29/08/2008

Terra brasileira



Pré-estréias são sempre legais. Além de geralmente rolar um agrado, um vale-combo pipoca e refri, às vezes um ou outro brinde surpresa (na pré de Superman - O Retorno, os fãs que vestiam a camisa do Super-Homem ganharam presentes. A minha do Chapolin não valeu de nada), é boa a sensação de ver o filme antes dos outros mortais, ainda mais quando o ingresso não pode ser comprado, só ganhado. Foi assim na última terça-feira, na pré-estréia belo-horizontina do brasileiro Linha de Passe.

Dirigido por Walter Salles (de Central do Brasil, Diários de Motocicleta e tantos outros) e Daniela Thomas (que, só hoje descobri, é filha do Ziraldo), Linha de Passe estréia por aqui dia 5 de setembro e narra o dia-a-dia de uma família paulistana, mãe e quatro filhos. A mãe é vivida por Sandra Corveloni, que ganhou até prêmio em Cannes por sua atuação. Os filhos foram escolhidos por testes, preparados em oficinas de atores pela célebre Fátima Toledo e não devem nada às outras interpretações. Há também algumas caras conhecidas, como Vinícius de Oliveira (o moleque de Central do Brasil, irreconhecível), como o filho que já beira os 18 e ainda sonha em ser jogador de futebol. Cabeludo e espinhento, fui perceber que era ele só quando vi o nome nos créditos finais.

Tenho uma certa queda por estudos de personagens. É aquela parte central de Náufrago em que o Tom Hanks está na ilha, aprendendo a sobreviver e conversando com uma bola; ou a primeira metade de Wall-E, onde o robozinho solitário nada faz além de catar lixo e colecionar trecos. Dão a impressão de que não tá acontecendo nada, mas acabam sendo muito mais interessantes do que se houvesse um vilão ou algo que o valha. Linha de Passe se encaixa um pouco no conceito, dividindo o tempo de tela entre os 5 personagens principais: Dario, aspirante a jogador de futebol; Dinho, frentista evangélico; Dênis, motoboy e pai por acidente; o caçula Reginaldo, que nunca conheceu o pai; e Cleusa, empregada doméstica, que tenta ser pai e mãe da filharada enquanto encara uma quinta gravidez. Semana que vem, faça o favor de levantar a bunda da cadeira, esquive-se de ver mais uma bomba do Adam Sandler e engula seu preconceito contra produções nacionais, porque o filme é bão pra caramba.

A cereja do bolo foi o bate-papo com a Daniela Thomas e a Sandra Corveloni após a exibição. Não tinha muita gente - são poucos os animados em discutir cinema à meia-noite de uma terça-feira - e talvez por isso tenha sido tão bacana. Abri a rodada de perguntas com uma dúvida sobre direção em conjunto: como é dividir a direção de um filme com alguém, sendo que dirigir normalmente é como escrever, uma tarefa autoral e solitária? Disse Daniela: é um caos. Mas explicou que acaba havendo uma divisão natural, ela fica mais com a parte da pré-produção, da escolha do elenco e locações, enquanto Walter Salles é "o homem do set", o cara que entende tudo de câmeras e lentes - chegando inclusive a operar a câmera em alguns takes.

O papo seguiu com várias histórias divertidas dos bastidores. Algumas situações reais evocavam cenas do filme: o teste do elenco, com milhares de candidatos, como as "peneiras" de jogadores de futebol das quais participa o garoto Dario; o ator Kaique de Jesus Santos, que viveu o Reginaldo, tão marrento no set quanto seu personagem; a Sandra disputando o papel da mãe com outra atriz, como sua personagem disputa a vaga de empregada. E os felizes acasos que não estavam no roteiro e acabam melhorando o filme: a cena da Bíblia no sofá, por exemplo, foi idéia do Kaique, que soprou a sugestão no ouvido do colega antes da gravação, sem contar pra ninguém.

Também aproveitei para sanar com a Daniela uma dúvida técnica: quanto do filme é dublado e quanto é o som real, captado na hora? Ela disse que uns 30% é dublado, o que é bastante. Cenas externas, ou dentro de ônibus, que sofrem com a barulheira ruidosa, tiveram seus diálogos totalmente refeitos em estúdio, às vezes meses depois. E é tranqüilo, ou o ator encontra dificuldade pra voltar ao personagem tanto tempo depois? Nada, é bem simples, ele escuta a voz-guia várias vezes e depois repete. Só teve uma cena em que percebi uma sincronia meio falha, o que nem se compara aos filmes nacionais de vinte anos atrás, de dar vergonha à turma do Chaves.

(Quem se interessa por curiosidades de produção, aliás, vá ler o Blog de Blindness, escrito pelo Fernando Meirelles sobre as filmagens do seu Ensaio Sobre a Cegueira. Que bem podia ter uma pré-estréia em BH também, hein, Fox Filmes?)

26/08/2008

Cale-se, cale-se



Tenho me empenhado em corrigir uma grande falha de formação, que é ter visto pouca coisa do Chaplin. Semana passada assisti quatro curtas do início de sua carreira: O Balneário, O Imigrante, Rua da Paz e O Aventureiro. Todos de 1916 ou 17, todos com duração de 25 minutos e todos muito bons. Esta semana foi a vez de um longa, Em Busca do Ouro ("The Gold Rush", 1925). Peguei uma cópia antiga em VHS, limpei o cabeçote do vídeo-cassete (usando a técnica de avançar e retroceder uma fita várias vezes, tão prosaica e funcional quanto soprar um cartucho de Super Nintendo) e assisti aos setenta e poucos minutos das aventuras de Carlitos na solidão branca do Alasca.

