domingo, 26 de novembro de 2017

Fiz um teste de DNA e confirmei que sou uma salada genética


Funciona assim: você encomenda um kit online, que vem com dois cotonetes gigantes, dois tubinhos e um envelope de plástico com um rótulo inquietante, “RISCO BIOLÓGICO”. Antes de fazer o teste, você precisa ficar pelo menos meia hora sem beber, comer, fumar ou mascar chiclete. Daí você passa um dos cotonetões por dentro da bochecha direita durante 1 minuto e coloca a ponta do bastão cheio de baba num dos tubinhos. Repete o processo, agora juntando saliva da bochecha esquerda, e coloca no outro tubinho. Põe tudo no envelope e manda de volta para o laboratório, que fica em Houston. Depois é só aguardar algumas semanas e eles te mandam um e-mail detalhando a quais etnias o seu DNA pertence e qual a porcentagem de cada uma na sua composição genética.


Esses exames são controversos e muita gente diz que não passam de especulação. Afinal, eles analisam apenas uma fração do DNA e a maioria dos laboratórios carece de dados mais completos sobre populações mais inacessíveis (por exemplo, indígenas amazônicos ou aborígenes australianos). Os próprios sites que oferecem o serviço reconhecem que os resultados são estimativas, e que algumas populações exibem DNA semelhante por conta da proximidade e a mistura de populações.

De qualquer forma, eu queria fazer o teste por pura curiosidade. Alguns amigos já tinham feito: uma colega japonesa, por exemplo, “descobriu” que é 97% japonesa, 2% coreana e 1% chinesa; um outro, da Lituânia, tem 94% de seu DNA vindo do Leste Europeu. Eu sei que tive dois bisavós libaneses, um bisavô italiano (do Vêneto, nordeste do país), uma bisavó alemã (de Magdeburgo) e mais uma porção de antepassados do sul da Europa. Queria ver como essa mistureba apareceria num exame desses. Aí aproveitei que o site MyHeritage estava em promoção e encomendei meu kit.

Mas o meu resultado, que chegou esta semana, mostrou nada menos que 8 etnias vindas de 3 continentes – algumas esperadas, outras francamente meio disparatadas. Vamos a elas:

41,7% italiano
Faz sentido. Herdei o sobrenome “Paio” do meu avô paterno, italiano; meu pai já traçou sua árvore genealógica e descobriu primos distantes que ainda moram no Vêneto, e há sangue italiano também na família da minha avó paterna. Siamo tutti italiani.

5,9% ibérico
Essa parte cobre Espanha e Portugal – é uma região pequena para isolar com mais precisão –, mas a minha parcela deve vir mesmo da terra de Cabral, como tantos outros brazucas.

8,1% do Oriente Médio + 5,9% do oeste asiático
Meu nariz e minha monocelha já não me deixavam mentir, e agora o DNA confirma meus genes árabes. Coloquei as duas porcentagens juntas porque, se você olhar no site do MyHeritage, essas duas regiões se sobrepõem com uma pá de países em comum, incluindo o Líbano, de onde vem metade da família da minha mãe.

8,3% norte-africano
A região é imensa e abrange do Marrocos (que fica a um pulo da Península Ibérica) ao Egito (perto do Oriente Médio e do Líbano). Sem falar que os mouros, que vieram exatamente dessa parte do mundo, ocuparam Portugal por séculos a fio.

0,9% somali
Todo Homo sapiens tem um antepassado distante que veio do leste africano, mas parece que o meu é relativamente mais recente: talvez um hexavô ou hexavó da Somália – que, se você olhar no mapa, também não fica muito longe do Oriente Médio.

3,1% judeu asquenazita
Diz o site: “os asquenazes são uma diáspora judaica europeia que remetem suas origens comunais à Alemanha e França e mais tarde à migração ao leste em direção à Polônia e aos países eslavos”. Suspeito que uma parte dos meus genes alemães – dos quais, teoricamente, eu teria 12,5% (por conta da bisa) –, vem daí.

26% escandinavo
Esse é o mais bizarro, e talvez um motivo pra achar que esse troço é furada. Não tenho traços escandinavos e nenhum parente nórdico conhecido, quanto mais um avô inteiro. Mas sei lá: dinamarqueses e suecos também são povos germânicos, e no mapa do MyHeritage, “escandinavo” abrange também o norte da Alemanha.

Notoriamente ausente da minha composição genética está... o Brasil. Mas se não é assim tão estranho eu não ter sequer 0,1% de índio no DNA, fica ainda mais difícil aparecer um tupi ou guarani como meu antepassado se você considerar que os dados existentes para as populações indígenas de todas as Américas são bem escassos: para o Brasil, por exemplo, o MyHeritage só considera “indígena amazônico” e “centro-americano”.


Há ainda os exames de DNA que revelam quais doenças você está propenso a ter, mas esses eu não faço nem a pau: imagina descobrir, por exemplo, que tenho uma predisposição acima da média ao Alzheimer? Vou ficar paranoico na primeira vez que esquecer onde coloquei a chave.

Melhor ficar na informação de que sou apenas um rapaz ítalo-íbero-árabe-africano, com parentes escandinavos e somalis e vindo da capital de Minas. Porque, acima de tudo, o sotaque não deixa negar: sou 100% mineiro.

domingo, 9 de julho de 2017

ABUNN - Ao Vivo em Barbacena


Em abril de 2013, o ABUNN, minha banda de rock autoral que data dos tempos de Ensino Médio, retornou do limbo para um show de reunião em Barbacena.

Por que cazzo Barbacena, se a banda era de BH e na época eu morava na China havia mais de três anos?

Porque o Bruno, meu primo e nosso baixista, estava se casando na famosa Cidade das Rosas (ou dos Loucos), a banda Vil Metal traria música e diversão para os convivas e seria um desperdício ter ali bateria, amplificadores, microfones, cabos, gelo seco e gente bêbada e não reunir o saudoso ABUNN para um mal-ensaiado pocket show.

Se em nossa reunião anterior, em 2010, éramos seis no palquinho diminuto do Garage D'Caza — incluindo dois guitarristas e uma tecladista —, por motivos diversos acabamos sendo apenas um power trio no palco enorme do salão de festas em Barbacena, remontando aos primórdios da banda, antes da entrada do Rafa (hoje interestadualmente famoso como o Dave Grohl brasileiro) na guitarra solo.

