18/01/2010

Lost in the supermarket

Visitar um supermercado deveria ser parte essencial de qualquer pacote turístico. Parques, museus e monumentos tombados pela Unesco são sempre interessantes, mas fuçar as prateleiras e ver o que comem, bebem, vestem e usam os nativos é muito mais jogo se sua intenção é se embrenhar nos hábitos cotidianos da população local. 

Nos supermercados chineses, claro, curiosidade é o que não falta. Neste post (o primeiro de uma série constante), compartilho alguns achados da Friendship Store aqui do campus e do Chaoshifa ali da esquina. 

 

Biscoitinhos salgados para os momentos de lazer estão disponíveis nos mais diversos sabores, de pizza e ervas finas até esses aí, de salada de camarão e ma la tang. Ma o quê? Ma la tang é um prato típico chinês, quente e bem apimentado, que leva carne, couve, alface, espinafre, cogumelo, algas, tofu e o que tiver à mão. Algo assim como um mexidão oriental. 

 

Batatas Lay's e Pringles são fáceis de achar, mas enquanto a Lay's trabalha com seus temperos tradicionais dos US&A, a Pringles se arrisca em praias orientais com batatas fritas sabor caranguejo, frutos do mar e essa verde aí do meio, de algas marinhas.

 

Vai aí um delicioso polvo no espeto? 

 

 Ou prefere um pé de galinha no capricho? 

 

Os dois parecem meio abatidos, mas pelo menos o da esquerda tem cara de quem tava feliz... 

 

Vai entender o que se passa na cabeça desse povo. Olha esse livro infantil dando sopa no meio de coelhinhos e carrinhos: 小小枪迷 ("Xiǎo Xiǎo Qiāngmí", ou "O Pequeno Fã de Armas"). Não sabe o que presentear seu filho no próximo dia das crianças? Dê um livro colorido e cultural como esse e ainda ensine o pirralho a dizer: "Go ahead, make my day!".

15/01/2010

Faz frio na China

 

Você já deve ter visto nos jornais. O bicho tá pegando na Europa, nos Estados Unidos e também na Ásia, onde é o pior inverno em 40 anos. De tanto eu reclamar do calorento inverno belo-horizontino – ano passado, só precisei usar cobertor pra dormir durante 2 noites –, São Pedro está me dando o troco aqui em terras pequinesas. 


São 9 da noite enquanto escrevo essas linhas e lá fora faz -12°C, razão pela qual optei por pedir comida em vez de me embrenhar pelos ventos gélidos das ruas em busca de alimento. Dentro do quarto é mais tranqüilo, tem aquecedor e tudo mais, e apesar do frio tem sol o dia todo entrando pela janela. Mas quando a gente pisa na calçada... aí tem que usar três camisas, cachecol, gorro, luvas, protetor de orelha, dois pares de meias de lã, long johns (me recuso a dizer “ceroula”) e casacão. A chinesada também costuma usar máscara e já vi gente até de balaclava – ficando com cara, respectivamente, de doente e seqüestrador. 

E isso em Beijing, que fica no norte do país mas nem é tão setentrional quanto Harbin, por exemplo. Harbin, capital da província de Heilongjian, é famosa nessa época do ano por seu Festival de Gelo e Neve, repleto de esculturas enormes feito de água congelada que recriam, em tamanho gigante, de pessoas e dragões construções como a Cidade Proibida e o Empire State. 

A média de temperatura? Menos 30. Um amigo meu esteve por lá semana passada e disse que, mesmo usando seis pares de meia (!), ele não conseguia sentir os pés. Desse jeito, o frio de Ouro Preto durante o Festival de Inverno fica parecendo alta temporada em Acapulco. 


Atenção para o guidom: motociclista esperto já deixa as luvas acopladas. 

Mas tirando uns floquinhos aqui e ali, só nevou de verdade em Beijing em três ocasiões. A primeira foi bem cedo, no finzinho de outubro, como eu já contei aqui . Relendo o post agora eu acho engraçado, lembrando de quando a temperatura chegou a -2°C e todo mundo ficou assustado. Hoje em dia, quando faz dois graus negativos, dá vontade de passar o dia no parque. 

Quanto à neve: você já ouviu por aí que o governo chinês tem uma secretaria dedicada à manipulação climática? Parece subtrama de história dos X-Men, mas é verdade, pode conferir . Tanto a neve da noite de 31 de outubro quanto a seguinte, nove dias depois, foram estimuladas por 186 doses de iodeto de prata lançadas nas nuvens. Resultado: mais de 16 toneladas de neve (!!) caíram sobre Beijing. (Para os curiosos ou incrédulos sobre o processo de adulteração do clima, leia mais aqui ou consulte o seu professor de química favorito.) 


Campeão do gelo é quem jogar bola nesse campo aí. 

