sábado, 29 de dezembro de 2018

Top 15 discos favoritos de 2018


Em 2018, me esforcei para conhecer mais música nova e ouvi cerca de 70 discos lançados este ano. Não foram mais porque resolvi me embrenhar numas maratonas musicais que me tomaram bastante tempo: primeiro, ouvir toda a discografia dos Rolling Stones (foram quase 800 faixas em 1 mês); depois, seguir cronologicamente a lista do livro 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer (ultrapassei recentemente a marca dos 400, o resto fica pra 2019).

Neste post estão meus 15 discos favoritos do ano, que poderiam ser 20 ou 25 (ficaram de fora Dream Wife, Car Seat Headrest, Soccer Mommy, Lucy Dacus, The Spook School, Long Distance Calling, entre outros). A ordem é alfabética, porque se eu fosse rankear ficaria aqui o dia inteiro e mudaria de ideia dois minutos depois.


André Abujamra  Omindá

Um álbum ambicioso, repleto de convidados, estilos diversos e idiomas mil. Só não desbancou o Mafaro (2010) como o meu favorito do Abujamra. 

Favoritas: “Barulhinho”, “Povo Bonito”, “Real Grandeza”



Baco Exu do Blues  Bluesman

Nunca fui muito de hip hop, mas foi difícil ignorar o disco sensação do momento, seus títulos instigantes como "Me Desculpa Jay Z" e "Kanye West da Bahia", sua mistura de estilos e suas letras espertas.

Favoritas: "Bluesman", "Queima Minha Pele", "Me Desculpa Jay Z"


Courtney Barnett – Tell Me How You Really Feel

A australiana, que poderia ser uma filha perdida de Kurt Cobain e Courtney Love, fez um sucessor à altura do seu disco de estreia, Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit (2015).

Favoritas: "City Looks Pretty", "Charity", "Nameless, Faceless"


Dave Matthews Band – Come Tomorrow

Depois de seis anos de hiato, a Banda do Davi Mateus voltou com um trabalho foda, talvez o meu favorito deles desde o Before These Crowded Streets (1998).

Favoritas: "Samurai Cop (Oh Joy Begin", "That Girl Is You", "Idea of You", "Black and Blue Bird", "Come On Come On"


Dirty Projectors – Lamp Lit Prose

Riffs imprevisíveis e harmonias vocais complicadas que seguem o estilo dos ótimos Bitte Orca (2009) e Swing Lo Magellan (2012).

Favoritas: "Break-Thru", "Right Now", "That's A Lifestyle"


Eels – The Deconstruction

Rock sem firulas da banda capitaneada pelo multi-instrumentista "E", que descobri há quase uma década com o simpático Hombre Lobo (2009).

Favoritas: "The Deconstruction", "Bone Dry", "Today Is The Day"


Elza Soares – Deus É Mulher

Depois de A Mulher do Fim do Mundo (2016), Elza (já octogenária!) continua a ótima fase com seus vocais rasgados cantando letras desavergonhadas e atuais.

Favoritas: "O Que Se Cala", "Banho", "Eu Quero Comer Você"


Ezra Furman – Transangelic Exodus

Clima oitentista, boas melodias e letras raivosas e sinceras.

Favoritas: "Suck the Blood From My Wound", "I Lost My Innocence", "Driving Down to L.A."


Field Music – Open Here

Com suas flautinhas e harmonias vocais à la Crosby, Stills & Nash, se falassem que este era um disco dos anos 70 perdido num vórtex temporal e encontrado em 2018, eu acreditaria. Provavelmente está no meu top 3 deste ano.

Favoritas: "Open Here", "Time in Joy", "Share a Pillow", "Daylight Saving", "Find a Way to Keep Me"


The Go! Team – Semicircle

Pop-indie-rock feliz e com clima de verão.

Favoritas: "Mayday", "Semicircle Song", "Hey!", "All the Way Live"


Luísa Mitre – Oferenda

Música instrumental brasileira com melodias e arranjos excelentes. E não estou falando só porque é minha prima: a Folha e o Yamandu Costa também estão de acordo.

Favoritas: "A Fuga do Tatu", "Chegada", "Rodeando"


Mitski – Be the Cowboy

Este ficou em primeiro lugar na lista de melhores do ano da Pitchfork, o que me deixou meio ressabiado, já que nosso gosto não anda batendo já faz tempo. A capa e o single "Nobody" enganam, mas este é um discaço de rock.

Favoritas: "Geyser", "A Pearl", "Me and My Husband"


The Smashing Pumpkins – Shiny and Oh So Bright, Vol. 1 / LP: No Past. No Future. No Sun.

Billy Corgan e seus Abóboras Amassadas voltaram em 2018 com um disco simpático e cantável que, se não é lá muito inovador, tampouco faz feio frente aos tempos áureos da banda nos anos 90. 

Favoritas: "Solana", "Silvery Sometimes (Ghosts)", "Knights of Malta"


Tony Molina – Kill The Lights

O californiano é conhecido por suas microcanções: aqui, são dez faixas que totalizam 14 minutos, lembrando o lado B de Abbey Road e sua vibe de canções-que-acabam-quando-você-acha-que-estão-começando. As melodias, aliás, são bem beatleanianas.

Favoritas: “Jasper’s Theme”, “Now That She’s Gone”, “Look Inside Your Mind / Losin’ Touch”, “Before You Go”


Yamantaka // Sonic Titan – Dirt

Meio rock, meio prog-metal, bastante experimental e deveras interessante.

Favoritas: "Yandere", "Dark Waters", "Out of Time"


Bônus:
The Beatles - Álbum Branco - Edição especial de 50 anos

Talvez o meu disco favorito dos liverpudlianos (numa eterna disputa com Abbey Road), o Álbum Branco virou cinquentão e celebrou com uma edição especial supimpa: são 6 CDs, incluindo uma nova mixagem do disco original, as famosas Esher Demos e mais uma pá de takes, ensaios e versões alternativas. Melhor que isso só o livrão que vem junto, contendo os bastidores das gravações, minúcias de cada faixa e manuscritos originais, com correções e tudo mais.

Favoritas: o take de 10 minutos de “Revolution 1”, a versão embrionária de “Let It Be”, o primeiro take de “Hey Jude”, a versão completa de “Can You Take Me Back?” (da qual só um trechinho entrou no disco, ao final de “Cry Baby Cry”)

domingo, 16 de dezembro de 2018

Sangria Desatada, faixa a faixa


Lancei um disco.

