica de 2008 é bater meu próprio recorde (que nem é grande coisa) e assistir a uns 30 filmes no cinema (e pelo menos uns 120 contando os DVDs). Todos os dezessete que já vi este ano estão devidamente comentados no blog coletivo recém-criado 05-05-2008, onde tenho concentrado meus escritos sobre o tema.

Além disso, mantenho atualizada uma planilha com todos os filmes que vi desde 2003, com suas respectivas cotações de 1 a 5 estrelas, sendo "5" pérolas como Quase Famosos ou Borat, e "1" coisas do naipe de Highlander e Esqueceram de Mim 4. A segunda página da planilha traz todos os filmes que vi no cinema desde 1990, época do saudoso Lua de Cristal, onde o galã era o Sérgio Mallandro e sua moto fuleira virava garboso cavalo branco, lembram? Com esses dados catalogados, posso inclusive ter acesso a estatísticas extremamente pertinente, tipo: mais de 70% dos filmes que vi no cinema foram no BH Shopping, ou Spielberg é o diretor que mais assisti na telona (6 filmes), seguido de perto por M. Night Shyamalan (com 5).

Tá bom, é bem inútil, mas eu me divirto fazendo essas coisas...

24/01/2008

Quer pagar quantum?



Anunciaram o nome do novo filme do James Bond. Seguindo a linha dos títulos esdrúxulos de 2008 (Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, claro, é o exemplo-mor), batizaram o vigésimo segundo 007 de Quantum of Solace.

Quantum of Solace. Os tradutores brasileiros estão perdidos. As sugestões que folheei pela internet passeiam do fraco ("A Medida do Sofrimento", "Certo Consolo") ao tenebroso ("Quantum de Alívio", "Quantum de Refrigério"). Não duvido nada que se acovardem diante do trabalho difícil e acabem lascando um Cassino Royale 2. E olha que já previ antes a tradução brasileira de um filme (The Dark Knight, em agosto de 2006). Mas se fosse pra eu escolher, não pensaria duas vezes: 007 - Um Espião do Barulho.

23/01/2008

22/01/2008

Under the Hood



Um dia eu tive oito anos e vi cair em minhas mãos o tal do Manual do Super-Herói. Pra um moleque que repetia com exatidão os movimentos do Jiraya, encenava com bonequinhos a cena do Coringa caindo no ácido, e voava vestido de Super-Homem ao som da trilha de John Williams, um Manual do Super-Herói era o tipo de leitura que despertava interesse.

E ao contrário dos monólogos do Jiban, que deviam ser péssimos e a gente nem percebia, o livro era realmente bem feito, com textos criativos e cartuns ilustrando todas as páginas (sem pular uma). Era um manual completo, contando a história dos super-heróis desde os deuses da mitologia, apresentando os pré-requisitos da profissão ("Ser vacinado. Contra a raiva, principalmente. Tem muito cachorro por aí que não sabe distinguir um super-herói de um carteiro ou um coletor de lixo"), sugestões de matérias-primas para os poderes (fogo, água, borracha, madeira), as lições da Escola de Super-Heróis, o dia-a-dia de um super-herói, o salário de um super-herói, a bolsa de valores dos super-heróis.

O problema era que o livro não era meu. Era do filho de um amigo do meu pai, e eu precisava devolver. A edição era antiga (de 1976, o que em 1993 já era passado distante) e difícil de encontrar. No auge dos meus oito anos, numa época em que o xerox era luxo pra poucos, achei a solução: gravar em fitas cassete, narrando em voz alta, todas as 190 páginas do livro. Foram três fitinhas de áudio com minha voz de criança gripada, repletas de tosses e cachorros latindo. A iniciativa não só fez com que eu pudesse ter o manual em casa e consultar quando necessário (por ocasião de um ataque alienígena, digamos), como também propiciou que posteriormente eu gravasse outros livros e criasse minha própria locadora de talk-books.