Neve demais atrasa vôos e atrapalha o trânsito, mas pra mim, que sou brasileiro e não esquio nunca, acho sempre um barato quando os primeiros flocos começam a cair. Guerras de bola de neve tornam-se corriqueiras e a gente não se importa em chegar em casa coberto de branco. Se depois essa brancura dá lugar à sujeira de gelo derretido misturado com barro que emporcalha a entrada dos restaurantes e te obriga a lavar os sapatos toda vez que se entra em casa, paciência. Quem tá na neve... 


"Vai me enterrar na neve?" 

13/01/2010

E vamos botar água no feijão

 

Embora as cidades brasileiras estejam abarrotadas de restaurantes chineses, é de se esperar que a recíproca não seja verdadeira. E não é mesmo. Pizza, hambúrguer, sushi e burritos são fáceis de encontrar pelas ruas de Beijing, mas não dá pra dizer o mesmo de um bom tutu com torresmo e uma goiabada cascão de sobremesa. 

De qualquer forma, estamos falando de uma cidade de 17 milhões de habitantes e é claro que nesse bolo todo alguém já teve a idéia de abrir um restaurante de comida brazuca por essas bandas. E eu já tinha ouvido falar de alguns. O Latin Grillhouse, que tem dono brasileiro e carne importada da terrinha. O Alameda, que ganha prêmio todo ano. E outros que são uma mistureba de cozinha brasileira com argentina, mas parecem agradar (e se a gente não se importa em botar toda a cozinha oriental no mesmo saco, comendo sashimi com molho agridoce, porque eles não fariam parecido com a sul-americana?). 

Foi com certo receio que me aventurei pelo Latin Grillhouse há um tempo atrás, por ocasião de um aniversário duplo. Depois de dois meses em território estrangeiro, será que o feijão estaria à altura das minhas expectativas? 

Até que tava. Foi bom matar a saudade de arroz com feijão, pão de queijo e picanha, ouvindo uma seleção de sambas tocados ao vivo por um grupo carioca (e a cantora que agradecia em três línguas: “brigadu! thank you! xièxie!”). A ambientação era muito engraçada: paredes verde-e-amarelo-berrantes, garçonetes com bandeirinhas do Brasil coladas no uniforme, telão passando o clipe de “Segura o Tchan” e garçons chineses usando chapéu, camisa de manga comprida e lenço no pescoço, numa cômica representação gaúcho-oriental das vestimentas brasileiras. 

 
Nihao, tchê! 

Vale dizer que se você está imaginando a variada culinária tupiniquim em todos os seus pratos típicos, do acarajé à moqueca capixaba, da geléia de mocotó ao bombom de cupuaçu, e uma profusão de temperos digna do Mercado Central, está enganado. Tirando a carne, o feijão e um ou outro pedaço com gosto de casa, o resto era macarrão estilo chinês, batata estilo tailandesa e etcétera e tal. 

Ontem de manhã, semanas após a experiência, resolvi arriscar outro lugar, aqui perto, que servia comida brasileira. Mas esse foi uma decepção total. Acho que a idéia deles de brasileiro é servir a carne no espeto, na mesa do cliente, independente do que vem. Assim, não faltou coraçãozinho de galinha nem língua de boi, e ainda tinha lula, peito de pato, milho, banana e pêra assada (?!). Os complementos – arroz, macarrão, batata frita – eram tão brasileiros quanto um delivery do China in Box. 

Alguém aí quer me mandar um pastel de angu pelo correio? 

 
Igualzinho à comida da vovó!

26/12/2009

圣诞快乐!

O Natal é uma coisa meio nova pros chineses, que se abriram para o mundo há relativamente pouco tempo e tentam assimilar toda a cultura ocidental do jeito que dá. O que significa que nessa época é fácil encontrar um monte de árvores iluminadas, muitos restaurantes servindo peru na noite do dia 24 e a figura do Papai Noel ("Shengdan Laoren", em mandarim) devidamente explorada pelo comércio, mas dificilmente se vê o menino Jesus cercado por vacas e ovelhas, seja em presépios, seja em cartões de Natal. Não dá pra culpá-los: primeiro, que não são cristãos; segundo, que a imensa maioria de filmes e desenhos que chegam do oeste foca mais no Pólo Norte do que em Belém, e convenhamos que a compração e a comilança desenfreadas são muito mais a cara do Natal dos dias de hoje.

Enfim. O Natal acabou de acabar, mas deixo aqui duas fotos que simbolizam bem o espírito dessa data tão festiva. A primeira é de um inusitado Papai Noel chinês lendo os números vencedores de um sorteio no jantar do qual participei. A outra é da árvore de Natal mais original que já vi na vida, situada no lado de fora do Bla-Bla-Bar, no campus da BLCU. Cadeiras empilhadas, galhos amontoados e luzinhas pisca-pisca amarrando tudo, numa demonstração muito bonita de que o que vale é a intenção. Shengdan kuaile!
 