Na verdade não é bem um diiiiisco, um álbum inteiro, e sim um EP (S.m., do inglês Extended Play. Uma gravação musical longa demais para ser considerada um single e curta demais para ser classificada como um álbum; geralmente possui de 4 a 6 faixas). Já fazia um bom tempo que eu queria gravar algumas composições próprias: nos últimos 10 anos, as únicas músicas que registrei sonoramente tinham sido o single "Pequena Morsa / Festa Junina em Banheiro" (2009), com minha banda ABUNN, e a música-tema do curta A Menina Que Comia Música (2015).


Em 2018 resolvi criar vergonha na cara e tirar algumas canções da famigerada gaveta de projetos inacabados. Primeiro gravei demos caseiras, que mandei pros amigos em busca de feedbacks. A intenção era achar um estúdio e gravar tudo em esquema voz e violão, simplezão mesmo. Mas aí, através de um amigo, conheci o Connor, um músico australiano que também mora em Berlim e não só se dispôs a gravar e mixar as 5 músicas, como também ofereceu seus talentos de multi-instrumentista e tocou de tudo, incluindo bateria, baixo, guitarra, piano e percussão.

Foram 4 sessões, espalhadas ao longo do verão europeu, num estudiozinho no bairro de Neukölln que o Connor e sua banda, o Furious Few, usava para ensaiar até poucos meses atrás, quando tiveram que ceder às reclamações da dona do lugar ("Vocês são muito barulhentos!") e encontrar um estúdio novo.

O nome do disco deu um trabalho do cão: aporrinhei inúmeros amigos com intermináveis brainstorms, eliminei opções como "Eu Nunca", "Molho de Tomate", "Lascado", "Pé na Jaca", "Sem Vergonha", "Quiproquó", "Mais Pra Lá Do Que Pra Cá" e tantas outras, e no fim das contas escolhi Sangria Desatada, que evoca vários temas retratados nas letras do disco, incluindo situações problemáticas ou desesperadas, sangue (doença, hipocondria), bebidas alcóolicas e a cor vermelha, que tinge o entomatado clipe de "Amor Hermético" e também a capa do disco, feita pelos meus chapas Cauê Ferraz (foto) e Daniel de Pinho (layout).

Faixa a faixa, estas são as canções do Sangria Desatada:

1- Samba do Milagre



Lucas Paio: voz, violão, percussão
Connor Fitzgerald: baixo, bateria, percussão
Elissa de Brito e Cauê Ferraz: backing vocals
Gravada em 15 de julho (música toda) e 23 de agosto de 2018 (backing vocals)

Minha amiga Isabella Brandão, doravante apenas Bella, tem um dedo em várias canções deste EP, a começar pela faixa de abertura. Em 2011, quando eu morava na China, tivemos a ideia de um sambinha onde o eu-lírico era um bebum apelando para a religião pra tentar achar o caminho de casa. Acabou virando uma das músicas próprias que eu sempre tocava pelos bares de Beijing.

A gravação contou com os backing vocals de dois brasileiros, a Elissa (mais sobre ela daqui a pouco) e o Cauê, amigo dos tempos da China que pintou em Berlim de supetão e foi logo recrutado para uma porção de tarefas neste disco, incluindo fotografar a capa, ajudar no clipe e emprestar sua voz aos refrões dos dois sambinhas.

2- Amor Hermético



Lucas Paio: voz, violão
Connor Fitzgerald: guitarra, baixo, bateria
Gravada em 27 de junho de 2018

Encerrei o ano passado com uma resolução audaz para 2018: escrever uma música por semana. Tinha tudo pra dar errado. E deu. Mas o começo do ano foi até razoável — compus duas novas canções em janeiro e ambas entraram no EP.

"Amor Hermético" foi a primeira delas, a história de um amor malvisto com menções a filmes incompreensíveis, músicas experimentais e artes bizarras (algumas referências ficaram pelo caminho; não consegui encaixar o verso "É que nem Donnie Darko e aquele coelho", por exemplo).

Acabou virando o primeiro clipe do Sangria Desatada: quando mostrei a demo para umas amigas brasileiras, uma topou atuar (a Fernanda Valdivieso, que tem um perfil no Instagram que você precisa seguir) e a outra pra dirigir (a Elissa de Brito, que já tinha feito um clipe foda para uma amiga nossa em comum, Mariana Bahia). Num brainstorm regado a cervejas, nós três chegamos ao conceito dos tomates como símbolo das críticas alheias, e numa bela segunda-feira de agosto filmamos mais de 1h30min de material: a Fernanda estrelou junto com o americano Evan Harris Foster, a Elissa filmou junto com nosso amigo Flávio Amieiro, e o Cauê também ajudou pacas, inclusive filmando a cena final (em que apareço junto com a Elissa e o Flávio). Passei alguns semanas editando, Elissa e Flávio fizeram a correção de cores e lançamos o clipe mundialmente no YouTube no dia 14 de novembro.

Não viu ainda? Pois veja:



3- Débora



Lucas Paio: voz, violão, guitarra, palmas
Connor Fitzgerald: guitarra, baixo, palmas, percussão, backing vocals, piano
Spike Rogers: bateria, percussão
Gravada em 4 de junho de 2018

A origem dessa música remonta ao longínquo ano de 2006, quando Orkut e MSN ainda reinavam absolutos. Papeando pelas internets com a Bella, ela contou que tinha uma amiga, a Débora, que reclamava por não haver nenhuma música com seu nome porque nada rimava com "Débora". Encarei isso como um desafio pessoal e, embora fosse realmente impossível encontrar o diacho da rima, acabei fazendo um poeminha justamente sobre isso. Levou apenas 12 anos para que os versinhos, agora musicados, ganhassem uma gravação.

"Débora" foi a primeira faixa a ser registrada para o EP, e a única feita de maneira mais "convencional", com três caras tocando violão, baixo e bateria ao mesmo tempo. Além do Connor, a música contou com a participação do também australiano Spike Rogers (colega do Connor no Furious Few) na bateria. Depois de gravarmos a base, fomos adicionando os outros pedaços separadamente, incluindo pandeiro meia-lua e outros objetos percussivos, um solinho de guitarra (valeu Mariana Bahia por emprestar a sua!), palmas, assovios e lalalás.

4- Cantiga do Armagedom


Lucas Paio: voz, violão
Connor Fitzgerald: baixo, bateria
Gravada em 15 de julho (violão + bateria) e 23 de agosto de 2018 (o resto)

Eu já tinha a melodia e a harmonia há muito tempo. Entre as várias tentativas de colocar letra, muitas de quando eu ainda morava no Brasil, havia uma praiana e melancólica...