De todas as peças perdidas da minha infância que se acabaram se encaixando com o advento da internet (por exemplo, o nome do seriado da menina que parava o tempo encostando um dedo no outro), faltava o Manual do Super-Herói e eu não sabia. Hoje, por algum enigma do cérebro, me veio ele na memória e resolvi buscar no São Google alguma pista. Ele estava lá, escaneado e completo, escondido apenas sob alguns cliques. Agora só falta lançarem os DVDs de "Perdido nas Estrelas" e do desenho de "De Volta Para o Futuro".

Amostra grátis:


10/01/2008

Amanhã



Uma lista com mais de cinqüenta itens, vários roteiros, um dia inteiro de filmagens, meses de edição, uma hora e vinte de material bruto para fazer um curta de 60 segundos. Amanhã, no YouTube e no Biselho.

06/01/2008

Dez segundos

Enquanto a lagartixa não fica pronta, Adriano e eu demos uma olhada nos outros prêmios oferecidos no site do Festival do Minuto e resolvemos inscrever mais alguns na categoria "Nano Minuto", que aceita curtas de até 10 segundos de duração. Munidos de câmera, máscaras, papéis, uma carteira mágica e uma avó, filmamos três superproduções que estréiam agora no bISELHO:

"O Quarto do Pânico"



"Prisão Perpétua"



"Macacada"



Update (08/01): o site do Festival já tá exibindo nossos vídeos e você assistir e votar no Quarto do Pânico, o Prisão Perpétua e o Macacada. Vai lá!

Update II (10/01): "Prisão Perpétua" ganhou na categoria NanoMinuto! Tá lá no site do Festival. O mais engraçado é que filmamos em janeiro de 2008 e ganhamos em dezembro de 2007. Great Scott!

30/12/2007

Dois mil e sete.

Virei tecladista de uma banda cover de Bon Jovi. Encontrei o Toquinho no aeroporto. Ratatouille conseguiu superar todos os outros filmes da Pixar. Barão deixou saudades. Vi os Mutantes duas vezes. Passei mal com pastel de siri no Rio de Janeiro. Tropa de Elite gerou os maiores bordões do ano e o Capitão Nascimento matou a Taís. Formei, mas até hoje não busquei meu diploma. Ganhei um carimbo ex libris e uma caneta que dá choque. Peguei um engarrafamento de duas horas e meia na BR. Fui publicado na piauí. Comprei um kazoo. Colecionei os CDs de jazz da Folha. Borat é o politicamente incorreto que a gente precisava. Tomei café da manhã na boate. Gravamos o curta da lagartixa (finalmente!), mas ainda não acabamos de editar. O pior refrigerante do mundo é a Fanta Chinotto. Fui na casa onde Anne Frank morou e no quarto em que Getúlio morreu. Consegui tirar Martha My Dear no piano. Furei o pneu duas vezes. Pub crawl é divertido até na segunda-feira. Lotei a primeira fileira do Tangos & Tragédias com amigos e familiares. Acabou a luz no Canapé e o Pacote fez o quiz com megafone. Cochilei no cinema assistindo Homem‑Aranha 3. Dormi na cama do topo de uma triliche. Briguei durante meses com a Net e a Americanas.com. Até hoje não acharam a Madeleine. Pará de Minas não tem potencial turístico. Acordei tarde, quase perdi o trem e, na correria, as luvas da minha tia ficaram pra trás. Los Hermanos entraram em recesso indeterminado. Quebraram meu retrovisor com uma porretada. Fiz esquibunda na neve. Zoom, Schwartz & Pafigliano é um drinking game interessante. Fui no Encontro de Redação Publicitária em Paraty e voltarei no ano que vem. A terceira temporada de Lost começou mal mas foi engrenando. Comprei pedaços do muro de Berlim. Assisti um DJ tocar e achei doido. O Led Zeppelin voltou mas eu não tava lá. Consegui achar a livraria de Antes do Pôr-do-Sol. Tive minha pior média de idas ao cinema desde 2000, mas compensei em dezembro vendo um monte em dvd. Fui e voltei de Piedade a cavalo. Fui sozinho no show do Renato Teixeira e Almir Sater. Atendentes de call center são a escória da humanidade. Ficarão na memória: o porão do Cat’s, o bar do Peace & Love, as noites no Bulldog. Melhor esquecer: o staff do Alessandro’s e o chuveiro do Camping Jolly. Vai Tomar No Cu foi hit instantâneo. Festa Junina Em Banheiro só não virou hit porque não ainda não terminamos. O Piano Alemão foi campeão três vezes e a festa de um ano foi um barato. Doismileoito vem aí e vai ser também.