 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

22/12/2009

Alô alô brasileiro

Vivendo num reduto de estrangeiros como é Wudaokou, às vezes me esqueço de quanto somos criaturas exóticas no meio de uma multidão de cabelos pretos e olhos puxados. Perambulando pela Cidade Proibida e a Praça da Paz Celestial, no último domingo, fiquei surpreso com a quantidade de chineses que veio puxar papo comigo, assim sem mais nem menos. Alguns poucos intentam te arrastar para galerias de arte onde expõem e vendem pinturas a precinhos nem tão camaradas, mas a maioria quer mesmo é praticar o (ch)inglês ou entender o que um alienígena tá fazendo em Beijing. Se você fala um mínimo de mandarim então, nem que seja um "nihao" no tom errado, vira atração. Até foto comigo pediram pra tirar. E quando perguntam de onde eu sou e respondo: "巴西", não tem um que não emenda: "football!", ou "soccer!", ou "足球!", ou "you must play football very good!" (é, quem me conhece sabe o quanto sou habilidoso). 

Só teve um caso de uma mulher que, ao ouvir "Baxi" como resposta, não mencionou o esporte bretão mas perguntou: "Ah, ¿hablas español?". Curioso pra saber como uma chinesa de raiz falava a língua de Cervantes, indaguei-lhe e ela esclareceu: "Yo no soy china, soy de Costa Lica. Soy plofesola de mandalín". Eu já tinha notado a dificuldade da população local em dizer coisas como "obrigado" ou "Firenze" (conheci chineses estudantes de português e italiano que falavam "obligado" e "Filenze"), mas uma costa-riquenha, ainda que de origem oriental, que não aprendeu a pronunciar um dos fonemas mais importantes de seu idioma nativo me surpreendeu. Palece que o esteleótipo de chineses falando que nem o Cebolinha tem seu glande fundo de veldade.


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

15/12/2009

Surprise me

 

Homer Simpson disse uma vez que não é homem de se surpreender facilmente (fala imediatamente seguida por: "O que é aquilo, um carro vermelho?!"). Ao pisar na China pela primeira vez, é difícil não olhar tudo com um ar intrigado, como se desembarcássemos no Mundo Bizarro de uma historieta do Super-Homem. Mas com o passar do tempo, a gente acaba se acostumando a ver algumas coisas. Hoje em dia eu (quase) não me surpreendo mais com: 

1. Cuspes. Ia usar um eufemismo qualquer, tipo "secreções viscosas expelidas pela cavidade bucal", mas a palavra certa é cuspe mesmo. É raro andar na rua sem ouvir os ruídos da puxada de ranho e da garganta raspando, seguido por um "ptu!" característico. Jovens, adultos, velhinhos, e – sim! – mulheres, inclusive as bonitas, curtem lançar saliva e companhia limitada em torpedos certeiros nos chãos da cidade. Mamãe ficaria horrorizada. 

2. Camisas com estampas absurdas. Algumas recriam marcas famosas virando a ortografia de ponta-cabeça, como a já citada logo da Diesel que dizia "DSELEI". Outra que me fez rir alto pelas ruas foi uma com a bandeira do Reino Unido e o texto que dizia: "New York, New York". Sem falar nos diversos amálgamas entre Mao Tsé-tung e Barack Obama, resultando em desenhos do Barack com chapeuzinho comunista e o improvável nome: "Obamao". 

 

3. Camelôs vendendo de tudo. Bolsas, cadernos, cachecóis, macaco, praia, jornal. Livros – falsificados, é claro, mas geralmente sem páginas faltando; dá pra comprar por 10 yuans (R$ 2,50) o que vendem nas livrarias por 200. Comidas de todos os tipos, incluindo algumas que fedem (tofu, tô fora). Outro dia tinha até um camelô vendendo aquários com peixinhos vermelhos. Era fim de tarde e tava tão frio que a água começava a congelar, e os peixinhos lá dentro, uns nadando lentamente, outros já completamente imóveis. 

4. Gente usando máscaras. (Não máscaras de monstros ou da Ópera de Pequim, bocó, falo das máscaras de proteção das que se compra na farmácia.) Se fosse no Brasil a gente imediatamente ia olhar e pensar: "Fudeu, gripe suína!". Mas em Beijing elas são comuns por vários motivos, entre eles: a) protegem nariz, boca e bigode do frio de lascar que tá fazendo e ainda vai piorar, e b) Beijing é uma cidade notória por sua poluição, e tem dias que é mais saudável cheirar um cigarro aceso do que respirar o ar das ruas. Mas a moda é usar máscaras que não pareçam vindas do hospital, mas de um shopping center. Aí dá-lhe florzinhas, moranguinhos, Hello Kitty e Bob Esponja. Mas uma vez vi uma menina com uma linguona dos Rolling Stones estampada em sua máscara, foi divertido. 