Por conta disso, nosso repertório acabou reduzido às nossas canções mais simples lá do início, que não traziam ainda solos de furadeira, tecladinhos de bolero ou onze minutos de duração. As escolhidas foram "?" (pronuncia-se "Interrogação", embora o tecnicamente correto fosse "Ponto de Interrogação") e "Piano Alemão", uma favorita do nosso público de outrora.

Para não ficar só no repertório próprio que a maioria dos presentes ouviria com cara de hã?, botamos no meio umas covers que, na verdade, tampouco eram exatamente indicadas a um público de todas as idades: "She, do Green Day, e "O Pão da Minha Prima", dos Raimundos. Sei lá porque lhufas escolhemos essas. Não lembro sequer de termos ensaiado essas duas nos quinze anos de banda, que dirá tocado ao vivo. Provavelmente devemos ter pensado uns cinco segundos no que seria fácil de tocar só com guitarra, baixo e bateria, e punk rock dos anos 90 veio à cabeça primeiro — não dá pra ser muito ambicioso tendo duas horas pra ensaiar cinco músicas após 3 anos de habilidades musicais enferrujadas.

Subimos ao palco à uma da manhã, todos já devidamente etilizados, e entregamos um show cheio de erros e desafinações, mas nos divertimos à beça. Tivemos os backing vocals da noiva Nicole, que ficou no palco após jogar o buquê, e rolou até um tiozão dançarino roubando a cena durante "Johnny B. Goode", que sempre animava a galera nos nossos tempos de Matriz e A Obra. Pediram bis e o que podíamos fazer? Não tínhamos nenhuma outra música ensaiada, mas ligamos o foda-se e mandamos  no improviso "My Generation", que sempre usávamos para apresentar a banda. Foi o último show do ABUNN até agora, mas qualquer dia desses, as condições térmicas, meterológicas e cósmicas permitindo, hemos de lograr mais um show de reunião.

E agora, quatro anos depois, finalmente joguei no iutube o registro multicâmera do concerto, sem dúvida alguma o vídeo de melhor qualidade audiovisual que temos da banda em todos os nossos 17 anos de história. Se você tiver uns vinte minutos sem nada pra fazer, bisóia aí:



domingo, 21 de maio de 2017

Revenge of the Corks - uma animação stop-motion



Foram meses de preparação, 9 dias de filmagem, mais de 2.300 fotos tiradas, outros tantos meses de edição, participação em quatro festivais (nos EUA, Itália, Espanha e Brasil) e muita enrolação pra postá-lo online, mas meu curta em stop-motion Revenge of the Corks está finalmente na rede mundial dos computadores:



segunda-feira, 17 de abril de 2017

Uma overdose de Beatles em Liverpool — Parte 2



"Hi, are you Lucas? I'm Roag", cumprimentou-me o cabeludo cinquentão de jaqueta jeans, saindo do carro. Eu estava em Hayman's Green, ruazinha numa área bem residencial de Liverpool, no jardim da casa da mãe dele. Não pra tomar chá da tarde ou algo que o valha, mas pra continuar minha peregrinação beatlemaníaca por Liverpool, que já tinha me levado a Penny Lane, Strawberry Field, Cavern Club e outros destinos ilustres. Agora eu vinha conhecer o estabelecimento que, há 60 anos, fica no subsolo daquela casa suburbana: o Casbah Coffee Club. E ao cumprimentar o Roag, que seria meu guia, eu estava conhecendo nada menos que o irmão de um ex-beatle.



Quem fundou o Casbah foi a mãe de Roag, Mona Best, que em 1959 quis surfar na onda roquenrôu e juntar a molecada pra curtir música ao vivo no porão da própria casa. A banda que ela arrumou pra tocar ali, uns tais de Quarrymen, mudaria seu nome pouco depois para The Beatles. O filho adolescente de Mona, Pete Best, seria o batera da banda de John, Paul e George por dois anos até levar um pé na bunda em 1962 pra dar lugar a Ringo Starr. Foi no mesmo ano que Mona fechou o bar e em que Roag, filho dela com Neil Aspinall (então roadie dos Beatles e futuro presidente da Apple Corps, a empresa que o grupo fundou nos anos 60), nasceu. Dava pra ver que eu estava ali em família.



Enquanto o Cavern Club recebe uma horda de fãs e turistas todos os dias, o Casbah — que reabriu para visitas há uns dez anos — não tem nem metade da fama. É uma pena, porque a visita é um barato; por outro lado, a falta de muvuca torna tudo mais exclusivo e intimista: naquela ensolarada segunda-feira havia apenas eu e mais um casal para conhecer o lugar. Roag é um guia entusiástico e reconta com bom humor aquelas histórias de família que cresceu ouvindo  — tanto é que já escreveu um livro sobre o Casbah e tem outro sobre seu pai em pré-produção. Não falta veneno contra o Cavern, que costuma levar as glórias como "o bar onde os Beatles começaram" ("Tenho aqui esta citação do Paul numa entrevista que fiz com ele, dizendo que o Casbah foi onde realmente começaram", mostra ele, orgulhoso) mas que, como contei na primeira parte deste post, é hoje uma réplica (bem divertida) do Cavern original.

O Casbah, em contrapartida, foi preservado igualzinho como era, o que inclui pinturas nos tetos e nas paredes feitas por ninguém menos que John, Paul e George, praticamente forçados por dona Mona Best a ajudar na decoração. Aí você vê um padrão "meio asteca" feito por John em um dos cômodos; faixas multicoloridas pintadas por Paul sobre o palquinho original; uma pintura laranja nada inspirada de autoria de George; uma teia de aranha gigante feita por Pete; e estrelas coladas por John num teto que, hoje, está avaliado em 1 milhão de libras. Vai colar estrela no teto procê ver se alguém vai dar valor.



Ainda menos mencionado nessas listas de "lugares beatles em Liverpool", mas que os fãs mais dedicados certamente já ouviram falar, é o pub Jacaranda — sem acento mesmo, tônica no "rân" e não no "dá". Logo quando você entra já vê na parede fotos antigas de John, Paul, George e Stuart, o baixista que morreu tragicamente em 1961 após abadonar a música pra ficar com sua amada em Hamburgo. No quadro de avisos, entre promoções e drinques do dia, a frase "The BEATLES WerE HERE". E estiveram mesmo: de início apenas frequentadores e tomadores de cerveja, os garotos começaram a ensaiar e depois a se apresentar ao vivo ali no "Jac", onde eram pagos com coca-cola e torradas. Aliás o dono do bar, Alan Williams (que morreu recentemente), viria a ser o primeiro empresário dos Beatles.