A primeira impressão não me saltou aos olhos, mas aos ouvidos: estranhei a trilha sonora. Ao contrário dos curtas, que casavam música e imagem de forma sincronizada, quase videoclíptica, a dramática trilha de Em Busca do Ouro, com seus órgãos e acordes tristes, funcionava razoavelmente para umas cenas e fracassava em outras. Sem falar nos momentos quase constrangedores em que a música terminava antes da cena acabar, ou seguia contínua entre um take e outro que não tinham nada a ver. Qualquer um que já editou um vídeo caseiro no Movie Maker sabe que a música de fundo pode mudar o sentido da cena, e em certas horas me vi obrigado a colocar a TV no mudo pra aproveitar melhor o filme. A coisa se torna ainda mais estranha quando se descobre que a trilha foi indicada ao Oscar - quase vinte anos depois!

O mistério tem sua explicação. O longa lançado em 1925 era completamente mudo (como eram todos feitos antes de 1927), e só ganhou trilha em 1942, para um relançamento nos cinemas. Foi essa trilha que concorreu ao Oscar em 43 (e perdeu para a de A Estranha Passageira), e é essa versão recauchutada do filme que está nos DVDs de hoje em dia. A versão calada de 1925, por sua vez, teve os direitos expirados e agora é de domínio público, e cada um distribui e coloca a trilha do jeito que bem entender. Ou seja, quem quiser lançar o filme com trilha do Cauby Peixoto ou do Wando só precisa de cara-de-pau e da autorização dos compositores.

Em Busca do Ouro, como muitos outros, traz Charles Chaplin no papel do Vagabundo, ou Carlitos, como ficou conhecido por aqui O cenário é o Alasca durante a Corrida do Ouro, e nosso herói está perdido e esfomeado. (Qualquer semelhança com Na Natureza Selvagem é mera coincidência, porque este último é baseado numa história real.) Logo no início, o solitário explorador encontra uma cabana, conhece uma galerinha irada e apronta altas confusões tentando não morrer de inanição.

A genialidade e o perfeccionismo chaplinianos são responsáveis por momentos antológicos ao longo do longa. A cena de Carlitos e Big Jim degustando uma bota no jantar, com direito a cadarço enrolado no garfo como se fosse macarrão, precisou de 63 takes e três dias pra ser feita. A bota era feita de alcaçuz (tá achando que o cara vai comer couro 63 vezes?), e, claro, Chaplin foi parar no hospital por excesso de açúcar no sangue. Outra cena clássica, a da dança dos pãezinhos, fez tanto sucesso na época que em algumas exibições eles paravam a projeção no meio e reprisavam o trecho a pedido da platéia, como aconteceu na estréia do filme em Berlim.

Conselho final: quando for assistir, não faça como eu e arranje uma cópia decente. Ou então desligue o som e ponha no fone de ouvido o artista de sua preferência. O último que tentou fazer isso juntou Pink Floyd com o Mágico de Oz. Vai que dá certo com o Wando?

Também publicado no Cinema de Buteco.

25/08/2008

Arquivo pessoal



Devido ao meu hábito de juntar tralha, de vez em quando acho umas pérolas perdidas aqui em casa. Como esse desenho dos Changeman (ou "Man Change") que fiz em 1989, todos devidamente identificados por seus nomes, ou quase isso. Por algum estranho alinhamento cósmico, ou falta de noção mesmo, o quinteto Dragon, Mermaid, Phoenix, Griphon e Pegasus recebeu as alcunhas de Dragreo, Marmet, Fenkis, Gripo e Pegzus. Mas acho que pra 4 anos de idade eu passei até perto. Já não posso dizer o mesmo dos desenhos, e o pior é que meu traço não evoluiu muito desde então.

24/08/2008

22/08/2008

Queria ou não queira



Boa pedida essa nova coleção da Folha. Seguindo o esquema jazzístico lançado ano passado, que trazia 20 livros-cds com a história dos artistas, curiosidades, disquinho lembrando um vinil e preço camarada, a nova coleção vem apresentar, nos mesmos moldes, os crássicos da Bossa Nova.

Ok, vamos ser sinceros: se o jazz tem numerosas vertentes, incontáveis expoentes e décadas de produção ativa, fazendo de cada livro-disco uma porta para novos sons e possibilidades, a Bossa Nova é coisa de três caras (Tom, Vinicius e João Gilberto) e um punhado limitado de canções (ainda que muitas obras-primas) repetidas à exaustão por zilhares de intérpretes (mesmo que muitas versões superem as originais). A nova coleção, obviamente, aproveita a onda dos 50 anos da Bossa Nova - e é bom que aproveite logo, que essa onda já tá passando. Mas a coisa é bem-vinda. Vinte discos conseguem ser um apanhado bem completo do estilo, o texto do Ruy Castro é informativo e descontraído, bom pra ler deitado na rede, e a relação custo-benefício é uma lição pra muita gravadora sem-vergonha por aí.