Não tem mais ninguém no mar
Guardaram todos os guarda-sóis
Ninguém mais corre na areia
E da praia cheia só sobramos nós

...e outra com um protagonista no leito de morte:

Já me deito
Nesse leito
Pensando em outros carnavais

Nem aqui
Na UTI
Escapo de desejos tais

Não consegui ir adiante com nenhuma dessas versões; um dia pensei em escrever sobre o fim do mundo e a coisa fluiu. Isso em 2011, numa época em que "calendário maia" ainda fazia parte do vocabulário popular e o apocalipse estava logo ali na esquina, chegando implacavalmente no dia 21 de dezembro de 2012.

(Fato avulso: perdi a final da Copa da Rússia por causa de "Cantiga do Armagedom". Aconteceu foi que marquei o estúdio com semanas de antecedência e simplesmente esqueci que a final seria no dia 15 de julho. Quando saí do estúdio já estava 2x1 pra França. Fui correndo pra casa de uma amiga ver o finalzinho, mas o placar já tinha ido pra 4x2 quando cheguei e a partida terminou assim. Só deu tempo de ver o Putin protegido da chuva por um segurança enquanto os presidentes da França e da Croácia, ao seu lado, se ensopavam todos.)

5- Será Que Eu Tô Morrendo?



Lucas Paio: voz, violão
Connor Fitzgerald: baixo, bateria, percussão, órgão, piano
Elissa de Brito e Cauê Ferraz: backing vocals
Gravada em 23 de agosto de 2018

Num período especialmente hipocondríaco da minha vida, no início deste ano, fiz uma canção tirando sarro de minhas próprias preocupações coma ajuda da Bella, óia ela aí de novo. Numa conversa virtual, não mais no MSN mas agora no WhatsApp, ela sugeriu um refrão ("A mão latejando / A perna tremendo / Será que tô morrendo?") que deu origem a mais um sambinha, cuja gravação também contou com os amigos Cauê e Elissa cantando o refrão comigo. O Connor ainda adicionou, na casa dele, um órgão de igreja na parte do "A única solução / É a extrema unção" e uns pianinhos espertos no final.

Não ouviu o disco ainda? Pois ouve lá no Spotify!

Não tem Spotify? Tente o Deezer, Apple Music, Google Play...

domingo, 26 de novembro de 2017

Fiz um teste de DNA e confirmei que sou uma salada genética


Funciona assim: você encomenda um kit online, que vem com dois cotonetes gigantes, dois tubinhos e um envelope de plástico com um rótulo inquietante, “RISCO BIOLÓGICO”. Antes de fazer o teste, você precisa ficar pelo menos meia hora sem beber, comer, fumar ou mascar chiclete. Daí você passa um dos cotonetões por dentro da bochecha direita durante 1 minuto e coloca a ponta do bastão cheio de baba num dos tubinhos. Repete o processo, agora juntando saliva da bochecha esquerda, e coloca no outro tubinho. Põe tudo no envelope e manda de volta para o laboratório, que fica em Houston. Depois é só aguardar algumas semanas e eles te mandam um e-mail detalhando a quais etnias o seu DNA pertence e qual a porcentagem de cada uma na sua composição genética.


Esses exames são controversos e muita gente diz que não passam de especulação. Afinal, eles analisam apenas uma fração do DNA e a maioria dos laboratórios carece de dados mais completos sobre populações mais inacessíveis (por exemplo, indígenas amazônicos ou aborígenes australianos). Os próprios sites que oferecem o serviço reconhecem que os resultados são estimativas, e que algumas populações exibem DNA semelhante por conta da proximidade e a mistura de populações.

De qualquer forma, eu queria fazer o teste por pura curiosidade. Alguns amigos já tinham feito: uma colega japonesa, por exemplo, “descobriu” que é 97% japonesa, 2% coreana e 1% chinesa; um outro, da Lituânia, tem 94% de seu DNA vindo do Leste Europeu. Eu sei que tive dois bisavós libaneses, um bisavô italiano (do Vêneto, nordeste do país), uma bisavó alemã (de Magdeburgo) e mais uma porção de antepassados do sul da Europa. Queria ver como essa mistureba apareceria num exame desses. Aí aproveitei que o site MyHeritage estava em promoção e encomendei meu kit.

Mas o meu resultado, que chegou esta semana, mostrou nada menos que 8 etnias vindas de 3 continentes – algumas esperadas, outras francamente meio disparatadas. Vamos a elas:

41,7% italiano
Faz sentido. Herdei o sobrenome “Paio” do meu avô paterno, italiano; meu pai já traçou sua árvore genealógica e descobriu primos distantes que ainda moram no Vêneto, e há sangue italiano também na família da minha avó paterna. Siamo tutti italiani.

5,9% ibérico
Essa parte cobre Espanha e Portugal – é uma região pequena para isolar com mais precisão –, mas a minha parcela deve vir mesmo da terra de Cabral, como tantos outros brazucas.

8,1% do Oriente Médio + 5,9% do oeste asiático
Meu nariz e minha monocelha já não me deixavam mentir, e agora o DNA confirma meus genes árabes. Coloquei as duas porcentagens juntas porque, se você olhar no site do MyHeritage, essas duas regiões se sobrepõem com uma pá de países em comum, incluindo o Líbano, de onde vem metade da família da minha mãe.

8,3% norte-africano
A região é imensa e abrange do Marrocos (que fica a um pulo da Península Ibérica) ao Egito (perto do Oriente Médio e do Líbano). Sem falar que os mouros, que vieram exatamente dessa parte do mundo, ocuparam Portugal por séculos a fio.

0,9% somali
Todo Homo sapiens tem um antepassado distante que veio do leste africano, mas parece que o meu é relativamente mais recente: talvez um hexavô ou hexavó da Somália – que, se você olhar no mapa, também não fica muito longe do Oriente Médio.

3,1% judeu asquenazita
Diz o site: “os asquenazes são uma diáspora judaica europeia que remetem suas origens comunais à Alemanha e França e mais tarde à migração ao leste em direção à Polônia e aos países eslavos”. Suspeito que uma parte dos meus genes alemães – dos quais, teoricamente, eu teria 12,5% (por conta da bisa) –, vem daí.

26% escandinavo
Esse é o mais bizarro, e talvez um motivo pra achar que esse troço é furada. Não tenho traços escandinavos e nenhum parente nórdico conhecido, quanto mais um avô inteiro. Mas sei lá: dinamarqueses e suecos também são povos germânicos, e no mapa do MyHeritage, “escandinavo” abrange também o norte da Alemanha.