5. Bicicletas transportando as mais diversas coisas. Enquanto no Brasil a gente usa Kombis, caminhões e até carroças, em Beijing a galera curte uma bicicleta com carroceria pra levar de alimentos a bolas de basquete (?!). O cúmulo foi quando vi um ciclista carregando uma porção de botijões de gás em sua bike – e fumando ao mesmo tempo! 

 

6. Chinglish. É como foi apelidada a insólita maneira chinesa de falar e escrever inglês por essas bandas. Se em cardápios brasileiros eu já me deparei com um certo "against-fillet", aqui a coisa é muito mais comum e a gente fica surpreso é quando vê tudo escrito corretamente. Os exemplos já começam no meu quarto. No banheiro há uma placa avisando: "Do not put toilte paper into toilte". As informações sobre as saídas de emergência do prédio incluem "you aer here" e "evaxuation route". Também é comum substituir uma letra por outra "similar". Tipo: "loud conversation not affowed". Ou um cabeleireiro aqui perto cuja placa diz "hQirdresser", assim mesmo, com um Q maiúsculo vandalizando o idioma. 

7. Velhinhos se exercitando nas ruas. Com que freqüência você vê os seus avós fazendo jogging ou pedalando bicicletas? Na China a terceira idade é bem ativa e mesmo às 7 da manhã, com o frio que for, a gente se depara com senhores e senhoras praticando os intrincados movimentos do tai-chi-chuan ou chacoalhando o esqueleto em animadas partidas de tênis. 

 

8. O trânsito caótico. Deixei esse pro final porque, na verdade, é o que menos me acostumei. Em três meses de Beijing eu ainda não sei como atravessar a rua. Sinais vermelhos e verdes são ignorados de tal forma que parece que todos os motoristas são daltônicos. Chega uma hora que você toma a decisão de atravessar e atravessa, pedindo pelo amor de Confúcio que não passem por cima. Andar de táxi é sempre adrenalina pura, buzinas são muito mais usadas que retrovisores e as ultrapassagens dão a impressão de que estamos jogando GTA, mas sem acesso ao joystick. E quando as motos cismam de invadir a ciclovia e se comportar como bicicletas selvagens?


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

25/11/2009

Você sabe com quem está falando?

 

A língua chinesa tem uma porção de sons difíceis até de imitar, mas por outro lado carece de fonemas que nos parecem indispensáveis, como o som da letra V. Assim, nomes estrangeiros tipo Valadares ou Vladivostok viram coisas lindas como Waladaleisi e Fuladiwosituoke. Para os chineses, o presidente dos Estados Unidos é Balake Aobama, o do Brasil é Luyisi Yinaxiao Lula da Xierwa e os Pitousi eram formados por Yuehan Lienong, Baoluo Maikateni, Qiaozhi Halisen e Jilinge Sita. Todos os nomes próprios, sejam eles de pessoas, cidades, marcas ou personagens, acabam ganhando suas versões amarelas, de Alalakuala a Zhakaliyasi. 

Por outro lado, a chinesada sabe que para grande parte dos ocidentais os seus nomes são uma sucessão de ruídos imemoráveis, e dão um jeito de criar contrapartes de que os outros possam se lembrar. Só que, geralmente, eles não soam nada parecidos. Se um Lucas aqui provavelmente vira um Lukasi e um Thomas se torna Tomasi, uma Jiao Jiao pode virar Emily, Agatha ou Anabelle. 

Na hora de inventar um nome ocidental, o inglês é disparado a língua predileta. Joey, Penny, Dave, Mark. Mas se o chinês em questão é um estudante de outro idioma que não o de Hemingway, ele tenta se adequar a ele. Assim, já vi estudantes de alemão chamados Gerard e Michael; estudantes de italiano chamados Paolo, Sandro e Giovanna; e até uma porção de estudantes de português, com quem jantei um dia desses, que se apresentaram como – prepare-se! – Benjamin, Verônica, Julieta, Camilo, Rebeca e Figo. 

Mas, esquisitos ou não, ainda estamos falando de nomes próprios previamente existentes, certo? Porque a criatividade do pessoal pode ir muito além da nossa vã imaginação. Prenda a respiração e confira os nomes mais, digamos, pouco ortodoxos de pessoas que conheci ou de quem ouvi falar: 

Um aluno da minha amiga que se chama Eleven; 

Uma coreana que escolheu para si o nome Mojito; 

Um outro que se apresentou: "Olá, meu nome é Piña Colada"; 

Mais um chinês que estuda alemão, mas em vez de Hans ou Fritz escolheu "Unique"; 

A garçonete de um Starbucks cujo nome no crachá dizia: "Silence", e seu colega de trabalho chamado "Fireman"; 

Uma garota que conheceu uma Jasmim e disse, empolgada: "Seu nome é Jasmim, como em Chá de Jasmim? Meu nome é Cheese, como em Cream Cheese!"; 

Mas o Prêmio Baby Consuelo de gosto mais exótico para nomes vai para uma chinesa que um amigo meu apresentou outro dia. Ele chegou com ela e disse assim: 

- Pessoal, esta é Flamingo. 