Tom e Vinicius, não por acaso, já batizam os volumes 1 e 3, cantando as próprias músicas. O volume 2 é dedicado ao Dick Farney, cuja empostação de voz à la Nélson Gonçalves não me convenceu. Voz de Bossa Nova tem que ser miúda e precisa, quase inaudível, como a de João Gilberto. Aliás o João, estranhamente, não dá as caras em nenhum dos vinte volumes. Será que não aprovou a qualidade do som? Não importa, ainda temos Baden, Nara e Marcos Valle pela frente e a expectativa para a coleção do ano que vem: a Folha seguirá a linha das comemorações e investirá nos 30 anos da Lambada?

19/08/2008

The Dark Letter

Uma vez eu recebi uma carta do Batman. Eu tinha cinco anos e era fã do cara. Colecionava as revistas, assistia às suas aparições televisivas e reencenava diariamente, com os bonequinhos da coleção dos Superamigos, a cena em que ele joga o Coringa no ácido. Era perfeitamente plausível, portanto, que eu pudesse receber uma carta do sujeito. O manuscrito começava com um convite: "Quando você vier a Gotham Cyty (sic) venha me ver na minha caverna. Gosto muito dos meninos bonzinhos que estudam e que sejam educados". Hoje em dia é fácil enxergar conotações pedófilas no convite, mas deixe um pouco a malícia de lado, vá. O Batman da carta era mais fascista que pedófilo: "Você é um menino obediente e por isto eu gosto de você", dizia mais adiante.

Cheguei a redigir a resposta mas nunca a enviei ao subsolo da Mansão Wayne. Uma pena. Dizia: "BATMAN EU JÁ RECEBI A CARTA MUITO OBRIGADO TIAU A QUI NO BRASIL TEM MUINTOS ANIMAIS COELHO TIGRE PAVÃO É TEM MUINTOS E TAMBÉM EU TENHO O BONECO IGUAU A VOCÊ. UM ABASO. LUCAS"

Quando tive idade suficiente para perceber que o Batman não me mandaria carta em português, suspeitei que fosse obra do meu tio, que na época morava em Nova York e tinha me presenteado com o tal "boneco iguau a você". Nada: a autora era minha avó, que nunca foi aos Estados Unidos e estava só tirando onda com minha cara. O que não tira a graça da coisa, claro. Quantos netos podem se orgulhar de ter uma avó que também é o Batman?



Identidade corporativa é isso: o Batman escreve em papel timbrado.



O envelope, de maio de 1990, com os selos norte-americanos.



A caixa de correspondências da Mansão Wayne ficou sem receber minha resposta.

18/08/2008

Ouro de tolo



Minha banda tem uma música chamada "Isso Tem Que Mudar", cuja letra é alterada cada vez que é tocada ao vivo. Entre as 17 letras escritas, já rolaram estrofes sobre gripes, índios, reveillón, horário político. A versão Olimpíadas foi composta e cantada em agosto de 2004, quando o Brasil se estrepava em Atenas. Diziam os versos:

O país do futebol não tem nem time competindo
De mal a pior, a equipe de ginástica tá indo
Medalha de ouro, a China já tem mais de onze
Mas até agora a gente só conseguiu bronze

Enquanto Michael Phelps batendo recordes e ultrapassando Itália e França, sozinho, no quadro de medalhas, amargamos uma trigésima-sexta posição que seria ainda pior se não fosse o Cielo Filho. Se a Copa é a Pátria de chuteiras, a Olimpíada é quando a Pátria cai de bunda.

05/08/2008

A Velha Debaixo da Cama - Capítulo VII - O Pacto



Lá vamos nós de novo ao tradicional texto do concurso literário da revista piauí. O vencedor do capítulo VII foi o maranhense Franco Neviani, cujo texto está aqui. Já o meu foi este aí:

A VELHA DEBAIXO DA CAMA Capítulo VII - O Pacto

Eles até que tentam. Na volta pra casa, ela comenta do frio e ele repete o comentário; ela reclama da repetição e ele repete a reclamação. O infantil jogo de nervos segue por alguns minutos e acaba onde começa o tédio.

Depois é a vez dela. Pede que ele faça o jantar. Desdenha o ensopado e exige mais tempero. Queixa-se do excesso, devolve, quer que ele prepare com mais paciência. Por fim ela se cansa, é inevitável. E não trocam uma palavra pelo resto da noite.

É desnecessário verbalizar o óbvio: ao deixar de ser segredo, a competição de sadismo mútuo perdera o propósito, perdera a graça. Ora, se Mergulhão não é fantasma que perambula por aí vigiando a ex-esposa, não há sequer desculpa para dormir debaixo da cama. Pois é sobre ela, pela primeira vez, que Antônio e Maria repousam o corpo após o dia agitado. Não que o sofrimento tenha se extinguido por completo. O bafo fúnebre de Maria continua o mesmo, e Antônio ainda não é sombra do que fora Mergulhão em sua saudosa juventude. Mas isso não os impedia de pegar no sono antes, e não é isso o que atrapalha agora. São aqueles pensamentos que pairam no ar como uma nuvem chata e teimam em não sumir, esperando só que alguém tenha coragem de encaixá-los numa frase.

É Maria de Maria quem enfim quebra o silêncio:

- Dez milhões é muito dinheiro, né?
- É. Muito dinheiro – ele confirma, enquanto franze a sobrancelha.

Ela estende a pausa mais do que devia e prossegue:

- Mas cinco milhões ainda é uma quantia considerável.

Ele espera passar o calafrio pra falar:

- É, é uma boa quantia.

O diálogo pára por aí, mas o sono não chega até o sol aparecer.