Notoriamente ausente da minha composição genética está... o Brasil. Mas se não é assim tão estranho eu não ter sequer 0,1% de índio no DNA, fica ainda mais difícil aparecer um tupi ou guarani como meu antepassado se você considerar que os dados existentes para as populações indígenas de todas as Américas são bem escassos: para o Brasil, por exemplo, o MyHeritage só considera “indígena amazônico” e “centro-americano”.


Há ainda os exames de DNA que revelam quais doenças você está propenso a ter, mas esses eu não faço nem a pau: imagina descobrir, por exemplo, que tenho uma predisposição acima da média ao Alzheimer? Vou ficar paranoico na primeira vez que esquecer onde coloquei a chave.

Melhor ficar na informação de que sou apenas um rapaz ítalo-íbero-árabe-africano, com parentes escandinavos e somalis e vindo da capital de Minas. Porque, acima de tudo, o sotaque não deixa negar: sou 100% mineiro.

domingo, 9 de julho de 2017

ABUNN - Ao Vivo em Barbacena


Em abril de 2013, o ABUNN, minha banda de rock autoral que data dos tempos de Ensino Médio, retornou do limbo para um show de reunião em Barbacena.

Por que cazzo Barbacena, se a banda era de BH e na época eu morava na China havia mais de três anos?

Porque o Bruno, meu primo e nosso baixista, estava se casando na famosa Cidade das Rosas (ou dos Loucos), a banda Vil Metal traria música e diversão para os convivas e seria um desperdício ter ali bateria, amplificadores, microfones, cabos, gelo seco e gente bêbada e não reunir o saudoso ABUNN para um mal-ensaiado pocket show.

Se em nossa reunião anterior, em 2010, éramos seis no palquinho diminuto do Garage D'Caza — incluindo dois guitarristas e uma tecladista —, por motivos diversos acabamos sendo apenas um power trio no palco enorme do salão de festas em Barbacena, remontando aos primórdios da banda, antes da entrada do Rafa (hoje interestadualmente famoso como o Dave Grohl brasileiro) na guitarra solo.

Por conta disso, nosso repertório acabou reduzido às nossas canções mais simples lá do início, que não traziam ainda solos de furadeira, tecladinhos de bolero ou onze minutos de duração. As escolhidas foram "?" (pronuncia-se "Interrogação", embora o tecnicamente correto fosse "Ponto de Interrogação") e "Piano Alemão", uma favorita do nosso público de outrora.

Para não ficar só no repertório próprio que a maioria dos presentes ouviria com cara de hã?, botamos no meio umas covers que, na verdade, tampouco eram exatamente indicadas a um público de todas as idades: "She, do Green Day, e "O Pão da Minha Prima", dos Raimundos. Sei lá porque lhufas escolhemos essas. Não lembro sequer de termos ensaiado essas duas nos quinze anos de banda, que dirá tocado ao vivo. Provavelmente devemos ter pensado uns cinco segundos no que seria fácil de tocar só com guitarra, baixo e bateria, e punk rock dos anos 90 veio à cabeça primeiro — não dá pra ser muito ambicioso tendo duas horas pra ensaiar cinco músicas após 3 anos de habilidades musicais enferrujadas.

Subimos ao palco à uma da manhã, todos já devidamente etilizados, e entregamos um show cheio de erros e desafinações, mas nos divertimos à beça. Tivemos os backing vocals da noiva Nicole, que ficou no palco após jogar o buquê, e rolou até um tiozão dançarino roubando a cena durante "Johnny B. Goode", que sempre animava a galera nos nossos tempos de Matriz e A Obra. Pediram bis e o que podíamos fazer? Não tínhamos nenhuma outra música ensaiada, mas ligamos o foda-se e mandamos  no improviso "My Generation", que sempre usávamos para apresentar a banda. Foi o último show do ABUNN até agora, mas qualquer dia desses, as condições térmicas, meterológicas e cósmicas permitindo, hemos de lograr mais um show de reunião.

E agora, quatro anos depois, finalmente joguei no iutube o registro multicâmera do concerto, sem dúvida alguma o vídeo de melhor qualidade audiovisual que temos da banda em todos os nossos 17 anos de história. Se você tiver uns vinte minutos sem nada pra fazer, bisóia aí:



domingo, 21 de maio de 2017

Revenge of the Corks - uma animação stop-motion



Foram meses de preparação, 9 dias de filmagem, mais de 2.300 fotos tiradas, outros tantos meses de edição, participação em quatro festivais (nos EUA, Itália, Espanha e Brasil) e muita enrolação pra postá-lo online, mas meu curta em stop-motion Revenge of the Corks está finalmente na rede mundial dos computadores:



segunda-feira, 17 de abril de 2017

Uma overdose de Beatles em Liverpool — Parte 2



"Hi, are you Lucas? I'm Roag", cumprimentou-me o cabeludo cinquentão de jaqueta jeans, saindo do carro. Eu estava em Hayman's Green, ruazinha numa área bem residencial de Liverpool, no jardim da casa da mãe dele. Não pra tomar chá da tarde ou algo que o valha, mas pra continuar minha peregrinação beatlemaníaca por Liverpool, que já tinha me levado a Penny Lane, Strawberry Field, Cavern Club e outros destinos ilustres. Agora eu vinha conhecer o estabelecimento que, há 60 anos, fica no subsolo daquela casa suburbana: o Casbah Coffee Club. E ao cumprimentar o Roag, que seria meu guia, eu estava conhecendo nada menos que o irmão de um ex-beatle.



Quem fundou o Casbah foi a mãe de Roag, Mona Best, que em 1959 quis surfar na onda roquenrôu e juntar a molecada pra curtir música ao vivo no porão da própria casa. A banda que ela arrumou pra tocar ali, uns tais de Quarrymen, mudaria seu nome pouco depois para The Beatles. O filho adolescente de Mona, Pete Best, seria o batera da banda de John, Paul e George por dois anos até levar um pé na bunda em 1962 pra dar lugar a Ringo Starr. Foi no mesmo ano que Mona fechou o bar e em que Roag, filho dela com Neil Aspinall (então roadie dos Beatles e futuro presidente da Apple Corps, a empresa que o grupo fundou nos anos 60), nasceu. Dava pra ver que eu estava ali em família.