Foi impossível segurar o riso.


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

13/11/2009

Comer comer

 

A comida da cantina aqui no campus é geralmente bem barata (pratos mais caros custam cerca de 3 reais), mas tem seus poréns. Algumas vezes você pede frango e vem umas partes esquisitas de origem indecifrável. Noutras você quer boi com ovos mexidos, e vem um pratão de ovos com uns cinco pedaços tímidos de carne lá no meio. Mas o principal problema é como pedir. Alguns balcões só têm cardápio em caracteres chineses, e sem saber diferenciar os ideogramas de peito de frango e intestino de pato você pode ter umas surpresas desagradáveis. Os menus supostamente em inglês são geralmente em "chinglish", traduzidos de uma forma tão literal que fica até difícil de entender: "the beef covers the rice", "the rice covers the vegetable"... Para os recém-chegados, as saídas mais fáceis são apontar (para uma fotografia ou para o prato de alguém), fazer mímica (cheguei a imitar um porco numa lanchonete certa vez) ou simplesmente escolher aleatoriamente e rezar pra vir algo que preste. 

Fomos num restaurante de comida típica de Sichuan, uma província no sudoeste da China. A cozinha sichuânica (neologismo atravessando o texto) é famosa por ser extremamente apimentada. O lugar onde jantamos tinha até uma placa de algum guia gastronômico dizendo: "Spiciest Restaurant in Beijing". E dá-lhe carnes e vegetais de todos os tipos carregados na pimenta, e cerveja gelada pra aplacar o ardor. Alguns na mesa estavam bebendo baijiu, mas eu só dei uns goles e larguei pra lá. Baijiu é uma bebida chinesa feita de grãos e extremamente alcóolica (pode chegar a 60%). E o gosto é terrível, a não ser que você tenha prazer em beber sabão. Ao final da refeição, alguém pediu intestino de pato e fomos experimentar. Foi um pedaço pra nunca mais: o troço tinha gosto de banheiro. 

Hot pot também é bem comum por aqui. O princípio é simples. Você reúne a patota em volta duma mesa com um buraco dentro, cheio de água e com fogo embaixo. Taca carne crua lá dentro, umas verduras, uns camarões, assiste tudo cozinhar e depois tentar pescar o resultado com os palitinhos. Como numa seqüência de fondues, o barato é o processo completo de reunir os amigos e cozinhar sua própria comida. Por isso, quando fomos em outro lugar, fizemos o pedido e já trouxeram tudo pronto, foi aquela decepção. Hot pot que se preze tem que deixar o cliente trabalhar. 

Aí você pergunta: cadê os gafanhotos? Pois é, finalmente fui à rua Wangfujing, célebre reduto dos espetinhos de insetos, mas ao que parece os grilos e gafanhotos tinham saído pra passear. Em compensação, as barraquinhas estavam repletas de bichos da seda, estrelas-do-mar, cavalos-marinhos e muitos escorpiões. Muitos deles ainda vivos e mexendo as perninhas, mesmo empalados daquele jeito. Acho que quando você escolhe o de sua preferência, eles sapecam na gordura antes. Quando eu experimentar eu conto como é, se sobreviver. 

 

E tem o Pato de Pequim, prato que leva o nome da cidade e que consiste em um pato laqueado e fatiado que você coloca em panquequinhas, adiciona molho e degusta como se fosse um mandarim. O restaurante onde fui, perto da Wangfujing, é um dos mais antigos de Beijing a ter o pato como atração principal. Dizem que cada pato vem com um cartãozinho indicando o seu número e que já estão na casa do bilhão, mas ou esqueceram de entregar o nosso ou era só lenda urbana. De qualquer forma, o pato laqueado merece a fama que tem e, se você tiver colhões, pode experimentar outras partes menos convencionais do bicho. Isso inclui a língua, o fígado, o estômago, o famigerado intestino, a pele dos dedos e até um prato especial de pato com escorpiões. Duvida? 

 

Nas redondezas dos restaurantes e da rua dos espetinhos, perambulavam os gatos mais gordos que já vi. A gente sabe que para animais bem alimentados desse jeito não é recomendável ficar dando sopa por aí, ainda mais na China. Talvez o Gato de Pequim seja ainda mais consumido do que o Pato, só que ninguém percebe. Vai saber...