Nos dias seguintes, Antônio e Maria de Maria vêem sua rotina transformada. Ela não o chama mais para as caminhadas matinais por entre as garbosas romãzeiras – às vezes, nem ela comparece aos próprios passeios, deslumbrada com a maciez do colchão que por anos só lhe serviu de teto. Mal conversam entre si, trombam-se pouco ou quase nada e não se atrevem a tocar numa vírgula do assunto. Quando chega a terceira noite, no meio do jantar, o clima torna-se tão insustentável que basta um olhar mais demorado para que tomem a decisão. E ninguém diz alto que o coronel é velho e fraco, odeia ambos e tem muito dinheiro guardado num cofre no porão de sua casa, cujo acesso secreto por uma tábua solta no armário Antônio já até conhece, e que é ridículo atazanar e ser atazanado diariamente até que surja um vencedor, quando é menos utópico e vagaroso buscar na fonte o que é direito legítimo de filho e viúva, ainda que viúva de fachada, ainda que filho bastardo.

Dizem apenas:

- Ok, como vamos fazer isso?

29/07/2008

Os Personagens Mais Enfermos da Turma da Mônica

Esqueça a Mônica e seu estereótipo de baixinha, gorducha e dentuça. Baixinha ela nem é – pode medir, sua estatura é a mesma de Cascão, Cebolinha, Magali. A suposta obesidade infantil alardeada por seus detratores também não passa de exagero. E os dentões são mesmo salientes, mas nada que alguns anos de ortodontia não resolvam. Mônica é, portanto, uma criança normal e sadia; o mesmo já não pode ser dito de seus vários amiguinhos. Após uma exaustiva pesquisa nos anais da Medicina e das histórias em quadrinhos, o Biselho apresenta...

Os Personagens Mais Enfermos
da Turma da Mônica

#6 – Nimbus



O que ele tem:
tonitrofobia

É uma cena corriqueira. Raios e trovoadas anunciam uma precipitação, Nimbus e Cascão põem sebo nas canelas. Cascão se esconde sob uma marquise; Nimbus vai pra debaixo da cama. O motivo é simples. Enquanto Cascão, como é público e notório, tem pânico de água, o medo de Nimbus é do estrondo dos trovões.

A frescuragem tem nome: tonitrofobia. O dicionário define como um “medo mórbido, irracional, desproporcional, persistente e repugnante aos trovões”. Assim como existem pessoas que sofrem de cronomentrofobia (medo de relógios) ou triscaidecafobia (medo do número 13), os tonitrofóbicos, como o Nimbus, acham que os trovões, por serem fortes e altos, podem provocar algum distúrbio em seu corpo.

Distúrbio mesmo é uma criança com 6 anos nas costas e ainda borrando as calças por causa de trovoada. Será que ele também tem medo de eletrochoque?

#5 – Jeremias



O que ele tem:
calvície precoce

Carecas existem aos montes, e dizem que é deles que elas gostam mais. Mas quando você perde todos os pêlos da cabeça antes dos 10 anos de idade, é melhor se preocupar. Jeremias sabe disso - tanto que esconde sua calvície sob um boné que foi de seu avô. A turma finge que não sabe, ele finge que acredita, e a vida segue seu curso normal.

Será?

Já pararam pra pensar por que diabos o Jeremias é careca? Inércia - nasceu careca e esqueceu de crescer cabelo? Ou genes descabelados herdados de seu pai, quem sabe do avô, já que o boné pertenceu a ele? A coisa talvez seja mais grave do que isso. Jeremias pode ser um tricotilomaníaco - descrito no Aurélio como aquele que tem o "hábito mórbido de arrancar continuamente os cabelos", relativamente comum em crianças. Também é possível que ele sofra de uma alopécia areata - queda súbita de cabelo em uma determinada área -, decorrente de estresse, ansiedade ou um forte trauma emocional.



Há algo de podre no Bairro do Limoeiro quando um moleque que nem pré-adolescente é ainda padece de um problema tão sério que lhe faz cair os cabelos. Ou será que a situação é mais grave ainda e essa calvície precoce é só efeito colateral de uma pesada quimioterapia? Jeremias é coadjuvante o bastante para que o público em geral não se preocupe com essas questões, mas sempre é tempo de recomendar um tratamento pra esse menino. Quem sabe um transplante a partir dos pêlos do Floquinho?

Falando nele...

#4 – Floquinho



O que ele tem:
mutação genética

Caso número um. Em maio de 2001, um cãozinho vira-lata nasceu com o pêlo esverdeado em Nova Hamburgo, no Rio Grande do Sul. O caso não foi solucionado - a veterinária Maria de Lourdes Alexandre, da UFRGS, acredita em uma anomalia na pigmentação do animal -, mas o cachorro foi apropriadamente batizado de Hulk.

Caso número dois. Em maio de 2008, um cãozinho da raça Golden Retriever nasceu com o pêlo esverdeado em New Orleans, nos Estados Unidos. Segundo veterinários da cidade, a cor insólita tem a ver com a mistura do fluido amniótico com a placenta da mãe durante o parto, e tende a sumir com o tempo. Seus donos foram mais criativos e deram ao bicho o nome de Wasabi.


Hulk e Wasabi posando para a posteridade

O que nos leva ao caso do Floquinho. O cachorro do Cebolinha é um lhasa apso - tudo bem, um lhasa apso gigante, simétrico e peludo, mas ainda um lhasa apso. O que salta à vista, no entanto, é sua pouco ortodoxa cor verde-bandeira. Mistura do fluido amniótico com a placenta da mãe? Pouco provável, já que Floquinho é um cão adulto e já deveria ter desbotado, segundo os médicos de New Orleans. Nos resta, portanto, a mesma mutação genética que tingiu de esmeralda o simpático Hulk de Nova Hamburgo. Ou isso, ou o bicho é um alien. Sadio, sem chance.