Enquanto o Cavern Club recebe uma horda de fãs e turistas todos os dias, o Casbah — que reabriu para visitas há uns dez anos — não tem nem metade da fama. É uma pena, porque a visita é um barato; por outro lado, a falta de muvuca torna tudo mais exclusivo e intimista: naquela ensolarada segunda-feira havia apenas eu e mais um casal para conhecer o lugar. Roag é um guia entusiástico e reconta com bom humor aquelas histórias de família que cresceu ouvindo  — tanto é que já escreveu um livro sobre o Casbah e tem outro sobre seu pai em pré-produção. Não falta veneno contra o Cavern, que costuma levar as glórias como "o bar onde os Beatles começaram" ("Tenho aqui esta citação do Paul numa entrevista que fiz com ele, dizendo que o Casbah foi onde realmente começaram", mostra ele, orgulhoso) mas que, como contei na primeira parte deste post, é hoje uma réplica (bem divertida) do Cavern original.

O Casbah, em contrapartida, foi preservado igualzinho como era, o que inclui pinturas nos tetos e nas paredes feitas por ninguém menos que John, Paul e George, praticamente forçados por dona Mona Best a ajudar na decoração. Aí você vê um padrão "meio asteca" feito por John em um dos cômodos; faixas multicoloridas pintadas por Paul sobre o palquinho original; uma pintura laranja nada inspirada de autoria de George; uma teia de aranha gigante feita por Pete; e estrelas coladas por John num teto que, hoje, está avaliado em 1 milhão de libras. Vai colar estrela no teto procê ver se alguém vai dar valor.



Ainda menos mencionado nessas listas de "lugares beatles em Liverpool", mas que os fãs mais dedicados certamente já ouviram falar, é o pub Jacaranda — sem acento mesmo, tônica no "rân" e não no "dá". Logo quando você entra já vê na parede fotos antigas de John, Paul, George e Stuart, o baixista que morreu tragicamente em 1961 após abadonar a música pra ficar com sua amada em Hamburgo. No quadro de avisos, entre promoções e drinques do dia, a frase "The BEATLES WerE HERE". E estiveram mesmo: de início apenas frequentadores e tomadores de cerveja, os garotos começaram a ensaiar e depois a se apresentar ao vivo ali no "Jac", onde eram pagos com coca-cola e torradas. Aliás o dono do bar, Alan Williams (que morreu recentemente), viria a ser o primeiro empresário dos Beatles.

Fechado e reaberto trocentas vezes, o Jac tem essas homenagens bítous aqui e ali, mas não vive disso como outros lugares em Liverpool. Hoje são três andares: um porão, que tem um mural pintado por John e Stuart; o andar da rua, pub classicão servindo chope; e o andar de cima, onde funciona uma loja de discos especializada em anos 60 e 70 (topei até com uns vinis tropicalistas).

E vira e mexe rola música ao vivo, inclusive noites de open mic onde qualquer um pode subir lá, dedilhar um violão e cantarolar uma canção. Rolou um na minha primeira noite em Liverpool, com músicos locais se revezando entre músicas lentas, clássicos folk e inusitadas canções originais. E rolou de novo na minha última noite, um domingão, quando pintei por lá novamente para uma cerveja de despedida e perguntei na cara-de-pau se podia usar o violão do apresentador (ele me emprestou na boa). Cheguei na frente da plateia cem-por-cento desconhecida e escolhi mandar uma enérgica canção dos Beatles brasileiros, Os Mutantes. E a inglesada lá, tentando entender que cazzo era aquele de "Sabotagem! Eu quero que você se… top top top uh!".



Entre os passeios turísticos, talvez o melhor que fiz nessa viagem foi a visita a dois endereços nos subúrbios liverpudlianos: 20 Forthlin Road e 251 Menlove Avenue. Foram nessas duas casas, respectivamente, que cresceram Paul McCartney e John Lennon. Hoje elas pertencem ao National Trust, que reconstruiu os interiores exatamente como se fossem do final dos anos 50, início dos 60. O Magical Mystery Tour passa ali na porta, mas pra entrar é preciso reservar separadamente e, de preferência, com semanas de antecedência, já que só aceitam umas dez pessoas por visita.

A casa na Menlove Avenue, mais conhecida como Mendips (sua casa tem nome? a minha não), pertencia à tia Mimi, aquela que disse pro sobrinho que "esse negócio de tocar violão é muito bonito e coisa e tal, mas você nunca vai ganhar dinheiro com esse troço". A visita, guiada por um senhorzinho simpático que toma conta da casa, começa pela porta de trás — Mimi, conta ele, reservava a da frente apenas aos convidados de alta importância, que obviamente não incluíam os pirralhos Paul e George quando vinham visitar o John depois da escola. Dali conhecemos a cozinha, cheia de objetos da época; a sala de estar, repleta de livros que fizeram a cabeça do menino John; seu quarto, com discos de rock'n'roll e desenhos que ele fez; e por aí vai, tudo com uma porção de fotos e histórias sobre aqueles tempos.


Já na Forthlin Road, número 20, fica a casa onde Paul McCartney morou por anos a fio com o pai Jim e o irmão Mike (a mãe, Mary, morreu de câncer no ano em que a família se mudou pra lá). Começamos na sala de estar, que não é uma sala qualquer: foi dali que saíram "Love Me Do", "I Saw Her Standing There" e outros futuros sucessos; as fotos nas paredes, inclusive, mostram John e Paul com guitarras a tiracolo, sentados naquele mesmo chão e rascunhando aquelas canções. O piano não é exatamente aquele no qual Paul compôs a melodia de "When I'm 64" (esse fica hoje com o próprio Paul), mas é um modelo bem parecido. E os outros cômodos da casa são igualmente interessantes: a antiga sala de jantar, que virou quarto de ensaios e berço de "She Loves You"; o quarto de Paul e Mike; a cozinha; o jardim com uma calha onde Paul se pendurava pra fazer zoeira. Assim como em Mendips, a maioria dos objetos em si não são originais da casa, porque afinal pra que guardariam móveis e tralhas ao se mudarem dali no auge da beatlemania? Mas a reconstrução é tão bem feita que a sensação é de se estar viajando no tempo, pisando numa casa de sessenta anos atrás.