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

01/11/2009

E agora, a previsão do tempo

Ao contrário do Brasil, onde só temos duas estações diferentes - calor o ano inteiro e chuva no verão -, na China o clima segue à risca o que aprendemos nas aulas de Estudos Sociais. Quando cheguei aqui, há pouco menos de dois meses, andar sem uma garrafinha d'água ou ficar em casa sem ar-condicionado era pedir pra desidratar. Em meados de outubro, o outono começou a dar as caras e o vento, impiedoso, derrubava bicicletas e arrastava criancinhas. Na última sexta-feira, minha professora começou a aula com uma expressão amedrontadora e pediu que nos preparássemos, porque neste fim-de-semana a temperatura chegaria a -2°C. Já tenho que andar com cachecol, gorro, luvas e duas meias na hora de sair na rua, e até já desmontaram o Beer Garden, o lugar onde todos os dias reuníamos o pessoal e que agora é só uma memória. Mas como o aquecedor central aqui do prédio só vai ser ligado daqui a duas semanas, achei que por agora teríamos que conviver apenas com um pré-inverno aceitável. A minha professora, no entanto, estava certa e é só comparar as três fotos abaixa, todas tiradas da minha janela, pra ver a evolução das estações em Beijing. A primeira é de 16 de setembro, a segunda de 25 de outubro e a terceira foi feita esta manhã, quando abri a cortina e me deparei com esse tempo maluco. Daqui a uns dias já dá pra voltar à infância que só conheço dos filmes e fazer guerras de bolas de neve.

 

 

 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

28/10/2009

Finalmente, a Muralha

 

Nos tempos de escola, excursões eram coisa corriqueira. Umas boas vezes por ano deixávamos a sala de aula para viagens rápidas a Ouro Preto ou Gruta da Lapinha ou mesmo Sabará. Durante o ensino médio elas escassearam, mas em compensação quando havia uma – como Diamantina e Itamarandiba - era sempre um evento memorável. Na faculdade, claro, acabou a mamata: nada de viagens ou passeios organizados pela reitoria. Eu nem imaginava que em pleno dois mil e nove, formado há três anos, eu voltaria ao mundo das excursões escolares viajando com colegas de todos os cantos do mundo para conhecer a Grande Muralha da China. 

Zarpamos às oito da manhã saindo do estacionamento principal da BLCU num ônibus moderno – tinha até microondas (?!) – mas pouco generoso no espaço entre os assentos. No início o clima era de farra e eu até ensinei um israelense da minha sala a cantar "jererê, jererê, ú éle ésse dê", mas depois todo mundo hibernou e acordei com o corpo doído de dormir sentado. Às nove e quarenta e tantas, descemos em Mutianyu. 

 

Como você pode deduzir, a muralha é incomensuravelmente grande e há diversos pontos onde você pode visitá-la. O setor mais famoso – e mais próximo de Beijing – é Badaling, abarrotado de turistas como se esperaria de uma das sete maravilhas do mundo moderno. Mutianyu é um pouco mais distante daqui e é supostamente menos turística, mas não espere encontrar meia dúzia de farofeiros fazendo piquenique, porque menos turístico na China ainda é gente pra burro. 

Disse Mao: "aquele que nunca escalou a Grande Muralha não é um homem de verdade". Escalar é força de expressão, porque tudo que você tem que fazer é subir algumas dezenas (tá bom, várias dezenas) de degraus para chegar na muralha propriamente dita. E uma vez lá dentro, é só escolher esquerda ou direita e caminhar até onde seus pés agüentarem, sem aclives ou declives de maiores proporções. No dia em que estivemos lá, tinha até um bebê alemão aprendendo a dar seus primeiros passos no famoso monumento. 

 

A Grande Muralha leva esse nome não por sua altura ou largura, mas por seu comprimento. Essa história de que é a única construção humana que dá pra ver do espaço é uma Grande Balela, porque ela é estreita, apenas alguns passos entre um lado e outro. Em compensação, se estende por milhares de quilômetros e existe até um ponto onde ela encontra o mar. Ouvi falar de um casal britânico que andou a muralha toda, mochilando e acampando. Levaram 167 dias. 

 

O trecho que visitamos é repleto de torres de vigília. Em algumas dá pra subir no topo e tem até vendedores na porta vendendo água, cerveja e Snickers (!!). Da paisagem não preciso me alongar muito: é previsivelmente belíssima, com montanhas por todo lado, e especialmente interessante agora no outono, quando as folhas das árvores mudam de cor. Aí no alto de uma montanha tinha uma inscrição enorme em ideogramas chineses, e fui perguntar à minha professora qual era o significado. Ela respondeu empolgada: "Chairman Mao!". Não dá pra escapar desse cara. 

 

Para descer, tínhamos três opções: voltar a pé pelos mesmos degraus, pegar o teleférico até a base ou descer ladeira abaixo numa espécie de tobogã. Preferimos a opção mais divertida e até nossa l osh entrou na dança. Você sobe num protótipo de carrinho com apenas dois controles – brecar e acelerar – e volta à infância enquanto os guardinhas ao longo da descida gritam desesperadamente pra galera diminuir a velocidade. 