#3 – Magali



O que ela tem: bulimia

Histórias da Magali não costumam tratar de muitos assuntos. Quando não é Mingau, seu mimado gato de estimação, quem protagoniza as confusões, a historinha invariavelmente versa sobre a gulodice da garota, capaz de rivalizar apenas com a fome colossal de Aureliano Segundo Buendía em Cem Anos de Solidão. Vez ou outra, aparecem as tramas que zombam da compleição mirrada da mocinha, como aquela em que ela é transformada em bicicleta por uma bruxa que confundiu os vários sentidos de "magrela".



Magrela e comilona? Qualquer nutricionista tem o veredito na doce ponta da língua: bulimia nervosa. O processo segue uma seqüência simples: comida demais > sentimento de culpa > dedo na garganta > peso normal. Como nos quadrinhos Magali sempre come demais em uma revista e na outra já volta exibindo o mesmo peso, é de se supor que, em algum ponto entre o "Fim" de uma história e o "Magali em..." que abre outra, ela batize a porcelana com o almoço devolvido, certo? Naturalmente, somos poupados de assistir a cenas tão fortes numa revista destinada ao público infantil. Mas quem sabe na versão adolescente da Turma?

#2 – Cascão



O que ele tem: hidrofobia, ombrofobia, urticária aquagênica

Se você riu da patética tonitrofobia do garoto Nimbus, saiba que aqui a coisa é um pouco mais séria. A notória hidrofobia de Cascão - medo mórbido de água e de líquidos em geral - é a característica mais famosa do personagem e é responsável até por batizá-lo. Excetuando-se algumas histórias recentes em que é insinuado que ele lava as mãos antes das refeições (o mal do século XXI é a praga do politicamente correto), Cascão foi bem-sucedido em todas as zilhares de vezes em que precisou escapar do monóxido de dihidrogênio. Tanto os parcos pingos de goteiras de algum teto mal-cuidado quanto os homéricos temporais que desabam do céu. A causa desse medo pode ser psiquiátrica ou virótica - aí, o medo bobo seria apenas sintoma de uma raiva daquelas que fazem babar.



E não é só isso. Ele tem também tem ombrofobia, que não é o medo mórbido de levar uma ombrada durante uma partida de futebol, mas uma aversão tremenda às chuvas. Quer dizer, não basta que ele esteja seco e safo: o céu lá fora tem que estar azul, senão o garoto não sossega.

Não bastasse viver nesse constante estado de nervos, há uma crescente suspeita de que Cascão também sofra de urticária aquagênica. Trata-se de uma alergia extremamente rara em que o contato da água com a pele causa coceiras, feridas e mau-cheiro, e que não tem cura (veja, por exemplo, o caso desta pobre garota australiana). Seria o caso de imaginarmos que o menino Cascão também nasceu com essa doença e, ao ser submetido a terríveis banhos e limpezas, ficou traumatizado de forma irreversível? Isso explicaria a hidrofobia, a ombrofobia e a sujeira que ele foi obrigado a acolher, para disfarçar a enfermidade - sabemos como crianças são cruéis e que às vezes é melhor ser sujo por convicção do que cheio de perebas.
Lucas Paio http://biselho.blogspot.com
Mas se o caso de Cascão já inspira pena, o que dizer de seu melhor amigo?

#1 – Cebolinha



O que ele tem: dislalia, calvície precoce e distúrbios mentais acentuados

Chegamos, enfim, ao personagem mais dançado da Turma da Mônica. Ele mesmo, o principal detrator da suposta dona da rua, geniozinho dos planos infalíveis, todo confiante e cheio de si. Afinal, o que há de errado com esse garoto?

Em primeiro lugar, o óbvio: cinco fios na cabeça. Cinco fios solitários e espetados, e só. Ou seja: além de sofrer de estresse ou coisa que o valha, como seu colega Jeremias, ao invés de imitar o penteado de Geraldo Alckmin, que remanejava estrategicamente seus escassos fios sobre o cocuruto para preencher melhor o espaço, Cebola Filho prefere fazer de seus fios uma rosa-dos-ventos pela metade. Alguém diga pra esse cara maneirar no gel.

Em segundo lugar, temos a dislalia. Se você tem seis anos de idade e ainda fala "Lenato Lusso" e "toca Laul!", passou da hora de procurar um fonoaudiólogo. A dislalia é um distúrbio da fala caracterizado pela dificuldade em articular as palavras, e Cebolinha, ao que parece, sofre da dislalia funcional: aquela em que não há alteração física que justifique a troca de letras, e se começa a pensar em outros fatores, como alterações emocionais ou hereditariedade. De fato, uma revista antiga mostra um tataravô de Cebolinha que morreu de velho e tinha o mesmo problema. Pelo visto, seu tataraneto também vai ficar assim pla semple.

Para completar a trinca, é inevitável afirmar: o menino é pinel. É só lembrar das numerosas histórias em que Cebolinha contracena com o Louco. Você se lembra de alguma em que também aparece o Cascão, a Magali, o Jeremias? Aposto que não: o sujeito amalucado de calças rosas e cabelo loiro desgrenhado surge única e exclusivamente para o careca troca-letras. Não é preciso uma tomografia computadorizada para perceber que a figura é fruto da fértil imaginação do garoto. Distúrbios mentais acentuados? Excesso de coelhadas na cabeça? Ou será que nosso amigo anda tomando ácido e a gente não sabe?