Fechado e reaberto trocentas vezes, o Jac tem essas homenagens bítous aqui e ali, mas não vive disso como outros lugares em Liverpool. Hoje são três andares: um porão, que tem um mural pintado por John e Stuart; o andar da rua, pub classicão servindo chope; e o andar de cima, onde funciona uma loja de discos especializada em anos 60 e 70 (topei até com uns vinis tropicalistas).

E vira e mexe rola música ao vivo, inclusive noites de open mic onde qualquer um pode subir lá, dedilhar um violão e cantarolar uma canção. Rolou um na minha primeira noite em Liverpool, com músicos locais se revezando entre músicas lentas, clássicos folk e inusitadas canções originais. E rolou de novo na minha última noite, um domingão, quando pintei por lá novamente para uma cerveja de despedida e perguntei na cara-de-pau se podia usar o violão do apresentador (ele me emprestou na boa). Cheguei na frente da plateia cem-por-cento desconhecida e escolhi mandar uma enérgica canção dos Beatles brasileiros, Os Mutantes. E a inglesada lá, tentando entender que cazzo era aquele de "Sabotagem! Eu quero que você se… top top top uh!".



Entre os passeios turísticos, talvez o melhor que fiz nessa viagem foi a visita a dois endereços nos subúrbios liverpudlianos: 20 Forthlin Road e 251 Menlove Avenue. Foram nessas duas casas, respectivamente, que cresceram Paul McCartney e John Lennon. Hoje elas pertencem ao National Trust, que reconstruiu os interiores exatamente como se fossem do final dos anos 50, início dos 60. O Magical Mystery Tour passa ali na porta, mas pra entrar é preciso reservar separadamente e, de preferência, com semanas de antecedência, já que só aceitam umas dez pessoas por visita.

A casa na Menlove Avenue, mais conhecida como Mendips (sua casa tem nome? a minha não), pertencia à tia Mimi, aquela que disse pro sobrinho que "esse negócio de tocar violão é muito bonito e coisa e tal, mas você nunca vai ganhar dinheiro com esse troço". A visita, guiada por um senhorzinho simpático que toma conta da casa, começa pela porta de trás — Mimi, conta ele, reservava a da frente apenas aos convidados de alta importância, que obviamente não incluíam os pirralhos Paul e George quando vinham visitar o John depois da escola. Dali conhecemos a cozinha, cheia de objetos da época; a sala de estar, repleta de livros que fizeram a cabeça do menino John; seu quarto, com discos de rock'n'roll e desenhos que ele fez; e por aí vai, tudo com uma porção de fotos e histórias sobre aqueles tempos.


Já na Forthlin Road, número 20, fica a casa onde Paul McCartney morou por anos a fio com o pai Jim e o irmão Mike (a mãe, Mary, morreu de câncer no ano em que a família se mudou pra lá). Começamos na sala de estar, que não é uma sala qualquer: foi dali que saíram "Love Me Do", "I Saw Her Standing There" e outros futuros sucessos; as fotos nas paredes, inclusive, mostram John e Paul com guitarras a tiracolo, sentados naquele mesmo chão e rascunhando aquelas canções. O piano não é exatamente aquele no qual Paul compôs a melodia de "When I'm 64" (esse fica hoje com o próprio Paul), mas é um modelo bem parecido. E os outros cômodos da casa são igualmente interessantes: a antiga sala de jantar, que virou quarto de ensaios e berço de "She Loves You"; o quarto de Paul e Mike; a cozinha; o jardim com uma calha onde Paul se pendurava pra fazer zoeira. Assim como em Mendips, a maioria dos objetos em si não são originais da casa, porque afinal pra que guardariam móveis e tralhas ao se mudarem dali no auge da beatlemania? Mas a reconstrução é tão bem feita que a sensação é de se estar viajando no tempo, pisando numa casa de sessenta anos atrás.



No final, a guia (que era a esposa do senhorzinho de Mendips) disse que, se alguém quisesse se sentar ao piano e tocar uma música dos Beatles, que ficasse à vontade. E eu ia lá perder essa chance? Abri o piano — que pode não ser o original, mas isso também não impediu Elvis Costello, James Taylor e outros visitantes famosos de tocarem —, forcei a memória muscular e arranhei a introdução de "Martha My Dear", aquela que Paul compôs em homenagem à sua felpuda sheepdog. E depois de conhecer o irmão de um ex-beatle, tocar Mutantes num bar onde os Beatles começaram, curtir um roquenrôu no Cavern Club e tocar piano na casa do Paul, fui embora de Liverpool satisfeito e feliz.

domingo, 2 de abril de 2017

Uma overdose de Beatles em Liverpool — Parte 1


Assim que você passa pela imigração, uma plaquinha dá as boas-vindas: "Welcome to Liverpool John Lennon Airport - Above us only sky". A logomarca é famoso o auto-retrato de John que estampa o pôster do documentário Imagine e inúmeras camisetas por aí. O irônico é saber que, quando adolescente, ele trabalhou como empacotador de sanduíches nesse mesmo aeroporto e costumava cuspir nos lanches da galera. Hoje o aeroporto leva seu nome, e espero que tenham melhorado os padrões de contratação.

Aproveitei uns dias de folga do trabalho pra fazer uma viagem que há tempos tinha em mente. Afinal, depois de atravessar na faixa em Abbey Road e tomar cerveja nos bares onde os Beatles tocavam por horas a fio (e enchiam a cara) em Hamburgo, me faltava uma visita à cidade natal dos caras. A ideia original era ir comparecer à International Beatle Week, que acontece anualmente em agosto e leva centenas de bandas cover a Liverpool, mas março também foi uma boa pedida: passagem e acomodação mais baratas, menos multidões se acotovelando no Cavern Club, e ainda tive sorte de pegar sol e céu todos os dias, o que para a Inglaterra é quase um milagre.


Liverpool explora sua história musical, especialmente a de seus filhos mais famosos, quase à exaustão. Já do ônibus para o centro da cidade você já encontra referências pra todo lado, de um enorme submarino amarelo no meio da rua até um condomínio chamado Imagine Park. Pra quem prefere Molejo, a cidade também oferece um punhado de atrativos não-beatles no cardápio, sejam museus, passeios de barco ou pints de Guinness pelos pubs da vida. Mas pra quem curte os Beatles, dos fãs ocasionais aos hardcore, Liverpool é o lugar para entender como aqueles moleques de classe média-baixa se tornaram o maior fenômeno musical do século 20 e curtir algumas das canções mais famosas do mundo nos próprios locais onde elas nasceram.