No final, a guia (que era a esposa do senhorzinho de Mendips) disse que, se alguém quisesse se sentar ao piano e tocar uma música dos Beatles, que ficasse à vontade. E eu ia lá perder essa chance? Abri o piano — que pode não ser o original, mas isso também não impediu Elvis Costello, James Taylor e outros visitantes famosos de tocarem —, forcei a memória muscular e arranhei a introdução de "Martha My Dear", aquela que Paul compôs em homenagem à sua felpuda sheepdog. E depois de conhecer o irmão de um ex-beatle, tocar Mutantes num bar onde os Beatles começaram, curtir um roquenrôu no Cavern Club e tocar piano na casa do Paul, fui embora de Liverpool satisfeito e feliz.

domingo, 2 de abril de 2017

Uma overdose de Beatles em Liverpool — Parte 1


Assim que você passa pela imigração, uma plaquinha dá as boas-vindas: "Welcome to Liverpool John Lennon Airport - Above us only sky". A logomarca é famoso o auto-retrato de John que estampa o pôster do documentário Imagine e inúmeras camisetas por aí. O irônico é saber que, quando adolescente, ele trabalhou como empacotador de sanduíches nesse mesmo aeroporto e costumava cuspir nos lanches da galera. Hoje o aeroporto leva seu nome, e espero que tenham melhorado os padrões de contratação.

Aproveitei uns dias de folga do trabalho pra fazer uma viagem que há tempos tinha em mente. Afinal, depois de atravessar na faixa em Abbey Road e tomar cerveja nos bares onde os Beatles tocavam por horas a fio (e enchiam a cara) em Hamburgo, me faltava uma visita à cidade natal dos caras. A ideia original era ir comparecer à International Beatle Week, que acontece anualmente em agosto e leva centenas de bandas cover a Liverpool, mas março também foi uma boa pedida: passagem e acomodação mais baratas, menos multidões se acotovelando no Cavern Club, e ainda tive sorte de pegar sol e céu todos os dias, o que para a Inglaterra é quase um milagre.


Liverpool explora sua história musical, especialmente a de seus filhos mais famosos, quase à exaustão. Já do ônibus para o centro da cidade você já encontra referências pra todo lado, de um enorme submarino amarelo no meio da rua até um condomínio chamado Imagine Park. Pra quem prefere Molejo, a cidade também oferece um punhado de atrativos não-beatles no cardápio, sejam museus, passeios de barco ou pints de Guinness pelos pubs da vida. Mas pra quem curte os Beatles, dos fãs ocasionais aos hardcore, Liverpool é o lugar para entender como aqueles moleques de classe média-baixa se tornaram o maior fenômeno musical do século 20 e curtir algumas das canções mais famosas do mundo nos próprios locais onde elas nasceram.


O ponto de partida ideal é o museu Beatles Story, localizado na área portuária de Liverpool, à beira do rio Mersey. A visita começa lá no comecinho, com a febre do skiffle que tomou os adolescentes ingleses dos anos 50 — era uma música meio country, meio rock, com um estilo simples ideal para jovens músicos que não sabiam tocar lhufas. Entre os objetos expostos, há o primeiro violão de George Harrison e os instrumentos toscos que os Quarrymen tocavam em seus primeiros shows, incluindo um washboard (tábua de lavar usada como percussão) e um tea-chest bass (baixo feito com um caixote de madeira, uma corda e um pedaço de pau). 


Cada sala do Beatles Story reproduz um ambiente importante da história do quarteto: os inferninhos de Hamburgo, onde eles tocavam dez horas por noite; a loja de disco NEMS, onde garimpavam novos discos e cujo dono era Brian Epstein, futuro empresário da banda; o estúdio Abbey Road, onde gravaram sua discografia sob a batuta de George Martin; e uma réplica em tamanho real do Cavern Club, onde fizeram quase 300 shows.

Há traquitanas e bugigangas mil, de perucas e bonequinhos de gosto duvidoso até abotoadores (!) com a cara dos Beatles. Você vê de perto um Mellotron, espécie de teclado responsável por timbres famosos como a introdução de "Strawberry Fields Forever"; sobe a bordo de um Yellow Submarine; vê uma reconstrução gigante da capa de Sgt. Pepper's; o túmulo de Eleanor Rigby usado no clipe de "Free As a Bird"; uma sala branca com piano branco e oclinhos redondos em cima, homenageando Lennon; e quatro cabines que detalham as carreiras solo dos quatro. Já os podres da carreira da banda, como as brigas, as drogas e as demissões, são solenemente ignorados — é um museu oficial, afinal de contas. Mas mesmo sem parar pra ler cada texto e ouvir cada faixa do audioguia, dá pra passar umas três horas lá dentro e ainda sair querendo mais. 


A segunda parte do Beatles Story, que fica em outro prédio a dez minutos do primeiro, traz exibições temporárias, e a atual é sobre a Invasão Britânica — quando Beatles, Stones, The Who, Kinks e outros grupos ingleses conquistaram o planeta nos anos 60. É interessante, mas como trata de artistas variados, a coisa é menos aprofundada e mais corrida. O British Music Experience, um museu que abriu ali perto há poucas semanas e percorre a história da música pop britânica até os dias de hoje, padece do mesmo problema. Há umas roupas de David Bowie aqui, umas letras manuscritas do Queen ali, uns bonequinhos das Spice Girls acolá; é legal como um passeio descompromissado, mas não espere muito mais que isso. O ponto alto foi poder tocar guitarra em réplicas daquelas que Eric Clapton, David Gilmour e outros usavam para dedilhar seus riffs.

As obrigatórias lojinhas de souvenir encerram a visita de cada um desses museus, e as do Beatles Story são especialmente perigosas: entre camisetas, chaveiros, canecas, canetas, sacolas, bonés, almofadas, baquetas, alças de guitarra, bonequinhos, porta-copos, livros, songbooks e óculos de John Lennon em todas as cores, é difícil sair dali de mãos abanando. Mas novamente, tudo tende a ser oficialzão e não lá muito criativo. A maioria das camisetas, por exemplo, reproduz capas de discos, quando tantas estampas bacanas poderiam ser criadas com referências menos óbvias: eu compraria fácil uma camisa com a cara da sheepdog Martha ou que ilustrasse versos enigmáticos como "Elementary penguin singing Hare Krishna", por exemplo. Fica a sugestão.

Shake it up, baby


O centro de Liverpool é bem compacto e muitas ruas são exclusivas para pedestres. É provavelmente o lugar do mundo com mais menções aos Beatles por metro quadrado: Rubber Soul Bar de um lado, Lennon's Bar do outro, Hard Day's Night Hotel virando a esquina, estátua solitária da Eleanor Rigby num banco de praça. Músicos de rua tocam Beatles o tempo todo e os pubs colocam plaquinhas do tipo "Aqui os Beatles tomavam cerveja antes de tocar no Cavern", cada um querendo destacar o seu papel, ainda que dos mais triviais, na história da música. 