Mas louco é quem me diz...

Mais Turma da Mônica no Biselho:

Depois da Última Coelhada - A Turma da Mônica aos 40

Desenhos exclusivos do Mauricio de Sousa

01/07/2008

Soneto sem a nona letra

Depois de um texto bem diferente
e mais um conto atípico...


Soneto sem a nona letra


Um fato patente: promessa é dever
Portanto, encaro de novo o papel
Com nova tarefa, árdua e cruel:
Apagar totalmente uma letra ao escrever

Na Roma de outrora, era número um
No alfabeto de hoje, é tão magra e delgada
Que pede em seu topo um ponto, a danada
Adorno supérfluo e bem pouco comum

Mas mesmo que ela não esteja presente
Não quero ofendê-la prematuramente
Melhor um poema que não a desmereça

Porque, se entre tantas esconde-se bem
Basta outro ângulo pra que seja também
Uma exclamação de ponta-cabeça

30/06/2008

To infinity – and beyond



Quando fui ver Toy Story nos cinemas, o primeiro longa totalmente animado em computador era só o novo filme da Disney. Claro, era totalmente animado em computador e, com exceção dos personagens humanos ainda rudimentares, tinha um visual impecável. Mas para um moleque de 11 anos acostumado a assistir todas as férias a um novo desenho da Disney, pouco importava se a aventura de Woody e Buzz fora realizada por um outro estúdio, já que seguia a bem-sucedida seqüência de sucessos da empresa do tio Walt nos anos 90.

Alguns anos depois, ignorei solenemente a estréia de Vida de Inseto nos cinemas, bem como a de seu rival temático Formiguinhaz. Os insetos que brigassem pra lá, que eu não tinha nada com aquilo. Toy Story 2 também não me interessou, gato escaldado que eu estava de seqüências oportunistas, e os seguintes Monstros S.A. e Procurando Nemo só fui conferir tardiamente em DVD.

Fui assistir Os Incríveis atraído mais pelo tema do que pelo estúdio que o produzia. Afinal, a melhor animação da década ainda era obra da Dreamworks, que colocou no mundo um ogro verde mal-educado interagindo com singelos contos de fadas. Não é à toa que Shrek tirou da Disney o primeiro Oscar de longa-metragem animado da História, batendo o igualmente monstrengo Monstros S.A. Mas a história de super-heróis com problemas humanos conquistou seu posto na minha lista de melhores de 2004, e a partir daí passei a prestar uma atenção especial ao nome Pixar, vendo ou revendo suas produções e admirando até o modo de trabalhar da empresa.

Afinal, não é qualquer escritório que preza a diversão como peça fundamental para um trabalho de primeira. Que tem salas de jogos, piscinas, quadras de vôlei e futebol de areia e promove campeonatos internos de aviões de papel. Como costuma dizer John Lasseter, um dos fundadores da empresa, quanto mais divertido para a equipe é produzir um filme, mais divertido será para o público ao assisti-lo. Tem muita gente por aí – não só na indústria cinematográfica – que devia botar isso na cabeça.


O que faz um filme da Pixar ser um filme da Pixar?

Em primeiro lugar, a história vem antes da técnica. E olha que a técnica é sempre espetacular, dos pêlos azuis no corpanzil de Sulley à textura dos pratos de Remy. Mas é a trama que justifica o filme. Se Formiguinhaz, da Dreamworls, se vangloriava dos insetos que eram a cara de seus dubladores, uma década depois isso não faz tanta diferença. Tanto que Toy Story, mesmo ostentando o título de precursor das animações 3D, é lembrado pelos personagens, não pela textura do Senhor Cabeça de Batata.

Outro ponto principal: seqüência, só se o roteiro valer a pena. Toy Story 2 é tão bom quanto o original, enquanto Shrek 3, só pra citar um exemplo, não tem metade da graça do primeiro. A Pixar também é esperta em não calcar seus filmes em paródias de outras produções (o que, convenhamos, já encheu o saco) ou em canções (coisa que a Disney faz muito bem, como em O Rei Leão, mas às vezes erra a mão sem piedade). As tradições da Pixar são muito mais interessantes, como sempre preceder um longa com um curta-metragem: uma oportunidade para revelar os novos talentos do estúdio e um aperitivo saboroso para o público antes do prato principal.

É engraçado, mas a empresa que trouxe ao mundo a animação em 3D nem mesmo usa essa técnica todas as vezes. O curta que acompanha o DVD de Ratatouille, “Your Friend The Rat”, mistura 3D com 2D e até com imagens de arquivo, enquanto WALL•E tem a ousadia de utilizar atores em carne e osso. E é inegável: enquanto os concorrentes (incluindo a Dreamworks e a Disney propriamente dita) produzem coisas excelentes, como Shrek, mas também muita porcaria (Madagascar, O Galinho Chicken Little), a filmografia da Pixar é incrivelmente mais coesa.

A saber:


Toy Story (1995), direção de John Lasseter

E se os brinquedos ganhassem vida quando ninguém estivesse olhando? A premissa simples põe na tela o cowboy Woody e o astronauta Buzz Lightyear, este último responsável pelo clássico bordão “Ao infinito... e além!” – que poderia fácil ser o lema da Pixar.