O ponto de partida ideal é o museu Beatles Story, localizado na área portuária de Liverpool, à beira do rio Mersey. A visita começa lá no comecinho, com a febre do skiffle que tomou os adolescentes ingleses dos anos 50 — era uma música meio country, meio rock, com um estilo simples ideal para jovens músicos que não sabiam tocar lhufas. Entre os objetos expostos, há o primeiro violão de George Harrison e os instrumentos toscos que os Quarrymen tocavam em seus primeiros shows, incluindo um washboard (tábua de lavar usada como percussão) e um tea-chest bass (baixo feito com um caixote de madeira, uma corda e um pedaço de pau). 


Cada sala do Beatles Story reproduz um ambiente importante da história do quarteto: os inferninhos de Hamburgo, onde eles tocavam dez horas por noite; a loja de disco NEMS, onde garimpavam novos discos e cujo dono era Brian Epstein, futuro empresário da banda; o estúdio Abbey Road, onde gravaram sua discografia sob a batuta de George Martin; e uma réplica em tamanho real do Cavern Club, onde fizeram quase 300 shows.

Há traquitanas e bugigangas mil, de perucas e bonequinhos de gosto duvidoso até abotoadores (!) com a cara dos Beatles. Você vê de perto um Mellotron, espécie de teclado responsável por timbres famosos como a introdução de "Strawberry Fields Forever"; sobe a bordo de um Yellow Submarine; vê uma reconstrução gigante da capa de Sgt. Pepper's; o túmulo de Eleanor Rigby usado no clipe de "Free As a Bird"; uma sala branca com piano branco e oclinhos redondos em cima, homenageando Lennon; e quatro cabines que detalham as carreiras solo dos quatro. Já os podres da carreira da banda, como as brigas, as drogas e as demissões, são solenemente ignorados — é um museu oficial, afinal de contas. Mas mesmo sem parar pra ler cada texto e ouvir cada faixa do audioguia, dá pra passar umas três horas lá dentro e ainda sair querendo mais. 


A segunda parte do Beatles Story, que fica em outro prédio a dez minutos do primeiro, traz exibições temporárias, e a atual é sobre a Invasão Britânica — quando Beatles, Stones, The Who, Kinks e outros grupos ingleses conquistaram o planeta nos anos 60. É interessante, mas como trata de artistas variados, a coisa é menos aprofundada e mais corrida. O British Music Experience, um museu que abriu ali perto há poucas semanas e percorre a história da música pop britânica até os dias de hoje, padece do mesmo problema. Há umas roupas de David Bowie aqui, umas letras manuscritas do Queen ali, uns bonequinhos das Spice Girls acolá; é legal como um passeio descompromissado, mas não espere muito mais que isso. O ponto alto foi poder tocar guitarra em réplicas daquelas que Eric Clapton, David Gilmour e outros usavam para dedilhar seus riffs.

As obrigatórias lojinhas de souvenir encerram a visita de cada um desses museus, e as do Beatles Story são especialmente perigosas: entre camisetas, chaveiros, canecas, canetas, sacolas, bonés, almofadas, baquetas, alças de guitarra, bonequinhos, porta-copos, livros, songbooks e óculos de John Lennon em todas as cores, é difícil sair dali de mãos abanando. Mas novamente, tudo tende a ser oficialzão e não lá muito criativo. A maioria das camisetas, por exemplo, reproduz capas de discos, quando tantas estampas bacanas poderiam ser criadas com referências menos óbvias: eu compraria fácil uma camisa com a cara da sheepdog Martha ou que ilustrasse versos enigmáticos como "Elementary penguin singing Hare Krishna", por exemplo. Fica a sugestão.

Shake it up, baby


O centro de Liverpool é bem compacto e muitas ruas são exclusivas para pedestres. É provavelmente o lugar do mundo com mais menções aos Beatles por metro quadrado: Rubber Soul Bar de um lado, Lennon's Bar do outro, Hard Day's Night Hotel virando a esquina, estátua solitária da Eleanor Rigby num banco de praça. Músicos de rua tocam Beatles o tempo todo e os pubs colocam plaquinhas do tipo "Aqui os Beatles tomavam cerveja antes de tocar no Cavern", cada um querendo destacar o seu papel, ainda que dos mais triviais, na história da música. 

De noite o lugar ferve. Principalmente a Matthew Street, onde fica o Cavern Club — mas aqui faz-se necessário um breve panorama histórico. O Cavern original, originalmente um bar de jazz nos subterrâneos de Liverpool que acabou virando o centro do "Merseybeat" e ponto de encontro dos primeiros beatlemaníacos que vinham ver o quarteto ao vivo, já não existe mais há um bom tempo. Após fechar as portas nos anos 70, foi completamente soterrado quando o prédio em cima foi demolido. O novo Cavern, aberto nos anos 80, é uma reconstrução do original e fica do outro lado da rua, com um design bem parecido, mas não idêntico; é por isso que a réplica do Cavern no Beatles Story parece ser uma versão mais próxima do bar de outrora. Mas o que falta em autenticidade no novo Cavern sobra em sua atmosfera: é só descer dois lances de escada pra curtir música ao vivo a qualquer hora da tarde ou da noite, uma banda atrás da outra, no corredor comprido que culmina no palquinho de fundo multicolorido.


Mas o melhor show que vi no Cavern não foi bem naquele palquinho, e sim numa área extra que fica nos fundos, chamada Cavern Live Lounge. Foi ali que Paul McCartney se apresentou em 1999, naquele show famoso que passava sempre na MTV, com David Gilmour e Ian Paice como músicos de apoio. E vira e mexe pinta uma nova celebridade por ali: a Adele, por exemplo, cantou no Live Lounge em 2011. Há mais espaço para banda e público, mas ainda é um lugar diminuto que só comporta umas trezentas pessoas. O show que vi não teve ninguém ilustre, mas uma competente banda cover chamada The Cavern Beatles, que conta até com um Paul canhoto. O primeiro set trouxe as músicas mais óbvias da fase ieieiê, muitas das quais provavelmente são ouvidas no Cavern todo santo dia, tipo "I Saw Her Standing There". A segunda parte passeou por canções mais complicadas ou mesmo lado B, incluindo algumas que nunca imaginei ver ao vivo, como "A Day in the Life" e "Lovely Rita" (dedicada a uma Rita na plateia que comemorava seus 82 anos). Trezentas pessoas cantando junto, um palco famoso e uma Guinness na mão: difícil achar um programa melhor pra sexta à noite em Liverpool.