De noite o lugar ferve. Principalmente a Matthew Street, onde fica o Cavern Club — mas aqui faz-se necessário um breve panorama histórico. O Cavern original, originalmente um bar de jazz nos subterrâneos de Liverpool que acabou virando o centro do "Merseybeat" e ponto de encontro dos primeiros beatlemaníacos que vinham ver o quarteto ao vivo, já não existe mais há um bom tempo. Após fechar as portas nos anos 70, foi completamente soterrado quando o prédio em cima foi demolido. O novo Cavern, aberto nos anos 80, é uma reconstrução do original e fica do outro lado da rua, com um design bem parecido, mas não idêntico; é por isso que a réplica do Cavern no Beatles Story parece ser uma versão mais próxima do bar de outrora. Mas o que falta em autenticidade no novo Cavern sobra em sua atmosfera: é só descer dois lances de escada pra curtir música ao vivo a qualquer hora da tarde ou da noite, uma banda atrás da outra, no corredor comprido que culmina no palquinho de fundo multicolorido.


Mas o melhor show que vi no Cavern não foi bem naquele palquinho, e sim numa área extra que fica nos fundos, chamada Cavern Live Lounge. Foi ali que Paul McCartney se apresentou em 1999, naquele show famoso que passava sempre na MTV, com David Gilmour e Ian Paice como músicos de apoio. E vira e mexe pinta uma nova celebridade por ali: a Adele, por exemplo, cantou no Live Lounge em 2011. Há mais espaço para banda e público, mas ainda é um lugar diminuto que só comporta umas trezentas pessoas. O show que vi não teve ninguém ilustre, mas uma competente banda cover chamada The Cavern Beatles, que conta até com um Paul canhoto. O primeiro set trouxe as músicas mais óbvias da fase ieieiê, muitas das quais provavelmente são ouvidas no Cavern todo santo dia, tipo "I Saw Her Standing There". A segunda parte passeou por canções mais complicadas ou mesmo lado B, incluindo algumas que nunca imaginei ver ao vivo, como "A Day in the Life" e "Lovely Rita" (dedicada a uma Rita na plateia que comemorava seus 82 anos). Trezentas pessoas cantando junto, um palco famoso e uma Guinness na mão: difícil achar um programa melhor pra sexta à noite em Liverpool.


Beneath the blue suburban skies


Fechando o roteiro das atrações mais comuns, embarquei no dia seguinte no Magical Mystery Tour, um passeio pelos "lugares beatles" mais famosos de Liverpool. O ônibus, claro, é pintado exatamente como no filme tresloucado de 1967, mas a viagem não é lá muito psicodélica: os passageiros são todos bem família e o guia é um senhorzinho simpático que cresceu em Liverpool (e, fato avulso, é irmão do vocalista do Frankie Goes To Hollywood). Sob o céu azul dos subúrbios, percorremos ruas e casas onde os quatro moraram, pontos citados em canções e locais importantes da história da banda, como a igreja onde Paul conheceu John em 1957 (não, eles não estavam rezando; John tocava com os Quarrymen, bêbado inclusive, e Paul foi lá exibir seus dotes de guitarra). Mas é um passeio meio turistão mesmo, tanto é que só descemos do ônibus quatro vezes. Uma foi pra ver a fachada da casa onde George nasceu; outra pra conferir a casa onde Paul cresceu (que é aberta para visitação, mas com agendamento prévio, e esse tour não cobre); e finalmente, para os cliques obrigatórios nos locais que inspiraram "Penny Lane" e "Strawberry Fields Forever".


Penny Lane é uma rua larga como qualquer outra, mas foi nos pequenos detalhes que Paul buscou inspiração para a letra da música — e muita coisa continua lá, como a barberia ("…there is a barber showing photographs / Of every head he's had the pleasure to know") e o corpo de bombeiros ("In Penny Lane there is a fireman with an hourglass"). Alguns estabelecimentos não perdem a chance de fazer uma alusão, como a lojinha "open 8 days a week" e um certo Sgt. Pepper Bistro, que funciona, não por acaso, no abrigo que fica no meio de uma rotatória ("Behind the shelter in the middle of the roundabout"). Já Strawberry Field era um orfanato onde o pequeno John ia brincar com a molecada; hoje é só um portão vermelho em frente a um lote que é puro matagal, rabiscado por zilhões de fãs com coisas como "Beatles Forever" ou "Paul is Dead". 

O Magical Mystery Tour é indicado se seu tempo for escasso, já que visitar esses pontos todos por conta própria requer inúmeras andanças e baldeações. Há uma alternativa mais salgada — que acaba saindo até mais em conta se você estiver num grupo de três ou quatro — que é fazer o passeio de táxi com um guia especializado. Daí dá pra descer onde você quiser, sem ficar competindo com quarenta pessoas pra tirar a sua foto em Strawberry Field.

Mas às vezes são os lugares menos óbvios que acabam sendo bem mais interessantes, e há coisa muito mais legal para um fã de Beatles em Liverpool do que ficar tirando fotos de dentro do ônibus. Foi assim que conheci o irmão de um ex-beatle e toquei piano na casa do Paul McCartney — mas essas histórias ficam para a segunda parte.

sábado, 31 de dezembro de 2016

Top 20 filmes favoritos de 2016



Se fechei o ano passado com apenas 109 longas assistidos, em 2016 aumentei o número para 150, sendo 137 que nunca tinha visto antes.

Escrevi um parágrafo sobre cada um deles no Cinema de Buteco, coisa que já havia feito antes em 2012 e prometido a mim mesmo que nunca tentaria outra vez. Portanto, caso te interesse, veja lá todos os filmes a que assisti em janeiro, fevereiro, março, abril, maio/junho/julhoagosto/setembro/outubro e novembro/dezembro.

Se quiser a versão resumida, cá estão os meus 20 filmes favoritos de 2016:



20- Hush - A Morte Ouve
(Hush, dir. Mike Flanagan)

Com uma protagonista surda perseguida por um serial killer, temos um terror sem gritaria e clichês subvertidos. A trama pode parecer besta, mas aqui é o estilo que importa. Boa surpresa que apareceu meio de surdina na Netflix.



19- Mogli - O Menino Lobo
(The Jungle Book, dir. Jon Favreau)

É o Mogli que todos conhecemos, um moleque de tanga vermelha falando com bichos, mas com dois diferenciais fundamentais: um visual impecável e um elenco de vozes de botar respeito. Leia minha crítica completa no Cinema de Buteco.