Coisas que você não sabia: cada frame do filme levou de 4 a 13 horas pra renderizar; Buzz foi batizado em homenagem a Buzz Aldrin, segundo homem a pisar na Lua.

Vida de Inseto (1998), direção de John Lasseter, co-direção de Andrew Stanton

“Um épico de minúsculas proporções”, diz o slogan do filme. Narrando a saga da formiga Flick e sua missão de salvar a colônia da opressão dos gafanhotos, Vida de Inseto traz ainda um excelente elenco de apoio que não fica só na formigaiada – pulgas, bichos-paus e até um “joaninho” macho também dão as caras e as patas.

Coisas que você não sabia: o “trem” do circo de insetos é feito de caixas de biscoitos da marca Casey Jr., o mesmo nome do trem do circo de Dumbo; o carro do Pizza Planet, de Toy Story, aparece neste filme e em todos os outros feitos pela Pixar depois.

Toy Story 2 (1999), direção de John Lasseter, co-direção de Ash Brannon e Lee Unkrich

Os papéis do primeiro filme se invertem quando Woody é roubado por um colecionador e Buzz lidera uma operação de resgate. Tão bom quanto o primeiro, ainda tem a vantagem de quatro anos de evolução técnica a mais.

Coisas que você não sabia: foi feito pra ser lançado direto em vídeo, mas as primeiras cenas ficaram tão legais que decidiram exibir no cinema; o pingüim Wheezy é um tributo ao mascote do Linux.

Monstros S.A. (2001), direção de Pete Docter, co-direção de David Silverman e Lee Unkrich

Se antes mostraram a vida secreta dos brinquedos e dos insetos, desta vez são os monstros de armário que têm o cotidiano escancarado. Ficamos sabendo, assim, que é o grito das crianças ao serem assustadas pelas criaturas que garante a energia de Monstrópolis. Um pouco subestimado por ter sido lançado na mesma época que Shrek, é, no entanto, igualmente criativo e divertido.

Coisas que você não sabia: a dubladora da menina Boo era tão pequena que era praticamente impossível que ela ficasse quieta pra gravar suas falas. Ao invés disso, eles simplesmente a seguiam com um microfone enquanto ela brincava e depois selecionavam os melhores trechos.

Procurando Nemo (2003), direção de Andrew Stanton, co-direção de Lee Unkrich

Um road-movie no mar. Procurando Nemo se passa na Grande Barreira de Corais australiana, onde um pai parte em busca de seu filho perdido; o detalhe é que os dois são peixes-palhaços. Embora não seja tão bem amarrado quanto os anteriores, o filme capricha nos coadjuvantes, como a desmemoriada Dory e as baleias que falam baleiês. Acho que esse desenho é mais preferido por mulheres, mas pode ser impressão minha.

Coisas que você não sabia: todos os peixes mostrados existem de verdade, e há uma ala especial no aquário de Sydney só com espécimes do filme; a equipe criou uma textura aquática tão realista que tiveram de piorá-la um pouco, pra que ninguém pensasse que tinha sido filmado no fundo do mar; em latim, “nemo” significa “ninguém”.

Os Incríveis (2004), direção de Brad Bird

Brad Bird, responsável pela desconhecida e excelente animação (2D) O Gigante de Ferro, faz sua estréia na direção de um longa da Pixar. E que estréia: misturando Watchmen com o Quarteto Fantástico, Bird traz os super-heróis ao mundo real em grande estilo, contando até com uma trilha de jazz à la James Bond.

Coisas que você não sabia: o vilão Síndrome originalmente ia se chamar Xerek; o nome do filme seria “Os Invencíveis”; o próprio Brad Bird dublou a estilista Edna Mode e inspirou as feições do Síndrome.

Carros (2006), direção de John Lasseter, co-direção de Joe Ranft

O mais fraco dos nove filmes da Pixar é, ainda assim, um excelente entretenimento. John Lasseter leva à animação o mundo automobilístico e a Rota 66, seguindo a linha seres-não-humanos-vivendo-em-sociedade. Se os personagens não têm tanto carisma quanto um Woody ou um Sr. Incrível, as piadas compensam, principalmente as gags visuais.

Coisas que você não sabia: Michael Schumacher faz uma ponta dublando uma Ferrari; os animadores desenharam mais de 43 mil esboços de carros; o nome do filme seria “Rota 66”, mas foi modificado para evitar confusões com a série dos anos 60 de mesmo nome.

Ratatouille (2007), direção de Brad Bird, co-direção de Jan Pinkava

Quando vi o trailer não me animei (“ah não, mais um filme de rato”), e pensei que a Pixar fosse finalmente errar a mão, depois da ligeira decepção com Carros. Graças a Deus, estava enganado. Ratatouille não é só o melhor filme da Pixar: é uma das melhores animações de todos os tempos, uma ode à arte, impecável do início ao fim, principalmente no fim. O monólogo do crítico gastronômico Anton Ego ainda me arrepia, mesmo revendo exaustivamente em DVD.

Coisas que você não sabia: centenas de pratos foram cuidadosamente preparados e fotografados para servir de referência; Linguini mora no bairro parisiense de Montmartre, o mesmo de Amélie Poulain; o ratatouille preparado por Remy é a variante conhecida como confit byaldi, caso você queira pedir ao maître num restaurante francês.