Beneath the blue suburban skies


Fechando o roteiro das atrações mais comuns, embarquei no dia seguinte no Magical Mystery Tour, um passeio pelos "lugares beatles" mais famosos de Liverpool. O ônibus, claro, é pintado exatamente como no filme tresloucado de 1967, mas a viagem não é lá muito psicodélica: os passageiros são todos bem família e o guia é um senhorzinho simpático que cresceu em Liverpool (e, fato avulso, é irmão do vocalista do Frankie Goes To Hollywood). Sob o céu azul dos subúrbios, percorremos ruas e casas onde os quatro moraram, pontos citados em canções e locais importantes da história da banda, como a igreja onde Paul conheceu John em 1957 (não, eles não estavam rezando; John tocava com os Quarrymen, bêbado inclusive, e Paul foi lá exibir seus dotes de guitarra). Mas é um passeio meio turistão mesmo, tanto é que só descemos do ônibus quatro vezes. Uma foi pra ver a fachada da casa onde George nasceu; outra pra conferir a casa onde Paul cresceu (que é aberta para visitação, mas com agendamento prévio, e esse tour não cobre); e finalmente, para os cliques obrigatórios nos locais que inspiraram "Penny Lane" e "Strawberry Fields Forever".


Penny Lane é uma rua larga como qualquer outra, mas foi nos pequenos detalhes que Paul buscou inspiração para a letra da música — e muita coisa continua lá, como a barberia ("…there is a barber showing photographs / Of every head he's had the pleasure to know") e o corpo de bombeiros ("In Penny Lane there is a fireman with an hourglass"). Alguns estabelecimentos não perdem a chance de fazer uma alusão, como a lojinha "open 8 days a week" e um certo Sgt. Pepper Bistro, que funciona, não por acaso, no abrigo que fica no meio de uma rotatória ("Behind the shelter in the middle of the roundabout"). Já Strawberry Field era um orfanato onde o pequeno John ia brincar com a molecada; hoje é só um portão vermelho em frente a um lote que é puro matagal, rabiscado por zilhões de fãs com coisas como "Beatles Forever" ou "Paul is Dead". 

O Magical Mystery Tour é indicado se seu tempo for escasso, já que visitar esses pontos todos por conta própria requer inúmeras andanças e baldeações. Há uma alternativa mais salgada — que acaba saindo até mais em conta se você estiver num grupo de três ou quatro — que é fazer o passeio de táxi com um guia especializado. Daí dá pra descer onde você quiser, sem ficar competindo com quarenta pessoas pra tirar a sua foto em Strawberry Field.

Mas às vezes são os lugares menos óbvios que acabam sendo bem mais interessantes, e há coisa muito mais legal para um fã de Beatles em Liverpool do que ficar tirando fotos de dentro do ônibus. Foi assim que conheci o irmão de um ex-beatle e toquei piano na casa do Paul McCartney — mas essas histórias ficam para a segunda parte.

sábado, 31 de dezembro de 2016

Top 20 filmes favoritos de 2016



Se fechei o ano passado com apenas 109 longas assistidos, em 2016 aumentei o número para 150, sendo 137 que nunca tinha visto antes.

Escrevi um parágrafo sobre cada um deles no Cinema de Buteco, coisa que já havia feito antes em 2012 e prometido a mim mesmo que nunca tentaria outra vez. Portanto, caso te interesse, veja lá todos os filmes a que assisti em janeiro, fevereiro, março, abril, maio/junho/julhoagosto/setembro/outubro e novembro/dezembro.

Se quiser a versão resumida, cá estão os meus 20 filmes favoritos de 2016:



20- Hush - A Morte Ouve
(Hush, dir. Mike Flanagan)

Com uma protagonista surda perseguida por um serial killer, temos um terror sem gritaria e clichês subvertidos. A trama pode parecer besta, mas aqui é o estilo que importa. Boa surpresa que apareceu meio de surdina na Netflix.



19- Mogli - O Menino Lobo
(The Jungle Book, dir. Jon Favreau)

É o Mogli que todos conhecemos, um moleque de tanga vermelha falando com bichos, mas com dois diferenciais fundamentais: um visual impecável e um elenco de vozes de botar respeito. Leia minha crítica completa no Cinema de Buteco.



18- Capitão América - Guerra Civil
(Captain America: Civil War, dir. Anthony & Joe Russo)

Eu não estava lá muito empolgado para mais um filme da Marvel com as mesmas piadas, a mesma direção genérica e um elenco de 79 heróis, e talvez por isso mesmo tenha me surpreendido. Além da trama mais séria (dando continuidade ao eficiente O Soldado Invernal), Guerra Civil traz uma das sequências de ação mais divertidas de todos os 13 filmes da Marvel até agora: justamente o confronto entre esses trocentos heróis num aeroporto alemão. E ainda nos apresentou ao melhor Homem-Aranha dos cinemas.



17- Carol
(dir. Todd Haynes)

Romance sem melodrama bastante eficaz, que poderia fácil ter ocupado o lugar de algum dos indicados a Melhor Filme (estou olhando pra você, A Grande Aposta).



16- Creed - Nascido Para Lutar
(Creed, dir. Ryan Coogler)

Mais um Episódio VII que utiliza as melhores características de sua franquia quarentona (incluindo um ex-protagonista interpretado por um ator muito querido e que aqui vira mentor) ao mesmo tempo em que abre caminho para novos filmes com uma nova geração. Só faltou o Oscar pro Stallone.



15- O Quarto de Jack
(Room, dir. Lenny Abrahamson)

Drama calcado em duas atuações incríveis (torço para uma carreira de sucesso para o garotinho Jacob Tremblay) com uma direção que trabalha confinamento, tensão e readaptação com bastante eficácia.



14- Kubo e as Cordas Mágicas
(Kubo and the Two Strings, dir. Travis Knight)

O visual é tão impressionante que a maior parte do público vai achar que se trata de computação gráfica, mas é stop-motion, e um dos mais bem feitos que já pintaram por aí. Junte a divertida química entre os personagens — um garoto, um macaco e um homem-besouro! — e temos uma das melhores animações do ano.



13- Anomalisa
(dir. Charlie Kaufman & Duke Johnson)

Um stop-motion mais realista do que muito filme de carne-e-osso, junto com toda a esquisitice que é marca registrada de Charlie Kaufman e bastante espaço para interpretações.