Volta ao Mundo de Mentira

Domingo, 30/12 - Cáceres, Pantanal Mato-Grossense, Brasil



Ainda não vi o Almir Sater nem a Juma Marruá, mas um tuiuiu veio me dar bom-dia hoje de manhã. Meu pescoço está torto até agora, de tanto andar de ônibus. O sol queima mais do que eu esperava (maldita hora que fui ignorar o videozinho do filtro solar). Mas enfim: minha volta ao mundo de mentira me trouxe ao Pantanal e no momento curto a vista do rio Paraguai e as chalanas navegando em seu remanso. Cáceres é a cara do Pantanal: vitórias-régias boiando tranqüilas, pássaros pousando n'água e voando molhados, cobras à espreita, capivaras no barranco. Aqui também se realiza o maior campeonato de pesca em águas fluviais do mundo, mas os surubins podem respirar aliviados, estamos na piracema.

Cheguei aqui na noite de ontem e fui direto pro boteco. Um barzim de leve, só pra começar bem a viagem. A cidade aqui é pacata e, com o agravante do fim de ano, tava tudo vazião. Pra acompanhar a cerveja, o garçom me sugeriu espetinho de jacaré frito. Uma experiência curiosa: gosto de peixe e textura de peito de frango. Me lembrou aquele chips bizarro com textura de batata frita e gosto inconfundível de camarão com limão. A trilha sonora, no entanto, desanimava. Não bastasse os dois violões tocarem a mesma coisa e as duas vozes de cabrito cantarem a primeira voz, eles ainda faziam uso de um execrável fundo eletrônico, uma das pragas mais nefastas do mundo moderno. Pedi pro garçom tirar o couvert da conta e expliquei: não pago pra ouvir karaokê. Ele ficou meio chateado, sei lá se era parente dos cantores, daí acabei pedindo mais jacaré pra compensar.

Nisso chegou um sujeito corcunda, de chapéu surrado e jeito estranho, carregando livros. Forçou um sorriso, mostrou-me um exemplar e disse: gosta de uma boa leitura? O livro trazia sua foto na contracapa: o mesmo sorriso tristonho. No mínimo era um daqueles poetas que rimam "triste" com "quis-te". Perguntei do que se tratava, se era prosa ficcional, poesia parnasiana ou auto-ajuda pantaneira. Ele me mostrou o título: "É do lado direito que bate meu coração". E explicou: é um caso raro, meu coração fica do outro lado, já fui matéria até nos Estados Unidos. Propus a ele outros tipos de abordagens:

- Responda rápido: o que é dextrocardia?
- Lembra do satânico Dr. No?
- Gosta de uma boa leitura sobre casos médicos raros que já foram matéria até nos Estados Unidos?

Ou então traria um estetoscópio e convidaria o potencial leitor a uma experiência interativa, do tipo: "você tem 15 segundos pra achar o coração", enquanto cantava "A gente se ilude dizendo já não há mais coração...". Mas ele preferiu o jeito dele.

Ainda não decidi meu ano-novo mas aparentemente a única opção nesta cidade é o Iate Clube, que não me apeteceu nem um pouco. Ou cruzo a fronteira e viro o ano na Bolívia, ou pego um teco-teco e desço no Acre a tempo de ver as festividades. Tempo tenho de sobra para decidir: afinal, quando for meia-noite em Brasília ainda serão 21h em Rio Branco. Duvida?

Quem

Lucas Paio já publicou contos em revistas e antologias, já dirigiu curtas-metragens e compôs canções, já ganhou um campeonato de aviões de papel, tocou teclado numa banda cover de Bon Jovi, morou na China e hoje vive em Berlim. É autor do romance de fantasia cômica MACADÂMIA, lançado em 2025.

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