18- Capitão América - Guerra Civil
(Captain America: Civil War, dir. Anthony & Joe Russo)

Eu não estava lá muito empolgado para mais um filme da Marvel com as mesmas piadas, a mesma direção genérica e um elenco de 79 heróis, e talvez por isso mesmo tenha me surpreendido. Além da trama mais séria (dando continuidade ao eficiente O Soldado Invernal), Guerra Civil traz uma das sequências de ação mais divertidas de todos os 13 filmes da Marvel até agora: justamente o confronto entre esses trocentos heróis num aeroporto alemão. E ainda nos apresentou ao melhor Homem-Aranha dos cinemas.



17- Carol
(dir. Todd Haynes)

Romance sem melodrama bastante eficaz, que poderia fácil ter ocupado o lugar de algum dos indicados a Melhor Filme (estou olhando pra você, A Grande Aposta).



16- Creed - Nascido Para Lutar
(Creed, dir. Ryan Coogler)

Mais um Episódio VII que utiliza as melhores características de sua franquia quarentona (incluindo um ex-protagonista interpretado por um ator muito querido e que aqui vira mentor) ao mesmo tempo em que abre caminho para novos filmes com uma nova geração. Só faltou o Oscar pro Stallone.



15- O Quarto de Jack
(Room, dir. Lenny Abrahamson)

Drama calcado em duas atuações incríveis (torço para uma carreira de sucesso para o garotinho Jacob Tremblay) com uma direção que trabalha confinamento, tensão e readaptação com bastante eficácia.



14- Kubo e as Cordas Mágicas
(Kubo and the Two Strings, dir. Travis Knight)

O visual é tão impressionante que a maior parte do público vai achar que se trata de computação gráfica, mas é stop-motion, e um dos mais bem feitos que já pintaram por aí. Junte a divertida química entre os personagens — um garoto, um macaco e um homem-besouro! — e temos uma das melhores animações do ano.



13- Anomalisa
(dir. Charlie Kaufman & Duke Johnson)

Um stop-motion mais realista do que muito filme de carne-e-osso, junto com toda a esquisitice que é marca registrada de Charlie Kaufman e bastante espaço para interpretações.



12- Spotlight - Segredos Revelados
(Spotlight, dir. Tom McCarthy)

Os elementos que tornam o vencedor do Oscar menos “dramático” (a falta de um protagonista único ou de revelações que realmente surpreendam) o deixam justamente mais realista e menos glamouroso. Uma aula de como o bom jornalismo deve ser.



11- Cinco Graças
(Mustang, dir. Deniz Gamze Ergüven)

O representante da França no Oscar em 2016 é na verdade um filme turco, falado em turco e totalmente enredado na cultura do país, com sua trama trágica sobre cinco adolescentes rebeldes forçadas a casamentos arranjados pela família conservadora. Um belo longa de estreia da diretora Deniz Gamze Ergüven.



10- Zootopia
(dir. Byron Howard & Rich Moore)

A Disney mostra que continua em ótima fase: Zootopia é daquelas animações que criam um mundo repleto de detalhes piscou-perdeu, coadjuvantes que roubam a cena e uma trama que ganha surpreendentes cunhos sócio-políticos em meados do segundo ato.



9- Sing Street
(dir. John Carney)

Carney (de Apenas Uma Vez) retorna com mais uma simpática comédia romântica musical, desta vez trocando a contemporaneidade pelos anos 80. Se já vimos antes histórias parecidas (“moleque forma banda para conquistar garota”), esta aqui tem charme próprio – e ótimas canções originais – para andar com as próprias pernas.



8- Sala Verde
(Green Room, dir. Jeremy Saulnier)

Suspense claustrofóbico que segue uma banda de punk rock metida numa enrascada das brabas no backstage de uma casa de shows neo-nazista. Bem construído, tem um momento tenso atrás do outro; destaque para o vilão minimalista de Patrick Stewart, um dos melhores de 2016.



7- A Bruxa
(The VVitch: A New-England Folktale, dir. Robert Eggers)

Terror psicológico que evita os sustos fáceis, causando medo muito mais por sua atmosfera — tanto as forças exteriores que aterrorizam uma família nos EUA do século 17 quanto os membros dessa própria família se voltando uns contra os outros.



6- O Regresso
(The Revenant, dir. Alejandro G. Iñárritu)

Paisagens, planos longos, DiCaprio rastejando a caminho do Oscar, Tom Hardy balbuciando, o melhor urso digital desde Ted e a melhor cena com um cavalo morto desde O Poderoso Chefão tornam esta uma experiência memorável.



5- Rua Cloverfield, 10
(10 Cloverfield Lane, dir. Dan Trachtenberg)

Este auto-intitulado “primo” do Cloverfield de 2008 ganha do seu parente em todos os sentidos — da direção segura que sabe contar uma história (ao invés da câmera trêmula que causava ataques de labirintite) ao elenco pequeno e eficiente, passando pelo clima claustrofóbico e pela dúvida perene: o que realmente há lá fora?



4- Deadpool
(dir. Tim Miller)

Dos créditos iniciais zoados à referência final a Curtindo a Vida Adoidado, o filme quebra a quarta parede (“McAvoy ou Stewart?”), tira sarro de tudo e todos (a começar por seu ator principal) e faz da metalinguagem um diferencial mais que bem-vindo aos já cansados filmes de super-heróis.



3- A Chegada
(Arrival, dir. Denis Villeneuve)

No melhor sci-fi do ano, a porradaria intergaláctica dá lugar a uma trama sobre linguagem e entendimento mútuo, colocando Denis Villeneuve definitivamente entre um dos diretores mais interessantes da atualidade — e que retorna em breve com a sequência de Blade Runner.



2- Capitão Fantástico
(Captain Fantastic, dir. Matt Ross)

Um belo estudo de personagens com excelentes performances (o destaque, sem dúvida, é o protagonista Viggo Mortensen), momentos tocantes e que evoca outros ótimos filmes como Pequena Miss Sunshine e Na Natureza Selvagem.



1- O Lagosta
(The Lobster, dir. Yorgos Lanthimos)

Com a trama mais surreal do ano — solteiros são enviados a um hotel onde têm 45 dias para encontrar um novo par, ou serão transformados no animal de sua preferência —, Lanthimos criou uma mistura de drama, distopia e humor negro, que vai ficando cada vez mais estranho e fascinante de se assistir.

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Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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