06/01/2005

O homem que criticava



Lendo a nova coletânea de crônicas do Jabor, Amor é Prosa, Sexo é Poesia, dá até pra entender os comentários infelizes que ele fez sobre o rock no mês passado (desinformados, entrem no Whiplash e assistam depois a uma sátira em animação aqui). Arnaldo Jabor viveu a juventude nos anos 60. De lá pra cá, viu o golpe de sessenta e quatro dar início a duas décadas de generais-presidentes seguido de uma redemocratização que começou mal, com Sarney e Collor. Não é de se admirar que, com seus mais de 60 anos (e eu achei que tinha menos), seja um saudosista.

O livro é um amontoado de crônicas que ele publicou no jornal, e que dá pra ler de uma sentada só. Há algumas em que ele esmiúça (existe esse verbo?) o título do livro, que, ao contrário do que você pensava, não vem da música da Rita Lee. A música é que veio do artigo que dá nome ao livro. O Jabor escreveu sobre amor e sexo no jornal, a Rita leu e escreveu a canção, criando assim a inusitada parceria Jabor - Rita Lee - Robeto "Maridão" de Carvalho.

Mas o principal tema do livro não é o amor, mas uma certa desesperança com o futuro. O Jabor é um cara ranzinza. Começa vários de seus textos dizendo-se cansado, esgotado, em crise, sofrendo com as notícias que vê diariamente. Fala do Bush, do Lula, da morte, do bar que fechou. Isso gera momentos muito interessantes. A melhor crônica, que resume todo esse cansaço do mundo, está na página 111 (emprestei o livro antes de anotar o título). É um parágrafo só, mas de três ou quatro páginas, em que o Jabor fala de tudo o que ele não agüenta mais.

Em outras crônicas, porém, ele acaba parecendo um chato de galochas. Como no texto que fala, vejam só!, sobre chatos. Ou, pior, num que ele critica as "pequenas bobagens" do dia-a-dia, chegando à seguinte frase sobre os palmtops: "Por que não vão todos pra p.q.p. com essas merdas inúteis?". Não é à toa que existem tantas comunidades no orkut dedicadas à odiar o Jabor. Esses momentos de lunguice total, no entanto, não chegam a comprometer a ranzinzice divertida da maioria dos textos.

Curiosidade que só eu devo ter percebido: o Jabor tem uma fixação por verbos em títulos. 30 das 36 crônicas do livro têm ao menos um verbo no nome. Assim como o próprio livro. Assim como vários de seus filmes (Toda Nudez Será Castigada, Eu Te Amo). Só pode ser uma fixação.

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Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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