12- Spotlight - Segredos Revelados
(Spotlight, dir. Tom McCarthy)

Os elementos que tornam o vencedor do Oscar menos “dramático” (a falta de um protagonista único ou de revelações que realmente surpreendam) o deixam justamente mais realista e menos glamouroso. Uma aula de como o bom jornalismo deve ser.



11- Cinco Graças
(Mustang, dir. Deniz Gamze Ergüven)

O representante da França no Oscar em 2016 é na verdade um filme turco, falado em turco e totalmente enredado na cultura do país, com sua trama trágica sobre cinco adolescentes rebeldes forçadas a casamentos arranjados pela família conservadora. Um belo longa de estreia da diretora Deniz Gamze Ergüven.



10- Zootopia
(dir. Byron Howard & Rich Moore)

A Disney mostra que continua em ótima fase: Zootopia é daquelas animações que criam um mundo repleto de detalhes piscou-perdeu, coadjuvantes que roubam a cena e uma trama que ganha surpreendentes cunhos sócio-políticos em meados do segundo ato.



9- Sing Street
(dir. John Carney)

Carney (de Apenas Uma Vez) retorna com mais uma simpática comédia romântica musical, desta vez trocando a contemporaneidade pelos anos 80. Se já vimos antes histórias parecidas (“moleque forma banda para conquistar garota”), esta aqui tem charme próprio – e ótimas canções originais – para andar com as próprias pernas.



8- Sala Verde
(Green Room, dir. Jeremy Saulnier)

Suspense claustrofóbico que segue uma banda de punk rock metida numa enrascada das brabas no backstage de uma casa de shows neo-nazista. Bem construído, tem um momento tenso atrás do outro; destaque para o vilão minimalista de Patrick Stewart, um dos melhores de 2016.



7- A Bruxa
(The VVitch: A New-England Folktale, dir. Robert Eggers)

Terror psicológico que evita os sustos fáceis, causando medo muito mais por sua atmosfera — tanto as forças exteriores que aterrorizam uma família nos EUA do século 17 quanto os membros dessa própria família se voltando uns contra os outros.



6- O Regresso
(The Revenant, dir. Alejandro G. Iñárritu)

Paisagens, planos longos, DiCaprio rastejando a caminho do Oscar, Tom Hardy balbuciando, o melhor urso digital desde Ted e a melhor cena com um cavalo morto desde O Poderoso Chefão tornam esta uma experiência memorável.



5- Rua Cloverfield, 10
(10 Cloverfield Lane, dir. Dan Trachtenberg)

Este auto-intitulado “primo” do Cloverfield de 2008 ganha do seu parente em todos os sentidos — da direção segura que sabe contar uma história (ao invés da câmera trêmula que causava ataques de labirintite) ao elenco pequeno e eficiente, passando pelo clima claustrofóbico e pela dúvida perene: o que realmente há lá fora?



4- Deadpool
(dir. Tim Miller)

Dos créditos iniciais zoados à referência final a Curtindo a Vida Adoidado, o filme quebra a quarta parede (“McAvoy ou Stewart?”), tira sarro de tudo e todos (a começar por seu ator principal) e faz da metalinguagem um diferencial mais que bem-vindo aos já cansados filmes de super-heróis.



3- A Chegada
(Arrival, dir. Denis Villeneuve)

No melhor sci-fi do ano, a porradaria intergaláctica dá lugar a uma trama sobre linguagem e entendimento mútuo, colocando Denis Villeneuve definitivamente entre um dos diretores mais interessantes da atualidade — e que retorna em breve com a sequência de Blade Runner.



2- Capitão Fantástico
(Captain Fantastic, dir. Matt Ross)

Um belo estudo de personagens com excelentes performances (o destaque, sem dúvida, é o protagonista Viggo Mortensen), momentos tocantes e que evoca outros ótimos filmes como Pequena Miss Sunshine e Na Natureza Selvagem.



1- O Lagosta
(The Lobster, dir. Yorgos Lanthimos)

Com a trama mais surreal do ano — solteiros são enviados a um hotel onde têm 45 dias para encontrar um novo par, ou serão transformados no animal de sua preferência —, Lanthimos criou uma mistura de drama, distopia e humor negro, que vai ficando cada vez mais estranho e fascinante de se assistir.

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sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

A Menina Que Comia Música

Ela sempre andava triste da vida. E o motivo era sempre o mesmo: comida.


Direção: Lucas Paio
Roteiro: Lucas Paio & Daniel de Pinho 
Estrelando: Fernanda Morena (A Menina), Luiz Tasso Neto (O Músico), Mikael Salomonsson (O Namorado) e Tina Madeira (A Mãe)
Elenco de apoio: Antti Silvennoinen, Cadu Leite, Cristiane Módolo, Cristiano Liu, Lucas Paio, Rahel Zoe Buschor e Richard Amante


domingo, 18 de setembro de 2016

O papelzinho


O dia 18 de setembro de 2001 foi uma terça-feira e eu tive aula de Biologia. Sei disso porque a terça anterior havia sido um tanto marcante, com a mesma professora entrando na sala de olhos esbugalados e informando-nos em primeira mão que o World Trade Center, o Pentágono e a Casa Branca (as informações ainda eram parcas) estavam sendo atacados. Uma semana depois, pairava o medo de que a Terceira Guerra Mundial ia estourar a qualquer instante, mas tínhamos assuntos mais sérios a tratar, como cloroplastos, lipídios e ácidos ribonucleicos.

Provavelmente buscando maneiras de fazer a aula passar mais rápido — o que, em outras ocasiões, também daria origem à Teoria dos Números Absurdos e aos quadrinhos do Super Zé —, arranquei um pedaço de papel do meu caderno espiral Tilibra e resolvi embarcar num experimento científico-temporal. Registrei em letras cursivas a mensagem para o futuro: "hoje é dia 18 de setembro de 2001, e estou escrevendo esse papel (sic) para guardar e ver quanto tempo ele dura até se decompor. ass: Lucas."

Para oficializar, intimei quatro colegas que sentavam perto de mim a averiguar o papel e assiná-lo como testemunhas oculares. Dobrei-o duas vezes e pus na carteira. 