 

O estacionamento de Mutianyu, aonde voltamos depois do tobogã, é na verdade o pedaço mais "turistão", com trocentas lojinhas vendendo bugigangas, leques, chapéus, camisetas escrito "I have climbed the Great Wall", pingentes com seu nome em chinês e todas as tralhas que se espera de um lugar como esse. Esfomeados têm à disposição panquecas, espetinhos e até uma unidade do Subway. Quanto a mim, comprei um chapéu de camponês estilo Rayden do Mortal Kombat, uma aquisição que não me será de muita serventia, mas que eu vinha desejando há algum tempo. Pelo menos, vale pra tirar fotos bizarras. 

 

21/10/2009

Mãe, acabei!

 

O povão quer saber: os banheiros chineses são mesmo a pocilga asquerosa de que a gente ouve falar? 

A resposta mais honesta é: não dá pra generalizar. Da mesma forma que há diversas comidas chinesas deliciosas e outras que literalmente fedem (não tô brincando, a gente tem que tampar o nariz quando passa perto), existem banheiros de todo tipo por aqui. Estou particularmente feliz com o do meu quarto, que tem privada ocidental do jeito que aprendi a usar desde criança. Mas definitivamente não é o mais comum de se encontrar em terras chinesas. 

Em qualquer bar ou restaurante, boate ou atração turística, você entra e encontra a louça lá no chão, a meio corpo de distância dos países baixos. Para os homens é só uma questão de acertar a mira, mas as garotas costumam passar um certo perrengue nos primeiros dias, até se acostumarem. Um conselho valioso é sempre ter um lenço ou um papel higiênico em mãos, pra não correr o risco de ter que usar as meias. De qualquer forma, atender ao chamado da natureza agachado e não sentado é indubitavelmente mais higiênico. Como diz o pára-choque do caminhão, KH 100 H chá é 

A limpeza varia bastante. Tem sempre aqueles toaletes com cheirinho de lavanda, constantemente limpos e geralmente situados nos restaurantes mais caros. Mas a maioria dos banheiros dos lugares que freqüento carecem de mais atenção. O do Beer Garden onde a gente costuma se reunir aqui no campus, por exemplo, recebeu o apelido carinhoso de "disgusting toilet". E as meninas dizem que o delas é ainda pior. 

Mas o Prêmio Druida da Pocilga de maior bizarrice sanitária vai para o dábliu cê do restaurante muçulmano onde fomos jantar um dia desses. Quando perguntei a um amigo onde era o banheiro do qual ele acabara de voltar, ele começou a rir e me apontou a direção. Cheguei lá meio cabreiro, sem saber o que esperar. Da porta, viam-se alguns vultos e umas luzinhas no meio de um breu total. Quando pisei lá dentro, a luz se acendeu e me deparei com a insólita cena: os vultos pertenciam a três chineses que – na falta de um termo melhor – obravam agachados em três dos quatro buracos que havia ali. As luzinhas flutuando no ar eram de seus celulares: todos os três faziam suas necessidades enquanto se divertiam com os joguinhos de seus telefones. O quarto buraco estava desocupado – e quando digo buraco, é buraco mesmo, sem louça; o "material" descia em queda livre e estacionava num lamaçal uns dois metros abaixo – e foi só o tempo de me posicionar para tirar a água dos joelhos e a luz se apagou de novo. O banheiro não tinha privada, mas tinha sensor de movimento. Isso é que é vontade de economizar. 

A ausência de fotos neste post deve-se principalmente ao bom senso, mas se você estiver curioso (eu sei que está), é só dar uma olhada no vídeo que postei aqui outro dia. A partir de 5:34 tem um registro do agradável banheiro do Bla-Bla-Bar.


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

07/10/2009

Feriadão em Tianjin

Ainda estamos no meio do feriadão dos 60 anos do comunismo na China, que começou em 1º de outubro e só termina nesta sexta. O solão e o céu azul, bem apropriados para a parada militar que lotou a Praça da Paz Celestial no dia primeiro, não foram mera coincidência: o governo chinês realmente lançou alguns mísseis com produtos químicos que mandaram as nuvens pra fora da capital (mais detalhes, fuce o Google. Dá pra ver que química não é o meu forte).

Para nós estudantes estrangeiros, que não somos membros do Partido Comunista – até onde eu sei – o tempo se mostrou igualmente apropriado para passeios e viagens. Teve gente que foi pra Xi'an ver os guerreiros de terracota, outros zarparam para Qingdao e estão lá até agora porque todas as passagens de volta estão esgotadas, e eu aceitei o convite de um casal de chineses amigos do meu pai e fui passar o último domingo em Tianjin, a 120 quilômetros daqui.