Pixar Short Films (1984-2007)

Este DVD, lançado ano passado, reúne todos os curtas produzidos pelo estúdio até 2007. O grande destaque é mesmo Luxo Jr.: a história da luminária-pai e a luminária-filho foi feita nos longínquos anos 80 e ainda impressiona, utilizando limitações (como o fundo preto) a seu favor. Alguns curtas lá do início não têm tanta graça, bem como Mater and the Ghostlight, que usa os personagens de Carros. Mas tem muita coisa boa: Red’s Dream e sua atmosfera noir, For The Birds, One Man Band... Sem falar no excelente documentário sobre a história da Pixar.


Foi com grande expectativa, portanto, que acompanhei a pré-produção de WALL•E pela internet. O primeiro teaser já era instigante: contava a história do almoço em que os fundadores da Pixar se reuniram após Toy Story para discutir os próximos filmes da empresa. Desse almoço nasceram as idéias de Vida de Inseto, Monstros S.A., Procurando Nemo e este WALL•E. Uma refeição deveras produtiva, há que se dizer.

Foi batata: o robozinho que limpava o lixo da humanidade no ano 2700 ao som de “Aquarela do Brasil” conquistou público e crítica já nos trailers. A expressão profunda que ele conseguia só no olhar, sem boca ou falas, fez chover gente que o comparava ao E.T. de Spielberg ou ao Carlitos de Charles Chaplin. Eleito o quarto lugar da minha lista de filmes mais esperados de 2008 (atrás apenas de Indiana Jones, que decepcionou, Blindness e o novo Batman, de quem espero muito), WALL•E já tinha cheiro de sucesso – e quando digo sucesso, não falo de bilheteria, mas de um filme digno de suceder Ratatouille.

Resumindo a história: assisti WALL•E duas vezes este fim-de-semana, e não me arrependo nem um pouco. É uma lição de como uma trama não precisa ser complexa para ser boa; de como um roteiro não precisa ser verborrágico para divertir ou emocionar. A ausência de diálogos na primeira metade do filme é coisa que pouco diretor hoje em dia tem coragem de fazer. Certas cenas já nascem antológicas, como a dança de WALL•E e EVA no espaço, e até os créditos finais (ao som de uma belíssima canção de Peter Gabriel, “Down to Earth”) servem à narrativa tanto quanto à arte.

Hungry for more

Depois de nove empreitadas de sucesso, o que esperar da Pixar nos próximos anos?

Muito. A Disney e a Pixar divulgaram recentemente uma lista com seus projetos até 2012, entre eles versões recauchutadas em 3D de Toy Story 1 e 2, para 2009 e 2010.

Up, direção de Pete Docter e Bob Peterson, estréia em maio de 2009

Daqui a menos de um ano veremos a história de Carl Fredricksen, que aos 78 anos decide explorar o mundo ao lado de um jovem guarda-florestal. Comparações com Dom Quixote não são totalmente infundadas.

Toy Story 3, direção de Lee Unkrich, estréia em junho de 2010

A história ainda é um mistério, mas já andam falando num Andy que vai pra faculdade e resolve doar os seus brinquedos. Partes 3 costumam ser a pior da trilogia (Homem-Aranha 3, Shrek 3, Piratas do Caribe 3, você entendeu), mas o roteiro está sendo escrito pelo roteirista de Pequena Miss Sunshine, o que é sempre um bom sinal.

Newt, direção de Gary Rydstrom, estréia na metade de 2011

O último lagartixa-de-pé-azul macho e a última lagartixa-de-pé-azul fêmea se odeiam, mas são obrigados a se reproduzir para salvar a espécie. Se precisarem de idéias para coisas para se fazer com uma colher e uma lagartixa-de-pé-azul, posso ajudar.

The Bear and the Bow, direção de Brenda Chapman, estréia no Natal de 2011

A Pixar se aventura nos contos de fada num cenário na Escócia medieval, quando a geniosa Merida, filha da nobreza, prefere se tornar arqueira a conviver com os chatos de sangue azul.

Carros 2, direção de Brad Lewis, estréia na metade de 2012

Lightning McQueen e seu parceiro Mate participam de uma nova competição, aprontando altas confusões com uma turminha de carros da pesada. De todos os projetos anunciados, é o que menos me empolga, mas mantenho a fé, que a fé não costuma falhar.

O brilhante monólogo de Anton Ego no final de Ratatouille termina com uma promessa do velho crítico: “I will be returning to Gusteau’s soon, hungry for more”. Felizmente é assim que me sinto sempre, ao me preparar para assistir um filme feito por quem é apaixonado pelo cinema. Sempre ávido por mais.

Pra você que leu até o final:

Referências de filmes da Pixar em outros filmes da Pixar

Conheça o ambiente de trabalho da Pixar

Uma entrevista com Andrew Stanton

E outra entrevista com o cara

15/06/2008

14/06/2008

08/06/2008

Univitelinos

De Pinho diz:
c viu a capa da veja dessa semana?

Lucas Paio:
nao, qual eh?

De Pinho diz:
a cara do Obama.. sempre q eu olho pra foto, eu lembro da capa daquele filme: Os Deuses devem estar loucos



Outros blogs também notaram a semelhança, mas certas verdades têm que ser divulgadas.

Quem

Lucas Paio já publicou contos em revistas e antologias, já dirigiu curtas-metragens e compôs canções, já ganhou um campeonato de aviões de papel, tocou teclado numa banda cover de Bon Jovi, morou na China e hoje vive em Berlim. É autor do romance de fantasia cômica MACADÂMIA, lançado em 2025.

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