A Terceira Guerra Mundial não estourou, eu terminei o Ensino Médio, me formei em Publicidade, trabalhei como redator, produtor de TV e tradutor, fui hexacampeão da Quinta Master do Canapé com o Piano Alemão e mudei de país duas vezes. E nesse tempo todo, o papelzinho rascunhado numa aula chata em 2001 continuou zanzando comigo para todo canto. Afinal, a graça não estava em deixá-lo perdido numa gaveta, decompondo-se a passos de formiga, mas sim sobrevivendo ao risco de sumir num descuido bêbado, num assalto infortuito ou, sei lá, numa combustão espontânea. Considerando que na última década e meia eu parei de usar relógio, renovei a carteira de motorista três vezes e até troquei de celular, o papelzinho é provavelmente o objeto que carreguei comigo diariamente por mais tempo na vida. E se for verdade aquela história de que trocamos completamente de células a cada sete anos (eu saberia se tivesse prestado atenção às aulas de Biologia), até os meus átomos são mais novos que os do papelzinho.

Em 2005, escaneei o documento histórico (é a imagem que abre este texto) e compus-lhe um haikai no extinto fotolog do Biselho:

"Quatro anos depois,
continua na minha carteira
e ainda não se decompôs."

Os comentários dos amigos foram pouco efusivos. Bernardo Silveira reagiu monossilabicamente ("Só…"), seu xará Bernardo Silvino utilizou um de seus bordões sem significado intrínseco ("Mãe…") e Daniel de Pinho comentou: "Olha, que interessante… Volto daqui a 185 anos."

Acabei desenvolvendo a mania, à la Bilbo Bolseiro, de manusear o papelzinho de tempos em tempos, como que para respirar aliviado ao constatar que a decomposição ainda estava distante. Meu amigo Léo, cuja assinatura adorna o documento, deve se lembrar das várias ocasiões em que, nostálgico, torrei-lhe a paciência mostrando o pedaço de papel velho pela trigésima vez.

Numa dessas, veio a primeira tragédia: dobrado e pressionado há tanto tempo, o papelzinho rachou no meio. Como se tratava apenas de uma cisão longitudinal, e não de decomposição total, botei de volta as duas partes na carteira. E, sem aprender a lição, não perdi o hábito de dar-lhe uma espiadela de quando em quando.

Eis que na última noite do ano passado, a menos de uma hora para 2016 despontar, me deram uma semente embrulhada em papel-alumínio pra colocar na carteira, numa dessas tradições europeias de ano-novo. Imediatemente me bateu a vontade de conferir como estava o velho papelzinho. Após retirar cuidadosamente a metade direita, revirei a carteira de cima a baixo, fucei todos os seus bolsos, recônditos e cantos ocultos, e enfim cheguei à triste e irremediável conclusão: a metade esquerda do papelzinho havia caído por aí, provavelmente num prenunciado descuido bêbado. E como papel leva de 3 a 6 meses para desaparecer na natureza (sei pelo Google, não pelas aulas de Biologia), as chances de um reencontro épico estilo medalhão do Double Dragon são bastante reduzidas.

A metade direita completa hoje 15 anos, continua na minha carteira e talvez, com sorte, sobreviva a outra década e meia. Conto pra vocês em 2031.

domingo, 26 de junho de 2016

Paul McCartney ao vivo, enfim!


Ouvir Paul e sua banda tocando o icônico acorde inicial de "A Hard Day's Night" não foi só um alívio após duas horas em pé ouvindo um DJ desastroso, mas o fim de uma década e meia de espera. 

Em vão aguardei um show do Paul McCartney no Brasil desde os idos de 2001, 2002. Suas aparições em terras tupiniquins eram raras e a última fora no longínquo 1993, quando o Brasil nem tetra era, eu cursava a terceira série primária e só tinha visto um show na vida: o do Jaspion no Mineirinho. 

Já mencionei o assunto neste blog em algumas ocasiões. Em 2004, reclamando que Paul não vinha para o Rock in Rio do Rio, mas dava as caras no Rock in Rio de Lisboa, comentei: "o velho Macca já tá quase com seus 64 anos profetizados em "When I'm 64"... se o cara morrer antes de voltar ao Brasil mais uma vez (toc, toc, toc três vezes na madeira), não vou me conformar". Em 2007, com os grandes shows internacionais aumentando em frequência, chutei: "em breve anunciarão para o final de 2007 a vinda de Sir Paul ao nosso Brasilzão de meu Deus. Aí, contem pra imprensa que vocês leram antes no Biselho".

Fui morar na China no final de 2009 sem que minha previsão ou minhas esperanças se concretizassem. E as chances de vê-lo em Beijing eram praticamente nulas: poucos anos antes, Paul anunciara que nunca tocaria no país após ver um vídeo sobre a violência contra cães e gatos em Guangzhou. Parece que depois reconsiderou a decisão e disse que curtiria tocar para uma plateia chinesa, mas até hoje não pintou por lá.

Eis que em novembro de 2010, enquanto eu continuava a onze fusos horários de distância, Paul resolveu aportar com sua Up and Coming Tour em São Paulo e Porto Alegre, tocando hits de seus 50 anos de carreira para trocentas mil pessoas, incluindo vários amigos meus. E eu lá, vendo fotos e relatos pelo Facebook, isso quando o VPN funcionava e eu conseguia acessar.

Não satisfeito em me fazer inveja uma vez só, Paul voltou ao Brasil em 2011. E em 2012. E novamente em 2013. E uma vez mais em 2014. Tocou no Rio, em Brasília, em Floripa e Recife. Voltou a São Paulo, agitou Fortaleza e deu as caras até em Cariacica, na região metropolitana de Vitória. E, claro, animou meus conterrâneos no Mineirão, praticamente no quintal da casa da minha avó. Parecia de propósito. Só faltou ter tocado n'A Obra e no Matriz.

Enquanto isso, eu já morava na Alemanha desde meados de 2013 e nada do senhor McCartney anunciar uma apresentação por estas bandas. Ele não passava por Berlim desde 2009 e, até onde eu sabia, nada tinha contra tocar para plateias alemãs — coisa que fazia com regularidade desde os tempos loucos de Hamburgo em 1960-62. Em 2016 ele anunciou uma nova turnê mundial que passaria pela Europa, e minhas então minguadas esperanças ressurgiram.

Às 8 da manhã de uma quinta-feira de março, recebi um e-mail do Songkick, um site que informa quando seus artistas favoritos marcam show na sua cidade: "Paul McCartney em Berlim no dia 14 de junho". Vi pelo celular e comprei os ingressos assim que tive acesso a um computador, para ficar em pé, em frente ao palco. Duas horas depois, estava quase tudo esgotado. Dois meses de expectativa depois, lá estava eu em pé, a uns dez metros do palco do Waldbühne, um anfiteatro dos anos 1930 construído no meio de uma floresta no oeste berlinense.