Demorei uma hora e meia pra cruzar Beijing até a Estação Ferroviária Sul, e apenas meia hora pra percorrer o trajeto de Beijing a Tianjin. Por dois motivos. Primeiro, porque fui de metrô para a Estação Sul, e a única linha que chega até lá é a recém-inaugurada linha 4 (recém mesmo, abriu semana passada). O metrô custou a sair da estação Xizhimen, depois a luz acabou por alguns segundos, o trem começou a andar em velocidade reduzida, e eu lá, apertado no meio da multidão sem entender lhufas. Em compensação, o trem para Tianjin é o trem intermunicipal mais rápido do mundo e fez os 120 quilômetros a 350 por hora. Uma belezura.

 

Achei que Tianjin fosse ser uma cidade pequena, mas 11 milhões de habitantes é um bocado até para os padrões chineses. Enorme, bem estruturada e com muita curiosa pra se ver nas ruas. Logo quando saímos da estação, damos de cara com o volumoso rio Hai e as suntuosas construções à sua margem que, pelo tamanho e pela vista, não devem custar pouco. 

 

Transporte tem de todos os tipos, de ônibus e táxis até esses divertidos veículos de três rodas, muito comuns na China. O cara dirige aquilo que nem louco, desviando de bicicletas e pedestres como se fosse videogame. E é melhor botar as pernas pra dentro, porque o troço não tem porta e o tempo todo o motorista quase tira lasca dos carros que estão estacionados, e do que mais aparecer na frente. 

 

Essa foto eu só tirei porque nunca vi um cachorro de pedra tão feio como esse. 

 

Tianjin é cheia de avisos engraçados para os motoristas. Esse aí eu achei que significava "Não coma com palitinhos enquanto estiver dirigindo", mas parece que não são palitos, mas um X recomendando ao motorista não jogar lixo fora do carro. Prefiro a minha versão. 

 

Comida bizarra exposta dentro de uma padaria, com a placa: "O maior mahua do mundo". Um metro e meio de comprimento, 25 quilos. Diz a placa que foi feito em 1999. Se o mahua em tamanho comestível, uma estranha pretzel meio seca e salgada, não é lá essas coisas, imagina esse aí que já tem dez anos nas costas. 

 

Playmates chinesas dançando na porta de uma loja, em uma rua famosa pelos vários shoppings. Não tem nada a ver com a Playboy, elas só estavam fazendo propaganda para essa loja, que tem algo a ver com casamentos. Embora sejam bem mais apropriadas para despedidas de solteiro. 

 

A China também tem preguiça: uma prosaica passarela para atravessar a rua precisa de escada rolante! 

 

Entrada da famosa Rua da Cultura Antiga, onde tem lojas chinesas de tudo o que você puder imaginar: instrumentos musicais, pinturas, esculturas, bengalas, leques, kits de chá, chaveirinhos com insetos dentro. 

 

Os dois primeiros caracteres, "Bāxī", significam "Brasil". Fiquei pensando no que seria aquilo: churrasco brasileiro? depilação brasileira? Não: as palavras seguintes, "mǎnǎo", significam "ágata", um tipo de mineral que eu nem sei se é comum na nossa terra. Mas gringos adoram uma pedrinha brasileira, sejam elas vendidas em Ouro Preto ou numa rua antiga da China. 

 

Azulejos pintados dentro de um templo ao melhor estilo onde-está-Wally. 

 

Você já entrou num porta-aviões? Nos arredores de Tianjin dá pra visitar o Kiev, porta-aviões soviético construído nos anos 70 e transformado em museu na costa de Tianjin há cinco anos. Há algumas semanas, meus amigos aqui do campus foram em uma rave nesse mesmo navio, que custou os olhos, o nariz e a boca da cara, e ainda levaram cinco horas de ônibus pra ir e mais cinco pra voltar. Foi bom matar a vontade de visitar o barco, dispondo de menos tempo, menos dinheiro e menos música eletrônica. 

 

Sol rachando, bandeiras tremulando (não consegui encontrar a brasileira) e o marzão visto de cima do Kiev. 

 

Esse helicóptero poderia muito bem fazer uma ponta num filme da Pixar. 

 

Terminamos o dia jantando num ótimo restaurante de frutos do mar. Como em muitos restaurantes chineses, tem um aquário cheio de bichos vivos nadando graciosamente, sem consciência do cruel destino que os espera em questão de minutos. Dá pra escolher peixes, camarões, lagostas e até tartarugas, dizer algumas palavras de adeus e degustá-los no prato pouco tempo depois. 

 

Alguns frutos do mar são como pipoquinhas Aritana: os mais feios são os mais saborosos. Mas tem coisas que não animo de provar, como essa gosma disforme aí em cima, entre conchas e camarões. 

 

Ou então esses estômagos de peixe. Você se atreveria?


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

Quem

Lucas Paio já publicou contos em revistas e antologias, já dirigiu curtas-metragens e compôs canções, já ganhou um campeonato de aviões de papel, tocou teclado numa banda cover de Bon Jovi, morou na China e hoje vive em Berlim. É autor do romance de fantasia cômica MACADÂMIA, lançado em 2025.

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