À minha frente, um DJ medonho mutilava canções dos Beatles e dos Wings em remixes bisonhos, sem noção nenhuma de equalização ou de bom senso. Ao meu redor, cabeças brancas dividiam espaço com quarentões de rabo-de-cavalo, famílias com crianças e camisetas estampando versões sortidas da capa do Abbey Road ("The Beetles" com Fuscas atravessando a rua; "The Bottles" com garrafas). Ao todo, contando a galera em pé e todo mundo sentado atrás nas arquibancadas do anfiteatro, éramos vinte e duas mil pessoas.

Mandando a pontualidade britânica às favas, Paul McCartney subiu ao palco berlinense com meia hora de atraso e começou com "A Hard Day's Night", que entrou no setlist dessa One on One Tour pela primeira vez em sua carreira pós-Beatles. E por nada menos que 2 horas e 45 minutos, cercado de músicos supercompetentes e carismáticos (com direito a dancinhas coreografadas), tocou guitarra, violão, piano, teclado, ukulele e seu baixo Hoffner, conversou, falou alemão e cantou à beça.


Teve Beatles do começo ("Can't Buy Me Love") e do final ("I've Got a Feeling"). Teve músicas dos discos mais recentes ("Save Us", "New", "My Valentine") e canções dos primórdios de sua carreira solo ("Maybe I'm Amazed"). Teve homenagem ao John no violão ("Here Today"), ao George no ukulele ("Something", de arrepiar) e a George Martin ("Love Me Do"). Teve obras-primas como "Here, There and Everywhere" e "Eleanor Rigby" (que não é a mesma coisa sem a orquestra, mas ainda é Eleanor Rigby). Teve até uma de suas poucas aventuras no mundo da música eletrônica ("Temporary Secretary", de 1980). A mais recente foi "FourFiveSeconds", sua inusitada parceria com Rihanna e Kanye West lançada no ano passado. A mais antiga foi "In Spite of All the Danger", primeira composição própria gravada pelos adolescentes John, Paul e George quando ainda eram Quarrymen, em 1958. Cinquenta e sete anos separam uma da outra.

O telão atrás completava o show, jorrando artes psicodélicas em "Being for the Benefit of Mr. Kite", desenhos russos em "Back in the U.S.S.R.", figuras femininas fortes em "Lady Madonna" e imagens variadas dos jovens e velhos Bítous. A superprodução teve seu clímax, como de praxe, em "Live and Let Die", penúltima do set principal, onde o palco cospe um fogaréu a cada "paaaaam! paaaaaam!" e fogos de artifício inundam o céu. E aí ele mandou "Hey Jude" e milhares de pessoas repetiram os infindáveis "na na na na" até acabar a voz. No final do show, eu estava mais rouco que o Paul.


Antes de engrenar o bis, Paul se enrolou na bandeira arco-íris em homenagem às vítimas do massacre em Orlando e ainda recebeu no palco dois japoneses da plateia, pai e filho vestidos de Sgt. Pepper's, pedindo que ele assinasse a justificativa escolar do moleque para matar cinco dias de aula e ir assistir ao seu show em Berlim. Ele assinou, chamou o pai do menino de "péssimo exemplo" e demonstrou não ser exatamente dotado de ouvido absoluto ao perguntar o nome do cara ("Takushi", disse o japonês. "Hello, Tatushi!", disse Paul).

O bis teve a inevitável "Yesterday", "Birthday" (dedicada a "todos que fazem aniversário hoje ou em algum dia do ano") e o medley "Golden Slumbers"/"Carry That Weight"/"The End" que encerra o derradeiro e quiçá melhor disco dos Beatles. "And in the end, the love you take is equal to the love you make". Paul e banda cumprimentam o público e ele se despede em alemão: "Auf Wiedersehen! Tschüss! Bis zum nächsten Mal!" — "Valeu, falou, até a próxima!" Mais fogos de artifício no céu. Um fumacê no palco. Milhares de papéis picados nas cores alemãs caindo na galera. E vinte e duas mil pessoas vão pra casa mais felizes e mais do que satisfeitas após terem presenciado ao vivo a trilha sonora com a qual cresceram.

Quatro dias depois, Paul McCartney completou 74 anos.

E agora aguardo o Songkick me mandar um e-mail falando que vai ter show dos Stones.

Setlist:

1- A Hard Day's Night
2- Save Us
3- Can't Buy Me Love
4- Letting Go
5- Temporary Secretary
6- Let Me Roll It
7- I've Got a Feeling
8- My Valentine
9- Nineteen Hundred and Eighty-Five
10- Here, There and Everywhere
11- Maybe I'm Amazed
12- We Can Work It Out
13- In Spite of All the Danger
14- You Won't See Me
15- Love Me Do
16- And I Love Her
17- Blackbird
18- Here Today
19- Queenie Eye
20- New
21- The Fool on the Hill
22- Lady Madonna
23- FourFiveSeconds
24- Eleanor Rigby
25- Being for the Benefit of Mr. Kite
26- Something
27- Ob-La-Di, Ob-La-Da
28- Band on the Run
29- Back in the U.S.S.R.
30- Let It Be
31- Live and Let Die
32- Hey Jude

Bis:
33- Yesterday
34- Hi, Hi, Hi
35- Birthday
36- Golden Slumbers
37- Carry That Weight
38- The End

segunda-feira, 30 de maio de 2016

"This Boy", um experimento harmônico-vocal


Descobri esses dias um canal no YouTube dedicado às intrincadas harmonias vocais das músicas dos Beatles. Por trás da página (intitulada The Beatles Vocal Harmony) está um luthier italiano chamado Galeazzo Frudua, que tem um ouvido deveras apurado para esse tipo de coisa e produz vídeos que detalham as melodias cantadas por John, Paul e George e ensinam como reproduzi-las no conforto do seu lar.

Sempre achei difícil fazer segunda voz ao cantar com alguém — meu ouvido nada joãogilbertiano se atém à melodia principal e olhe lá —, e o que dirá de conseguir separar todas as diferentes vozes de "This Boy", "Yes It Is", "Because" e outras canções dos Beatles famosas pela fantástica harmonia vocal. Mas ao topar com os vídeos do Signor Frudua, resolvi fazer um experimento no GarageBand, gravando sozinho as diversas vozes e juntando tudo numa áudio-salada. A escolhida foi "This Boy", gravada pelo quarteto liverpudliano em 1963 ao estilo doo-wop americano. Fica aí para vocês jogarem tomate:

Quem

Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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